top of page

Utopia, Messianismo e a Mente Revolucionária

  • há 15 horas
  • 12 min de leitura

A imanentização do escatón.” – Eric Voegelin



O utopista projeta um mundo que não existe na prática e que parece ser melhor do que o mundo verdadeiro. É um mundo inventado. A República de Platão e Utopia de Thomas More são exemplos de utopia colocada como referência para debate, seus autores não acreditavam que fosse possível, e nem queriam impor que o mundo fosse daquele jeito. O utopista entende que é homem e não Deus, entende a hierarquia natural das coisas. O utopismo tende a ser estático e contemplativo.


Porém as utopias são a origem do processo revolucionário, da rebelião metafísica contra a cosmologia reinante, quando seus conceitos são encampados pelos messiânicos.


O messiânico tenta implementar um novo mundo pouco definido. Acreditando estar numa missão benigna – melhorar o mundo – outorga-se o direito de fazer o que quiser. A lei não se aplica a ele pois é a lei do mundo mau atual – o messiânico tenta isentar-se moralmente para escapar do seu tribunal interno. Prometeico, não tem a humildade de entender que o mundo não é perfeito, não tem a humildade de esperar para entender, quer resolver o mundo. Acredita no fim temporal da história. O messianismo é dinâmico, focado no movimento e transformação.


O homem se enfraquece ao idealizar em demasia sua utopia, outorgando-lhe todo o Bem e deixando o Mal para a realidade – dissociação do Bem da Verdade. O messianismo é a síntese do conflito entre a utopia e a realidade, é produto da utopia – a perfeição intramundana é impossível.



Muitos movimentos ideológicos modernos – especialmente os revolucionários e totalizantes – são formas secularizadas de heresia religiosa: tentativas de realizar dentro da história uma salvação que, nas religiões clássicas, pertence ao plano transcendente.


Nas religiões judaico-cristãs tradicionais a perfeição plena não pertence à política, ela não pode ser produzida pelo homem, e não ocorre dentro da história comum. O homem vive numa condição permanente de tensão entre ordem e desordem, finitude e transcendência, bem e mal. A modernidade revolucionária tenta abolir essa tensão, acreditando que o paraíso pode ser construído aqui.É quando a política vira religião secular. As ideologias modernas frequentemente preservam a estrutura psicológica das religiões, mas removem a transcendência – Deus desaparece, mas permanece a promessa de salvação. A salvação passa a ser histórica, política, científica, racial, e/ou econômica. Exemplos:


marxismo → redenção pela revolução proletária;

positivismo → redenção pela ciência;

nazismo → redenção racial;

progressismos radicais → redenção pelo futuro histórico inevitável.


Todas essas ideologias prometem reconciliação final, anunciam um “homem novo”, possuem eleitos e inimigos, e oferecem sentido absoluto da história. É o gnosticismo moderno. Originalmente, o gnosticismo era um conjunto de movimentos religiosos antigos que viam o mundo como profundamente corrompido, e acreditavam possuir um conhecimento secreto salvador (gnosis).


Muitas ideologias modernas reproduzem essa estrutura. Veem o mundo como radicalmente errado, onde a realidade é percebida como intolerável: injustiça, alienação, opressão, corrupção estrutural. Entendem que a origem do mal é identificável. O mal deixa de ser parte permanente da condição humana, e é transferido a algo concreto: burguesia, capitalismo, religião, patriarcado, elite, homem branco, etc. E, naturalmente, os promotores destas ideologias apresentam-se como salvadores por possuir a consciência histórica, o conhecimento da ciência da sociedade, e o domínio da teoria definitiva da emancipação.


Eles conheceriam o fim da história e a redenção final, a política torna-se escatologia pregando o fim das classes, dos conflitos, e da alienação – uma nova humanidade reconciliada. Estas ideologias recusam a condição humana; o problema profundo das utopias revolucionárias é espiritual – revolta metafísica. Elas recusam os limites humanos, nossas imperfeições, mortalidade, ambiguidades morais, e a própria transcendência.


Acreditam poder eliminar a inescapável tensão existencial, os sofrimentos, incertezas e todos os conflitos. Mas isso é impossível, resultando em coerção crescente, expansão do poder político, perseguição de dissidentes, e violência dita purificadora – a realidade resiste inexoravelmente ao paraíso terrestre.


