Penca de Filmes dos Anos 1980
- 30 de dez. de 1989
- 20 min de leitura
Atualizado: há 7 dias

Seguem curtas anotações sobre alguns filmes lançados ao longo da década de 1980 (notas dos filmes entre parênteses – escala de 1 a 5):
Casualties of War (1989): Durante a Guerra do Vietnã, um soldado se torna um estranho em seu próprio esquadrão quando este sequestra desnecessariamente uma aldeã. Animado com o sucesso de Platoon (1986) and Full Metal Jacket (1987) De Palma também quis fazer seu filme antiguerra resgatando um artigo publicado pela The New Yorker em 1969. Propagandístico, enfadonho e mal atuado, o filme arrecadou menos que seu custo. (1)
Dead Bang (1989): Suspeito de assassinato está ligado a um grupo de supremacistas brancos fortemente armados. O diretor John Frankenheimer tenta, sem sucesso, capitalizar sobre a popularidade do ator Don Johnson num action-thriller que até poderia ter funcionado se tivesse menos lacração e personagens menos estereotipadas. (2)
K-9 (1989): O cão dá um banho de interpretação no canastrão Jim Belushi. Pena que o enredo seja ruim demais. (2)
Say anything… (1989): Filme com mensagem destrutiva para os jovens. O subtítulo poderia ser “como um sujeito espiritual, moral e intelectualmente débil pode destruir a vida de uma jovem”. A banalidade do filme não surpreende já que é dirigido por Cameron Crowe, quem em seu primeiro “sucesso” como roteirista (Fast Times at Ridgemont High em 1982) afirmava ser saudável os jovens pensarem apenas em sexo, drogas e rock n’ roll. (2)
The Killer (1989):Assassino profissional desiludido aceita um último golpe na esperança de usar seus ganhos para restaurar a visão de uma cantora que ele cegou acidentalmente. Produção honconguesa escrita e dirigida por John Woo que levou sua coreografia da morte ao cenário internacional. Influente, vários aspectos do filme se popularizaram em outras produções: a estética de ação estilizada com câmara lente e movimentos de arte marcial em combates com armas de fogo, o anti-herói ambíguo, profusão de sangue, e forte carga emocional. Entretido e vazio. (3)
War of the Roses (1989): Humor negro reunindo a trinca de Romaning the Stone e The Jewel of the Nile (Michael Douglas, Kathleen Turner e Danny DeVito). Sem graça e deprimente. (1)
A Fish Called Wanda (1988): Em Londres, quatro pessoas muito diferentes se unem em um roubo de joias, e depois tentam trair umas às outras para ficar com o saque. Comédia de ensemble britânica de humor negro escrita e protagonizada pelo ex-Monty Python John Cleese. Divertida comédia de costumes, com ênfase nas diferenças entre britânicos e americanos. John Cleese tirou o diretor Charles Crichton da semi-aposentadoria para realizar o filme, confiando na habilidade do diretor em combinar o humor britânico com elementos de thriller (como em The Lavender Hill Mob (1951)). A Fish Called Wanda foi uma das comédias de maior sucesso dos anos 1980, e o filme de maior sucesso da carreira de Crichton. Comparando os dois filmes vemos o quanto a moral se deteriorou entre 1951 e 1988: no primeiro filme os “bandidos” eram agradáveis e simpáticos, mas corretamente não tinham sucesso na empreitada, já neste último eles são abjetos, mas conseguem levar o crime adiante. (4)
Coming to America (1988): Príncipe africano (interpretado por Eddie Murphy) extremamente rico e poderoso vai para Nova York para encontrar uma mulher que o ame por quem ele é, e não por sua posição – praticamente uma estrutura de conto de fadas tradicional transplantada para Queens, Nova York, em 1988. Divertidíssima sátira ao materialismo (que atira contra todos sem amargor) dirigida por John Landis. Eddie Murphy está no auge interpretando quatro personagens. Destaque também para a sempre imponente presença de James Earl; e Arsenio Hall, que também faz quatro papéis, está impagável como o amigo do príncipe. Notar a sequência na barbearia com personagens burlescas discutindo política, boxe, mulheres e cultura popular. (4)
