Timeu e Crítias de Platão
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“E assim, nosso discurso sobre o todo chegou ao termo. Este mundo, repleto de seres vivos mortais e imortais, tornou-se um deus visível, imagem do inteligível, o maior, o mais belo, o mais perfeito e uno em sua espécie." – Timeu celebra o cosmos como imagem bela do inteligível, ordenado pela bondade divina
“O tempo é a imagem móvel da eternidade.” – Timeu, o universo sensível imita o eterno por meio da ordem
Personagens Sócrates – filósofo Timeu – filósofo pitagórico Crítias – idoso político ateniense Hermócrates – general e estadista siracusano
Timeu é o mais estranho diálogo platônico devido à combinação de mito (Atlântida, criação do mundo), ciência especulativa, e ausência do método socrático-dialético habitual.
Sócrates solicita aos demais uma demonstração prática da cidade ideal em ação, tanto em tempos de guerra como de paz, e não apenas em teoria como discutido no dia anterior (diálogo A República – cidade ideal).
Timeu inicia a discussão fornecendo a gênese do cosmos (do mundo como um ser vivo inteligente, com alma e corpo esférico) e prossegue até o homem (corpo, alma tripartite, sentidos, doenças, virtude, etc.). O objetivo é situar a cidade ideal no cosmos e mostrar como o homem, parte integrante desse cosmos, pode viver de acordo com a ordem natural e divina – cosmogonia como fundamento metafísico e ético para a política e a educação: o homem virtuoso imita a harmonia cósmica (música das esferas, proporções matemáticas), e a cidade justa reflete essa ordem universal.
O relato de Timeu é de caráter mítico-científico: não é uma cosmologia literal ou dogmática, mas uma história provável (eikôs mythos), um mito verossímil que combina matemática, física e teologia.
Timeu inicia estabelecendo a distinção dos princípios ontológicos iniciais: o que sempre é (ser eterno, inteligível, modelo/paradigma – as Ideias ou Formas), e o que sempre devém (sensível, gerado, cópia/imagem). Sendo que tudo que devém tem uma causa, e o cosmos tem um Demiurgo (artesão divino, bom e sem inveja).
O Demiurgo cria o cosmos o mais semelhante possível a si (bom), ordenando o caos pré-existente segundo o modelo eterno.
Na criação da alma do mundo ele mistura três substâncias: o Mesmo (indivisível, eterno), o Outro (divisível, corpóreo) e a Essência (mistura intermediária). Divide em tiras harmônicas (proporções pitagóricas: 1, 2, 3, 4, 8, 9, 27) e forma duas faixas cruzadas (círculo do Mesmo = equador celeste; círculo do Outro = zodíaco, dividido em 7 órbitas planetárias). A alma do mundo anima o cosmos, tornando-o um ser vivo inteligente.
O corpo do cosmos é esférico (forma mais perfeita), feito dos quatro elementos (fogo para visibilidade, terra para solidez, ar e água como intermediários). O Demiurgo une-os em proporções harmônicas.
O tempo é criado junto com o cosmo, imagem móvel da eternidade, e medido pelos movimentos celestes (dias, noites, meses, anos).
O Demiurgo não cria os elementos do nada, mas impõe ordem e medida ao caos pré-existente (movimento desordenado da matéria) usando formas geométricas ideais: os poliedros platônico – blocos de construção atômicos do mundo físico, criados pelo Demiurgo para impor ordem geométrica ao caos, permitindo transformações, estabilidade e a beleza do cosmos como imagem do inteligível.
Na sequência da criação o Demiurgo introduz a causa errante ou necessidade: além do intelecto (ordem), há o caos pré-cósmico (movimento desordenado). É a matéria que recebe impressões das formas sem ter forma própria, sendo impostos limites e medida ao caos, mas nem tudo é perfeito – há resquícios de desordem.
Finalmente são criadas as almas imortais (semelhantes à Alma do Mundo), sendo delega aos deuses menores (criados) a fabricação dos corpos mortais e almas mortais (parte irascível e apetitiva da alma imortal). O corpo humano é dotado de cabeça esférica (sede da razão), tronco (irascível no peito, apetitivo no ventre), membros para movimento –o racional da cabeça, o irascível do peito, e a apetitiva do ventre são potências de uma única alma
A encarnação da alma imortal no corpo mortal é um processo traumático que perturba a alma, fazendo-a nascer sem inteligência, mas que pode ser adquirida, e permite o acesso ao mundo sensível e, indiretamente, à filosofia e à virtude – os sentidos são instrumentos para o bem: a visão, em particular, eleva a alma à contemplação do cosmos ordenado, imitando a harmonia divina. No entanto, o conhecimento sensível é opinião (doxa), não verdade (epistêmê) – o sensível é devir, cópia imperfeita do inteligível.
