Mikio Naruse (1905-1969)
- há 1 dia
- 5 min de leitura

“From the youngest age, I have thought that the world we live in betrays us; this thought still remains with me.” – Mikio Naruse
Mikio Naruse foi um dos diretores japoneses mais prolíficos e talentosos do século XX, contabilizando quase noventa filmes em quatro décadas. Seus filmes mais interessantes foram produzidos nas décadas de 1950 e 1960, a Era de Ouro do cinema japonês.
Neste período Naruse atingiu seu auge criativo como um diretor de filmes quase sempre pessimistas que ecoavam memórias de sua juventude infeliz. Eles normalmente lidavam com a vida cotidiana das pessoas comuns e prestavam atenção especial a condição das mulheres na sociedade japonesa. E eram marcados por um ritmo lento que permitia que suas personagens revelassem sua profundidade psicológica, com gestos sutis revelando sua aceitação dos problemas do cotidiano.
Seus filmes celebram discretamente a vida de pessoas comuns que lutam por algo melhor do que o destino lhes concedeu. Interpretados com calma e assertividade por atores soberbos, filmados e editados com mão segura, eles elevam o comum, e até mesmo o sórdido, a uma qualidade quase sublime. Eles nunca sucumbem a um final feliz, mas mostram, em vez disso, a coragem nobre e persistente de indivíduos enfrentando seguidos obstáculos.
A cinematografia de Naruse consiste em construir um plano muito breve em cima de outro, mas quando você olha para todos eles unidos na edição final, eles dão a impressão de uma única longa tomada. O fluxo é tão bem-feito que as “emendas” ficam invisíveis.
Seguem comentários sobre alguns de seus filmes mais reconhecidos:
Mother (1952): Uma adolescente testemunha a luta de sua mãe viúva (belamente interpretada por Kinuyo Tanaka) em sustentar sua família. Inspirada por uma redação premiada de uma menina sobre o tema Minha Mãe, Mizuki Yoko (roteirista de importantes filmes de Naruse) criou um de seus roteiros mais emocionantes. Nas mãos de um neorrealista italiano, de um diretor francês da Nouvelle Vague ou de um brasileiro do Cinema Novo está seria uma história de miséria e opressão, mas Naruse a faz uma história de amor. Digna ode a maternidade, sem idealização e pieguice.
Late Chrysanthemums (1954): Drama retratando quatro gueixas depois que sua beleza desaparece e elas se aposentam. Baseado em três contos de Fumiko Hayashi. Pungente retrato da desilusão causada pelas expectativas frustradas, filhos que se distanciam e amores perdidos. O mais interessante é observar as diferentes reações das quatro personagens diante da desilusão: endurecimento pragmatismo, resignação passiva, escapismo autodestrutivo e ilusão romântica. É uma visão amarga, mas destaca a imutável natureza humana independente da cultura em seu entorno.
Sound of the Mountain (1954): Jovem esposa (interpretada por Setsuko Hara) desenvolve laços calorosos com seu sogro, enquanto seu marido frio a despreza por outra mulher. Baseado no romance homônimo do autor ganhador do prêmio Nobel Yasunari Kawabata. Magistral exemplo de shomin-geki (dramas sobre a vida cotidiana da classe média-baixa), mostrando as fraturas internas de uma família aparentemente convencional: egoísmo, antipatia verbalizada, adultério, solidão e o peso das expectativas sociais. Notar o contraste da última cena no amplo parque com os ambientes confinados na casa da família, representando a abertura de novas possibilidades para a nora. O roteiro prioriza os sofrimentos da nora, deixando de lado o tema da mortalidade enfatizado no romance. Assim o título “som da montanha” – uma alucinação auditiva recorrente no livro, simbolizando a proximidade da morte – ficou sem sentido. Performance marcante de Setsuko Hara.