Cop (1988): Detetive da polícia de Los Angeles (interpretado por James Woods), capaz e insubordinado, está no encalço de um serial killer. Tentativa frustrada de construir um novo Dirty Harry: a trama é mal engendrada e Woods não tem carisma para carregar o filme. Só vale mesmo pelos últimos cinco segundos do filme: “Well, there’s some good and there’s some bad news. The good news is you’re right – I'm a cop and I've gotta take you in. The bad news is I've been suspended and I don’t give a fuck.” (2)
D.O.A. (1988): Professor universitário (interpretado por Dennis Quaid) é o principal suspeito de ter matado sua esposa e um de seus alunos por serem próximos. Mais tarde, ele descobre que também está morrendo porque alguém lhe deu um veneno de ação lenta. Terceiro remake do filme homônimo de 1949. Infelizmente o intrigante roteiro original ainda está em busca de um diretor que lhe faça plena justiça. (2)
Dead Ringers (1988): Bevery e Eliot, gêmeos ginecologistas (interpretados por Jeremy Irons), aproveitam ao máximo o fato de que ninguém consegue diferenciá-los, até que seu relacionamento começa a se deteriorar por causa de uma mulher (interpretada por Geneviève Bujold). Um body horror escrito e dirigido por David Cronenberg mais psicológico, mas sem dispensar cenas grotescas como nos pesadelos da personagem Bevery. As transformações corporais cedem espaço para a incapacidade de uma pessoa desenvolver plenamente sua individualidade num roteiro exagerado e pretensioso. Excelente trabalho de Irons em diferenciar comportamentalmente os gêmeos. (2)
Maria Callas: La Divina – A Portrait (1988): Documentário sobre a grande soprano de bela voz e rara expressão dramática. Vida complexa, morreu aos 53 anos de idade, quase em reclusão. (2)
Mississippi Burning (1988): Dois agentes do FBI com estilos opostos (interpretados por Gene Hackman e Williem Dafoe) chegam ao Mississippi para investigar o desaparecimento de três ativistas dos direitos civis. Inspirado pelo assassinato de ativistas pela Ku Klux Klan em 1964 cerca de Meridian, Mississippi. Apesar de personagens algo estereotipadas, é um bom drama policial dirigido por Alan Parker com destaque para as táticas empregadas ao final para solucionar o caso – uma amostra das notáveis atividades da Counterintelligence Program (COINTELPRO) criada por J. Edgar Hoover e com atuação entre 1956 e 1971. A narrativa apenas resvala em temas políticos como a tensão entre poder local e federal, e a infiltração comunista no movimento dito de direitos humanos, dando-lhes tratamento falseado. (4)
Naked Gun (1988): Resgate da série televisiva Police Squad! de 1982,uma divertida sátira non-sense das séries policiais. (3)
Story of Women (1988): Dona de casa na França ocupada pelos nazistas luta para sobreviver por meios demoníacos. Baseado na vida da serial killer Marie-Louise Giraud, a "faiseuse d'anges". O diretor francês Claude Chabrol aborda o tema de forma opaca, e volta a filmar a história de uma assassina idolatrada na França (antes retratara a psicopata Violette Nozière (1978)). Deprimente. (1)
The Last Temptation of Christ (1988): A vida de Jesus Cristo até sua crucificação. O diretor Martin Scorsese demonstra sua apostasia nesta narrativa que foge das escrituras em favor de blasfêmias ficcionais. (1)
Dirty Dancing (1987): Jovem, passando o verão em um resort com sua família, se apaixona pelo instrutor de dança do acampamento. O filme é ruim por si só: roteiro previsível, atores protagonistas fraquíssimos, personagens ocas, sem química ou emoção, e a descabível inserção de personagens dos anos 1980 na década se 1960. Mas o pior é a agenda subversiva disfarçada em romance aguá-com-açúcar: contestação da família, promiscuidade sexual, apresentação maniqueísta de ricos e pobres, estigmatização da religião, apologia ao aborto e à baixa cultura, e estímulo aos baixos instintos. O filme foi dirigido por Emile Ardolino e escrito por Eleanor Bergstein, dois nomes que hoje parecem notas de rodapé obscuras na história do cinema. Mas seu trabalho sujo foi feito. (1)
Extreme Prejudice (1987): Texas Ranger e um cruel chefe do narcotráfico foram amigos de infância, mas agora são adversários. Western moderno dirigido por Walter Hill com roteiro exagerado e personagens pouco construídas. O épico tiroteio final na vila mexicana é claramente uma homenagem ao final em The Wild Bunch, dirigido pelo mentor de Walter Hill, Sam Peckinpah. (2)
