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O Ópio dos Intelectuais de Raymond Aron

  • há 20 horas
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O conservador é humilde. Reconhece que o mundo e a vida são complicadas. A única coisa de que tem certeza é que a incerteza requer a liberdade, para que a verdade seja descoberta por um processo de concorrência e debate que não tem fim. O socialista, por sua vez, acha que a vida e o mundo são facilmente compreensíveis; sabe de tudo e quer impor a estreiteza de sua experiência – ou seja, sua ignorância e arrogância – aos seus concidadãos. – Raymond Aron


Marxism is undoubtedly a religion, in the lowest sense of the word. Like every inferior form of the religious life it has been continually used, to borrow the apt phrase from Marx himself, as an opiate for the people. – Simone Weil

"É a nossa escolha entre o bem ou o mal que determina o nosso caráter, e não a nossa opinião sobre o bem ou o mal." – Aristóteles, Ética a Nicômaco



Obra seminal do século XX, O Ópio dos Intelectuais mantêm a sua atualidade mesmos passados sete décadas de sua publicação. O tema é o feitiço – a desordem moral e intelectual – que surge com a adesão a certas ideologias. Em 1955 a obra foi um ato de coragem, pois “o marxismo era então a grande religião dos intelectuais”. Mas o Brasil de hoje não foge deste cenário dado o pleno domínio que os intelectuais marxistas têm na universidade, na mídia, na burocracia estatal, na classe política e até no próprio meio empresarial; ficando o pensamento conservador restrito à Internet onde atualmente sofre crescente censura e perseguição.


Para Aron, o marxismo tornou-se a ideologia por excelência, pois “as sociedades ocidentais não têm o equivalente ao marxismo-leninismo, seja como base para o regime, seja como fundamento de uma síntese, ou pseudo-síntese, intelectual”. O autor entendia por ideologia “uma concepção mais ou menos sistemática da realidade política e histórica de mistura de fatos e valores”.


O regime soviético caiu de podre, mas os crentes na ideologia prosperaram em todos os países. O Brasil é a prova mais sólida dessa excrescência histórica que se mantém firme, apesar de tudo, apesar de ter sido desmascarada, apesar de se demonstrar economicamente inviável, apesar de atentar contra as liberdades democráticas e a própria existência do indivíduo enquanto tal, a instância moral da humanidade.


O Ópio dos Intelectuais é, sobretudo, um apelo à honestidade intelectual. Aron alerta contra o perigo de substituir a análise pela fé ideológica e insiste na necessidade de julgar sistemas políticos pelos seus efeitos reais, não por suas promessas.


O título da obra faz trocadilho com a famosa frase de Karl Marx (1818-1883), de que “a religião é o ópio do povo”. Para Aron o marxismo assumiu uma forma de religião secular, abraçada pela classe dita intelectual do mundo.


O livro é dividido e três partes: a primeira trata dos mitos políticos, a segunda da idolatria da história e a terceira da alienação dos intelectuais.



Parte I: Mitos Políticos Longe do marxismo ser a ciência da infelicidade operária e o comunismo a filosofia imanentedo proletariado, o marxismo é uma filosofia de intelectuais que seduziu frações do proletariadoe o comunismo faz uso dessa pseudociência para atingir seu fim próprio, a tomada do poder.

– Raymond Aron


Aron identifica três mitos políticos: o da esquerda, o da revolução e o do proletariado.Os termos “direita” e “esquerda” são definidos para possibilitar distinguir a questão ideológica – são denominações genéricas que não comportam unidade, mas são úteis para discernir o espectro político. Se a esquerda é uma “saco de gatos”, a direita deve ser desdobrada em pelo menos dois grandes blocos, os conservadores e os liberais. E estes, mais das vezes, especialmente no contexto europeu e norte-americano, são também confundidos com elementos de esquerda.


A direita sempre se apresenta como partidária da tradição e da ordem, enquanto que a esquerda apresenta-se como anti-capitalista e combina, numa síntese difusa, a propriedade pública dos instrumentos de produção, a hostilidade contra a concentração de poder econômico batizados de trustes e a desconfiança para com os mecanismos de mercado. Aron foi um dos pioneiros em mostrar que o nazismo se alinhava à esquerda, e não à direita, como fazia crer a propaganda comunista depois da invasão da União Soviética por Adolf Hitler.


Aron sublinha que são as tiranias que desacreditam no mercado, na livre empresa, nas liberdades individuais, colocando em seu lugar o dirigismo estatal e o regime de partido único – o comunismo assim como o nazismo – são o que se pode chamar de esquerda, a forma antagônica de organização da sociedade capitalista como a conhecemos.


