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Woody Allen (1935- )

  • há 11 horas
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I do the movies just for myself like an institutionalized person who basket-weaves. Busy fingers are happy fingers. I don’t care about the films. I don’t care if they’re flushed down the toilet after I die.” – Woody Allen


Woody Allen é um dos cineastas mais influentes e prolíficos da segunda metade do século XX, um hábil roteirista e cômico com pretensão intelectual que elevou o cinema autoral americano. Competente contador de histórias e observador da natureza humana mas pouco ousado cinematograficamente, suas histórias tendem a expressar uma visão de mundo decadente e niilista.


Pode-se dividir a carreira de Woody Allen em três grandes fases artísticas: (a) cômica e farsesca (1969–1975), (b) maturidade (1977-1992), e (c) internacional (1993-presente).


A primeira fase, com influência dos Irmãos Marx é marcada pelo humor absurdo e anárquico, gags visuais e físicas, e paródias de gêneros cinematográficos.


A fase madura ou nova-iorquina, dada a forte ligação com New York City, já mescla comédia e drama, notando-se a influência de Ingmar Bergman, Federico Fellini e François Truffaut. Aqui Allen aborda temas existenciais, relacionamentos amorosos complexos, e faz inúmeras reflexões sobre arte, moralidade e morte. As narrativas têm cunho pessoal, as pretensões filosóficas são triviais, e a ênfase em sexo muitas vezes degenera para a imoralidade.


Após os anos 1990, em função da queda na bilheteria de seus filmes e dos escândalos envolvendo a família de Mia Farrow, o diretor enfrenta dificuldades de financiamento nos EUA e realiza vários de seus filmes na Europa. Nesta nova fase ele alterna entre comédias, dramas e thrillers, mas torna-se repetitivo revisitando frequentemente ideias exploradas anteriormente, sendo que os melhores trabalhos desta fase versam justamente sobre novos temas como acaso, sorte e culpa.


Seguem comentários sobre os filmes mais significativos ao longo destas três fases do diretor:


Take the Money and Run (1969): A retrospectiva da vida do inepto ladrão de bancos Virgil Starkwell (interpretado por Woody Allen). Em seu primeiro trabalho como diretor Allen inovava com este divertido mockumentary – um misto de documentário televisivo, slapstick clássico, stand-up judaico nova-iorquino, e sátira criminal. Já marcava o estilo autoral do diretor e abordava temas recorrentes em seus futuros filmes, i.e. fracasso masculino, inadequação social, intelectualismo cômico, e fantasia versus realidade. Destaque para a cena do bilhete ilegível durante o assalto de um banco.


Bananas (1971): Nova-iorquino desajeitado (interpretado por Allen) é abandonado pela sua namorada ativista, e viaja para uma pequena nação latino-americana para envolver-se na sua recente rebelião. O diretor aperfeiçoava seu estilo nesta paródia da romantização revolucionária da esquerda universitária e da cobertura midiática, empreendida com humor absurdo e satírico. Sylvester Stallone aparece como um bandido numa cena no metrô em um de seus primeiros papéis não-creditados como coadjuvante.


Everything You Always Wanted to Know About Sex (But Were Afraid to Ask) (1972): Sete histórias tentam responder perguntas relacionadas ao sexo. Inspirado no bestseller homônimo do Dr. David Reuben. Comédia de humor absurdo explorando os tabus sexuais com alguns momentos divertidos, mas a qualidade dos segmentos é bem dispare. O terceiro segmento, Why Do Some Women Have Difficulty Reaching Orgasm?, é uma divertida paródia do cinema italiano de diretores como Federico Fellini e Michelangelo Antonioni. Destaque para os segmentos What Happens During Ejaculation? e What Is Sodomy?.


Sleeper (1973): Nerd dono de uma loja de produtos naturais (interpretado por Allen) é resgatado do estado de criopreservação num mundo futuro sob um governo opressor. O diretor faz sua comédia mais física nesta distopia satírica cujas piadas visuais parecem inspiradas em filmes mudos, Bob Hope e os Irmãos Marx. A imagem onipresente do Líder é na verdade uma foto do guru da contracultura dos anos 1960, Timothy Leary, que contribui para a morte de incontáveis jovens com sua apologia às drogas.


Love and Death (1975): Na Rússia czarista, um soldado neurótico (interpretado por Allen) e sua esposa (interpretada por Diane Keaton) formulam uma conspiração para assassinar Napoleão. Sátira das obras dos autores russos Tolstói, Dostoiéviski e Turguêniev, bem como das parvoíces filosofias de leitores de Søren Kierkegaard e Friedrich Nietzsche. Visualmente Allen brinca com os filmes de Ingmar Begman e Sergei Eisenstein. Era então o experimento de Allen mais ambicioso com as possibilidades cômicas do cinema, justapondo assuntos sérios com comédia anárquica tanto nos diálogos como visualmente.