Lethal Weapon (1987): Dupla de policiais de carácter completamente opostos (interpretados por Mel Gibson e Danny Glover) devem deixar de lado suas diferenças para derrubar uma gangue de traficantes de drogas. Thriller policial cômico de grande sucesso dos anos 1980 graças ao roteiro bem construído, direção energética e, principalmente, a excelente química entre os protagonistas. Lethal Weapon teve três sequências em 1989, 1992 e 1998 que ainda conseguem entreter apesar de algo repetitivas e sem o frescor do precursor, todos dirigidos por Richard Donner. (4)
No Way Out (1987): Uma caça às bruxas tem início depois que um político mata acidentalmente sua amante. Kevin Costner começava a usufruir da ribalda depois do sucesso em The Untouchable (1986). Thriller político que começa lentamente mas entretêm na parte final. (3)
Planes, Trains and Automobiles (1987): Comédia com final previsível e algumas tiradas entretidas. (2)
Radio Days (1987): Um olhar nostálgico sobre a era de ouro do rádio com foco em uma família comum e sobre diferentes artistas do meio. Coleção de esquetes soltas e difusas de cunho autobiográfico pouco efetivas em comicidade e dramaticidade. O roteirista e diretor Woody Allen exagera na dependência da narração em off para apresentar sentimentos e lembranças em vez de explorá-los visualmente. (2)
Raising Arizona (1987): Casal sem filhos – um ex-presidiário e uma ex-policial – decide roubar um dos quíntuplos de outra família. Os irmãos Coen não decidem se o filme transcorre no mundo real dos parques de trailers ou em um mundo de fantasia de personagens como o motoqueiro infernal – não definem se se trata de pessoas reais ou de exageros cômicos. Pula tanto de um nível de realidade para outro que rapidamente se perde o interesse. Só vale pela inventividade na movimentação da câmera, “vertigo zoom”, enquadramentos assimétricos, uso de lentes grande angular e outros artifícios que produzem a sensação de estarmos vendo um desenho animado. (2)
Someone to Watch Over Me (1987): Primeiro filme policial dirigido por Ridley Scott. Errou a mão no roteiro e na péssima atuação de Tom Berenger como protagonista. A redenção no gênero viria com Black Rain (1989) e American Gangster (2007). (2)
Spaceballs (1987): Piloto e seu fiel companheiro são contratados para resgatar uma princesa e salvar o planeta Druidia das garras dos maléficos Spaceballs. Paródia de filmes de sci-fi, especialmente Star Wars, escrita e dirigida por Mel Brooks. Quase nenhuma piada funciona. (1)
The Running Man (1987): Aventura para explorar os músculos de Arnold Schwarzenegger. Interessante como apresenta a mídia como ferramenta de manipulação social. O enredo é forçado e a conclusão é banal. (2)
Henry: The Portrait of a Serial Killer (1986): O mal encarnado. Mas qual o objetivo de fazer um filme apenas mostrando a rotina de um psicopata assassino que não é preso ao final? Parece que o homem moderno tem fascínio por seus instintos mais baixos. (1)
Little Shop of Horrors (1986): Um tédio. Só funcionaria se fosse uma sátira ao ambientalismo por ter planta assassina como protagonista. (1)
Night of the Creeps (1986): Tentativa fracassada satirizar filmes B de horror. Sem graça, sem sustos. Só dá mesmo é para rir dos ridículos efeitos especiais. (1)
Nine 1/2 Weeks (1986): Retrato da galopante banalização das relações amorosas nos anos 1990. Kim Basinger em plena forma (física). (2)
Peggy Sue Got Married (1986): Um ano após o sucesso da comédia juvenil Back to the Future, Francis Ford Coppola tenta fazer uma versão adulta com retoques feministas, e falha miseravelmente. (2)
The Color of Money (1986): Veterano jogador (interpretado por Paul Newman) ensina um protégé arrogante mas talentoso (interpretado por Tom Cruise) os truques do pool, inspirando-se a fazer um retorno improvável. Este filme do diretor Martin Scorsese tem lá alguns bons momentos, mas ver duas pessoas desonestas usando-se mutualmente ao longo de duas horas não tem nenhum mérito. (2)
