Cármides de Platão
- Cultura Animi

- 12 de jan.
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“Não se pode tratar bem uma parte sem tratar o todo; nem tampouco se deve tentar curar o corpo sem curar a alma.” – Sócrates enfatiza que o bem-estar físico depende da saúde da alma
“Parece que ainda não descobrimos o que seja a temperança; mas, se formos sensatos, continuaremos a buscá-la.” – Sócrates, indicação para a agrapha dogmata
Personagens Sócrates – filósofo Querofonte – discípulo de Sócrates Cármides – belo jovem (será um dos Trinta Tiranos) Crítias – primo mais velho de Cármides (será líder dos Trinta Tiranos)
O diálogo é uma busca socrática pela definição da temperança ou moderação (sophrosyne), que termina em aporia, típica dos diálogos platônicos iniciais. Cármides e Crítias são parentes de Platão que mais tarde integrarão os Trinta Tiranos. O futuro nefasto de ambos interlocutores indica que Platão faz aqui uma reflexão sobre os perigos da ambição política não guiada pela verdadeira sabedoria.
A busca pela definição de sophrosyne começa com o jovem Cármides propondo três definições, todas refutadas por Sócrates:
(a) temperança seria uma forma de quietude ou tranquilidade (fazer tudo de modo calmo e ordenado), mas Sócrates demostra que muitas ações temperantes exigem rapidez e energia, e.g. correr, lutar ou aprender rapidamente – a quietude não é essencial à temperança e ações rápidas podem ser belas e virtuosas.
(b) temperança seria pudor ou modéstia (aidos, senso de vergonha), mas Sócrates cita Homero (“a modéstia não é boa para um homem necessitado”) para argumentar que o pudor pode ser prejudicial em certas situações, enquanto a temperança é sempre benéfica e, portanto, não podem ser a mesma coisa.
(c) temperança seria cuidar dos próprios assuntos (“fazer o que é seu”), contudo Sócrates aponta que artesãos temperantes fazem coisas para outros (e.g. um sapateiro faz sapatos para terceiros), e uma cidade bem-ordenada depende da divisão do trabalho, onde as pessoas fazem coisas alheias – essa definição tornaria a temperança incompatível com a cooperação social.
Após a terceira tentativa de definição de Cármides, Crítias assume a discussão e desenvolve definições mais sofisticadas, começando por defender e modificar a última definição de Cármides, levando a conceitos mais epistêmicos:
(a) temperança seria fazer coisas boas (ou ações benéficas, distinguindo "fazer" de "produzir"). porém Sócrates argumenta que pessoas podem fazer coisas boas por acaso, sem saber que são boas, ou até médicos temperantes podem causar dano sem intenção. Além disso, ignorantes podem agir beneficamente sem reconhecer isso, separando a temperança do conhecimento do bem.
(b) temperança seria o autoconhecimento (gnothi seauton, “conhece-te a ti mesmo”, inscrito no templo de Apolo em Delfos), contudo Sócrates questiona o que esse conhecimento produz: todas as ciências têm um objeto e um produto específico, qual seria o da temperança?.
(c) temperança seria o conhecimento do conhecimento (“ciência das ciências” ou conhecimento de si mesmo e dos outros conhecimentos), entretanto Sócrates compara com outras ciências (medicina é da saúde/doença, nenhuma ciência é de si mesma). Uma “ciência da ciência” seria relativista, sem objeto próprio. não produziria benefício concreto (e.g. não cura doenças). e levaria a paradoxos: visões, desejos ou opiniões “de si mesmos” seriam absurdas. Mesmo se existisse, não garantiria que as pessoas agissem corretamente ou soubessem sobre o bem e o mal.
O diálogo termina em aporia: nenhuma definição resiste, mas Sócrates sugere que a temperança seria o maior bem se existisse como conhecimento do que se sabe e do que não se sabe (uma ideia que ele mesmo questiona). Isso reflete a ironia socrática e prepara temas platônicos posteriores sobre virtude como conhecimento.
Nos diálogos de maturidade de Platão, a temperança deixa de ser um conceito aporético e ganha uma definição mais sistemática, integrada à teoria da alma tripartida e à ético-política platônica.
