Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis



Personagens Principais Brás Cubas – o falecido, herói do romance Virgília – prometida e depois amante de Brás Cubas Personagens Secundárias Quincas Borba – colega de escola de Brás Cubas Marcela – prostituta, primeira paixão e Brás Cubas Prudêncio – escravo a serviço de Brás Cubas Lobo Neves – concorrente de Brás Cubas, marido de Virgília Sabrina – irmã de Cubas, esposa de Cotrim Dona Plácida – velha amiga de família de Virgília, serve-lhe de alcoviteira Eulália (Nhã-Loló) – moça amiga da família Cuba

Interpretação Machado de Assis era adepto da filosofia pessimista de Arthur Schopenhauer (1788-1860), e nada melhor que o capítulo VII (O Delírio) desta obra para expressar seu pensamento. A aparição de Pandora (ou Natureza – componente do desejo ilegítimo) representa o desejo schopenhauriano que provocará a rebelião metafísica da não aceitação do espírito acima da matéria (representada pela expulsão do Paraíso). A situação humana é de infelicidade sistemática. A personagem Brás Cubas representa a falta de ação, falta de esperança e descrença no próprio destino da humanidade. Este pessimismo existencial é a visão de mundo de Machado de Assis, o que também explica seu cinismo e ironia com relação à vida.


Brás Cuba, com sua inação, é o contraponto de Fausto de Goethe (1749-1832). Para este último princípio da vida humana é a ação, a realização, pois através dela e seus consequentes erros o homem se regenera, aprende e evolui. O otimismo de Goethe opõe-se ao pessimismo de Schopenhauer. Ambas as personagens representam os extremos da possibilidade de ação humana.


Brás Cubas se destaca no universo literário brasileiro como uma das poucas personagens autênticas. Suas memórias são a confissão de um homem que desperdiçou sua existência. Por já estar morto ele pode dizer toda a verdade e ser absolutamente sincero quanto a sua vida, seus atos. As personagens na literatura brasileira refletem o aspecto farsesco da vida do brasileiro. Uma vida voltada as aparências, a conveniência, a recusa de críticas (entendidas como ataque pessoal). Todos fingem que não sabem que o outro também finge. Memórias Póstumas de Brás Cubas conflita com a forma de ser do povo brasileiro.


A personagem central nos ensina que só podemos ter total concepção da nossa existência se formos capaz de olhar nossa vida de uma perspectiva externa a ela. Nosso horizonte de percepção só se amplia com uma profunda e sincera anamnese da nossa própria história. Só podemos compreender nossa vida de uma estrutura supratemporal. Nossa faceta farsesca reflete a incapacidade de enxergar além da nossa própria existência.



Notas

  • Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) é o maior escritor brasileiro e um dos maiores da língua portuguesa junto com Camões, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa e Padre Antônio Vieira.

  • Extremamente culto, é autor de finíssima ironia e sarcasmo.

  • Filho de pai mulato pintor de parede e mãe portuguesa lavadeira. A família era agregada a uma família de posses. Seus escritos nunca fazem menção a sua condição social. Ao contrário, aborda assuntos universais e imortalizou-se.

  • A obra de Machado de Assis nos dá pistas para entender ontologicamente o brasileiro. Este estudo ainda está por ser feito.

  • Seus principais romances, já produtos da sua maturidade são: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1880), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899) e Memorial de Aires (1908).

  • Apesar de extraordinário romancista, foi ainda melhor contista. Entre estes se destacam O Alienista, Teoria do Medalhão e A Missa do Galo.

  • Ver O mundo como vontade e como representação para a filosofia de Arthur Schopenhauer (“o homem deseja e, portanto, sofre” – a existência humana é de sofrimento e a única forma de livrar-se da dor e deixar de desejar). Foi buscar no Oriente, especialmente no budismo, alguma solução como a ideia da “não mente” do “não desejo”.

  • Ver Paul Diel para a tese do desejo ilegítimo (grande autor de simbolismo bíblico e grego).

  • A filosofia de Quincas Borba, o Humanitismo (semelhante a futura filosofia de Teilhard de Chardin), conflita com a concepção de vida de Brás Cubas. Machado de Assis satiriza o positivismo e o evolucionismo com o Humanitismo de Quincas Borba.

  • Outras personagens sinceras na literatura brasileira: (a) Conselheiro Aires de Memorial de Aires de Machado de Assis, diplomata aposentado, sem família e esperando a morte; (b) Paulo Honório de São Bernardo de Graciliano Ramos, homem que já fracassou e não tem mais nada a perder.

  • Visão da felicidade de Brás Cubas: “Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos, a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura, - nada menos que a quimera da felicidade, - ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão.”