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Sergei Eisenstein (1898-1948)

  • Foto do escritor: Cultura Animi
    Cultura Animi
  • há 1 dia
  • 5 min de leitura

Now why should the cinema follow the forms of theater and painting rather than the methodology of language, which allows wholly new concepts of ideas to arise from the combination of two concrete denotations of two concrete objects?” – Sergei Eisenstein prostituindo o cinema com a dialética marxista



Os primeiros filmes de Eisenstein são a base de sua reputação e obras-chave na relação incômoda entre arte e propaganda. Dentro da Rússia, fizeram de Eisenstein um dos artistas soviéticos mais honrados; enquanto no exterior, ele foi aclamado por intelectuais radicais como o modelo de diretor criativo que envergonharia os que denominavam talentos prostituídos por terem se submetido ao cinema comercial, ou seja, por não professarem ideologia revolucionária em seus trabalhos.


O argumento daqueles primeiros filmes é tolo e, em última análise, desumano – as máquinas políticas reais nunca correspondem à pureza de sua propaganda. A atitude soviética em relação à arte era tão estreita e totalitária quanto sua história política demonstrou. As confusas teorias sobre cinema de Eisenstein produziram apenas uma teatralidade visual demoníaca e barroca.


Suas edições contradiziam o processo pelo qual um filme impacta seu público, privando-o da oportunidade de viver o que está acontecendo na tela como se fosse a sua própria vida, relacionando a suas próprias experiências com o que está sendo exibido.


A excessiva manipulação ideológica e falta de sutileza emocional resultam num formalismo que sacrifica a sensação de realidade em nome da ideologia – impedindo uma experiência mais orgânica e contemplativa do tempo e da realidade.


Fato é que Eisenstein pouco agregou a base teórica do cinema, desaparecendo sob a sobra de Griffith, Fritz Lang, ou F.W. Murnau. Eisenstein apenas teorizou e praticou a edição como instrumento de manipulação ideológico, afastando-se do objetivo da arte em enriquecer nossas almas promovendo a Verdade, Beleza e Bondade, ou nos horrorizando com seus opostos.


Seguem comentários sobre seus filmes mais conhecidos:


Strike (1925): Operários entram em greve na Rússia pré-revolucionária de 1903. Primeiro longa-metragem do diretor, ainda experimental (gimmicks desnecessários), menos polido, e com problemas na linha narrativa, mas já despudoradamente panfletário. Interessante observar como as imagens mostram uma imaginação inflamada e um diretor tão obcecado por Freud quanto por Marx – o tratamento de Eisenstein à violência é sempre participativo (o espectador é forçado a completar o significado através de colisões de imagens – trabalhadores massacrados & boi abatido – como uma forma de excitação traumática freudiana na identificação com a vítima coletiva) e masoquista (exige que o espectador sofra junto – edição que fragmenta o corpo, desumanização, e provocação de repulsa e empatia – evocando masochismo moral freudiano do prazer derivado da humilhação (submissão a uma autoridade cruel), mas com a promessa de redenção (revolução)).


Battleship Potemkin (1925): No meio da Revolução Russa de 1905, a tripulação do encouraçado Potemkin amotinou-se contra o regime dos oficiais do navio, sendo que a manifestação de rua resultante em Odessa teria provocado um massacre policial. Encomendado pelo governo soviético para comemorar os 20 anos da Revolução de 1905, o filme é descarada propaganda revolucionária. As personagens são manipuladas (os marinheiros e o povo são heróis coletivos idealizados, os oficiais e o czarismo são vilões caricaturais) descaracterizando a complexidade humana – os indivíduos são meros símbolos, tornando o filme emocionalmente vazio. Como toda obra panfletária a falta de acurácia histórica é significativa: o massacre nas escadarias de Odessa foi inventado por Eisenstein para impacto dramático, assim como o final otimista no qual a frota tsarista se recusa a atacar e aplaude os rebeldes, pois na realidade, o Potemkin fugiu para a Romênia, e o motim não se espalhou como o filme sugere.


