Crime e Castigo de Fiódor Dostoiévski


Personagens Principais Rodion (Ródia) Raskólnikov – estudante na ruína e personagem principal Sófia (Sonia) Marmiedalovna – filha de Semeon, prostituta Porfin Pietróvitch – juiz de instrução Dmitri Razumikhin – amigo de Rodion, estudante

Personagens Secundárias Avdótia (Dúnia) Raskólnikova – irmã de Rodion Pilkhéria Alieksandrovna – mãe de Rodion Piotr Lújin – candidato a cunhado de Rodion e conselheiro florense Arkadi Svidrigáilov – ex-patrão de Dúnia, assediador Aliena Ivánovna – velha usuária e vítima de Rodion Lisavete Ivánovna – vendedora, irmã de Aliena e também vítima de Rodion Semeon Marmieládov – funcionário público alcoólatra Caterina Ivánovna – mulher de Semeon, com quem casou viúva Praskóvia (Páchenka) Pávlovna – senhoria de Rodion Nastácia Pietróvna – empregada da pensão onde mora Rodion

Interpretação O artigo que Raskólnikov escreve para a revista da universidade afirmando que pessoas extraordinárias como Napoleão e Júlio César devem ser subordinadas a um regime diferenciado de leis, que lhes permita fazer coisas que são proibidas aos demais, é a chave de Crime Castigo. Raskólnikov acredita que seu sofrimento lhe dá um direito (prejuízo imaginário), vê um mundo mau que lhe deve uma compensação. Ele se vê como um Napoleão, acredita ser melhor do que os outros e, portanto, deveria ter o direito de roubar e matar a velha usurária para resolver seus problemas. Está aí a semente do pensamento revolucionário: idealizar um mundo pouco definido e inexistente na vida real e buscar implementá-lo acreditando estar numa missão benigna – melhorar o mundo – outorgando-se o direito de fazer o que quiser. As leis não se aplicariam a ele pois são as leis do mundo mau atual. É crítico do mundo e se vê acima dele, como se estivesse fora do mundo, podendo criticá-lo – é a passagem do relativismo ao negativismo, niilismo. Os afligidos deste comportamento messiânico não tem a humildade de esperar para entender o mundo, querem resolver agora, acreditando no fim temporal da história.

O revolucionário messiânico tenta isentar-se moralmente para escapar do seu tribunal interno acreditando ser especial e, portanto, poder fazer as coisas negadas aos demais (pensam que os fins justificam os meios). É uma grande soberba pensar poder viver sem culpa. A culpa é o equivalente psicológico da dor física, é a dor moral que nos alerta que há algo de errado no nosso comportamento. Felizmente Raskólnikov ainda tem consciência moral, ainda sente culpa. Ele não consegue conceber que o tenha cometido aquele crime (desmaia, passa mal ao ouvir do assassinato), sente que cometeu uma vilania inefável. E vai, com a ajuda de Sônia (ao entender que precisa de Sônia (que a ama) percebe que não é superior a ela e ninguém – expulsa a tese de super-homem de sua mente), gradativamente recuperando sua humanidade até a redenção (a mulher traz a redenção do homem). O arrependimento é a única via legítima de recuperação da culpa: assumir seus atos e aceitar as consequências. Para Dostoiévski não há como viver sem dor. Para ele a condição do homem é dolorosa e só através da dor há salvação, a redenção se dá pelo sofrimento.



Pode-se dizer que Rakólnikov tem um conflito noológico, sua alma está em conflito e ele não sabe o que fazer. Raskólnikov é um belo jovem intelectualmente brilhante (excelente estudante), moralmente também é superior à maioria dos demais (está sempre ajudando aos demais e compadece-se das dificuldades de seus semelhantes) e tem um horror estético a pobreza (não consegue nem olhar para seu quarto). Ele questiona o porquê de uma pessoa capaz e boa como ele não poder ajudar os demais como gostaria e revolta-se ao ver tal poder desperdiçado na usurária. Gradualmente (conta os passos até a casa da usurária) ele vai anestesiando sua consciência moral para executar o crime – razão e valores estéticos uniram-se contra os valores morais. Partindo da hipótese abstrata de que as normas não se aplicam a ele (um sopro do diabo em sua mente), pois ele poderia fazer um bem maior eliminando algo que para ele representava um mal, Raskólnikov acaba acreditando que é um erro ele submeter-se as mesmas leis que se aplicam aos demais. Um problema intelectual torna-se noológico. A tese do super-homem associa-se as suas reais qualidades intelectuais e humanas (pensa poder realizar todo o bem ao mundo no futuro) e a mente adormece a consciência moral.