O autor é contundente ao demonstrar que a estatização dos meios de produção nem estabelece a igualdade política e nem de rendimentos: “A hierarquia técnico-burocrática, na qual os trabalhadores são integrados, não fica modificada por uma mudança do estatuto de propriedade”. A hierarquia é mantida, porque essa é a condição humana. Da mesma forma, a distribuição de renda: “O limite da igualização das rendas é traçado pela gravidade da matéria social, o egoísmo humano, mas também por exigências coletivas e morais não menos legítimas do que o protesto contra a desigualdade" – demonstração de profunda consciência dos limites impostos pela natureza humana, que não pode ser abolida e nem modificada pelos engenheiros sociais.


Quanto ao mito da revolução, Aron afirma que não se pode considerar inseparáveis a violência e os valores da esquerda: o inverso estaria mais próximo da verdade. A ação política da esquerda no poder, ainda que a ele chegue de forma pacífica, sempre descambará para a violência revolucionária, seja porque essa ação contraria fatos básicos da condição humana (propriedade privada e liberdade), seja porque seus métodos de progresso baseados no planejamento central impõem a lógica do trabalho compulsório. Só é possível conseguir uma ordem assim pela força.


Os regimes vitimados por levantes populares ou golpes de Estado não demonstram pela sua queda vícios morais – são muitas vezes mais humanos do que os vencedores – e sim erros políticos. A revolução do tipo marxista não aconteceu porque seu próprio conceito era mítico: nem o desenvolvimento das forças produtivas nem o amadurecimento da classe operária prepararam a derrubada do capitalismo pelos trabalhadores conscientes de sua missão. As revoluções que invocam o proletariado, como todas as revoluções do passado, assinalam a substituição violenta de uma elite por outra. Não apresentam caráter algum que permita saudá-las como o fim da pré-história.


Há uma conexão entre o conceito de revolução e o de revolta, o primeiro tirando partido do prestígio do segundo. Revoltados são aqueles que dizem não à modernidade, sejam ateus como Friedrich Nietzsche (1844-1900), sejam homens de fé como Georges Bernanos (1888-1948). Eles têm horror à baixeza, à vulgaridade espalhadas pelas práticas eleitorais e parlamentares. Revoltados e niilistas censuram o mundo moderno: uns por ser o que quer ser, outros por não ser fiel a si mesmo.


O mito do proletariado, que juntamente com o de esquerda e de revolução, dão o eixo explicativo do que move a alma dos intelectuais são a sua crença e o seu engano. O autor mostra as falácias dos que advogam o elemento operário como o libertador da humanidade. O proletariado, no sentido preciso da massa operária criada pela grande indústria, não recebeu de ninguém – a não ser de um intelectual, originário da Alemanha e refugiado na Grã-Bretanha no meio do século passado (XIX) – a missão de converter a história, mas no século XX representa menos a classe imensa das vítimas do que a coorte dos trabalhadores que os managers organizam e que os demagogos cercam.


Aron coloca a nu diante dos olhos o besteirol que anima a classe política esquerdista. Basta olhar os programas eleitorais, naturalmente obrigatórios, para que nos deparemos com cada uma das falácias a sustentar suas falsas promessas. O resumo delas é que todas as misérias humanas podem ser resolvidas por e através do Estado. Mas a História ensina que é exatamente o contrário: onde a livre empresa deixou de existir e o mercado foi substituído pelo planejamento central, o que se conseguiu, além do sacrifício da liberdade, foi a miséria econômica e o horror político.



Parte II: A Idolatria da História

Quem pretende formular um veredicto definitivo é um charlatão. Ou a História é um tribunal supremo e só pronunciará a sentença sem recurso no último dia. Ou a consciência (ou Deus) julga a História, e o futuro não tem mais autoridade do que o presente.

– Raymond Aron


Aron aponta que os partidos revolucionários se comportam como se fossem uma igreja e os seus membro tornam-se uma congregação de fé. Os congressos desses partidos são apropriadamente chamados por ele de “congressos-concílios”. O marxismo é uma forma laicizada de religião e tal como o Papa, arroga-se o princípio da infalibilidade.


A esse caráter religioso (na verdade, corrompido), Aron atribui a natureza dos processo contra os dissidentes políticos onde os comunistas chegaram a poder – “Comparáveis à Inquisição, revelam a ortodoxia, ao salientar as heresias ”. É comovente a descrição que ele faz dos expurgos dos Partidos Comunistas, das farsas que eram os processos e os julgamentos. Não sem alguma piedade, Aron afirma que “nessa religião sem alma, os oponentes tornam-se efetivamente piores do que criminosos”.


