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Ião de Platão

  • há 10 horas
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Pois a pedra de Heracléia não só atrai os anéis de ferro, mas também lhes comunica o poder de atrair outros anéis, de sorte que por vezes se forma uma longa cadeia de anéis e pedaços de ferro suspensos uns aos outros pela força dessa pedra; assim também a Musa, inspirando primeiro os poetas, transmite essa inspiração através deles a outros, criando uma cadeia de possessão divina.” – Sócrates, a arte como inspiração divina


Personagens Sócrates – filósofo Ião – rapsodo


O curto diálogo é uma crítica sutil à pretensão de conhecimento dos rapsodos (recitadores profissionais de poesia, especialmente homérica). Platão mostra que o rapsodo não possui um téchne (arte ou técnica racional, sistemática e transmissível) genuíno sobre o que recita, mas age por entusiasmo divino ou inspiração poética (a ideia da corrente magnética ou da possessão divina (ethos, cheio de deus): o poeta é inspirado pela Musa, o rapsodo pelo poeta, o público pelo rapsodo — todos transmitem uma força sem compreender racionalmente o conteúdo).


O rapsodo Ião é excelente em recitar e interpretar Homero, mas não possui um conhecimento técnico universal sobre os temas que o poeta trata (medicina, adivinhação, estratégia militar, etc.). Ele age por possessão divina – arte como uma forma dos deuses falarem com os mortais.


Platão expressa a desconfiança na poesia e na arte imitativa não ancoradas na busca filosófica pela verdade. Não é um ataque à poesia em si (Platão era profundamente sensível à beleza poética), mas uma denúncia da falta de fundamento epistêmico dos intérpretes e recitadores que se vangloriam de sabedoria sem possuí-la de fato. A arte inspirada encanta, mas não ilumina; só a dialética leva à verdade.


Ião introduz temas centrais da filosofia platônica: a distinção entre téchne (conhecimento racional e especializado) e mania (loucura/inspiração divina), a insuficiência da mera recitação ou imitação (mimesis) para alcançar a verdade, e a necessidade de um conhecimento filosófico superior. Funciona como uma preparação para discussões mais desenvolvidas sobre poesia, inspiração e conhecimento que aparecem depois em diálogos como Fedro, A República e Leis.





Notas


  • Platão (427-348 a.C.) nasceu em Atenas ou na próxima Egina.

  • Filho de Ariston, descendente do rei Codro, Perictíone e de um irmão de Sólon do lado materno. Ainda na juventude, recebe o apelido de Platão (“largo”) por razões incertas, mas provavelmente ligadas ao seu tipo físico. Seu nome era Arístocles.

  • Aos 19 anos torna-se discípulo de Sócrates. Sua obra escrita nos chegou aparentemente completa (26 diálogos são considerados legítimos).

  • Segundo o matemático e filósofo Alfred North Whitehead (1861-1947), “a mais segura caracterização da tradição filosófica europeia é que esta se constitui de uma série de notas de rodapé a Platão.”

  • Os subtítulo dos diálogos, e.g. Fedro, sobre o Belo, foram dados por Trasilo no século I, na Biblioteca de Alexandria que então comandava.

  • Ião, da Ilíada é diálogo legítimo (gênero aporético), do período socrático (forma dramática platônica com conteúdo socrático).

  • Pedra de Heracléia = imã, termo antigo para a magnetita de Magnésia.

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