The Fly (1986): Experiência fracassada transforma um homem (interpretado por Jeff Goldblum) em um inseto monstruoso. Remake do filme homônimo de 1958 que, por sua vez, fora adaptado do conto também homônimo de George Langelaan publicado no ano anterior. primeiro grande sucesso de bilheteria de David Cronenberg, alcançando um público realmente mainstream e internacional. Vemos a transformação física do protagonista acompanhada de sua perda de humanidade (bom trabalho de Goldblum). A narrativa relembra-nos do óbvio: o corpo não é algo estável e controlável, mas matéria sujeita a corrupção – um destino que a loucura transumanista reluta em aceitar. É inferior à versão de 1958, mas ainda sim entretido. (3)
¡Three Amigos! (1986): Três atores americanos (interpretados por Steve Martin, Chevy Chase e Martin Short) que interpretam heróis de faroeste acreditam que estão sendo contratados para fazer uma apresentação no México – quando, na verdade, são confundidos com verdadeiros pistoleiros. Dirigido pro John Landis, o filme parte de uma boa premissa, mas estica a piada central em demasia, perdendo fôlego (e graça) da metade para frente. Tem algumas gags divertidas, mas a maioria é de sketches medianos colocados para preencher espaço. (2)
Clue (1985): Seis convidados são convidados anonimamente para jantar em uma mansão estranha, mas depois que seu anfitrião é morto, eles devem cooperar entre si para identificar o assassino enquanto os corpos se acumulam. Baseado no jogo de tabuleiro Detetive. Comédia com alguns poucos momentos engraçados. (2)
Gotcha! (1985): Aventura juvenil. (2)
Into the Night (1985): Engenheiro aerospacial (interpretado por Jeff Goldblum) insatisfeito com sua vida acidentalmente conhece uma modelo (interpretada por Michelle Pfeiffer) em perigo. Thriller romântico dirigido por John Landis que explora o filão do homem de classe média, profissional, entediado com sua vida, que é arrancado da rotina por uma aventura e reencontra a vitalidade – a perda do sentido de existência (vazio espiritual) confundida materialisticamente como “tédio da vida burguesa”. O filme é entretido e tem um desfile de cameos: David Cronenberg, Dan Aykroyd, David Bowie, Paul Mazursky, Don Siegel, Jonathan Demme, Roger Vadim e o próprio John Landis. Grande trabalho de Michelle Pfeiffer, então uma atriz em ascensão. (3)
Invasion U.S.A. (1985): Exército de um só homem (interpretado por Chuck Norris) entra em ação quando os Estados Unidos são invadidos por comunistas. A ideia é interessante: mostra como a decadência moral de uma sociedade abre as mortas para a mendacidade assassina de ideologias totalitárias como o comunismo. O filme é quase uma alegoria profética, mas é mal-executado. (2)
Lifeforce (1985): Uma raça de vampiros espaciais chega a Londres e infecta a população, iniciando uma descida apocalíptica ao caos. Bobagem sci-fi adaptada do romance The Space Vampires de Colin Wilson sob a direção de Tobe Hoper. Roterio disperso e péssimas atuações frustra as chances de entretenimento. (2)
Runaway Train (1985): Ruim. A badalação em torno do filme deve-se a panfletagem anti-encarceramento. Presídio estereotipado ao extremo, o diretor então nem se fala. Mostra a empresa ferroviária como desalmados capitalistas. O roteiro poderia ter sido escrito pelo Herbert Marcuse. (1)
Out of Africa (1985): Romance com mensagens progressistas, principalmente feminista. Lento e pouco interessante apesar da presença marcante das principais personagens interpretadas por Robert Redford e Meryl Streep. Direção de Sysney Pollack. (2)
Prizzi’s Honor (1985): Deliciosa comédia de humor negro com um dos mais engraçados e marcantes gangsteres do cinema (William Hickey como Don Corrado Prizzi). Selo de qualidade do diretor John Huston. (3)
The Goonies (1985): Grupo de jovens desajustados chamado The Goonies descobre um mapa antigo e parte em uma aventura para encontrar o tesouro de um lendário pirata há muito perdido. Excelente comédia familiar coescrita por Steven Spielberg e dirigida por Richard Donner que captura a experiência infantil de exploração, mistério e aventura. A narrativa representa a passagem da infância a adolescência tendo a amizade, lealdade e coragem como os reais tesouros. (4)
The Jewel of the Nile (1985): Tentativa frustrada de reeditar o relativo sucesso de Romancing the Stone do ano anterior. Enredo muito mais fraco. (2)
1984 (1984): Fiel ao livro de George Orwell e bem executado. Deprimente como deveria ser. (3)