A experiência humana saudável envolve abertura à transcendência, com consciência dos nossos limites, e a humildade metafísica na constante busca da verdade, bondade e beleza.Mas as ideologias totalizantes produzem exatamente o contrário: fechamento dogmático, certeza absoluta, e eliminação do mistério. É o pecado da soberba, a húbris. A alma passa a acreditar que a história já foi compreendida, gerando fanatismo. E o resultado é o totalitarismo, pois se a redenção histórica é certa e o “partido” conhece o caminho, então a oposição torna-se irracional, dissidência vira perversão moral e a coerção torna-se legítima.


Exemplos: Revolução Francesa, Revolução Russa, Nazismo, e Fascismo.


A verdadeira ordem humana exige reconhecer os limites permanentes da condição humana, o inferno político começa quando homens tentam construir o paraíso na história – quando a política promete criar o homem perfeito, ela termina tentando destruir o homem real.



A tentativa de materialização do utopismo é um erro filosófico sobre a natureza da política e do conhecimento humano. O messiânico é um racionalista que acredita que a sociedade pode ser reconstruída segundo princípios abstratos, que a tradição é suspeita, que os costumes são irracionais, e que os problemas humanos possuem soluções técnicas definitivas – vê a política como engenharia. Mas a sociedade não é um objeto fabricável, mas resultado de uma tradição acumulada, de hábitos, práticas e experiências sedimentadas, e arranjos espontâneos.


O racionalista imagina que governar seja aplicar teorias explícitas, mas grande parte do conhecimento humano é implícito, prático e tradicional, apreendido pela experiência – não se aprende apenas por regras abstratas, “governar é como navegar num mar sem porto final”. Mas o messiânico é impaciente, busca coerência e unidade absolutas, o fim de todos os conflitos, demonstrando total desprezo pela realidade humana (tentam remodelar a natureza humana) – temos sempre que desconfiar dos perfeccionistas. A política não é a construção do paraíso, mas a arte de evitar o inferno sem destruir a civilização existente no processo.



Ideologias messiânicas funcionam como religiões seculares, e intelectuais frequentemente aderem a elas como sistemas de salvação – a crença em redenção histórica produz cegueira moral. Utopias tornam-se perigosas quando justificam violência em nome do futuro, pois a política saudável exige moderação, pluralismo e consciência trágica da história – quando a política promete salvação absoluta, ela começa a exigir sacrifícios absolutos.



A tentativa de construir uma sociedade perfeita leva ao autoritarismo porque exige poder ilimitado e conhecimento impossível. Via de regra ela parte do historicismo: a crença de que a história possui leis necessárias, com uma direção inevitável do desenvolvimento humano, sendo que podemos prever o destino histórico da humanidade.


Os expoentes do determinismo histórico são:


  • G. W. F. Hegel (1770-1831): o sentido da história é a justiça do mundo sendo seu ápice o Estado moderno.

  • Auguste Comte (1798-1857): o sentido da história é o conhecimento científico sendo seu ápice o Positivismo.

  • Karl Marx (1818-1883): o sentido da história é a luta de classes sendo seu ápice o Comunismo.


Eles fomentaram o crescimento do Estado de cunho coletivista e pensamento cientificista.

Apesar do absurdo que querer dar um sentido à história antes de conhecer o seu final, o determinismo histórico permitiu a classe intelectual (bramânica) passar do mundo abstrato ao prático, dando vazão ao desejo de poder – criar o mundo ideal (messiânico).


Não existem “leis da história” capazes de prever o futuro, a sociedade é complexa demais para planejamento total. Ninguém possui informação suficiente ou capacidade cognitiva para prever o futuro, quanto mais definir como a história terminará.


A reengenharia social exigida para implementar qualquer destes modelos utópicos sempre exigiria tremenda concentração de poder para impor a unidade social idealizada. E cada vez que o plano falha, o messiânico no poder alega precisar de ainda mais poder – espiral autoritária. O messianismo aprisiona a sociedade em seu dogma ideológico.


