A Estrela Sobe de Marques Rebelo
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"É o lado do coelho. [...] Eu tinha uma tia em Piracicaba [...]. Ela tinha uma forma que possuía o formato de coelho, essa fora amassada e o coelhinho proveniente dela saía com um dos lados defeituoso. Então a tia sempre que colocava o doce na mesa escondia esse lado com flores. E todos nós temos um lado coelho!” – Manuel Porto, imagem da insinceridade moderna
Personagem Principal Leniza Maier – protagonista, jovem, busca ascensão social
Personagens Secundárias Mário Alves – agenciador de talentos musicais, primeiro amante de Leniza Alberto – inquilino de Dona Manuela, violonista, incentiva Leniza Dona Manuela – mãe de Leniza, lavadeira, viúva Dr. João Oliveira – médico, nutre amor platônico por Leniza Amaro – industrial, patrocina e engravida Leniza Manuel Porto – gerente de rádio, amante de Leniza Dulce Veiga – cantora experiente, apoiadora e companheira de Leniza
Interpretação
A ascensão social de Leniza é acompanhada de sua queda ontológica. Ela usa sua beleza como moeda de troca, e seus amantes como degraus de uma escada utilitária. Leniza troca a dignidade intrínseca do seu ser pelo almejado sucesso. Desvalorizada e desumanizada, torna-se meio para o fim alheio (contrato, programa, fama) e, simultaneamente, reduz os outros a meios para o seu fim.
Leniza sente vergonha das origens, esconde a mãe, vive vida dupla – sinal da fragmentação de sua pessoa. Ela perde contato com a realidade: esconde o se “lado coelho”, e vê a fama como fim e não meio (aceita humilhações) – alienação crescente na medida que quanto mais sobe na hierarquia do rádio, mais perde autonomia real, tornando-se instrumento dos outros (agenciadores, gerentes, ouvintes) e de si mesma (sua ambição desmedida).A dignidade (o eu autobiográfico, responsável por si e pelo outro) é sacrificada no altar do êxito pragmático.
As escolhas da protagonista violam sistematicamente o ternário particular do conhecimento humano: as três condições necessárias para que uma ação, uma escolha ou um ato cognitivo sejam autênticos, coerentes com a realidade concreta e alinhados com as leis cosmológicas universais.
Os três elementos deste ternário são:
Coerência: Alinhamento perfeito entre o que se faz, o que se afirma, o que se promete e o que se sabe. Não basta pensar ou falar de forma correta: os atos devem confirmar as palavras e o conhecimento. É a harmonia interna entre intenção, promessa e realização.
Conhecimento: Distinção clara entre meios e fins, qualificação correta das coisas segundo as leis universais e compreensão real do que se está fazendo ou dizendo. É o saber concreto, não abstrato: exige perceber a realidade como ela é, sem ilusões ou abstratismos.
Sinceridade: Ação em harmonia com o universo e com as próprias capacidades reais do indivíduo, nas circunstâncias concretas em que se vive. Não é ser honesto no sentido moral comum, mas agir de forma que a relação entre possibilidade e ação seja proporcional.
Leniza é incoerente quando afirma (para si e para a mãe) o desejo de uma vida melhor, pois seus atos desmentem continuamente esse projeto. Abandona o emprego estável no laboratório farmacêutico (segurança concreta) após a sugestão do inquilino violonista, prometendo a si mesma ascensão digna, mas logo aceita o primeiro amante-agenciador como degrau. Ela promete (implicitamente) lealdade à origem humilde, mas constrói uma vida dupla escondendo da mãe toda a promiscuidade do mundo do rádio – ela sabe que está “miserável, imunda, escória humana, campo de todos os pecados, pura lama”, mas continua subindo “dois ou três degraus na escada do mundo”. Os atos contradizem o que ela sabe e o que promete à sua própria consciência e à mãe.
Seu desconhecimento aparece ao inverter meios e fins de forma radical: o rádio é tratado como fim em si, quando deveria ser apenas instrumento. Ela não avalia corretamente a fama, vendo-a como libertação quando, na realidade, é nova forma de escravidão (dependência de agenciadores, exploração do corpo, vida dupla) – o custo moral (vergonha, solidão, assassinato do nascituro, degradação) não é ponderado contra o ganho aparente. A protagonista não distingue o efêmero (aplausos, contratos) do permanente (dignidade da pessoa).
Ela é insincera ao não aceitar e esconder seu “lado do coelho”, (sua origem humilde, seus limites reais). Leniza abandona a pensão modesta, a mãe lavadeira e o emprego estável para viver de favores que destroem sua integridade. Ela vive em desarmonia com a realidade, e transforma suas qualidades em ferramenta de ascensão em vez de via de elevação. O resultado é a própria alienação, quanto mais ela sobe, mais perde autonomia para existir e subsistir por si mesma.
A Estrela Sobe não é apenas romance de ascensão social ou crítica ao rádio dos anos 1930. É um retrato vivo da crise do individuo na modernidade, exemplificando como a busca de valores utilitários (fama, visibilidade) inverte a ordem ontológica, reduz a dignidade a instrumento e rompe o ternário ético.
A ascensão social não pode ser buscada às custas da própria humanidade. E a realidade, seja qual for, deve ser enfrentada com coerência, conhecimento e sinceridade para que a vida seja digna e plena.
Notas
Marques Rebelo (1907-1973) nasceu e morreu no Rio de Janeiro. O verdadeiro nome por trás de pseudônimo é Eddy Dias da Cruz.
Ateu, entendia as religiões como superstições e acreditava que a ciência iria aos poucos elucidar todos os mistérios. Mas sua moral era cristã.
Considerava como um dos deveres do escritor a tomada de consciência da realidade, visando interferir na consciência do público. Porém sem apegar-se a nenhuma ideologia, era um escritor engajado na sua versão particular do mundo.
Língua ferina, conquistou muitas inimizades e dificultou o seu reconhecimento artístico num ambiente marcado pela concorrência e inveja.
A Estrela Sobe, publicado em 1939, é seu primeiro grande sucesso editorial.
Também se destacam em sua obra os romances Marafa (1935), O Espelho Partido (1959-1968) e diversos contos.
O ternário particular do conhecimento humano foi criado por Mário Ferreira dos Santos. Em obras como Pitágoras e o Tema do Número e Tratado de Simbólica, o filósofo vê no número 3 (ternário) uma estrutura ontológica primordial na tradição pitagórica: ele representa a passagem da dualidade (oposição) à unidade dinâmica, à forma e à proporção. O ternário cosmológico (unidade-oposição-relação / unidade-oposição-forma etc.) é a base das leis eternas que regem o real. O ternário particular (coerência-conhecimento-sinceridade) é a aplicação humana desse princípio – é o modo como o homem concreto pode viver em sintonia com a ordem universal, evitando a alienação, o abstratismo e a crise da civilização técnica. Para Mário Ferreira dos Santos, sem o ternário pitagórico não há conhecimento autêntico nem ação digna.