2010 The Year We Make Contact (1984): Sequência decepcionante de 2001 A Space Odyssey. Não explica nada e termina com mensagem bundalelê substituindo Deus por alienígenas. (2)
Dune (1984): O filho de um duque lidera os guerreiros do deserto contra um imperador galáctico para libertar seu povo e vingar a morte de seu pai. Tentativa frustrada de levar às telas o romance homônimo de Frank Herbert (1920-1986). Roteiro truncado, quase incompreensível. Personagens mal construídas, não geram empatia. Vilões caricatos ao ridículo. Um desastre do diretor David Lynch. (1)
Flashpoint (1984): Dois patrulheiros de fronteira dos EUA encontram um jipe enterrado há mais de 20 anos no deserto com um esqueleto, um rifle e US$ 800.000. Parece encomendado para alimentar a teoria de que o próprio governo americano matou Kennedy. (2)
Gremlins (1984): Depois de receber um pequeno animal exótico como presente de Natal, um jovem inadvertidamente quebra três regras importantes relativas ao seu novo animal de estimação, o que liberta uma horda de criaturas malévolas e travessas em uma pequena cidade. Mescla de terror e comédia nesta divertida aventura juvenil dirigida por Joe Dante que merecia atores mais competentes. (3)
Near Dark (1984): Vampiros água com açúcar. Vendo os créditos entendemos o porquê. (2)
Red Dawn (1984): Os EUA foram invadidos pelos comunistas russos e cubanos. Um grupo de jovens se rebela contra o terror. Interessante, e com alguns bons valores de liderança e coragem. (3)
Repo Man (1984): Apologia a rebeldia e mau comportamento da juventude. Uma bobagem. (2)
Romancing the Stone (1984): Aventura na esteira de Indiana Jones. Boa química entre os protagonistas Michael Douglas, Kathleen Turner e Danny DeVitto. (3)
The Karate Kid (1984): História de amadurecimento, a tradicional jornada do herói forjando sua alma. O mentor purifica as intenções do aluno (aprender a lutra pelas razões certas), equilibra sua alma, e empreende a luta do mundo antigo (conservador) contra o mundo moderno representado por Cobra Kai. Preenchendo a ausência do pai (Espírito), o mentor conduz o aluno para o mundo da tradição (herança do melhor do passado) – ao final o aluno volta ao seio do melhor da humanidade. Arte marcial é uma catarse da potência de violência natural no homem, dando-lhe vazão de forma controlada. A dupla de atores protagonistas Ralph Macchio e Pat Morita voltariam em duas sequências – The Karate Kid Part II (1986) e The Karate Kid Part III (1989) – com qualidade decrescente. (4)
This is Spinal Tap (1984): Sátira dos grupos de Heavy Metal. Divertido mas superestimado. (3)
Under the Volcano (1984): Um dia na vida de um ex-cônsul britânico autodestrutivo (interpretado por Albert Finney) no México na véspera da II GG. John Huston dirige esta adaptação do romance homônimo de Malcolm Lowry(1909-1957). Uma lancinante alternativa ao Bloom de Joyce – uma vida inteira revelada em um dia de desespero etílico. A descoberta de potências existentes no interior do homem que o levam a sentir terror de si mesmo – o homem derrotado por seus próprios demônios. (2)
Flashdance (1983): Dançarina amadora de 18 anos (interpretada por Jennifer Beals) que se apresenta todas as noites em um bar e trabalha como soldadora durante o dia, sonha em ingressar na tradicional escola de balé de Pittsburgh. Clichê de superação dirigido por Adrian Lyne que se transformou em fenômeno cultural apesar do enredo risível (soldadora + dançarina noturna + conquista o chefe da empresa + entra numa escola de balé) e personagens esquemática e vazias. Hollywood descobria que o público (que já ia se acostumando com a MTV) podia ser seduzido apenas com imagens, erotismo e música embalados com estética de videoclipe: os hits musicais Maniac (refletindo a obsessão da personagem – música de Michael Sembello) e What a Felling (celebrando o triunfo final – música de Giorgio Moroder e Irene Cara) entraram na rotação da MTV com apenas cenas do filme. Cabeça vazia, oficina do diabo. (1)
The Right Stuff (1983): Baseado na versão romanceada de Tom Wolfe sobre a corrida espacial. Interessante para quem viveu aquela época. Peca em não mencionar o blefe russo. (3)