October (1928): Visão idealizada dos acontecimentos de 1917 na Rússia quando a monarquia foi derrubada. O filme foi encomendado para celebrar os dez anos da Revolução de Outubro, mas Eisenstein exagerou na sua edição dialética tornando o filme pouco acessível às massas (e.g. comparação de Kerensky com Napoleão e com um pavão mecânico), gerando críticas até das autoridades soviéticas. October exemplifica o controle político das artes no regime comunista: originalmente filmado com destaque aos discursos de Trotsky, suas cenas foram cortadas na edição final depois que a autofagia do partido expulso-o do país. A invasão do Palácio de Inverno também é eivada de falsificação histórica.


¡Que Viva Mexico! (1932): Projeto inacabado que pretendia fazer um retrato épico, poético e dialético da história, cultura e espírito do povo mexicano, estruturado em episódios que seguem uma linha evolutiva da civilização mexicana. O empreendimento foi patrocinado pelo romancista Upton Sinclair. Mais de 100.000 pés de filme foram rodados antes que Sinclair se decepcionasse com a falta de profissionalismo do russo e a vida sórdida que levava no México (homossexual, Eisenstein tinha relações com jovens locais). A filmagem sobrevivente revela Eisenstein como um decadente flamejante – cada vez mais preocupado com o exótico, e buscando uma iconografia da morbidez mexicana.


Alexander Nevsky (1938): História de como um grande príncipe russo liderou um exército desorganizado para combater uma força invasora de cavaleiros teutônicos. A história de Alexander Nevsky e a batalha sobre o lago Peipus em 1242 foi resgatada como instrumento de propaganda em diferentes níveis: ataque contra a Igreja, levante dos camponeses incluindo envolvimento de mulheres na frente de batalha, banimento dos “burgueses”, e propaganda antigermânica já pensando na estratégia stalinista conhecida como Icebreaker (ver livro homônimo de Viktor Suvorov). Em meio a tantos objetivos panfletários perde força um importante elemento cultural russo representado naquele evento histórico: na hora do desespero o povo entrega-se a um líder com força para prometer paz e liberdade, remetendo ao mito fundador russo (no século IX as aldeias locais entregaram-se aos vikings – referidos como rus’ (aquele que rema) – dando início ao que viria a ser a federação Kievan Rus).


Ivan, the Terrible (1944-47): Durante o início de seu reinado, Ivan, o Terrível, enfrenta a traição da aristocracia e até mesmo de seus amigos mais próximos enquanto busca unir o povo russo. Posteriormente ele tenta consolidar o seu poder estabelecendo um exército pessoal, enquanto os seus rivais políticos, os boiardos russos, conspiram para assassiná-lo. O filme apresenta outro momento crucial na história russa: declaração do primeiro Czar (César) representante da Terceira Roma (após a queda de Roma e Constantinopla) legitimada pelo casamento com uma herdeira do Império Bizantino (adoção da cultura bizantina – alfabeto, arquitetura, símbolos (e.g. águia de duas cabeças), etc). Ivan é bem menos panfletário que Alexander Nevsky, e, por isso mesmo, um filme superior a este. Filmado nos anos 40 como uma trilogia, a exibição do segundo filme foi suspensa por Stalin, sendo liberada somente após a morte deste (o terceiro filme nunca foi terminado). Stalin abortou o projeto por não atender seus objetivos propagandísticos. É a realização mais ornamentada de Eisenstein, com os atores reduzidos a gárgulas gesticulantes, seus corpos subordinados às suas formas visuais exageradas, elas próprias uma mistura doentia de iconografia e melodrama. O diretor parece fazer uma reflexão crítica sobre o poder absoluto, a paranoia, a solidão do líder e as consequências devastadoras da tirania.

©2019 by Cultura Animi

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