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Steven Spielberg (1946– )

  • há 1 dia
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“A lot of the films I’ve made probably could have worked just as well 50 years ago, and that’s just because I have a lot of old-fashion values.” – Steven Spielberg



Um dos diretores mais famosos de Hollywood, Steven Spielberg tem uma noção intuitiva dos desejos, esperanças e medos do público. Essa percepção, sua habilidade inata como contador de histórias e extraordinária proficiência técnica resultou em uma série de filmes altamente entretidos que arrastou multidões aos cinemas. Porém, seu tino comercial não é infalível, acumulando também filmes menores ao longo de sua carreira de mais de cinco décadas.


Steven Spielberg, junto com o colaborador ocasional George Lucas, é amplamente creditado por resgatar o cinema americano da crise comercial da década de 1960. Muito disto deve-se ao seu foco em entreter o público, deixando de lado a então predominante tendência a fazer o dito "cinema engajado", um eufemismo para propaganda de ideologias totalitárias disfarçado de arte – daí o diretor ter tido tanto sucesso com a audiência enquanto era taxado de "comercial" pela crítica "engajada".


Seguem anotações sobre seus filmes mais impactantes:


Duel (1971): Um viajante de negócios é perseguido e aterrorizado pelo motorista malévolo de um enorme caminhão. Baseado no conto homônimo de Richard Matheson que viveu experiência semelhante à da personagem David do filme. Produzido originalmente para a TV, Duel fez sucesso na Europa e tornou-se um cult em função do impressionante domínio técnico exibido por um diretor tão jovem. Mas o real atrativo do filme é a transformação de David de um homem submisso e reativo a um ativo que toma a iniciativa. O mundo não é um lugar seguro como a vida moderna quer aparentar, pois o mal espreita e pode aparecer do nada, como naquela estrada num dia ensolarado. No início David é o retrato do emasculado homem moderno, mas ao final, diante da eminente morte, desperta e decide enfrentar seu algoz. Será que a presente sociedade vai esperar ter a morte diante de si para despertar? Terá a mesma sorte de David ou será tarde de mais?


Jaws (1975): Um enorme tubarão assassino desencadeia o caos numa comunidade de veraneio, e cabe ao chefe da polícia local, a um biólogo marinho e a um velho marinheiro caçar o animal. Inspirado no romance homônimo de Peter Benchley. A narrativa lembra a peça Um Inimigo do Povo de Ibsen, sendo que no filme o chefe de polícia assume uma postura heroica, e não nietzschiana como o protagonista ibseniano Thomas Stockmann. Diante de uma ameaça primordial que rompe a vida civilizada só mesmo a masculinidade e o sacrifício podem superar o desafio: homens enfrentado o desconhecido, encarando a morte, e transformando a rivalidade em cooperação. Spielberg constrói o filme com economia dramática, clareza narrativa, ritmo, personagens com dimensão, e um suspense hitchcockiano que mais sugere do que exibi. O sucesso foi estrondoso, criando (junto com Star Wars) a cultura do blockbuster de verão. Destaque para a trilha sonora de John Williams.


Close Encounters of the Third Kind (1977): Um eletricista de Indiana (interpretado por Richard Dreyfuss) vê sua vida cotidiana virada de ponta-cabeça após um encontro com um OVNI, estimulando-o a uma obsessiva busca por respostas pelo país à medida que um evento importante se aproxima. Atraente sci-fi que transmitia assombro, esperança e transcendência, em contraste com o cinismo típico da Nova Hollywood dos anos 1970. O ritmo peca um pouco no início, o sentimentalismo do diretor é algo infantil, e a ideia do protagonista abandonar a família é negativa, mas o final – uma espécie de liturgia secular da curiosidade humana e da comunicação universal – mais que compensa estes tropeços.


Raiders of the Lost Ark (1981): Em 1936, o arqueólogo Indiana Jones (interpretado por Harrison Ford) é encarregado pela Inteligência do Exército a localizar um artefato lendário (a Arca da Aliança) antes que os nazistas o façam. Spielberg inspira-se nos seriados clássicos de aventura dos anos 1930 e 1940 para recuperar do espírito de aventura hollywoodiana, com forte senso moral, heroísmo masculino tradicional e respeito pela tradição narrativa. As sequências de ação em cenários impactantes são entretenimento garantido. Spielberg ainda realizou mais três filmes com a icônica personagens, porém com decrescente qualidade: Indiana Jones and the Temple of Doom (1984). Indiana Jones and the Last Cruzade (1989), Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull (2008).


E.T. The Extra-Terrestrial (1982): Uma criança problemática reúne coragem para ajudar um alienígena amigável a escapar da Terra e retornar ao seu planeta natal. Neste conto-de-fadas moderno, Spielberg faz uma ode à imaginação infantil enquanto celebra a lealdade e a amizade, e recupera a sensação de maravilhamento. Grande virtuosismo formal no uso da câmera na altura das crianças, na narrativa visual quase sem esforço, e na habilidade de criar um mito contemporâneo. Moralmente, o filme acerta em criticar a tecnocracia representada pelos cientistas e burocratas, mas falha ao representar todos os adultos como incompetentes ou ameaçadores.


Jurassic Park (1993): Um industrial convida alguns especialistas para visitar seu parque temático de dinossauros clonados. Roteiro baseado no romance homônimo de Michael Crichton. Após uma falha de energia, as criaturas ficam soltas, colocando a vida de todos, inclusive a de seus netos, em perigo. O diretor acerta a mão novamente explorando a inocência infantil, desta vez adicionando deslumbramento tecnológico, mas não sem uma advertência moral sobre arrogância científica – “your scientists were so preoccupied with whether they could, they didn’t stop to think if they should”. Spielberg também dirigiu uma meritosa continuação: The Lost World: Jurassic Park (1997).


Schindler’s List (1993): Na Polônia ocupada pela Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, o industrial Oskar Schindler gradualmente fica preocupado com a sua força de trabalho judaica depois de testemunhar a sua perseguição pelos nazistas. Importante sempre manter presente na memória os horrores que as ideologias coletivistas como comunismo, nazismo, socialismo e fascismo produziram ao longo da história. Reviver romanceadamente o episódio de Schindler na II GG contribui para conservar este perigo no nosso imaginário apesar do enfoque nas histórias pessoais, sem abordar o aspecto político. A narrativa ainda reafirma que indivíduos podem escolher o bem mesmo dentro de sistemas corruptos, pois a dignidade humana transcende ideologias, e que a redenção moral sempre é possível. Seria melhor se não forçasse na exploração sentimental, pois o evento em si já produzia tal efeito. A mudança de temática, abordando temas mais sérios, também valeu os primeiros prêmios Oscar de melhor filme e diretor a Spielberg.


Saving Private Ryan (1998): Após os desembarques na Normandia, um grupo de soldados norte-americanos vai atrás das linhas inimigas para resgatar um pára-quedista cujos irmãos foram mortos em combate. História original inspirada em relatos históricos. Produção profundamente patriótica, moralmente grave, e historicamente importante ao mostrava o horror real da guerra sem cair em niilismo antiamericano. A história faz uma crítica indireta ao individualismo hedonista contemporâneo, mostrando os soldados da Segunda Guerra como homens formados por dever, honra, disciplina, e espírito de sacrifício. Não é um filme sobre heróis perfeitos, mas sobre escolhas humanas. Destaque para a intensidade visceral na sequência do desembarque em Omaha Beach no Dia D. Valeu o segundo Oscar de melhor diretor para Spielberg.


A.I. Artificial Intelligence (2001): Um menino robótico altamente avançado (interpretado por Haley Joel Osment) deseja se tornar “real” para poder reconquistar o amor de sua mãe humana. Inspirado no conto Supertoys Last All Summer Long de Braisn Aldiss. Projeto herdado de Stanley Kubrick com quem Spielberg trabalhou até a morte de Kubrick em 1999. Um conto futurista sombrio e melancólico que reconhece o amor como uma necessidade ontológica. Como já fizera em Jurassic Park (1993), Spielberg adverte contra a arrogância científica, desta vez mirando na engenharia social, na artificialização da vida, e na pretensão humana de substituir vínculos naturais por tecnologia.


Minority Report (2002): O chefe (interpretado por Tom Cruise) de uma unidade policial que pode prever e prevenir crimes com precisão foge ao ser acusado de um futuro assassinato. Baseado no conto homônimo de Philip K. Dick. Thriller futurista que diverte sem deixar de fazer uma reflexão profunda sobre livre-arbítrio, determinismo e poder político. O conto de Dick publicado em 1956 anteviu o crescente estado de vigilância permanente, policiamento preditivo, algoritmos decidindo comportamento humano, ea justificando controle em nome da segurança por parte do Estado.

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