The Fourth Man (1983): Escritor tem tido visões de um perigo iminente enquanto começa um caso amoroso com uma mulher que pode levá-lo à ruína. Desastroso trabalho Paul Verhoeven ainda em sua terra natal. A personagem principal é alcoólatra, sodomita e, adivinhe, um católico fervoroso… contrassenso? Não, apenas mais uma forçada e repetitiva artimanha para choquer la bourgeoisie. (1)
The Dead Zone (1983): Homem acorda do coma e descobre que tem uma capacidade psíquica de prever eventos futuros. Mais uma das inúmeras histórias de Stephen King levadas ao cinema. A premissa e os atores mereciam uma produção e direção melhores – David Cronenberg devia estar embriagado durante as filmagens. (2)
The King of Comedy (1983): Rupert (interpretado por Robert De Niro) é um aspirante a comediante de stand-up, que está disposto a qualquer coisa para aparecer no show noturno apresentado por seu ídolo (interpretado por Jerry Lewis). O filme tem pretensões de ser uma sátira sobre a natureza da fama e o desejo de celebridade levada a extremos. Mas, em última análise, o filme do diretor Martin Scorsese é um equivocado e desagradável estudo de comportamento ilusório. (2)
The Osterman Weekend (1983): Durante a Guerra Fria, um polêmico jornalista de televisão é abordado pela CIA para persuadir três amigos, supostos agentes soviéticos da rede Omega, a desertar. Baseado no romance homônimo de Robert Ludlum. Ultimo filme de Sam Peckinpah que morreria no ano seguinte aos 59 anos de uma vida conturbada. Como em The Killer Elite (1975), Peckinpah não teve oportunidade de ajustar o roteiro que apresenta inúmeras falhas, comprometendo irremediavelmente o resultado final. Triste crepúsculo para o diretor de The Wild Bunch (1969). (2)
Trading Places (1983): Dois velhos irmãos milionários fazem uma aposta para descobrir se natureza ou ambiente determina o sucesso de uma pessoa – um experimento social transformado em comédia. Eddie Murphy brilha como o golpista colocado no lugar do rico corretor de commodities (interpretado por Dan Aykroyd – fazendo grande dupla cômica com Murphy) que percebe que muito daquilo que imaginava ser mérito pessoal era, na realidade, resultado de sua posição social. O filme, dirigido por John Landis, funciona como um tributo à meritocracia. O roteiro sabiamente evita o engodo de ricos versus pobres, colocando os velhos irmãos como os vilões que utilizam seu poder para transformar seres humanos em objetos de uma experiência particular – sátira sobre as pretensões de reengenharia humana globalista. (3)
Videodrome (1983): O coproprietário (interpretado por James Wood) de uma estação de TV a cabo de Toronto, especializada em entretenimento adulto, procura os produtores de uma transmissão perigosa e bizarra intitulada Videodrome. Fantasia especulando sobre o que aconteceria se a imagem deixasse de representar a realidade e passasse a produzir uma nova realidade – ou o quanto a indústria de entretenimento manipula o imaginário da sociedade para conduzir as ações no mundo real. Como não podia deixar de ser o diretor David Cronenberg, mestre do body horror, faz a tecnologia literalmente penetrar no corpo, e dava mais um passo no desenvolvimento no gênero. James Woods está bem fazendo o papel de alguém que acredita manipular o sistema, mas descobre que é o sistema que o está manipulando. (3)
War Games (1983): Aventura juvenil com visões rousseaunianas com a profundidade de uma poça de água. (3)
48 Hours (1982): Policial com dose certa de comédia. Do tempo que não tinha o engodo do politicamente correto. (3)
Cat People (1982): Jovem órfã (interpretada por Nastassja Kinski) desde tenra idade finalmente se reencontra com seu irmão mais velho. As coisas começam a dar errado quando ela lentamente descobre a verdadeira natureza de sua família. Desastrosa tentativa do diretor Paul Schrader em reescrever o clássico homônimo (1942) de Jacques Tourneur. (2)
No Place to Hide: The Strategy and Tactics of Terrorism (1982): G. Edward Griffin apresenta as ligações da URSS com as diferentes unidades terroristas espalhadas pelo mundo. Explica como o objetivo comunista é enfraquecer governos através da reação da população a crises estrategicamente fomentadas (crise econômica, insegurança, distúrbios internos, minorias revoltadas, etc). (3)