No diálogo República, Platão define a temperança como uma harmonia ou acordo entre as partes da alma, e, por analogia, da cidade justa.
A alma seria dividida em três partes: racional (logistikon, busca verdade, sabedoria), irascível (thymoeides, busca honra, coragem) e apetitiva (epithymetikon, busca prazeres, desejos), sendo que a temperança se manifesta quando a razão governa, com auxílio da parte irascível, controlando e moderando os apetites. É ser senhor de si mesmo, onde os desejos inferiores não dominam, resultando em liberdade, equilíbrio e saúde da alma.
Já na cidade (pólis), a temperança é a virtude que se estende por todo o corpo social, produzindo uma concordância entre as três classes (governantes sábios, guardiões corajosos e produtores concupiscentes). As partes inferiores (desejos do povo) submetem-se voluntariamente ao domínio das partes superiores (razão dos governantes), criando ordem e domínio de si mesma. Diferente da sabedoria (nos governantes) e coragem (nos guardiões), a temperança é uma virtude sistêmica, que permeia todas as classes.
A temperança passa a ser uma virtude cardinal que garante a unidade e a justiça (que é cada parte fazer o seu próprio), podendo ser educada por leis e música (ver Leis), moderando prazeres e dores para harmonia cívica.
Cármides, com sua busca infrutífera pela definição de temperança, não é mera investigação socrática histórica nem exercício lógico vazio, mas tem função propedêutica e indireta. A aporia final serve como indicação deliberada de Platão de que certas verdades filosóficas profundas (como o autoconhecimento epistêmico ou a harmonia da alma ligada aos Princípios) não podem ser plenamente expressas por escrito, conforme as advertências no Fedro (sobre os limites da escrita) e na Carta VII. A refutação da “ciência da ciência” (proposta por Crítias) apontaria, indiretamente, para a necessidade de uma metafísica superior, acessível apenas oralmente – doutrinas não escritas ou agrapha dogmata (ver Para Uma Nova Interpretação de Platão de Giovanni Reale).
Notas
Platão (427-348 a.C.) nasceu em Atenas ou na próxima Egina.
Filho de Ariston, descendente do rei Codro, Perictíone e de um irmão de Sólon do lado materno. Ainda na juventude, recebe o apelido de Platão (“largo”) por razões incertas, mas provavelmente ligadas ao seu tipo físico. Seu nome era Arístocles.
Aos 19 anos torna-se discípulo de Sócrates. Sua obra escrita nos chegou aparentemente completa (26 diálogos são considerados legítimos).
Segundo o matemático e filósofo Alfred North Whitehead (1861-1947), “a mais segura caracterização da tradição filosófica europeia é que esta se constitui de uma série de notas de rodapé a Platão.”
Os subtítulo dos diálogos, e.g. Fedro, sobre o Belo, foram dados por Trasilo no século I, na Biblioteca de Alexandria que então comandava.
Cármides, da temperança é diálogo legítimo (gênero maiêutico), do período socrático (forma dramática platônica com conteúdo socrático).
O regime dos Trinta Tiranos foi um governo oligárquico autoritário que dominou Atenas (404– 403 a.C.) formado.após a derrota definitiva de Atenas na Guerra do Peloponeso (431–404 a.C.).
Aristóteles define a temperança na Ética a Nicômaco, como uma virtude ética que consiste na mediania em relação a certos prazeres corporais – a temperança não é ascetismo nem indulgência, mas moderação racional nos prazeres corporais essenciais, distinguindo humanos virtuosos de animais ou escravos dos desejos.
Tomás de Aquino dedica na Suma Teológica um tratado à temperança (temperantia), uma das quatro virtudes cardeais (junto à prudência, justiça e fortaleza). Ele a define como uma virtude moral que modera os desejos e prazeres sensíveis, especialmente os mais intensos e atraentes, para que se conformem à ordem da razão. Não suprime os prazeres, mas os usa conforme a razão e as necessidades da vida presente. i.e. o necessário para a conservação da natureza individual e da espécie – harmonia racional que permite gozar dos prazeres necessários sem escravidão.


