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Penca de Filmes dos Anos 1900-40

  • Foto do escritor: Cultura Animi
    Cultura Animi
  • 30 de dez. de 1949
  • 9 min de leitura

Atualizado: há 4 dias


Seguem curtas anotações sobre alguns filmes lançados nos anos 1900-1940 (notas dos filmes entre parênteses – escala de 1 a 5):


The Fountainhead (1949): Um arquitecto intransigente e visionário luta para manter a sua integridade e individualismo, apesar das pressões pessoais, profissionais e económicas para se conformar aos padrões populares. Propaganda da ideologia de Ayn Rand. A posição de Rand não busca o equilíbrio da natural tensão entre indivíduo e coletivo. Arquiteto (interpretado por Gary Cooper) quer implementar estilo próprio em seus edifícios, sem entender que a cidade também tem que ter um estilo e se cada um faz o que quer acaba como a horrenda São Paulo. Dirigido por King Vidor. (2)


Call Northside 777 (1948): Repórter de Chicago reabre um caso de assassinato ocorrido há uma década. Baseado em história verídica de como um jornalista (interpretado por James Steward) e seu editor provaram a inocência de dois acusados de matar um policial. Honesta e engenhoso, o filme foi filmado, em sua maior parte, nos cenários de Chicago onde os eventos reais ocorreram. Uma recordação de que já houve jornalismo investigativo que buscava a verdade. (3)


Born to Kill (1947): Divorciada calculista arrisca suas chances de riqueza e segurança com um homem que ela não ama ao se envolver com um psicopata impetuoso. Baseado no romance Deadlier Than the Male (1942) de James Gunn. Dirigido por Robert Wise, Born to Kill é um dos filmes noir mais amargos, com quase todas personagens detestáveis. Difícil de assistir, mas, ainda assim, eficaz e atraente. (4)


Dark Passage (1947): Homem (interpretado por Humphrey Bogart) condenado por assassinar sua esposa escapa da prisão e trabalha com uma mulher (interpretada por Lauren Bacall) para tentar provar sua inocência. Thriller estranho e atmosférico, com São Francisco como cenário, adaptado do romance homônimo de David Goodis. (3)


Miracle at 34th Street (1947): Um clássico de Natal. Depois que uma mãe divorciada de Nova York contrata um velho simpático para fazer o papel de Papai Noel na Macy's, ela fica surpresa com a afirmação dele de ser o bom velhinho em pessoa. Quando sua sanidade é questionada, um advogado o defende no tribunal, argumentando que ele não está enganado. O filme enfatiza a importância da família e que bens intangíveis como amor, esperança e confiança são mais importantes do que dinheiro. Engraçado e cativante, também aborda o crescente consumismo no pós-guerra. (5)


A Song to Remember (1945): História de Chopin com foco no romance do compositor com a escritora George Sand. Exageradamente romanceado, mas com duas cenas marcantes: o primeiro encontro de Chopin com Franz Liszt, e George Sand levando um candelabro pelo salão escuro e colocando-o sobre o piano para revelar Chopin como o pianista, em vez de Franz Liszt. (2)


Detour (1945): A vida de um pianista de uma boate nova-iorquina, se transforma em um pesadelo quando ele decide pegar carona até Los Angeles para visitar a namorada. Você pensa que este é o sujeito mais azarado do mundo até escutar a última frase explicando o sentido de destino. (3)


The Body Snatcher (1945): Médico implacável e seu jovem assistente são assediados por seu fornecedor de cadáveres ilegais (interpretado por Boris Karloff). Baseado em um conto de Robert Louis Stevenson. Interessante narrativa explorando a ética científica, apontando que a ciência deve respeitar os limites morais – postura atualmente cada vez mais abandonada –, e como sem modelos éticos fortes, o mal se transmite à próxima geração. Mais uma bela produção de Val Lewton, dirigida por um ainda iniciante Robert Wise. Grande atuação de Boris Karloff. A sentença final atribuída a Hipócrates é fictícia, e vai de encontro ao pensamento do médico grego que jurava se preservar “de toda injustiça voluntária e de toda corrupção”. (3)


Arsenic and Old Lace (1944): Escritor de livros sobre a futilidade do casamento (interpretado por Cary Grant) arrisca sua reputação depois de decidir se casar. As coisas ficam complicadas quando ele descobre que suas queridas tias solteiras são serial killers. Clássico exemplo de farsa onde tudo é um meio-tom acima – exagero de gestos, vozes, expressões e situações acentuam o surreal, o passional, o absurdo. Um filme de Frank Capra que envelheceu mal. (2)


Gaslight (1944): Clássico thriller de George Cukor. Marido (interpretado por Charles Boyer) tenta enlouquecer a esposa (interpretada por Ingrid Bergman) enquanto procura por joias escondidas. Muitos anos após o lançamento do filme, seu título popularizou-se em um termo (gaslight ou gaslighting) para designar uma forma de abuso psicológico em que informações são manipuladas até que a vítima não consiga mais acreditar na própria percepção da realidade. (4)


Murder, My Sweet (1944): Contratado para encontrar a ex-namorada de um ex-presidiário, Philip Marlowe (interpretado por Dick Powell) cai em uma complexa rede de mistério e engodo. Adaptação do romance Farewell, My Lovely de Raymond Chandler dirigida por Edward Dmytryk (1908-1999). Primeiro filme a trazer Marlowe para a tela. Powell, anteriormente conhecido por musicais, surpreendeu o público com um retrato fiel do abusado detetive, tendo o reconhecimento do próprio Chandler. Uma aula de noir em tom e visual. (4)


The Leopard Man (1943): Leopardo domesticado, usado para um golpe publicitário, escapa e mata uma jovem, espalhando o pânico em uma pacata cidade do Novo México. Terceiro filme dirigido pelo diretor Jacques Toureur com produção de Val Lewton, porém inferior aos dois anteriores. Mas é inovador em sua estrutura não-linear, seguindo personagens que parecem ser protagonistas, apenas para deixá-las para trás por longos períodos à medida que mudamos para outras personagens, algo que seria usado mais tarde por Hitchcock em Psycho e Tarantino em Pulp Fiction. Destaque para bola equilibrada sobre a fonte de água como metáfora para a trágica condição humana, e para a cena da primeira morte onde o terror é apenas sugerido através do som e na imaginação do espectador – Tourneur era um especialista em transforma roteiros fracos com orçamentos irrisórios em algo interessante através da sugestão em vez de efeitos explícitos. (3)


The Seventh Victim (1943): Mulher em busca de sua irmã desaparecida depara-se com um culto satânico (Paladistas) em Greenwich Village, em Nova York. Um dos melhores da série de filmes de terror produzidos por Val Lewton para a RKO nos anos 1940. A narrativa é uma dolorosa meditação sobre o vazio existencial (simbolizado pelo grupo satânico) que leva ao afastamento de Deus e a morte. Grandes cenas finais com os protagonistas recitando linhas do Pai Nosso como afirmação dos valores de luz, perdão e conexão humana contra o abismo niilista dos Paladistas, e o confronto da tuberculosa apegada ao desejo de viver com a fatal depressão da irmã desaparecida. (4)


This Gun for Hire (1942): Assassino de aluguel Philip Raven (interpretado por Alan Ladd em seu primeiro papel de destaque) fica furioso quando seu último trabalho é pago com notas marcadas. Baseado no romance A Gun for Sales de Graham Greene. Ladd captura o espírito niilista da personagem de Greene e catapultou sua carreira neste excelente thriller dirigido por Frank Tuttle – notar o esforço propagandístico em alertar o público sobre traidores infiltrados nos EUA durante a Segunda Grande Guerra. Destaque também para Veronica Lake que subverte a femme fatale guiando o assassino para sua redenção. Um clássico noir. (5)


The Hunchback of Notre Dame (1939): Na França do século XV, uma jovem cigana é acusada de assassinato pelo apaixonado Chefe de Justiça, e apenas o sineiro deformado da Catedral de Notre Dame pode salvá-la. O filme dá ênfase naquilo que a obra de Victor Hugo tem de pior, i.e. um extravagante panfleto revolucionário. Vale apenas pela atuação paradigmática de Charles Laughton e para testemunhar a primeira produção americana de Maureen O’Hara. (2)


Lost Horizont (1937): Frank Capra traz para a tela o bestseller de James Hilton publicado em 1933 sobre a utopia do paraíso terrestre. Lost Horizon é uma história de lugar e tempo que, para desgosto dos personagens principais, os prende à realidade que já conhecem ou os entrega a um mundo encantador, pronto para a autorreflexão. Para marcar o limiar entre o deserto onde nada pode viver e a utopia onde a vida pode ser vivida como deveria ser vivida, Capra coloca um simples poste de madeira. O poste é uma metáfora para a adoção da autorreflexão existencial que pode levar ao autoconhecimento, uma seta que aponta para a possibilidade de cultivar reverência e admiração, e a hierarquia de estar aprisionado dentro das contingências do aqui e agora. (3)


The Crime of Monsieur Lange (1936): O chefe de uma editora é um mulherengo e um idiota, mas o que aconteceria se ele desaparecesse repentinamente? Panfletária contribuição do diretor Jean Renoir à Frente Popular da França na qual militava. Não há disfarces: um empresário inescrupuloso versus os operários santificados que formam uma cooperativa. Sobram farpas também para o Catolicismo... pacote militante completo. Salva-se apenas alguns belos trabalhos de câmera, e os olhos da atriz Nadia Sibirskaïa. (2)


The Bride of Frankenstein (1935): Henry Frankenstein, instigado por um cientista ainda mais louco, constrói uma companheira para seu monstro. O diretor James Whale e o protagonista Boris Karloff voltam nesta sequência do filme de 1931 que dá mais destaque à criatura do que ao seu criador, mantendo a mensagem anti-prometeica do filme anterior e adicionando uma boa dose de humor. Um clássico que junto ao original formou o imaginário visual da narrativa, mesmo que afastado do romance. (2)