Annie Hall (1977): Comediante judeu divorciado (interpretado por Allen) reflete sobre seu relacionamento com a ex-amante Annie Hall, uma aspirante a cantora de boate, que terminou o relacionamento abruptamente, assim como ocorrera em seus casamentos anteriores. Comédia romântica melancólica e profundamente pessoal, refletindo (mesmo que não intencionalmente) a banalização dos relacionamentos, a emasculação e promiscuidade hodiernas, e as neuroses judaico-nova-iorquinas. Excessivamente autobiográfico, o filme marcava o início da fase nova-iorquina do diretor. Notar as aparições de Sigourney Weaver e Jeff Goldblum, ambos em começo de carreira, em diminutos papéis coadjuvantes. Arrebatou os prêmios Oscar de melhor filme, atriz, diretor e roteiro original.


Manhattan (1979): A vida de um escritor de televisão divorciado (interpretado por Allen) que namora uma adolescente fica ainda mais complicada quando ele se apaixona pela amante de seu melhor amigo. Allen levou ao paroxismo os nefastos temas de Annie Hall, em meio a bela fotografia do cinematógrafo Gordon Willis nesta ode à cidade de New York. Testemunhamos a absoluta sordidez daquele grupo de pessoas que romantizam pedofilia, promiscuidade e adultério como algo irrelevante – Manhattan apresenta a imoralidade como um ideal romântico. É, junto com Annie Hall, o maior sucesso de bilheteria do diretor, revelando (e colaborando para) a decadência moral destes tempos. Notar o excessivo número de vezes em que as personagens destacam a suposta beleza da personagem interpretada pela mal-apanhada Diane Keaton – será que era para ser uma piada?


Zelig (1983): Mockumentary sobre um homem (interpretado por Allen) que pode se metamorfosear como qualquer pessoa que esteja por perto. Divertida sátira sobre o sério tema da conformidade social explicada por experimentos como o de Solomon Asch na década de 1950. É uma longa piada sobre o mesmo tema recheada de esquetes envolvendo personagens históricos, que funcionam melhor para quem tem conhecimento sobre certos eventos da história americana nas décadas de 1920 e1930. Além de abordar o tema do desejo humano de aceitação e pertencimento, Zelig zomba da tendência das multidões de seguir modas, ideologias e líderes sem reflexão, e de como a mídia cria celebridades e pauta comportamentos.


The Purple Rose of Cairo (1985): Durante a Depressão em 1935, em Nova Jersey, uma garçonete (interpretada por Mia Farrow) casada com um marido abusivo se consola assistindo filmes, até que uma personagem sai da tela e entra no mundo real oferecendo-lhe a esperança de uma vida mais feliz. Inspirado pelo filme Sherlock Jr. de Buster Keaton e pela novela Seis Personagens em Busca de Autor de Luigi Pirandello. Comédia morna e acridoce sobre o escapismo como substituto da realidade – uma patologia cada vez mais comum na modernidade.


Hannah and Her Sisters (1986): Entre três dias de Ação de Graças ao longo de um par de anos, o marido de Hannah se apaixona por sua irmã Lee, enquanto seu ex-marido hipocondríaco (interpretado por Allen) reacende seu relacionamento com sua outra irmã Holly. Dramédia sobre uma família para lá de imperfeita organizada como um romance episódico, com pequenas vinhetas independentes que se somam ao quadro geral – Allen entrelaça os complexos fios narrativos com facilidade, pontuando as muitas variações sobre traição e amor. As personagens são algo superficiais, e as interrogações filosóficas da personagem de Allen são pueris, sem porém estragar o bem engendrado roteiro (Oscar de melhor roteiro original).


Another Woman (1988): Enfrentando uma crise de meia-idade, uma reitora universitária (interpretada por Gena Rowlands) tira um período sabático e aluga um apartamento ao lado do consultório de um psiquiatra para escrever um novo livro. Excelente drama inspirado em Wild Strawberries (1957) de Ingmar Bergman. A protagonista tem uma epifania ao escutar o desabafo de uma paciente do psiquiatra vizinho e começa paulatinamente a desmontar a persona que construiu ao longo do tempo, recobrando a auto-consciência e, consequentemente, conquistando a paz de espírito. Brilhante atuação de Gena Rowlands, sendo as cenas entre ela e Gene Hackman verdadeiras aulas de interpretação.



Match Point (2005): Num momento decisivo de sua vida, um ex-tenista profissional se apaixona por uma atriz que está namorando seu amigo e futuro cunhado. Lenta e prazeirosamente o diretor constrói as personagens até o desfecho dramático, fazendo uma mórbida reflexão sobre desejo, escolha moral, e corrupção espiritual sob um ótica profundamente niilista. A narrativa é similar ao roteiro do clássico A Place in the Sun (1951) dirigido por George Stevens.



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