1984 de George Orwell


O Partido procura o poder por amor ao poder. Não estamos interessados no bem-estar alheio; só estamos interessados no poder.” – O’Brian explicando o funcionamento do Partido

Personagens Principais Winston Smith – pequeno funcionário do Ministério da Cultura O’Brian – burocrata superior do Partido Julia – amante de Winston (não está indignada como Winston com o status quo) Big Brother – líder do Partido, potencialmente fictício (inspirado em Stalin) Emmanuel Goldstein – resistente contrarrevolucionário fabricado pelo Partido Personagens Secundárias Família Parsons – vizinhos de Winston cujos filhos eram colaboracionistas Syme – especialista na Novilíngua Charrignton – dono da loja de antiguidades, local dos encontros entre Winston e Julia Ogilvy – cidadão criado pelo Partido como herói de guerra Katherine Smith – ex-esposa de Winston Ampleforth – intelectual amigo de Winston que cai em desgraça com o Partido Aaronson, Jones e Rutherford – ex-líderes do Partido falsamente acusados de traição

Interpretação O modelo de mundo apresentado em 1984 é totalitário, portanto distinto do conceito de autoritário natural e ontológico presente na hierarquia requerida para o funcionamento da sociedade. No totalitarismo o homem revoltado (revolta contra o Criador – pecado original) quer fazer “um mundo melhor” sendo para isso necessário criar “um novo homem” – o totalitarismo é messiânico. Todo projeto totalitário envolve a reengenharia humana.


Vivemos a tensão entre o indivíduo e a sociedade e os governos modernos não conseguem representar a sociedade como acontecia na pólis grega (havia grande sintonia entre o governo e o cidadão – unidade cultural e religiosa). Porém os limites do Estado são transgredidos na Oceania de 1984. Orwell usou o modelo da União Soviética neste romance – Stalin é Big Brother.


O problema de governar é como equilibrar esta tensão (insolúvel) entre o individuo e o coletivo. Toda a sociedade é defeituosa para qualquer indivíduo vivendo nela. O ser humano também é tensional (Hades x Olimpo / semelhante a Deus x ao pó voltará). Os governos atuais transgridem cada vez mais os limites da autoridade natural. Autoridade pode ser exercida com sabedoria ou crueldade – formas legítimas e ilegítimas (formas degeneradas de poder).


Na Oceania visa-se o total controle da mente das pessoas. Para isso: (a) Acaba-se com a privacidade e intimidade. A educação sexual, o desnudar da intimidade, é uma forma de controle social. Todos os seus movimentos são observados/filmados. Você sempre ao alcance de alguém – eliminam-se os momentos de introspecção das pessoas. (b) Relativiza-se a verdade – cada um tem a sua verdade. A realidade está na sua mente e não no mundo. Primeiro relativizar o que você acredita ser verdadeiro e bom, e depois fazê-lo acreditar que é a sua mente que cria a realidade (princípio kantiano) – torna-se precária a noção de realidade, e assim a vítima está preparada para (c) receber a mensagem sobre o novo “mundo real” – o mundo do Partido.


O homem passou de criatura para querer ser criador, acredita poder reger o mundo humano. Soberba e vaidade que vai gerar o totalitarismo. Substitui a espiritualização por uma “igreja do homem” – César toma o lugar de Cristo. Big Brother é um anticristo. O messianismo (atitude prometeica) compreende a reengenharia humana.


1984 descreve ficcionalmente a crua realidade apresentada por Solzhenitsyn em Arquipélago Gulag, e questiona a possibilidade do indivíduo sustentar seu sentido de honra, dever e responsabilidade quando sob o jugo dos atuais sicários estados totalitários.