Triumph of the Will (1935): Filme de propaganda do comício do Partido Nazista em 1934 em Nuremberg, Alemanha. Lendário documentário nazista realizado por Leni Riefenstahl. Uma aula de direção de propagada política e registro de eventos públicos. Valor histórico. (3)


The Invisible Man (1933): Cientista encontra uma maneira de se tornar invisível, mas, ao fazê-lo, torna-se mortalmente insano. Baseado no romance homônimo de H.G. Wells publicado em 1897. Mais um da famosa série de filmes de horror da Universal no início dos anos 1930. A narrativa aborda os danos da ciência sem ética, a força corruptora do poder, e, indiretamente, também funciona como uma metáfora da hodierna alienação social e seus consequentes riscos de perda das conexões humana. Dirigido por James Whale, o mesmo dos filmes sobre Frankesntein. Destaque para a atriz Una O'Connor com a impagável histérica dona da estalagem. e os bem realizados efeitos visuais até para os padrões atuais. (4)


Shanghai Express (1932): Mulher famosa viaja de trem em uma situação perigosa com um capitão britânico que ela amava. A mensagem é interessante: amor sem fé não tem valor. Dirigido por Josef von Sternberg, este filme tem estilo – uma fusão de pecado, glamour, descaramento, arte e senso de humor. Mas peca no abuso do clichê da prostituta (interpretada por Marlene Dietrich) com coração de ouro. (3)


The Mummy (1932): Múmia egípcia ressuscitada (interpretada por Boris Karloff) procura no Cairo a mulher que ele acredita ser sua princesa há muito perdida. A Universal continuava a capitalizar no sucesso de Drácula (1931) e Frankestein (1931), alçando Karloff, desconhecido até interpretar o monstro em Frankestein, ao estrelato. A descoberta da tumba do faraó Tutancâmon em 1922 e a suposta maldição que ela continha inspiraram o estúdio a realizar este filme. É um romance gótico sobrenatural com tema egípcio que entretém por sua atmosfera. Primeiro longa-metragem apresentando uma múmia ressuscitada, estabelecendo o arquétipo que perdura até hoje. Destaque para a maquiagem de Jack Pierce criada para Karloff, e seus olhos brilhando com uma ameaça sobrenatural. Dirigido por Karl Freund. (4)


Dracula (1931): Conde Drácula subjuga um ingênuo corretor de imóveis à sua vontade e depois fixa residência em uma propriedade em Londres, onde dorme em seu caixão durante o dia e procura vítimas à noite. Dirigido por Tod Browning e estrelado por Bela Lugosi, é baseado no romance de Bram Stoker, publicado em 1897, mas foi inspirado principalmente na adaptação teatral de 1924 (adaptada por Hamilton Deane e revisada por John L. Balderston para Broadway em 1927). O sucesso do filme não só salvou a Universal Pictures da falência como deu início ao ciclo de filmes de horror do estúdio (conhecido como Universal Monsters): Frankenstein (1931), The Mummy (1932), The Invisible Man (1933) e Bride of Frankenstein (1935). Clássico do cinema de horror com atmosfera gótica influenciada pelo expressionismo alemão e grandes atuações de Bela Lugosi e Dwight Frye (como o corretor de imóveis Renfield). (4)


Frankenstein (1931): Dr. Henry Frankenstein está obcecado em criar um ser vivo a partir de partes de cadáveres exumados. O inesperado sucesso de Dracula (1931) fez com que a Universal corressem com a produção de mais um filme de horror repetindo a fórmula daquele: baseado num clássico da literatura (Frankenstein (1818) de Mary Shelley) e sua adaptação teatral (de Peggy Webling, revisada por John L. Balderston – o mesmo roteirista que adaptou Drácula para os palcos americanos), e cinematografia gótica emprestada do expressionismo alemão. Dirigido por James Whale e estrelado por Boris Karloff, o filme não esconde os defeitos de uma produção açodada: erros de continuidade, furos no roteiro e inconsistências narrativas. Mas foi sucesso de público (maior bilheteria do ano) e tornou-se um clássico do horror, estabelecendo a figura icônica do monstro (bem diferente da descrição no romance) graças a maquiagem revolucionária de Jack Pierce e a atuação de Boris Karloff (o filme impulsionou sua carreira). Esta versão deixa de fora muitos elementos do romance, mas mantém o principal: a insanidade prometeica do homem moderno. (2)


Cabiria (1914): A personagem Cabiria é uma criança romana quando a sua casa é destruída durante a erupção de um vulcão. Vendida em Cartago para ser sacrificada em um templo, ela é salva por Fúlvio, um espião romano. Mas o perigo espreita e o ódio entre Roma e Cartago só pode levar à guerra. Primeiro grande épico do cinema em inovadora superprodução (e.g. primeiro uso de câmara móvel). Valor histórico – apenas para aficionados. (3)

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