A mente e a consciência moral são aspectos ativos da nossa natureza, já as apreciações estéticas são passivas. Para desviar da consciência moral basta a mente aliar-se aos gostos (são sentimentos alheios a moral) de uma pessoa – um sociopata tem a consciência moral totalmente subjugada. Idealmente estes três elementos psíquicos (mente (cabeça), moral (peito) e sentimentos estéticos ou gostos (estômago)) devem caminhar juntos. A Paidéia grega buscava justamente alinhar os três através do Verdadeiro, do Bom e do Belo.



O maior ensinamento de Crime e Castigo é vacinar-nos contra os discursos que prometem “um novo homem”, “uma nova ordem” ou “uma sociedade mais justa” e que invariavelmente escondem um totalitarismo que cometerá as maiores atrocidades. Obra importante para conhecer o mundo moderno.



Notas

  • Fiódor Dostoiévski (1821-1881) nasceu em Moscou, Rússia. Estreia literariamente em 1846 com Gente Pobre e O Duplo.

  • Principais obras: Crime e Castigo (1866), O Idiota (1868), Os Demônios (1871), Irmãos Karamazov (1878) e Memórias do Subsolo (1864). Outras boas obras de Dostoiévski não incluídas nas Expedições Pelo Mundo da Cultura: Humilhados e Ofendidos (1861) e Recordação da Casa dos Mortos (1855).

  • Memórias do Subsolo é o único livro do autor com conotações filosóficas.

  • Joseph Frank é o maior biógrafo de Dostoiévski (obra em cinco volumes – editados pela EDUSP no Brasil). O Diário de um Escritor do autor é boa fonte para entendê-lo.

  • Segundo Otto Maria Carpeaux “existem poucos escritores cuja obra tenha sido tão tenazmente mal compreendida como a de Dostoiévski”.

  • Dostoiévski escreveu uma grande interpretação da psicologia humana, associando-a aos movimentos políticos da época e profetizando a evolução do mundo moderno.

  • O capitalismo não é contraponto do socialismo. Capitalismo existiu de fato antes de ser elaborado teoricamente, é da natureza humana. Já o socialismo nasce como ideia (ideologia), é um sistema político, e depois começa a ser experimentado na prática (com resultados desastrosos). Mas ninguém sabia como fazer na prática – no século XIX jorravam na Europa propostas de como o socialismo deveria ser implementado (cooperativas, anarquia, estatização, etc).

  • Sonia é a maior personagem feminina de Dostoiévski.

  • O juiz de instrução Porfin apresenta grandeza moral ao entender que Raskólnikov não era sociopata (agiu como um mas não era um), mas poderia tornar-se um se o prende-se no primeiro momento. Ele pressiona e espera por seu arrependimento e confissão, curando-o.

  • Dostoiévski escreveria uma continuação de Crime e Castigo (não o fez por outros compromissos financeiros com editores) mostrando a redenção de Rodion depois do sofrimento na Sibéria.

  • Albert Camus em O Homem Revoltado fala da aparição do dos crimes da mente no mundo moderno, crimes de opinião e de concepção de mundo – a eliminação daquele que não está harmonicamente sintonizado com determinada forma de ver o mundo – em contraponto com os crimes de paixão – única modalidade de crimes até então. A obra segue a relação do homem revoltado (revolucionário) como produto de uma rebelião metafísica contra a cosmologia reinante.

  • As mulheres têm uma relação mais profunda com o mundo (elas são casadas com os homens) enquanto os homens (eles são casados com o mundo) transformam tudo em fetiche (e.g. as experiências são transforadas em livros). Daí a preponderância dos homens nas artes e na filosofia (as mulheres têm menor interesse por certos temas). O homem é solar e a mulher é lunar.

  • Para Eric Voegelin matar outro ser humano pode ser uma afirmação de poder criando uma pseudo-identidade no lugar do ego humano. O sociopata afastado do Logos.

  • Raskólnikov orgulhou-se de suas qualidades, e tal hübrys abriu-o para o sopro do diabo na forma daquela ideologia do super-homem.

  • Princípio metafísico: o semelhante gera seus semelhantes. Cães geram outros cães. Um ato bom gera outros atos bons. Um ato imoral nunca gera atos moralmente bons. – O fim não justifica os meios.

  • O pensamento é amoral (a palavra mentira vem de mentis – mente), ele pode associar-se tanto a moral quanto ao sentimento estético. Mas um pensamento verdadeiro associa-se ao sentimento moral e o pensamento fantasioso tende aos sentimentos estéticos. Quando percebemos que existem pensamentos que podem subjugar nossos mais profundos sentimentos morais nos damos conta da presença do diabo – uma poderosa força na direção do mal.