As doenças da alma e do corpo são causadas por desequilíbrios (excesso de elementos, má educação), podendo ser curadas pela filosofia, ginástica, música e regime. As almas más reencarnam em mulheres ou animais; enquanto a virtude leva à felicidade e ascensão.
Assim é criado o cosmo o mais belo possível, buscando a imagem do eterno. A exposição de Timeu fornece um fundamento cósmico para a cidade ideal (da República) em ação.
Platão aqui se apresenta como um físico ou pensador da natureza, construindo uma cosmologia racional que conecta o mundo sensível (devir) ao mundo inteligível (ser eterno, mundo das Ideias).
O diálogo não deve ser lido isoladamente como cosmologia científica ou mítica autônoma, mas como expressão parcial e alusiva das doutrinas proto-lógicas, ganhando pleno sentido apenas quando iluminado pelas doutrinas não-escritas – os princípios supremos do Um e da Diade como fundamentos últimos da realidade.
O Demiurgo não é um deus criador absoluto no sentido teísta posterior, mas uma causa ordenadora que impõe limites e medida ao caos receptivo (chora), refletindo a ação dos princípios supremos: o Um (princípio de unidade e limite) e a Diade (princípio de multiplicidade e ilimitação). A matéria informe pode ser reinterpretada como manifestação da Diade, e o cosmos surge da bipolaridade (estrutura bipolar da realidade) entre princípios opostos, harmonizados pelo Um.
Timeu é um mito verossímil que alude às verdades metafísicas mais profundas, não expostas por escrito, sendo desenvolvidas apenas oralmente por Platão. O diálogo reflete a metafísica esotérica de Platão, onde o cosmos é imagem do inteligível, ordenado por princípios proto-lógicos.
Proporções pitagóricas: 1, 2, 3, 4, 8, 9, 27 (Λ platônico): é o esqueleto numérico da Alma do Mundo, duas progressões geométricas (dobrada (1 → ×2 → 2 → ×2 → 4 → ×2 → 8) e triplicada (1 → ×3 → 3 → ×3 → 9 → ×3 → 27) – ao unir e intercalar esses números na ordem em que aparecem na divisão, obtém-se a série completa: 1, 2, 3, 4, 8, 9, 27) que o Demiurgo usa para impor harmonia musical e ordem ao cosmos, tornando-o um ser vivo perfeito e musical.

Os pitagóricos viam os números como princípios cósmicos: o 1 (mônada = unidade), 2 (diade = dualidade), 3 (triade = harmonia), 4 (tétrade = justiça, soma 1+2+3+4=10, o tetraktys sagrado). A sequência 1–2–4–8 (potências de 2) e 1–3–9–27 (potências de 3) reflete a crença pitagórica de que 2 e 3 são os geradores primordiais de toda multiplicidade e harmonia (junto com o 1). Platão, influenciado pelo pitagorismo, usa isso para mostrar que o universo é matemático, harmônico e racional – uma cópia do inteligível eterno.
Os sete números representam os intervalos harmônicos fundamentais que o Demiurgo insere na Alma do Mundo para dividi-la em porções proporcionais. Eles correspondem às razões musicais pitagóricas básicas (influenciadas pela escola pitagórica):2:1 → oitava (diapason), 3:2 → quinta (diapente), 4:3 → quarta (diatessaron), 9:8 → tom inteiro. O Demiurgo preenche os intervalos restantes com proporções harmônicas (médias harmônica e geométrica) para criar a escala diatônica completa, estendendo-se por múltiplas oitavas.
Assim o cosmos ganha harmonia musical inerente – os movimentos celestes (estrelas fixas e planetas) produzem a música das esferas (inaudível aos humanos, mas perfeita).
Poliedros Platônicos: no diálogo, o Demiurgo constrói o mundo ordenando o caos com formas matemáticas perfeitas. Os elementos não são coisas materiais primordiais, mas partículas geométricas feitas de triângulos elementares (escalenos e isósceles retos). Esses triângulos formam as faces dos poliedros, permitindo que os elementos se transformem uns nos outros (exceto a terra, que é mais estável).Essa teoria é uma física geométrica antecipatória: Platão reduz a matéria a formas matemáticas ideais, ligando o sensível ao inteligível.
Um poliedro é platônico se satisfizer simultaneamente as seguintes condições: (a) todas as faces são polígonos regulares idênticos (mesmo número de lados e todos os ângulos iguais), (b) todas as arestas têm o mesmo comprimento, (c) todos os vértices são idênticos (o mesmo número de faces se encontra em cada vértice), e (d) é convexo (sem reentrâncias).