Algumas características intrínsecas do coletivismo socialista-comunista são enfatizadas no mundo de Orwell: (a) a mentira governamental (“verdade é o que o Partido diz ser verdade”), (b) mídia controlada e cavilosa, (c) revisionismo histórico (“Aquele que controla o presente controla o passado. Aquele que controla o passado controla o futuro.”), (d) cerceamento da liberdade de expressão, (e) desconsideração da religião e da transcendência, (f) incitação da estupidificante dissonância cognitiva (“guerra é paz” e “escravidão é liberdade” no romance, como os atuais “você define seu sexo” ou “um embrião não é um ser humano”), e (f) controle da linguagem e do pensamento (The Police Thought do romance é o futuro do atual ‘politicamente correto’). E como em todos governos socialistas/comunistas já implementados, o da Oceania produziu apenas mais miséria, violência e morte, especialmente para os mais necessitados, aos quais haviam prometido o paraíso.

Em “um dia frio ensolarado de abril”, Winston, em segredo, assume consciência dos erros ao seu redor – abril o marca começo da primavera, tempo de renascimento e redenção. Winston Smith, homônimo de Churchill que se postou contra o totalitarismo, e com o sobrenome mais usual em inglês, representa o homem comum lutando contra o horror do coletivismo.

Mas que pode um homem sozinho contra a máquina nefasta do Estado que entende o poder como a habilidade de impingir dor e humilhar o indivíduo? Winston dobra-se diante da tortura – não haverá renascimento ou redenção. Não há esperança onde não há a coragem de morrer pelos outros, de morrer pelo que é belo, bom e verdadeiro.



Notas

  • George Orwell (1903-1950) é pseudônimo para Eric Arthur Blair, inglês nascido na Índia.

  • O título 1984 pode ser a mera inversão de 48 (ano em que escreveu o livro – 1948) ou o centenário da fundação da Sociedade Fabiana. Nunca saberemos.

  • Sua outra obra de sucesso foi Animal Farm (1945).

  • O pensamento político de George Orwell é revelado na sua obra The Lion and the Unicorn: Socialism and the English Genius. Socialista, Orwell também foi um implacável acusador das experiências de esquerda. Um inconformista autêntico, coerente.

  • Um das maiores obras da literatura distópica (paródia de utopias – modelos de mundos novos que resultam piores que o atual). Outras: O Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, Fundação de Isaac Asimov e Fahrenheit 451 de Ray Bradbury.

  • Significado simbólico da morte de Abel (nômade – espaço) por Caim (agricultor – tempo) seria a morte do espaço pelo tempo. Porém o espaço recuperaria seu lugar, daí a crescente sensação do tempo ser cada vez menor (ver No Reino da Quantidade de René Guénon) – é o espaço recuperando seu lugar.

  • Uma boa tradução exige: a) conhecer bem a língua de origem, b) conhecer bem a língua de destino, e c) conhecer bem o assunto da obra. Estilisticamente você não deve identificar o idioma de origem.

  • Jack London e Ernest Hemingway são mais famosos em função de suas vidas romanescas do que pelas suas qualidades literárias. Inicialmente George Orwell encarna este modelo. O espírito da época exigia uma vida aventureira de seus intelectuais. Assim como demandará uma vida desregrada a partir de Jack Kerouac.

  • A criminalização do chamado assédio moral no seio familiar visa acabar com a autoridade dos pais e, portanto, destruir o conceito de família.

  • Quase todas as tentativas de criar uma língua universal (e.g. Esperanto – criada pelo judeu russo Ludwik Lejzer Zamenhof) tinha no fundo o objetivo de criar um novo mundo, um novo homem.

  • Ao dizer sim a todas as atrocidades propostas por O’Brian, Winston mostrou-se já estar adotando a moral revolucionária na qual os fins justificam os meios (indiferença moral – patologia da ausência de dúvida moral).

  • O homem é um ser social (zoon politikón), obrigando a existência de hierarquia. A autoridade é natural na sociedade, tem algo de sagrado. Sem autoridade não há sociedade.

  • O ser humano vive em estado de rebelião, e a culpa é o mecanismo de controle deste estado rebelde.

  • Mapa do mundo de Orwell em 1984: