Eutidemo de Platão
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“Se a sabedoria é o bem, então o homem deve filosofar.” – Sócrates exortando a dedicação à filosofia
Personagens Sócrates – filósofo Critão – amigo de Sócrates Eutidemo e Dionisodoro – sofistas erísticos, irmãos Clínias – jovem promissor Ctesipo – amigo de Clínias, alívio cômico
Platão faz um contraste dramático e filosófico entre a erística (arte sofística da disputa verbal para vencer a qualquer custo, jogo verbal vazio, sofismas intencionalmente absurdos e falácias) e a verdadeira dialética socrático-platônica.(busca genuína pela sabedoria e pela virtude).
As partes erísticas (as refutações cômicas e vertiginosas) servem como contraponto satírico à seção central, onde Sócrates apresenta um discurso protrético, um apelo à filosofia como o único caminho para a eudaimonia (felicidade), via conhecimento do bem.
A seção erística representam a comédia do diálogo, com os irmãos Eutidemo e Dionisodoro como caricaturas dos sofistas erísticos (inspirados em figuras como Protágoras e os megáricos). Reale interpreta os sofismas (e.g.: “ninguém mente”, “o cão é teu pai”) como paródias distorcidas de verdades platônicas profundas – por exemplo, eles ecoam, de forma invertida, a doutrina da anamnese (reminiscência) do Menão, onde o conhecimento é recordado e não aprendido de novo. O humor surge da ironia socrática, que expõe o vazio da erística: ela pode vencer verbalmente, mas não conduz à verdade nem à virtude, corrompendo a juventude.
Platão usa o Eutidemo para mostrar os limites da erística: como ela pode confundir e aparentar sabedoria, mas não conduz ao conhecimento real nem à virtude. A erística é uma caricatura da dialética.
O âmago filosófico do diálogo é o discurso protrético que contrasta com a erística.
Sócrates enumera bens convencionais que as pessoas consideram desejáveis: riqueza, saúde, beleza, origem nobre, poder, honras, e virtudes (coragem, temperança, justiça, sabedoria). Para em seguida introduzir a ideia de uso correto, pois esses bens (externos ou corporais) não são bons em si mesmos, podendo ser bons ou maus dependendo de como são usados, e.g. saúde e riqueza em mãos de quem não sabe usá-las podem levar a males maiores como doença por excesso, e ruína por má gestão; coragem sem sabedoria pode ser imprudente e prejudicial.
O que torna qualquer coisa boa é seu uso correto, o que requer sabedoria, o único bem verdadeiro, pois é a única coisa que garante o uso correto dos demais bens. Logo, quem possui sabedoria será feliz, pois saberá guiar tudo para o bem, sendo ela o único bem incondicional. E a filosofia (philosophia = amor à sabedoria) é o meio pelo qual adquire-se sabedoria.
Sócrates guia Clínias a concluir que a felicidade (eudaimonia) depende unicamente da sabedoria (sophia ou episteme), o bem incondicional que permite o uso correto de bens externos (riqueza, saúde, poder) – uma defesa do intelectualismo socrático-platônico: virtude = sabedoria, sendo a filosofia o único caminho para adquiri-la. O texto convida o leitor a filosofar autonomamente, resgatando-o da confusão erística.
O final do diálogo (a conversa com Critão sobre se deve aprender com esses sofistas) é uma reflexão irônica de Platão sobre a educação e sobre quem realmente merece ser mestre – reforçando a superioridade da filosofia socrática.
Em Eutidemo, Platão emancipava-se gradualmente do pensamento puramente socrático, introduzindo temas platônicos maduros, como a sabedoria como bem supremo e a filosofia como caminho para a virtude e a felicidade.
Seguem os principais argumentos/refutações erísticas do diálogo, explicando o sofisma, a falácia subjacente e o contraponto implícito:
“Clínias já sabe tudo”, logo o aprendizado é impossível (275d–277c) Argumento: Perguntam a Clínias se ele sabe letras (sim). Então, quando alguém ensina algo novo, ele reconhece o que não sabia → logo, sabe que não sabe → sabe tudo. Isto é, ou se sabe ou não se sabe; se sabe, não precisa aprender; se não sabe, não reconhece o que aprender → aprendizado impossível.
Falácia: Equívoco entre “saber que não sabe” (consciência da ignorância) e “saber o conteúdo” (conhecimento positivo). Também ignora o processo gradual de aprendizado.
Contraponto: Isso parodia a doutrina da anamnese (reminiscência) do Menão, mas de forma invertida e vazia. Na dialética verdadeira, o aprendizado é possível via busca colaborativa; a erística bloqueia qualquer progresso real.