Matematicamente, só existem exatamente cinco desses poliedros no espaço euclidiano tridimensional. Isso foi provado rigorosamente por Euclides nos Elementos (Livro XIII), mas Platão já os conhecia e usava filosoficamente. A limitação a cinco surge da geometria: em cada vértice, a soma dos ângulos das faces deve ser menor que 360° (para que o poliedro feche convexamente sem ficar plano ou côncavo) - mais que isso não fecharia em 3D.
Quatro destes poliedros estão associados aos quatro elementos clássicos (fogo, ar, água, terra), baseando-se em características intuitivas de forma, mobilidade e sensação. O quinto é reservado para o cosmos como um todo.
Tetraedro: Pirâmide de base triangular associada ao fogo (é o mais agudo e pontiagudo → penetra, queima, move-se rápido e corta como o calor do fogo.
Octaedro: Duas pirâmides quadrangulares coladas pelas bases associadas ao ar (móvel, com faces pequenas e suaves → quase imperceptível ao toque, como o ar que nos cerca).
Icosaedro: Vinte triângulos equiláteros associados à água (quase esférico, com muitas faces → flui facilmente, escorre pelas mãos como gotas de água).
Cubo: Hexaedro regular associado à terra (mais estável, quadrado e sólido → representa a imobilidade e a solidez da terra).
Dodecaedro: Doze pentágonos regulares associados ao cosmos, o todo do universo (mais próximo da esfera (a forma mais perfeita e simétrica). Platão o descreve de forma mais reservada: "o deus o usou para o todo" – a forma mais próxima da esfera perfeita, simbolizando a harmonia cósmica.

Em Crítias, Platão continua a história da Atlântida e da antiga Atenas brevemente mencionada por Timeu. O velho Crítias propõe descrever primeiro a Atenas antiga (a cidade ideal de 9.000 anos antes – pré-histórica), depois sua inimiga Atlântida, e finalmente o confronto entre elas.
A Atenas pré-histórica é descrita como ideal, próxima do modelo desenhado na República. A sociedade era dividida em classes: guerreiros (guardas), agricultores e artesãos. Os guerreiros viviam separados, na Acrópole, recebiam sustento da terra sem precisar trabalhar, dedicando-se exclusivamente à virtude, justiça e defesa da pólis. Não havia propriedade privada excessiva nem luxo; a vida era simples, moderada e virtuosa – a deusa Atena educou os homens na sabedoria e na guerra justa. A terra era fértil, com abundância de recursos, e o clima era ideal. Os atenienses eram os mais belos e virtuosos dos homens, vivendo em harmonia com a ordem divina. Esta Atenas ideal representaria a vitória do Um sobre a Diade: harmonia, proporção, subordinação do sensível ao inteligível.
Já a ilha de Atlântida é descrita como uma utopia em decadência. De origem divina (Poseidon teria recebido a ilha como herança), a capital era circular, com diâmetros crescentes de anéis alternados de terra e água (3 de terra, 2 de água), conectados por canais e pontes. No centro ficava o templo de Poseidon e Cleito (esposa mortal de Poseidon), revestido de ouro, prata e do mítico metal oricalco. Havia canais largos para navegação, muralhas revestidas de metais preciosos, estátuas gigantes (incluindo Poseidon em carro puxado por cavalos alados), fontes quentes e frias, jardins, ginásios, estábulos para cavalos e elefantes.
Os 10 reis descendentes de Poseidon governavam regiões da ilha e de territórios conquistados. Reuniam-se a cada 5 ou 6 anos no templo para rituais: sacrificavam touros, bebiam sangue misturado com vinho em taças de ouro, julgavam uns aos outros e renovavam alianças. A lei era inscrita em uma coluna de oricalco. A ilha era imensa (maior que a Líbia e a Ásia juntas), rica em metais, animais, madeira, frutas e grãos. Os atlantes construíram uma frota poderosa, canais gigantes e muralhas. Dominavam vastos territórios na Europa e África, até o Egito e a Tirrenia.
Com o tempo, a natureza divina se diluiu pela mistura com o mortal. Os atlantes tornaram-se gananciosos, ambiciosos e injustos, perdendo a moderação. Zeus, vendo a corrupção, decide puni-los. A Atlântida simboliza o domínio da Diade (excesso, ilimitação, caos material, húbris) quando não limitada pelo Um (ordem, medida, virtude). Neste ponto da narrativa de Crítias o diálogo é interrompido no meio de uma frase, nunca abordando a guerra entre as duas pólis.