Utopias alegam frequentemente ter intenções morais elevadas como justiça, igualdade, paz, e emancipação. Mas justamente por perseguirem fins absolutos acabam tornando-se intolerantes, sacrificando indivíduos concretos em nome de um futuro impossível – o suposto futuro perfeito vale mais que pessoas reais presentes.



O totalitarismo messiânico pode nascer não contra a democracia, mas de uma certa ideia absoluta de democracia que impõe uma única vontade racional verdadeira para direcionar a sociedade para seu destino correto, sendo que a verdadeira liberdade significaria aderir a essa verdade.


Nesta “democracia” a discordância vira erro moral, a oposição torna-se ilegítima, e a censura e coerção passam a ser libertadoras – a convivência entre divergências é extinta em prol da realização de uma verdade política absoluta.


O Iluminismo e a, consequente infame Revolução Francesa, exemplificam esta busca por uma ideia absoluta de democracia. É a vontade geral rousseauniana: moralmente una, racional, indivisível, e necessariamente correta; e quem discorda é alienado e corrompido, precisando ser “forçado a ser livre”. A Revolução Francesa – onde a violência torna-se moralmente purificadora – foi o laboratório do totalitarismo moderno.


Quando a política afirma conhecer a vontade verdadeira da humanidade, toda oposição passa a parecer uma doença a ser curada – o homem concreto sacrificado em nome de construções abstratas.



A filosofia exige consciência da nossa ignorância, reconhecimento da complexidade do mundo, exigindo investigação contínua (aberta) na permanente busca da verdade. Já a ideologia é um sistema fechado, que arroga certeza histórica, propõe uma doutrina simplificadora, e exige mobilização política total.


O utopismo messiânico transforma filosofia em ideologia. E, quando isso acontece, a política deixa de ser prudencial e vira missão histórica, demandado guerra moral absoluta.

A boa sociedade nunca elimina completamente o conflito, nunca cogita realizar a perfeição final, e nunca encerra a busca filosófica. Precisamos retornar à filosofia política clássica, recuperar a discussão sobre o problema permanente da natureza humana, restaurando a prudência e reconhecendo os limites da política – quando a política abandona a pergunta sobre a natureza humana, ela se torna vulnerável a qualquer promessa de redenção histórica absoluta.


Platão e Aristóteles, o direito natural clássico, acreditavam na existência de uma natureza humana, onde a perfeição é limitada, que há de uma ordem objetiva do bem, e que a política deve buscar prudência e moderação. Neles está o antídoto da modernidade e suas fórmulas nocivas, i.e. subjetivismo, historicismo, voluntarismo, e a ideia de progresso ilimitado.



A mente revolucionária substitui experiência concreta por construção ideológica. O revolucionário não parte da realidade observada, mas sim de um esquema abstrato. Tudo é interpretado segundo uma narrativa prévia, os fatos são selecionados ou deturpados conforme a aderência aos modelos pré-fixados. O revolucionário ignora a complexidade do mundo, e reduz as pessoas a categorias ideológicas.


A ideologia funciona como filtro perceptivo, estrutura emocional, e substituto da experiência real – o revolucionário vive num mundo verbal. Ele perde o senso de realidade, sendo incapaz de perceber o concreto, e de separar linguagem de realidade – dissolução da experiência direta. E passa a interpretar tudo politicamente através de abstrações coletivas, repetindo slogans e palavras de ordem.


A mente revolucionária tende a inverter categorias morais tradicionais:


  • vícios podem ser apresentados como virtudes;

  • destruição aparece como libertação;

  • ressentimento aparece como justiça;

  • censura aparece como proteção;

  • manipulação aparece como consciência crítica.


Isso ocorre porque a causa revolucionária torna-se critério supremo do bem – o valor moral dos atos depende de sua utilidade revolucionária. Tudo passa a ser interpretado politicamente: família, religião, arte, linguagem, sexualidade, educação, amizades, etc. Com o tempo a mente revolucionária tende a eliminar esferas não politizadas da vida. Tudo vira luta de poder, opressão estrutural e/ou disputa ideológica – o revolucionário não quer apenas mudar a sociedade, quer substituir a realidade por uma narrativa ideológica total.


