Ettore Scola (1931-2016)
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“Il cinema non cambia il mondo ma può farci riflettere.”
– Ettore Scola
Ettore Scola começou como roteirista no início dos anos 1950 e depois passou a fazer filmes ao princípio dos anos 1960. Ele é um dos maiores representantes do gênero commedia all'italiana – o estilo de comédia satírica italiana que mistura humor ácido, crítica social e melancolia profunda – e um dos diretores mais inovadores da geração pós-neorrealista, sendo uma ponte entre o neorrealismo e o cinema autoral dos anos 1970–80.
Comunista de carteirinha, seus filmes apresentam a desilusão dos sonhos utópicos coletivistas e igualitários que permeavam a ala esquerdista da Resistência e do período imediato do pós-guerra (Reconstrução) – uma pessimista sátira interna ao sistema comunista. Scola nunca abandonou o PCI, mas seus filmes acabam revelando uma profunda decepção com sua ideologia e militância.
As inovações de Scola foram híbridas e evolutivas: ele apropriou-se do neorrealismo, da commedia all'italiana e do teatro, adicionando meta-cinema, simbolismo visual e reflexão histórica para criar um cinema popular mas intelectual, cômico mas melancólico – inventividade narrativa e uso de formas variadas para explorar história, memória e política.
Ettore Scola realizou seus filmes mais premiados no curto período entre meados dos anos 1970 e 1980. Seguem comentários sobre os mais conhecidos:
C'eravamo tanto amati (1974): Um épico sentimental e político sobre três amigos da Resistência que se reencontram ao longo de 30 anos na Itália do pós-guerra. Mistura comédia, drama e reflexão sobre o sonho perdido da esquerda italiana. O diretor é implacável com a personagem Gianni (interpretado por Vittorio Gassman) que representaria a burguesia progressista que teria traido os ideais igualitários por conforto material, sendo mais compassivo com Antônio, o proletariado fiel aos ideais mas derrotado na vida cotidiana, e com Nicola, o intelectual de esquerda idealista e frustrado, obcecado pela cultura como ferramenta de transformação. Luciana, objeto de desejo dos três amigos, simboliza o sonho da Reconstrução que se frustraria ao final. Conscientemente ou não, Scola apresentava a inescapável desilusão de todo utopista, e uma meta-reflexão sobre a capacidade do cinema em modificar a realidade. Cinematograficamente o filme apresenta uma estrutura não-linear, usa cores e p&b para diferenciar épocas, quebra a quarta parede, faz uso de dispositivos teatrais para apresentar pensamentos, e é repleto de referências ao cinema italiano – uma overdose de gimmicks que nem sempre funcionam. Destaque para a beleza das cenas na Scalinata di Spagna e na tomada vista de cima da partida de Luciana no caminhão enquanto os três amigos tomam rumos diferentes. Venceu o César de melhor filme estrangeiro.
Brutti, sporchi e cattivi (1976): Sátira grotesca sobre uma família paupérrima vivendo numa favela em Roma. O ator Nino Manfredi brilhar como o patriarca caolho e mesquinho, impagável. Humor negro da maior qualidade na qual Scola abandona a diretriz do partido de sempre representar o pobre como um ser nobre e imaculado. Aqui eles aparecem pérfidos, grotescos e abjetos, ao invés das inocentes vítimas da sociedade representadas no neorrealismo. A narrativa é tão exagerada que não permite nenhuma mensagem, apenas humor. Valeu o prêmio de melhor direção em Cannes para Scola.
Una Giornata Particulare (1977): Dois vizinhos, um jornalista homossexual em vias de ser deportado e uma dona de casa resignada, encontram-se durante a visita de Hitler à Itália, em maio de 1938. Marcello Mastroianni e Sophia Loren interpretam papéis bem diferentes daqueles usuais em suas glamourosas carreiras. Drama intimista, representando uma fugaz comunhão de duas almas, e o quanto o ser humano precisa das relações anímicas para seguir adiante, principalmente nas adversidades. A crítica ao fascismo é simplista e manipulada, mas nem o didatismo com o qual é feita estraga o filme. É a realização de Scola mais aclamada e reconhecida internacionalmente, premiado com o Globo de Ouro.
La Terrazza (1980): Durante um jantar numa esplanada romana, as vidas e experiências de múltiplas personagens entrelaçam-se. Crítica mordaz à intelligentsia de esquerda italiana dos anos 1970-80, com elenco estelar (Trintignant, Mastroianni, Gassman, Tognazzi). Um retrato amargo da hipocrisia dos intelectuais revolucionários, e do inevitável vazio existencial de quem se deixa levar pelos delírios prometeicos de “um novo mundo” e de “um novo homem”. Mas o melancólico diretor não abandonou o autoengano: ao final do filme, sob a chuva simbolizando purificação e renovação, e ele aponta o feminismo e juventude como as novas forças progressistas, renovando o eterno solecismo da revolta da criatura contra o Criador.
Le Ball (1983): Comédia musical acridoce, sem diálogos, que conta meio século da história de Paris (1936–1983) através de um salão de baile – a narrativa é desenvolvida apenas com danças, músicas e figurinos. Adaptação para o cinema de um espetáculo montado por Jean-Claude Penchenat para o Théâtre du Campagnol. Ettore Scola abandona o estilo cômico-dramático e inova neste filme premiado com quatro Césars, incluindo os de melhor filme e direção. Aqui Scola reconhece que a vida é bela, repetitiva e trágica, e que a história não altera a essência humana, mas o formato é demasiadamente estilizado, a representação histórica é superficial, as personagens são estereotipadas e artificiais, e o diretor transpira um antiamericanismo de grêmio estudantil.