O autor também discorre sobre o pretenso sentido que teria a História, sua pluralidade de significações, as supostas unidades históricas, o suposto Fim da História e a História tratada com fanatismo. É deprimente ver como as pessoas, tomadas pela ilusão ideológica, se deixam levar pelas teses mais mirabolantes.


Na sequência, o autor demole a ilusão de uma suposta necessidade histórica, seu determinismo, suas previsões e ridiculariza a sua suposta dialética – “A pretensa dialética da história social resulta de uma metamorfose da realidade em ideia. Endurece-se cada regime, atribui-se a ele um princípio único, opõe-se o princípio do capitalismo ao do feudalismo ou do socialismo. Afinal, fala-se como se os regimes fossem contraditórios e como se a passagem de um para o outro fosse comparável à passagem de uma tese a uma antítese. Comete-se um duplo erro. Os regimes são diferentes e não contraditórios e as chamadas formas intermediárias são mais frequentes e duráveis do que as formas puras.”


O autor nota que os cristãos são muito sensíveis à mensagem marxista. Mal sabia ele à época que uma suposta teologia da libertação seria fundada, na qual a mensagem de Cristo foi substituída sumariamente pela mensagem revolucionária. A Igreja Católica no Brasil está hoje majoritariamente contaminada por esse câncer intelectual. Uma ligeira conversa com algum sacerdote engajado na “causa” revela que não são mais cristãos, usam o nome da religião em vão. O marxismo, em sua essência, é radicalmente contra os valores cristãos, contra a ética cristã, contra a sua mensagem. O Cristianismo exalta o triunfo, a dignidade e a responsabilidade do ser individual. O marxismo é o contrário: exalta o coletivo, torna os valores morais relativos e propõe a salvação coletiva pela economia nesse Mundo, em substituição à salvação individual no Além. Um cristão, por definição, não pode ser marxista, sendo a recíproca verdadeira.


Aron lembra: “‘History is again on move’, esta fórmula de Arnold Toynbee (1889-1975), dificilmente traduzível, atende a um sentimento forte e estranho que cada um de nós experimentou em dado momento de sua vida. Eu o experimentei na primavera de 1930, quando, ao visitar a Alemanha, assisti aos primeiros êxitos do nacional-socialismo. Tudo estava novamente em questão: a estrutura dos Estados e o equilíbrio das forças no mundo, a imprevisibilidade do futuro pareceu-me tão evidente quanto a possibilidade de manter o ‘status quo’”.


Homens com uma caricatura de consciência histórica são capazes de qualquer coisa para chegar ao poder e para exercê-lo de forma implacável e tirânica. E eles são os mesmos em 1917 em Moscou, em 1933 em Berlim e atualmente em Brasília – os riscos de destruição são da mesma ordem de grandeza registrada no passado.



Parte III: A Alienação dos Intelectuais

O comunismo é uma versão aviltada da mensagem cristã. Dela retém a ambição de conquistara natureza, de melhorar a sorte dos humildes, mas sacrifica o que foi e continua sendo a almada aventura definitiva: a liberdade de pesquisa, a liberdade de controvérsia, a liberdade de crítica e de voto do cidadão. Submete o desenvolvimento da economia a um planejamento rigoroso e a edificação socialista a uma ortodoxia de Estado.

– Raymond Aron


Esta parte traz uma exaustiva demonstração da alienação dos intelectuais, com farta demonstração por diversos países. Mas o mais notável é a ênfase que o autor dá ao caráter religioso que assumiu as diversas seitas marxistas – socialistas e comunistas – que se tornaram uma forma de religião secular.


Aron desmistifica a ideia de que os intelectuais sejam essencialmente revolucionários. Eles o foram em momentos específicos. Lembra Aron que “os letrados chineses defenderam e ilustraram a doutrina, mais moral do que religiosa, que lhes dava o primeiro o primeiro lugar e consagrava a hierarquia. Os reis ou os príncipes, os heróis coroados ou mercadores enriquecidos sempre encontraram poetas para cantar a sua glória. Nem em Atenas, nem em Paris, nem no século V antes da nossa era, nem no décimo nono século após Jesus Cristo, o escritor ou o filósofo inclinaram-se espontaneamente para o partido do povo, da liberdade e do progresso. Os admiradores de Esparta que se encontravam no interior dos muros de Atenas eram numerosos, como também aqueles do Terceiro Reich nos salões ou nos cafés da Rive Gouche de Paris.”