Still of the Night (1982): Psiquiatra investiga o assassinato de um paciente e se apaixona pela misteriosa amante da vítima (interpretada por Meryl Streep). Thriller psicológico escrito e dirigido por Robert Benton. A direção elegante e produção caprichada não conseguem compensar o roteiro previsível e ritmo desigual. Destaque para a atuação de Meryl Streep e fotografia de Néstor Almendros. (2)
Summer Loves (1982): Filme feito para estimular a libido dos jovens e desvirtuá-los da sacralidade do sexo. Vale apenas pelas cenas de Santorini e outras localidades da Grécia. (2)
The Year of Living Dangerously (1982): Correspondente australiano (Mel Gibson) envolve-se com attaché inglesa (Sigourney Weaver) durante o tumultuado ano de 1965 na Indonésia liderada por Sukarno. O diretor Peter Weir desperdiça a chance de retratar aquele momento histórico, preferindo uma abordagem superficial e destorcida. A figura do diminuto cameraman é demasiadamente falsa, e não só pelo fato de ser inconvincentemente representado por uma atriz (Linda Hunt). A forçada pureza cristã da personagem não combina com seu choroso lamento de “what must we do” remetendo ao “what is to be done” de Lenin – pura propaganda. Ao final o protagonista, como Gloster de Rei Lear, precisa perder a visão, mesmo que momentaneamente, para enxergar o seu erro. (2)
Tootsie (1982): Competente ator desempregado (interpretado por Dustin Hoffman) se disfarça de mulher para conseguir um papel em uma novela para a TV. Comédia de costumes dirigida por Sydney Pollack abordado as relações entre os sexos sem recorrer ao didatismo ideológico ou a insanidade transgênero. Roteiro bem construído e ritmado, e grande atuação de Hoffman e do elenco de apoio (especialmente de Jessica Lange que arrebatou o Oscar de melhor atriz coadjuvante). A situação é algo exagerada, mas não a ponto de estragar o entretenimento. (3)
An American Werewolf in London (1981): Dois jovens americanos viajando pela Inglaterra são atacados por uma criatura misteriosa. Um é morto e outro sobrevive, mas descobre que foi mordido por um lobisomem. Misto de horror, comédia, romance e sátira que nunca define exatamente ao que veio. Mas o filme, dirigido por John Landis, é inventivo, tecnicamente competente e com algumas imagens marcantes, e.g. o pub The Slaughtered Lamb, o amigo morto aparecendo no hospital, e a perseguição no metro. E o uso da moderna Londres como cenário dá um sabor do arcaico invadindo a civilização. (3)
Das Boot (1981): Bom filme de guerra baseado no romance autobiográfico do correspondente de guerra Lothar-Günther Buchheim. Claustrofóbica sensação ao acompanhar os tripulantes de um submarino alemão na II GG. Nenhum outro filme conseguiu capturar de forma tão realista a vida naquela situação. (4)
The Professional (1981): Jean-Paul Belmondo e seu lado canastra em filme de aventura irregular. Tem seu lado propaganda mostrando o governo francês como moralmente corrupto e imiscuindo-se nos assuntos africanos. (3)
History if the World Part I (1981): Alguns bons momentos, mas não a altura dos trabalhos anteriores de Mel Brooks. (3)
Possession (1981): Em Berlim uma mulher começa a exibir comportamento cada vez mais perturbador depois de pedir divórcio ao marido. As suspeitas de infidelidade logo dão lugar a algo muito mais sinistro. Dirigido pelo ucraniano Andrzej Zulawski(1940-2016). Sanguinolenta alegoria de como o distanciamento de Deus e degeneração da família provocados pelo comunismo cria o Mal. Infelizmente o enredo imaginativo é lesado pelos diálogos exagerados e atuações demasiadamente teatrais, salvando-se a atuação da bela Isabelle Adjani que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz em Cannes. (3)
Prince of the City (1981): Detetive da divisão de narcóticos de Nova York concorda relutantemente em cooperar com uma comissão especial que investiga a corrupção policial e começa a sentir-se paranoico. Peça de propaganda orquestrada para mostrar a corrupção do sistema, principalmente da polícia. O ator principal (Treat Williams) é demasiadamente fraco para carregar o filme nas costas. O diretor Sidney Lumet tratou o tema de corrupção policial muito melhor em Serpico (1973). (2)
The Howling (1981): Para quem tem medo de lobisomem. (1)
