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São Paulo Sociedade Anônima (1965)

  • há 2 dias
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Recomeçar, mil vezes recomeçar, recomeçar de novo, recomeçar sempre, recomeçar…” – Carlos, protagonista


Neste filme, um dos melhores já realizado no Brasil, Carlos vive em conflito ao lidar com seu trabalho, seus amigos e interesses amorosos tendo como pano de fundo a cidade de São Paulo. O diretor Luiz Sérgio Person (1936-1976) apresenta São Paulo como alegoria da crise axiológica moderna: a perda da hierarquia de valores aparece na redução de tudo à utilidade (trabalho, dinheiro, status), colapso dos valores superiores (verdade, bem, beleza), e numa vida fragmentada, reduzida ao pragmatismo.


O protagonista (Carlos) perdeu o sentido de transcendência, fechando-se no imediato, sem senso de finalidade, passando a viver horizontalmente. O imanentismo de Carlos revela-se na sua reação às circunstâncias, incapaz de construir uma unidade interior e orientar-se por um fim superior. Ele não escolhe com base em valores – ele flutua entre circunstâncias.


O aparente egoísmo do protagonista não é uma mera questão de moralidade. Carlos sofre de uma deficiência ontológica, ele não alcança a plenitude do ser, mantendo relações superficiais, incapaz de doar-se autenticamente, e sem uma interioridade consistente – ele não é um “eu”, mas um conjunto de reações desconexas. Ele é um homem ontologicamente empobrecido, axiologicamente desordenado e incapaz de transcendência, e, por isso, incapaz de realizar plenamente a própria humanidade.


A cidade alegórica de Person reforça a desorganização da hierarquia de valores, contribuindo na geração do homem desordenado axiologicamente. A São Paulo de Person é Carlos, eficiente no trabalho, e desorientado na vida – incapaz de integrar as dimensões da vida num todo coerente (incapaz da síntese).


O homem não é apenas um ser imanente, ele é estruturalmente aberto à transcendência (ao ser, ao absoluto, à totalidade). O ser humano está sempre em devir (em transformação), mas esse devir precisa ser orientado por um eixo de sentido que lhe dê uma direção ascensional.


O filme nos recorda que o ser humano não é algo pronto, mas uma realidade em atualização, que deve realizar suas potencialidades em direção a níveis mais altos de ser – em termos aristotélicos Carlos apresenta uma defasagem entre potência e ato.


Carlos sente-se preso e sufocado, mas busca a liberdade onde ela não está. Liberdade não é escolher entre alternativas indiferentes. Esta é uma pseudo-liberdade pois escolher qualquer coisa não significa escolher bem, podendo ser fruto de ignorância, pulsão ou pressão – ausência de critério não é liberdade, é desorientação. Quanto menos orientado por valores, menos livre o indivíduo é, tornando-se escravo de seus vícios e erros.


Ser livre é agir de acordo com o que aperfeiçoa o próprio ser. Liberdade não é “fazer o que quero”, mas “querer o que deve ser querido”. A liberdade exige verdade (ignorância reduz liberdade), ordenação dos desejos, e subordinação do inferior ao superior – liberdade é uma forma de ordem interior. A liberdade autêntica aumenta o peso moral das escolhas. 


A São Paulo do filme oferece muitas opções (aparência de liberdade), mas enfraquece valores (redução da real liberdade). Carlos vive em busca da liberdade ilusória, afastando-se da liberdade substancial. Daí nunca escapar de sua prisão circular: “Recomeçar, mil vezes recomeçar, recomeçar de novo, recomeçar sempre, recomeçar…”



Filme Nota 5 (escala de 1 a 5)

 
 

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