Agnès Varda (1928-2019)
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“I'm not interested in seeing a film just made by a woman – not unless she is looking for new images.” – Agnès Varda
A belga Agnès Varda foi uma fotojornalista bem-sucedida que soube transferir seu talento visual para o cinema, sendo a única representante feminina da Nouvelle Vague. Ela é conhecida por sua abordagem mesclando ficção, documentário e elementos autobiográficos com temática eminentemente feminista – um cinema pessoal, ensaístico e ideologizado.
A beleza estética de seus filmes não compensam seu ardor feminista, tornando-os fantasias elegantes que carecem de uma perspectiva humana.
Seguem comentários sobre alguns de seus trabalhos mais aclamados pela intelligentsia:
Cléo from 5 to 7 (1962): Acompanhamos em tempo real Cléo, uma cantora fútil e hipocondríaca, preocupada com a possibilidade de ter câncer enquanto aguarda os resultados dos exames do médico. É considerado um clássico da Nouvelle Vague explorando temas de mortalidade e identidade feminina. Mas os diálogos são quase pueris, e a transformação da superficial personagem principal ao final do filme, por mais positiva que seja (aceitação da finitude), carece de motivação. A fama do filme fica mesmo devida à sua forma. Não que esta seja particularmente atraente, mas em função dos rompimentos com as narrativas clássicas e particularidades da indústria cinematográfica característicos da Nouvelle Vague. E isto é pouco para fazer do filme um real clássico, já que aquelas características, então consideradas inovantes, logo tornaram-se triviais, tornando o filme banal e desinteressante por falta de sustentação narrativa. Vale também lembrar que as "inovações" de Varda já tinha aparecido antes em filmes de diretores como Orson Welles. Alfred Hitchcock, Howard Hawks, Jean Rouch, e Roberto Rossellini. Enfim, Cléo from 5 to 7 talvez sirva apenas como registro da pequenez existencial do zeitgeist parisiense dos anos 60.
Le Bonheur (1965): Jovem carpinteiro vive uma vida feliz e descomplicada com a sua esposa e os seus dois filhos pequenos. Um dia ele conhece uma funcionária do correio local com quem inicia um romance. A diretora usa imagens idílicas, cores vibrantes, edição erradia e a música de Mozart para ironicamente atacar a família nuclear e o que ela considera o patriarcado – na cena final, ao som fúnebre de uma peça de Mozart, a família caminha de mãos dada em direção aos recantos sombrios da floresta outonal, simbolizando eu sepultamento. Subversivo, o filme tinha intenção de escandalizar, mas para isto apela a pessoas, situações e diálogos irreais, tornando toda a narrativa tão irresponsável quanto superficial – a "felicidade" construída no filme não passa de um homem de palha para as diabretes revolucionárias da diretora. Ganhou o Leão de Prata em Berlim.
Vagabond (1985): O corpo de uma jovem é encontrado congelado em uma vala. Através de flashbacks e entrevistas ficcionais, misturando ficção e estilo documental, vemos os acontecimentos que levaram à sua morte – retrato fragmentado de uma mulher sem-teto vagando pela França rural. O título original em francês Sans foi ni loi (Sem fé nem lei), faz trocadilho com sans toi (sem você), revelando parte da intenção da diretora com o filme, i.e. questionar a responsabilidade social sobre o destino da protagonista. Mas Varda também divaga sobre a liberdade, fantasiando em como as mulheres baixo o suposto peso patriarcal invejariam a protagonista. A forma artisticamente pretensiosa do filme não esconde seu conteúdo panfletário. A narrativa fragmentada é rasa, carecendo de motivações e maior profundidade psicológica da protagonista, resultando numa personagem abjeta, sendo impossível não estabelecê-la como única responsável por seu fatídico destino. Isto faz com que o contorcionismo de Varda para insuflar sua ideologia na narrativa resulte risível. Mas, naturalmente, a intelligentsia gostou e conferiu-lhe o Leão de Ouro em Veneza.