“Ninguém mente”, é impossível falar o falso (283a–284c) Argumento: O que não existe não está em lugar nenhum → não se pode fazer nada com o que não existe → mentir é falar do que não é → logo, ninguém pode mentir (pois falar do não-existente é impossível). Todos sempre dizem a verdade.
Falácia: Confunde “existir como coisa real” com “existir como objeto de discurso” (o falso existe como representação mental ou linguística). Ecoa Parmênides (“o não-ser não é”), mas aplicado de forma absurda.
Contraponto: Sócrates ironiza que, se ninguém mente, os sofistas não podem refutar ninguém (pois refutar implica mostrar falsidade). A erística se autodestrói: se o falso é impossível, não há vitória possível.
“O cão é teu pai, e tu és irmão dos filhotes” (298b–299a) Argumento: Tens um cão? Sim. Ele tem filhotes? Sim. Logo, o cão é pai. É teu cão → logo, teu pai. Logo, tu és irmão dos filhotes → tu és cão!
Falácia: Equívoco grosseiro no uso de “pai” (pai biológico vs. dono de animal). Ignora contextos e relações específicas.
Contraponto: Ctesipo reage com fúria cômica (“meu cão é meu irmão?!”). Mostra como a erística ignora o sentido comum e o uso ordinário da linguagem, reduzindo tudo a trocadilhos ridículos.
“O mesmo homem é pai e não-pai ao mesmo tempo” (297e–298a) Argumento: Alguém é pai de um filho → é pai. Mas não é pai de outro → não é pai. Logo, é pai e não-pai simultaneamente (aplicado a Sócrates: pai de seus filhos, mas não de outros).
Falácia: Equívoco no predicado “ser pai” (absoluto vs. relativo). Ignora qualificações (“pai de alguém específico”).
Contraponto: Isso leva a absurdos ontológicos (contradição flagrante). Platão usa para satirizar a manipulação do verbo “ser” (tema que reaparece no Sofista).
“Conheces teu pai?”, logo conheces todos os pais , conheces tudo (298d–e) Argumento: Conheces teu pai? Sim. Teu pai é “um pai” → conheces “o pai” (em geral). Logo, conheces todos os pais. Extensão: se conheces “o que é” (ser), conheces tudo.
Falácia: Equívoco entre particular (“teu pai”) e universal (“o pai”). Jogo com o artigo definido.
Contraponto: Volta ao tema do “saber tudo”. Ridiculariza a pretensão sofística de conhecimento enciclopédico vazio.
“Refutação impossível”, logo ninguém é refutado (variações ao longo, ex. 286c–d)
Argumento: Refutar alguém implica mostrar opinião falsa. Mas opinião falsa é impossível (ver sofisma 2) → logo, ninguém pode ser refutado.
Falácia: Circularidade e negação do não-ser/parmenídico mal aplicado.
Contraponto: Sócrates nota que, se ninguém é refutado, os sofistas não podem vencer discussões. A erística se anula.
Notas
Platão (427-348 a.C.) nasceu em Atenas ou na próxima Egina.
Filho de Ariston, descendente do rei Codro, Perictíone e de um irmão de Sólon do lado materno. Ainda na juventude, recebe o apelido de Platão (“largo”) por razões incertas, mas provavelmente ligadas ao seu tipo físico. Seu nome era Arístocles.
Aos 19 anos torna-se discípulo de Sócrates. Sua obra escrita nos chegou aparentemente completa (26 diálogos são considerados legítimos).
Segundo o matemático e filósofo Alfred North Whitehead (1861-1947), “a mais segura caracterização da tradição filosófica europeia é que esta se constitui de uma série de notas de rodapé a Platão.”
Os subtítulo dos diálogos, e.g. Fedro, sobre o Belo, foram dados por Trasilo no século I, na Biblioteca de Alexandria que então comandava.
Eutidemo, o disputador é diálogo legítimo (gênero anatréptico), do período mediano (primeira florescência filosófica).
Gênero anatréptico, i.e. o tipo de sofista que se dedica à refutação (à derrubada dos argumentos alheios), muitas vezes de forma erística e aparente, não em busca da verdade.
O diálogo é narrado por Sócrates ao seu amigo Críton, que o encontra no Liceu e pergunta sobre um encontro recente daquele com os dois irmãos sofistas: Eutidemo e Dionisodoro (este último, um ex-professor de pancrácio que alega ter-se tornado especialista em refutações verbais).
Pancrácio: espécie de combate ou prova atlética dos gregos e romanos antigos, envolvendo elementos de luta livre e pugilato.
Discurso protrético (logos protreptikos): tipo de texto ou fala filosófica cujo objetivo principal é exortar, convencer ou incentivar alguém a adotar a filosofia como modo de vida – convite ou exortação à filosofia, com caráter persuasivo.