S.O.B. (1981): Sátira sobre os interesses econômicos e degeneração moral da indústria cinematográfica de Hollywood. Nem o público escapa do azedume do diretor. Blake Edwards já não era o mesmo de Pink Panther, Breakfast at Tiffany's e The Party. (2)
Scanners (1981): Cientista treina um homem com habilidades telepáticas avançadas (scanner – “varredura”) para impedir que um perigoso scanner com poderes extraordinários trave uma guerra contra o resto da população. O diretor Cronenberg apresenta uma evolução com relação a Shivers (1975): o roteiro é mais interessante, o filme é melhor estruturado, e tem efeitos especiais superiores – um avanço no conceito cronenberguiano do corpo humano como território de transformação, invasão e perda de controle. Apesar da premissa interessante o filme não empolga. (3)
Victory (1981): A Resistência Francesa e oficiais britânicos planejam a fuga do time de futebol de prisoneiros aliados durante uma partida contra a seleção alemã disputada na Paris ocupada pelos nazistas. Esforço de John Huston em fazer de um jogo de futebol metáfora para a guerra. Apesar da participação de vários jogadores famosos (Pelé, Bobby Moore, Ardiles, Deyna, entre outros) as cenas de futebol decepcionam. (2)
American Gigolo (1980): Prostituto de Los Angeles (interpretado pelo insípido Richard Gere) é acusado de um assassinato que não cometeu. Tentativa de thriller do roteirista e diretor Paul Scharader que mais parece um music clip ruim da MTV. Narrativa e personagens vazios de sentido, bem ao gosto popular da disco era. (1)
Cruising (1980): Exemplo da decadência do diretor William Friedkin. Na época causou polêmica por expor o mundo sadomasoquista dos sodomitas, mas o roteiro não empolga e as repetidas cenas entre homossexuais provocam asco. (1)
Lightning Over Water (1980): O diretor alemão Wim Wenders abandona as filmagens de um de seus projetos para ajudar seu amigo e colega diretor Nicholas Ray a criar seu último filme antes de morrer, mas consegue apenas realizar um documentário deprimente sobre um moribundo. O filme é caótico tanto emocional como esteticamente, e nunca diz a que veio. Pode ter sido uma bem-intencionada homenagem de um diretor mais jovem ao mestre mais velho, mas o resultado é desastroso. (1)
Moscow does not believe in tears (1980): A história de três moças utilizada para propaganda do decadente sistema soviético. Mostra um povo sempre cortês, alegre e cantando, lista louvores ao sistema (e.g. "nosso sistema de saúde é o melhor do mundo") e apregoa o feminismo visando atrair o público feminino ocidental. (1)
Serial (1980): Filme tolo mas revelador da doença espiritual dos nossos dias. A perda da transcendência e ordem cósmica empurra o ser humano na busca de novos valores dentro de si mesmo (egolatria) – “explosão da consciência” que levou, entre outras coisas, a Esalen e a experimentação com drogas. Bombardeamento de informações e vida corrida (sem tempo para reflexão) dificultam o ato de pensar e empurra-nos para buscar as ideias prontas fora de nós. Ataque as tradições, principalmente família e religião, provoca confusão e perda de sentido, tornando o indivíduo infeliz e ansioso pronto a buscar novas alternativas. O indivíduo fica mais propenso a fugir de suas responsabilidades diante deste mundo desconhecido e hostil. De 1980 para cá esta situação só piorou. (2)
The Blues Brothers (1980): Dois irmãos adotivos (interpretados por John Belushi e Dan Aykroyd – apresentando grande química como irmãos de índoles opostas) acreditam estar em uma missão divina: reunir sua antiga banda para levantar US$ 5.000 e salvar o orfanato católico onde foram criados – uma dupla de pecadores empreendendo uma missão sagrada através de um mundo caótico (estão tentando recuperar algo antigo que consideram valioso). Comédia absurda dirigida por John Landis que funciona como uma celebração da música negra americana. Vários músicos participam, com destaque para Aretha Franklin, James Brown e Ray Charles – os números musicais são inseridos naturalmente na narrativa. Destaque para a perseguição policial ao final do filme, James Brown interpretando um pastor (música como forma de transcendência) e Aretha Franklin no restaurante. (3)


