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O Amanuense Belmiro de Cyro dos Anjos

  • 30 de mar.
  • 4 min de leitura

Por quê procurar um sentido individual de existência? Há, nas intermináveis chapadas do sertão, pequenas árvores que não dão frutos, nem sombra, nem possuem raízes medicinais. Ali estão, talvez, apenas para compor a paisagem da selva. Não estarei aqui somente para efeito pictórico da massa?” – Belmiro Borba expressa sua falta de fé



Personagens Principais

Belmiro Borba – protagonista narrador, amanuense, solteiro, 38 anos

Carmélia – jovem, amor platônico de Belmiro

Silviano – amigo de Belmiro, seu contraponto mais vivo e dinâmico

Redelvim – amigo de Belmiro, esquerdista pseudo-revolucionário

Jandira – amiga de Belmiro, flertar instilando falsas esperanças no grupo


Personagens Secundárias

Emília e Rita – irmãs mais velhas que moram com Belmiro

Florêncio – amigo de Belmiro, a beira do alcoolismo

Glicério – amigo de Belmiro, arrivista

Jerônimo – amigo de Belmiro, católico inveterado

Camila – amor idealizado da infância, morreu jovem

Carolino – contínuo na repartição de Belmiro, carente e sem estudos.



Interpretação Belmiro vive um vazio espiritual que se manifesta como paralisia existencial: ele percebe o absurdo da rotina burocrática, das ideologias políticas dos amigos (comunismo, integralismo etc.) e até do amor platônico por Carmélia, mas não encontra em nada algo que o impulsione a agir. Ele mesmo reflete sobre a ausência de fé — não só política ou filosófica, mas também religiosa: “este mundo é um teatro [...] uma comédia de Deus” – ecoando cartas do próprio Cyro dos Anjos a Carlos Drummond da época da escrita do livro, onde o autor confessa sua “absoluta falta de fé” em Deus, na política e na filosofia, o que gera “invencível perplexidade” e incapacidade de crer ou agir. A personagem Belmiro espelha o autor: ele duvida de tudo, inclusive de si mesmo, e essa dúvida o condena à inação.


O passado idealizado (Vila Caraíbas, amores platônicos infantis) funciona como substituto precário da transcendência: Belmiro tenta reconstruir um mundo perdido na memória, mas reconhece que é ilusório. Sem uma metafísica que dê sentido ao presente, ele fica preso entre nostalgia estéril e um cotidiano banal, sem horizonte de salvação ou propósito maior. Um homem sem força espiritual para crer, e nem força de coração para agir.


Belmiro perdeu os nexos simbólicos dos fatos, não consegue mais enxergar o significado das coisas – elas são apenas fatos do seu mundo sensível. Ele encontra-se só, coisa entre coisas, e a angústia que o avassala é mais o sentir de um vazio, de uma falta, que o homem, por desconhecê-la, traduz nesta angústia do nada que surge quando o mundo se torna mera paisagem sem transcendência simbólica ou ontológica. Não há mais porvir, nem Deus, nem Absoluto que dê sentido à existência individual.


Belmiro é um niilista melancólico e resignado: descrente, mas não cínico o suficiente para se rebelar. O diário vira o único refúgio – uma escrita que tenta dar forma ao vazio, mas não o preenche.



Uma destacada característica de Belmiro é seu aguçado senso de ridículo, este sucedâneo diabólico da humildade: reprime as manifestações exteriores do orgulho para preservar intacto o orgulho interior; alimenta o orgulho à força de reprimi-lo e irritá-lo, o que o torna assim cada vez mais odiento e cruel.


Indiferente ao ridículo que os outros veem nele, o homem humilde é cego para o ridículo que se mostra nele. Rir de um homem é recusar-se a compreendê-lo por inteiro, como o requer a compaixão, é enxergá-lo apenas pelo lado da eventual incongruência exterior.

O medo do ridículo é diabólico, pois reprime o orgulho, apenas para torná-lo mais interiorizado, cerebral, premeditado e astuto.


Movido pelo senso do ridículo, Belmiro esquece o essencial, e vive atento as mais mínimas casualidades que possam dar margem ao ridículo, seja para explorá-lo nos outros ou para impedir que o explorem nele. Ele concede às coincidências e casualidades do momento o monopólio da atenção. O essencial torna-se distante e inverossímil.


Belmiro está fechado para o eterno, sendo apenas uma antena secular, atenta às mais mínimas variações da energia ambiente, das correntes psíquicas, da moda e do diz-que-diz-que – ele não pensa, apenas responde a estímulos.


A atenção excessivamente voltada para a camada sonora entorpece a apreensão do sentido, inibindo os sentimentos mais autênticos. Belmiro é o típico intelectual brasileiro: sentimental reprimido e irônico.


Ele justifica sua inação pela pureza do ideal ou pelo rigor da exigência, enquanto se esforça no sentido do autoconhecimento. No entanto, muitas vezes a justificativa desvia-se para a auto-lisonja, quando ele alega que as oportunidades que perdeu não eram dignas de sua pessoa, pois ele não comprometeria seu ideal puro sujando as suas mãos na sordidez do mundo. Apenas aqueles que não encontrem uma justificação para a fuga é que permanecerão na auto-análise sincera – mas a personagem não consegue agir à altura de suas aspirações.



Belmiro é um reflexo do Brasil, um país que regurgita grandeza, modernidade e futuro, mas que, na prática, só reproduz inércia, burocracia e mediocridade. O romance revela a mediania, a acídia e a falta de transcendência que marcam tanto o Brasil como muito daqueles que o habitam – um retrato incômodo da nossa exiguidade.

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Notas


  • Cyro dos Anjos (1906-1994) nasceu em Montes Claros, Minas Gerais.

  • Formado em Direito, foi jornalista, escritor, professor e funcionário público, tendo ocupado relevantes cargos na administração federal.

  • Como escritor enveredou pelo romance, ensaio, memórias e poesia.

  • O Amanuense Belmiro, publicado em 1937, é seu principal romance.

  • O Amanuense Belmiro é um anti-romance na medida que se apresenta com possibilidades mas nunca as cumpre, fugindo da trajetória clássico do protagonista que enfrenta obstáculos, cresce, age e chega a algum desfecho significativo.

  • Amanuense = escrevente, copista, funcionário de repartição pública que faz cópias. Vem do latim amanuensis, que significa literalmente “aquele que está à mão”. Na Roma antiga era a pessoa que escrevia “à mão” para outra, geralmente sob ditado, como um secretário, copista ou escriba.

  • Segundo Otto Maria Carpeaux “Cyro dos Anjos é escritor à maneira machadiana. Não acusa nem conclui, sobretudo não conclui. A escrita de Cyro dos Anjos assemelha-se em estilo e humor a Machado de Assis.

  • Silviano, irônico e falante, é uma personagem mais dinâmica, mas ainda presa no mesmo drama de Belmiro: a intelectualidade que discute ideologias (comunismo, integralismo) sem tocar no fundamento simbólico-metafísico. Considerado o João da Ega (personagem de Os Maias) brasileiro.

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