Os movimentos revolucionários alteram o significado das palavras, dissolvendo definições estáveis, e substituindo a semântica por ambiguidades emocionais. O termos morais são manipulados: democracia, justiça, fascismo, direitos, inclusão, igualdade, violência perdem seu sentido original e viram expressões emocionais. Esta redefinição contínua da linguagem visa deslocar percepção da realidade, controlar debate público, e desorientar adversários.


No fundo, a mente revolucionária é uma revolta contra a realidade, uma recusa dos limites humanos (rejeição da ordem do ser – revolta metafísica) com o desejo de substituir realidade concreta por construção voluntarista. Por isso a mente revolucionária precisa constantemente reinterpretar fatos, apagar contradições, remodelar linguagem, e controlar a memória histórica – a realidade resiste ao esquema ideológico.


O revolucionário é movido por ressentimento social, incapaz de aceitar sua condição perante os demais. O ressentido transforma esta frustração pessoal em causa histórica, convertendo sofrimento subjetivo em acusação universal, e busca legitimação moral pela militância. E a revolução messiânica oferece identidade, pertencimento, missão, e uma falsa superioridade moral – a militância ideológica funciona como substituto espiritual.


A militância agrava o ressentimento, produzindo paranoia ideológica, dissolução da espontaneidade humana, e destruição da vida interior.


As ideologias revolucionárias de essência messiânica tendem a dissolver individualidade concreta, enfraquecendo a autoconsciência e reduzindo a pessoa a funções coletivas. A pessoa deixa de pensar por experiência própria, e passa a pensar por reflexos ideológicos, gerando conformismo psicológico, dependência grupal, e incapacidade de julgamento autônomo.



O exemplo da mente esquerdista é emblemático. O esquerdismo moderno não é apenas uma ideologia política racional, mas uma loucura política (neurose de transferência massiva). Ele apresenta padrões irracionais de pensamento, emoção, comportamento e relacionamentos que atuam como uma patologia social, projetada nos palcos econômicos, sociais e políticos.


Essa mentalidade surge de deficiências psicológicas relacionadas ao desenvolvimento da personalidade – especialmente uma imaturidade emocional que leva o indivíduo a rejeitar a autonomia adulta e buscar no Estado o papel de protetor onipotente, que supre necessidades, resolve conflitos e elimina responsabilidades pessoais.


Principais características da mente esquerdista são:


  • Psicologia da dependência e vitimização: Ênfase constante em vítimas (pobres, oprimidos, explorados), justificando a intervenção estatal massiva. O indivíduo terceiriza responsabilidade pessoal para o governo, preferindo uma suposta segurança e proteção à liberdade e à autossuficiência.

  • Negação da realidade e utopismo: Busca por uma sociedade perfeita, livre de desigualdades, injustiças e sofrimentos inerentes à condição humana. Isso ignora limites da natureza humana, levando à políticas inviáveis e destrutivas.

  • Infantilismo e regressão: Semelhante a uma criança que não amadureceu, com baixa tolerância à frustração, exigência de gratificação imediata e rejeição de princípios como responsabilidade individual, iniciativa própria e soberania pessoal.

  • Ataques a instituições maduras: Família, religião, livre mercado e tradições são vistos como opressores porque promovem independência. O coletivismo liberal prioriza o Estado sobre o indivíduo, criando dependência e enfraquecendo o desenvolvimento do indivíduo (autonomia, identidade).

  • Contradições lógicas: A agenda esquerdista é auto-contraditória – promete liberdade, mas restringe-a; promove bem-estar, mas mina a responsabilidade que o gera.


O esquerdismo apela a tendências irracionais da mente humana, ameaçando a liberdade civilizada – leva inevitavelmente a governos mais autoritários, ineficientes e à infantilização da sociedade.



Exemplo na literatura:


Em Os Demônios de Fiódor Dostoiévski, Stepan Verkhovensky é utopista e seu filho, Pyotr, é messiânico. A narrativa mostra a passagem de um para o outro e suas consequências.


Raskolnicoff de Crime e Castigo, também de Dostoiévski, apresenta o mecanismo da mentalidade revolucionária.


Rieux de A Pesta de Albert Camus quer fazer os valores cristãos sem Deus, mas os transforma diabolicamente. No cristianismo basta você ser bom, você não precisa resolver o mundo.


