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Mundos Mortos de Octavio de Farias

Je blâme également et ceux qui prennent parti de louer l'homme, et ceux qui le prennent de le blâmer, et ceux qui le prennent de se divertir et je ne puis approuver que ceux qui cherchent en gémissant. – Blaise Pascal (1623-1662)


Personagens Principais Padre Luís – jovem, admirado pelos alunos Ivo Freiras – colegial, 16 anos Carlos Eduardo – irmão de Ivo, 13 anos Roberto Dutra – colegial, 15 anos Branco – católico, amigo de Ivo e Carlos Eduardo Lourdes – prima e namorada de IvoJoão Graça – melhor amigo de Ivo, ateu


Personagens Secundárias Matilde e Lisa Freitas – tias de Ivo e Carlos Eduardo Silvinha – prima e namorada de Roberto Dutra Pedro Borges – colega da turma, entregue aos prazeres Leandro – colega de turma de Ivo, primeiro a frequentar o bordel Mário Vilelba – amigo de Pedro Borges


Interpretação A luta interior dos jovens açoitados pelo anelo dos desejos sexuais. Ivo Freitas busca desculpas para entregar-se as tentações, aproxima-se de quem lhe dê apoio na queda, e afasta-se de quem podia ajudá-lo – acaba tendo sua personalidade esfacelada. Roberto Dutra luta desesperadamente contra a luxúria que não consegue entender, descendendo na rebelião metafísica.


A renúncia de ambos ao sacramento da confissão é simbólica. A confissão exige exame de consciência, o olhar honesto para si mesmo, e a capacidade de verbalizar aquilo que vai dentro do seu íntimo profundo – é uma terapia da palavra. Vaidosos de suas posições, Ivo e Pedro não apresentam a força anímica requerida para alcançar o autoconhecimento necessário para vencer seus desejos ilegítimos.


Como no mito de Perseu, em seu confronto com Medusa, olhar para si mesmo pode ser petrificante, pois é com terror e desespero que a alma vaidosa se vê nos lampejos de lucidez. Perseu recebeu de Atena o escudo refletor (espelho da verdade – amor à verdade) com o qual o homem se vê como realmente é, e não como gosta de imaginar ser – Padre Luís ofereceu “escudo refletor” a ambos, mas estes recusaram. O esvaziamento religioso, o esgarçamento da célula familiar, e a ausência de comunhão de almas nas amizades reduzem a possibilidade do homem encontrar o interlocutor que lhe ajude a empunhar o “escudo refletor” frente às enfermidades anímicas.


O ambiente social de Mundos Mortos está contaminado, mesmo aqueles que se consideram amigos de Carlos Eduardo querem precipitá-lo no pecado – mesmo inconscientemente não suportam a presença daquele que é, por contraste, a viva presença de seus erros.


Ao final do romance somos apresentados aos jovens Branco e Pedro Jorge, cada um com seu conflito interior: Branco inconformado com o mundo ao seu redor, e Pedro Jorge entregue aos desejos ilegítimos. Nas últimas linhas Branco e Pedro Jorge brigam fisicamente e tomam direções distintas, semeando a temática do próximo volume da Tragédia Burguesa: Os caminhos da vida.



 


Hodiernamente os jovens estão muito mais indefesos em sua luta interior no eterno conflito entre os bem e o mal. Tudo os empurra para a aventura narcísica, como um câncer a pornografia contamina suas almas, exigindo uma crescente permissividade às aberrações sexuais para alcançar um cada vez mais débil e efêmero prazer, e doenças anímicas como a homossexualidade, a masturbação e promiscuidade se alastram.



 


Notas


  • Octavio de Faria (1908-1980) nasceu no Rio de Janeiro.

  • Romancista ensaístico na tradição de Marcel Proust e Thomas Mann.

  • Destaca-se de seus contemporâneos por priorizar o romance onde salienta-se a vida interior. Foi o baluarte do romance íntimo enquanto os demais romancistas se perdiam no romance social de cunho ideológico.

  • Mundos Mortos foi publicado em 1937. Foi o primeiro romance de Farias que antes se dedicava exclusivamente aos ensaios sociais.

  • Mundos Mortos é o primeiro volume do ciclo romanesco Tragédia Burguesa escrito entre 1932 e 1979 quando é publicado o 13º volume (O Pássaro Oculto). Dois volumes adicionais foram publicados postumamente em 1985.

  • A Tragédia Burguesa fora concebida para ter 20 volumes – mesmo interligados de alguma forma, cada volume funciona independentemente dos demais. É um estudo sobre o homem diante da miséria moral que contamina o ambiente social – um painel da vida brasileira, em geral, e da carioca, em particular, mostrando como se travava a batalha entre os problemas sociais da burguesia e os grandes problemas do homem. Na Tragédia Burguesa a personagem principal é a alma.

  • A narrativa de Mundos Mortos tem início em 1932, estendendo-se até 1936.

  • A mentira não existe fora a mente humana, fora do pensamento de quem a cria, de quem é por ela enganado ou que nela prefere acreditar. A mentira não existe no mundo exterior, real e concreto, este é pleno de verdade, cabendo ao homem encontrá-la. E esta deveria ser sua busca incessante até a morte.

  • Psicólogos e terapeutas proliferam (e lucram) com a falsa classificação de patologias anímicas como enfermidades mentais. Oferecem a terapia da palavra que o homem deveria ter gratuitamente acesso na religião, família e amizades, sendo que aqueles têm pouco interesse em curar o paciente e reduzir sua fonte de renda.

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