Trilogia (Um Retrato do Artista Quando Jovem, Ulisses e Finnegans Wake) de James Joyce


Personagens Principais Stephen Dedalus – alter ego literário de Joyce Leopold Bloom – 38 anos, corretor de anúncios, corresponde a Odisseu Molly (Marion Bloom) – cantora, esposa de Leopold Família Earwicker – HCE (pai), ALP (mãe), Shem (filho), Shaun (filho) e Issy (filha)

Personagens Secundárias Mary e Simon Dedalus – país de Stephen Padre Dolan – prefeito de estudos que injustamente castiga Stephen Wells – colega do colégio que empurra Dedalus numa vala (poço) Padre Arnall – realiza pungente sermão sobre o pecado carnal que muito impacta Stephen Gerty MacDowell – moça que excita Leopold Hugh Boylan – empresário, possível amante de Molly Reuben J. Dodd – agiota para quem o pai de Dedalus deve muito dinheiro

Interpretação Em Um Retrato do Artista Quando Jovem conhecemos Stephen Dedalus ainda criança recém-nascida vivendo uma primeira infância feliz. A ida ao colégio, e afastamento da mãe, é como uma queda do paraíso, simbolizada pela queda de Dedalus numa vala, empurrado por Wells. Inadaptado na escola e na vida, Dedalus vê a família empobrecer rapidamente. Porém ele destaca-se das outras crianças pelo intelecto.

Tem a primeira experiência sexual com uma prostituta e recai sobre a culpa, agravada com o sermão do Padre Arnall. Dedalus toma consciência do pecado, e seu comportamento provoca um chamado para o sacerdócio, levado ao conflito central da obra – ser padre ou artista.


A solução surge na observação de uma moça à beira mar. Ao olha-la sem perversão percebe na beleza a sublimação daquele conflito. O belo como sublimação legitimaria sua arte. Perseguirá sua arte individualmente (é chamado pelo colega de antissocial), e romperá com os valores irlandeses: com a igreja (abandona a ideia de ser padre), com a família (sai de casa) e com a pátria (muda-se do país). Dedalus elege a arte como sua religião (ideia nietzschiana do cristianismo sem Cristo – ideia diabólica do intelectual moderno). Terá ele sucesso? A resposta está em Ulisses.


É preciso cuidado para não perder-se nos aspectos formais em Ulisses e concentrar-se no conteúdo simbólico, cujo significado é explicado pelas três personagens centrais: Bloom é um sujeito tolerante, de bons princípios e respeitoso. Mas está sem inspiração e fraco. Dedalus é um intelectual, orgulhoso, em conflito com a família e perdido. E, finalmente, Molly é fútil, infiel, despreocupada com as aparências e também perdida.


Cada uma destas personagens tem seu valor simbólico: Bloom representa a dimensão espiritual, ligada a valores que transcendem os seus interesses. Dedalus apresenta a dimensão mental, intelectual, vive de ideias. E Molly é a dimensão corpórea, material. Os três constituem-se na composição do homem (Espírito, Mente e Corpo) e todos estão perdidos, doentes: Bloom (Espírito) é covarde, incapaz de estabelecer a regra, com pouco desejo existencial, não aceita a existência como ela se apresenta, não assume seu potencial ontológico. Dedalus (Mente) é orgulhoso, desvinculado do espírito, vive a procura de direção, a procura de pai, busca uma autoridade – a mente sem o componente noético aristotélico é incapaz de descobrir a verdade. E Molly (Corpo) vive um casamento fracassado, um corpo sem espírito, um corpo a deriva.


Ao longo daquele dia Bloom reaprende a ser pai com o episódio junto a Dedalus (encontram-se na maternidade – renascimento), que ganha perspectiva, e depois retoma sua posição junto a Molly (toma café na cama – Molly diz “sim”).


É uma típica obra do mundo moderno onde as personagens estão abaixo de sua missão ontológica. As três personagens retratam o homem moderno: incapaz de lidar com sua espiritualidade, crendo capaz de decifrar todos os mistérios do mundo e prisioneiro do corpo. Mas ao longo do dia vemos a recuperação do espírito que subordinará a mente e depois o corpo. A hierarquia ontológica é restabelecida. Bloom recupera-se assim como Odisseu aprendeu a ser uma pessoa melhor ao longo de sua jornada iniciática de retorno a Ítaca.


Finnegans Wake rompe com as personagens dos dois romances anteriores, mas é recorrente no tema da Queda, culpa e renascimento. É todo um livro para repetir o “Sim” final de Molly em Ulisses. Da redenção pela arte de Dedalus no primeiro livro evolui-se para a reconquista da posição hierárquica do Espírito em Ulisses. Finalmente em Finnegans Wake há um clima de redenção crescente com o homem moderno redimindo-se no ciclo da própria vida.



Notas

  • James Joyce (1882-1941) nasceu em Dublin, Irlanda (Eire). País independente do Reino Unido e da Commonwealth. Profundamente católico.

  • Suas principais obras são os romances Um Retrato do Artista Quando Jovem (1914), Ulisses (1918) e Finnegans Wake (1939), e a coletânea de contos Dublinenses (1914).

  • A obra de Joyce, principalmente com Ulisses, é considerada um divisor de águas no século XX. Inaugura o romance moderno juntamente com Em Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust e O Homem Sem Qualidades de Robert Musil.

  • Um Retrato do Artista Quando Jovem é praticamente autobiográfico. A personagem Dedalus é Joyce.

  • Famoso por suas inovações estilísticas, estas estão ausentes em Dublinenses, começam a aparecer em Um Retrato do Artista Quando Jovem (mudança de estilo conforme a idade da personagem avança e é escrito num stream of consciousness – a personagem discorre livremente sobre sua vida como uma tomada de consciência), surge com todo vigor em Ulisses e é extrapolada em Finnegans Wake. Independentemente destas inovações, Joyce escreve muito bem.

  • Muito do efeito estilístico de Joyce perde-se nas traduções.

  • Dedalus, na mitologia grega, é o pai de Ícaro – um artista universal (faz um pouco de tudo e bem feito).

  • Ulisses é construída como paródia da Odisseia de Homero, reproduzindo em dezoito capítulos as cenas do retorno de Odisseu a Ítaca.

  • Joyce afirmou sobre Ulisses ter “colocado tantos enigmas e charadas para manter os acadêmicos ocupados por séculos tentando decifrar o que escrevi”.

  • O Bloomsday (trocadilho com Doomsday) é celebrado no dia 16 de junho. Dia em que se passa a história de Ulisses no ano 1904.

  • A origem judaica de Bloom e a referência à Odisseia nos lembram que nossa cultura é formada por Israel (que deriva no Cristianismo) e Grécia (que permeia a cultura romana).

  • O episódio Telêmaco já pressupõe a ligação especial entre Dedalus e Bloom.

  • O episódio Calipso apresenta Molly – a mulher que aprisiona Odisseu (Espírito). Molly volta no episódio Penélope, esposa de Odisseu (Matéria ordenada pelo Espírito).

  • O episódio As Rochas Flutuantes é uma alternativa ao estreito Cila-Caribde. O tema é explorado na narrativa dos Argonautas.

  • O episódio Nausícaa apresenta Gerty MacDowell. Nausícaa provoca tomada de consciência de Odisseu.

  • Narrada numa linguagem de sonhos, usando mais de seis dezenas de idiomas, abusando das referências e abandonado as regras sintáticas, Um Retrato do Artista Quando Jovem é de difícil compreensão.