Floating Clouds (1955): Drama social ambientado no Japão do pós-guerra sobre uma mulher solitária tentando encontrar propósito e estabilidade em uma Tóquio devastada. Fiel adaptação do romance homônimo de Fumiko Hayashi. Uma visão pessimista do Japão pós-guerra refletindo a desilusão nacional e a amargura da existência em um mundo sem raízes ou promessas, com as pessoas à deriva como nuvens, agarrando-se ao passado porque nada mais resta. Mais do que em qualquer outra obra de Naruse, a forma se torna conteúdo em Floating Clouds. As circunstâncias oscilam como um pêndulo, da pobreza ao conforto, da melancolia à felicidade — e vice-versa. Cada tomada é projetada para transmitir a tristeza imutável do relacionamento do par romântico central. A iluminação é cinzenta e crepuscular. Até o ritmo com que os amantes se arrastam pelas ruas da cidade é fúnebre, sempre se abrigando do frio. A chuva cai enquanto discutem. Os locais, como sempre em Naruse, contribuem vividamente para o drama, seja nas vielas pitorescas e escadas íngremes do resort, nas encostas orientais do Monte Haruna, ou na ilha subtropical de Yakushima. Curiosamente o filme foi lançado no mesmo ano em que teve início o milagre econômico japonês (1955-1973), contrastando o derrotismo do romancista e do diretor com a renovação social que se seguiria. Classificado como o terceiro melhor filme japonês de todos os tempos pela Kinema Junpo, a revista sobre cinema mais antiga e prestigiada do Japão.
Flowing (1956): Dona de uma casa de gueixas reluta em deixar seu negócio mesmo diante do fim daquela tradição. O filme retrata a vida diurna das gueixas quando não estão entretendo seus clientes. Baseado no romance Nagareru de Aya Kōda. Uma elegia ao mundo em extinção das gueixas em paralelo as mudanças sociais e econômicas do pós-guerra destruindo instituições culturais antigas. O melancólico final reflete influências budistas, onde o sofrimento é parte do ciclo da vida, com a iluminação advindo da aceitação cármica.
When a Woman Ascends the Stairs (1960): Recepcionista de bar de meia-idade, constantemente endividada, enfrenta inúmeras restrições sociais e desafios que sua família, clientes e amigos lhe impõem. Belamente filmado à la Ozu com longas tomadas e posicionamento simples de câmera, permitindo apreciar a interação humana e sentir como a vida da protagonista é impactada. Com a escada representando um ciclo sísifo de ascensão diária, a resistência estoica de muitas mulheres japonesas enfrentando humilhações, decepções românticas e isolamento emocional no período do pós-guerra, preservando uma faísca de esperança através da persistência cotidiana. Naruse utiliza narração em voice-over para revelar a tensão interna sob a fachada composta da protagonista, e edição rítmica e close-ups para sublinhar a dinâmica social da indústria do sexo de alto nível. Magistral atuação de Hideko Takamine no papel principal.
Yearning (1964): Depois que um bombardeio destrói a loja da família e seu marido morre na guerra, Reiko (interpretada pela excelente Hideko Takamine) reconstrói e administra a loja por amor. Em meio as profundas transformações econômicas e culturais no período pós-guerra, Naruse apresenta um retrato poético do sofrimento humano, numa narrativa que entrelaça temas existenciais e econômicos, focando na classe média baixa e nas mudanças sociais. Destaque para a cena final e o último close-up.
Scattered Clouds (1967): Homem se apaixona pela viúva de um homem que ele matou em um acidente de carro. Com o tempo, ela também se apaixona por ele. Último filme do diretor, e um dos seus raros trabalhos em cores. Esteticamente o filme se destaca pela paleta de cores terrosas pálidas. Naruse mostra a evolução do relacionamento entre os dois lentamente, marcando visualmente a aproximação das duas personagens por meio de pequenos detalhes de encenação que pontuam uma transformação quase imperceptível. Uma história sobre perda, culpa, amor impossível e as peças que o destino nos prega.