Tchitchikov de Almas Mortas de Nikolai Gógol é um ressentido social, o humilhado-ofendido que produzirá as revoluções. Apoia aquele que parece que não humilha e não ofende. Os pequenos têm o sonho de grandeza do poder e provocam as grandes mudanças sociais. As revoluções não são feitas por líderes que têm alguma coisa a perder, mas por um grupo que de alguma maneira está desprestigiado e que tem muito a ganhar com a revolução. Vê na tomada do poder uma oportunidade para solução para a sua baixa autoestima.





Notas


  • Obras relevantes sobre o tema: Eric Voegelin (1901-1985): Political Religions (1938), A Nova Ciência da Política (1952), Science, Politics and Gnosticism (1965) e Order and History (1956-1987). Michael Oakeshott (1901-1990): Racionalism in Politics (1947) e The Politics of Faith and the Politics of Scepticism (1996 – póstumo, escrito nos anos 1950). Raymond Aron (1905-1983): O Ópio dos Intelectuais (1955). Karl Popper (1902-1994): A Miséria do Historicismo (1936) e A Sociedade Aberta e Seus Inimigos (1945). Jacob L. Talmon (1916-1980): The Origins of Totalitarian Democracy (1952). Olavo de Carvalho (1947-2022): O Jardim das Aflições (1995), O Imbecil Coletivo (1996) e A Nova Era e a Revolução Cultural (1994). Lyle H. Rossiter (1937-2019): The Liberal Mind: The Psychological Causes of Political Madness (2006).

  • Escatón vem do grego eschaton: (a) as últimas coisas, (b) o fim da história, (c) a redenção final, (d) o Reino de Deus, e (e) a perfeição definitiva.

  • Em A República, Platão introduz a cidade ideal (kallipolis) como símbolo filosófico, modelo da alma ordenada, e imagem analógica da justiça. A polis funciona como ampliação simbólica da estrutura da alma humana – a verdadeira questão de Platão é espiritual e antropológica, e não tecnocrática. A estrutura da cidade em Platão corresponde à estrutura da psique, as três classes (governantes–guardiões–produtores) simbolizam razão, coragem e apetites – a ordem política exterior reflete a ordem interior da alma. A preocupação central não é engenharia social, mas formação da consciência – Platão combate a desordem espiritual (a desordem da alma produz desordem política) subordinando a política novamente à ordem transcendente do ser.

  • Utopia de Thomas More pertence ao horizonte clássico-cristão, não ao messianismo político moderno – na obra a ordem humana continua subordinada à ordem divina, perfeição política não substitui salvação espiritual, e o homem continua sendo criatura limitada. A cidade ideal de More não pretende abolir a condição humana, eliminar o mal definitivamente, nem instaurar escatologia secular. A obra é parcialmente satírica e irônica, onde More ironiza a política europeia, critica corrupção inglesa, brinca com racionalismos excessivos, e critica a moral da sociedade

  • Nova Atlântida de Francis Bacon e Cidade do Sol de Tommaso de Campanella já apresentam o deslocamento da finalidade humana da contemplação da ordem do ser para o domínio técnico da realidade. Ainda não são obras revolucionárias gnósticas, mas abrem o caminho nesta direção. Em Bacon vemos a mudança do ser ao fazer com que o conhecimento passe a significar poder (“scientia potentia est”) e não mais voltado para a sabedoria e ordenação da alma – transferência da autoridade simbólica da transcendência para a técnica. Já Campanella apresenta vestígios da crise espiritual do fim da Idade Média, começando a buscar a realização histórica da ordem perfeita – a tensão escatológica cristã começa a migrar do transcendente para a organização política terrestre.

  • Algumas infames utopias messiânicas: Do Contrato Social de Jean-Jacques Rousseau, Esboço de um Quadro Histórico dos Progressos do Espírito Humano de Marquês de Condorcet, O Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels, Looking Backward de Edward Bellamy, Walden Two de D. F. Skinner, e A Modern Utopia de H. G. Wells.

  • A Paz Perpétua de Immanuel Kant não chega a ser messiânica, mas influenciou projetos totalitários como a Liga das Nações e sua sucessora ONU.

©2019 by Cultura Animi

    bottom of page