Aron intui o porquê dos intelectuais contemporâneos tenderem para o ativismo e a ação revolucionária: “A conjunção de peritos (profissões técnicas) decepcionados e letrados irritados põe as próprias sociedades industriais do Ocidente em perigo. Uns que procuram eficácia e outros que perseguem uma ideia unem-se contra um regime culpado por não inspirar nem o orgulho do poder coletivo, nem a satisfação íntima de participar de uma grande obra”.


O que Aron não sabia à época é que foi colocada em marcha a mais formidável indústria de mentiras por parte dos revolucionários, dispostos a qualquer coisa para fazer triunfar as suas ideias impraticáveis, muitas vezes em sacrifício dos próprios revolucionários. Nos expurgos,eles mesmo que arderiam nas fogueiras. A cegueira ideológica chegou a tal estágio que o sentido de realidade desapareceria. Aqui não é possível deixar de lembrar a maléfica obra deAntonio Gramsci (1891-1937) e a engenharia de comunicação política traçada desde os tempos de Vladimir Lênin (1870-1924), com o propósito exclusivo de produzir a mentira política. A ordem era confundir, subverter a moral cristã, solapar os valores mais essenciais da tradição ocidental.


É na alma desses homens que talvez resida a resposta para essa atitude tão insensata edestrutiva. O mero impulso em direção ao poder não consegue explicar o fato, embora o mesmo possa estar na origem de sua força dinâmica. Tampouco explica isso alguma eventual “pulsão de morte” de corte freudiano. O paralelo com o fenômeno religioso é certeiro: a tomada da alma desses homens pelo íncubo obsediante, em transe demoníaco, fazendo das massas um súcubo passivo e sugestionável. Forças transcendentais estão na verdade em disputa pela alma coletiva e de cada um. É o duelo eterno das forças do Bem e do Mal. A manifestação no mundo político é apenas um reflexo menor desse duelo maior. E não há dúvida de que as ideias coletivistas assumem o lado negativo, são a própria expressão do Anti-Cristo.


Aron nota que “o cristão nunca poderá ser um autêntico comunista, do mesmo modo que ocomunista não pode crer em Deus ou no Cristo, porque a religião secular, animada por umateísmo fundamental, declara que o destino do homem cumpre-se todo inteiro nesta terra. Ocristão progressista esconde de si mesmo essa incompatibilidade”.


A acusação de intoxicação intelectual de Aron não é a mesma coisa que uma acusação aos intelectuais. Ele não era anti-intelectual ou desdenhoso de ideias. Isto não se devia simplesmente ao facto de ele próprio ser um intelectual; ele discerniu claramente o imenso poder, para o bem ou para o mal, que as ideias podem ter. “Os intelectuais sofrem com a sua incapacidade de alterar o curso dos acontecimentos”, observou ele. “Mas eles subestimam a sua influência. A longo prazo, os políticos são discípulos de acadêmicos ou escritores.”


Durante dois séculos, as pessoas muito importantes que administravam os assuntos da sociedade não acreditaram na importância das ideias – até que um dia ficaram chocadas ao descobrir que os seus filhos, tendo sido capturados e moldados por certas ideias, ou estavam a rebelar-se contra a sua autoridade ou a separar-se da sua sociedade. A verdade é que as ideias são muito importantes. As instituições massivas e aparentemente sólidas de qualquer sociedade – as instituições econômicas, as instituições políticas, as instituições religiosas – estão sempre à mercê das ideias nas cabeças das pessoas que povoam estas instituições. A influência das ideias é tão imensa que uma ligeira mudança no clima intelectual pode e irá – talvez lentamente, mas inexoravelmente – transformar uma instituição familiar numa forma irreconhecível.


Fazia parte do propósito de Aron em O Ópio dos Intelectuais alertar-nos para esta verdade preocupante. É triste constatar que, mais de setenta anos depois, muitas pessoas importantes na nossa sociedade continuam a rejeitar as ideias como se fossem um brinquedo insignificante.





Notas


  • Raymond Aron (1905-1983) nasceu em Paris, França.

  • Aron é um colosso meio esquecido da vida intelectual do século XX. Parte filósofo, parte sociólogo, parte jornalista, ele foi acima de tudo um porta-voz daquela forma mais rara de idealismo, o idealismo do bom senso.

  • Outras obras de destaque incluem Paz e Guerra entre as Nações (1962), As Etapas do Pensamento Sociológico (1967), Dezoito Lições sobre a Sociedade Industrial (1962), Democracia e Totalitarismo (1965), A República Imperial (1973), e Memórias (1983).

  • Publicado pela primeira vez na França em 1955, no auge da Guerra Fria, L’Opium des intellectuels foi uma sensação imediata. Também causou sensação nos Estados Unidos quando uma tradução para o inglês foi publicada em 1957.

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