Atenas antiga encarna justiça, moderação e virtude; Atlântida representa o excesso, a húbris, o imperialismo e a corrupção pelo poder e riqueza. O mito ilustra como a pólis virtuosa resiste e derrota a potência corrupta, mas também como até sociedades divinas podem decair quando abandonam a ordem superior (o divino e o racional).
A Atenas pré-histórica e a Atlântida também representam imagens míticas das duas constituições originais ou primordiais da humanidade: a monarquia (ou ordem ideal hierárquica) e a democracia (ou excesso de liberdade que leva à decadência e destruição). Estes mitos servem para ilustrar a relação entre as constituições políticas e o mundo das Ideias.
Assim, Timeu faz conjunto com o diálogo Critias (e Leis), abordando a lei cósmica em paralelo com a lei estatal, a ordem do universo e a constituição ideal.
O estrangeiro de Siracusa, Hermócrates, seria o terceiro orador, provavelmente completado o ciclo ao tratar da aplicação prática da cidade ideal – possivelmente uma análise ou narrativa sobre política real, guerra e estratégia no contexto histórico do final do século V a.C., especialmente envolvendo Siracusa e suas relações com Atenas (e.g. a expedição siciliana durante a Guerra do Peloponeso) – uma reflexão sobre as limitações da política humana em imitar a ordem cósmica e a cidade ideal.
A trilogia seria incompleta propositadamente para efeito dramático e filosófico – o fracasso da narrativa (a Atlântida destruída, a Atenas ideal esquecida, a trilogia prometida nunca entregue) reflete a imperfeição do mundo sensível (devir, caos parcial apesar da ordem do Demiurgo) e a dificuldade de realizar a cidade perfeita na realidade histórica e política.
Notas
Platão (427-348 a.C.) nasceu em Atenas ou na próxima Egina.
Filho de Ariston, descendente do rei Codro, Perictíone e de um irmão de Sólon do lado materno. Ainda na juventude, recebe o apelido de Platão (“largo”) por razões incertas, mas provavelmente ligadas ao seu tipo físico. Seu nome era Arístocles.
Aos 19 anos torna-se discípulo de Sócrates. Sua obra escrita nos chegou aparentemente completa (26 diálogos são considerados legítimos).
Segundo o matemático e filósofo Alfred North Whitehead (1861-1947), “a mais segura caracterização da tradição filosófica europeia é que esta se constitui de uma série de notas de rodapé a Platão.”
Os subtítulo dos diálogos, e.g. Fedro, sobre o Belo, foram dados por Trasilo no século I, na Biblioteca de Alexandria que então comandava.
Timeu e Crítias são diálogos legítimos da maturidade platônica (segunda florescência filosófica).
A teoria atômica geométrica do Timeu é vista como uma antecipação de ideias modernas da física (Paul Friedländer chega a compará-la, em certo sentido, a concepções de Rutherford e Bohr sobre estrutura atômica, embora de forma analógica e não literal).
O dodecaedro é construído a partir da razão áurea. Suas faces pentagonais, suas coordenadas, seus comprimentos e volumes estão todos entrelaçados com φ (diagonal/lado = φ ≈ 1,618), tornando-o um dos objetos geométricos mais elegantes da matemática – para Platão uma ponte entre o finito e o infinito, o sensível e o inteligível.
Aristóteles admira aspectos do Timeu (e.g. teleologia, harmonia), mas o reformula para ser mais realista e observacional. Sua influência dominou a ciência medieval e renascentista, ofuscando o platonismo cósmico até o Renascimento (e.g. Kepler usa sólidos platônicos). No entanto, o Timeu inspira até hoje ideias de universo matemático e design inteligente.
Tomás de Aquino vê no Timeu uma antecipação genial da criação ordenada por um princípio bom e inteligente, mas o corrige substancialmente: Deus cria o universo do nada (ex nihilo), o mundo não é um deus visível com alma própria, e a matéria não é eterna.
No Comentário ao De Caelo et Mundo de Aristóteles, Aquino contrasta a cosmologia platônica (mundo como ser vivo esférico com alma) com a aristotélica (céus eternos, movidos por motores imóveis).
Oricalco é um metal lendário platônico, mas provavelmente baseado em uma liga real de cobre e zinco (latão antigo) que os gregos conheciam e valorizavam por seu brilho avermelhado e raridade.
Atlântida é uma criação alegórica platônica simbolizando o que acontece quando uma sociedade poderosa abandona a justiça e a ordem divina, tornando-se corrupta pela húbris, luxo e ambição.


