Fedro de Platão


Querido Pã, e todas vós, divindades locais: dai-me alcançar a beleza interna, e que tudo o que o que eu tenho no exterior fique em consonância com o que trago dentro de mim; rico me pareça exclusivamente o sábio, e seja todo o meu ouro (conhecimento) o que apenas o homem temperante necessite e possa carregar.” – Sócrates ora o resumo da fé filosófica (279c)

Personagens Principais Sócrates – filósofo Fedro – jovem discípulo de Lísias

Personagens Secundárias Lísias – sofista, professor de retórica/erística (apenas citado) Epícatro, Acumeno – médicos, amigos de Lísias (apenas citados)

Fedro propicia uma visão panorâmica da filosofia platônica, ajudando a entender sua obra. Três aspectos se destacam: (1) a filosofia como oposição a retórica na luta pela alma humana (especialmente da juventude), (2) revisão da posição de Platão que passa a priorizar a alma individual (em busca das Ideias) ao invés da Pólis (rei-filósofo), e (3) a superioridade da oralidade sobre a escrita para certos ensinamentos.


O confronto com os sofistas e sua retórica começa com Sócrates criticando o discurso de Lísias tanto no conteúdo quanto na forma e, desafiado por Fedro, Sócrates faz um (segundo) discurso focando na melhora da forma, mas ainda defendendo a mesma tese de Lísias, pelo qual cobriu a cabeça de vergonha. Esta melhora está na definição do amor (definição clara do que está sendo discutido), na classificação dos tipos de amantes (entendimento das possibilidades) e no exame de todos antes da definição final (análise das possibilidades) – sequencia e arrazoado que Lísias não fez.


Sócrates reforça a dialética em oposição à retórica quando alerta para possibilidade de mudar de posição: o daimon de Sócrates (sua consciência moral – gênio familiar) impende que ele vá embora antes de corrigir o conteúdo de seu discurso anterior. Afirmando que teria ofendido Eros, Sócrates descobre a cabeça, e faz um segundo (terceiro contando o de Lísias) discurso.


Neste segundo discurso socrático, a alma é definida como imortal – a alma platônica é uma substância cósmica que dá sentido a eternidade, uma manifestação do mundo infinito neste mundo material (não confundir infinito com indefinido, tudo no mundo material pode ser definido (i.e. limitado), só Deus é infinito (para os hindus “Deus é aquele que não é”, pois defini-lo seria limitá-lo)). O ser mortal é a corporificação daquela substancia cósmica.


A alma é apresentada metaforicamente como uma força natural composta de uma parelha de dois cavalos alados, um belo e de raça nobre e outro o contrário em ambos, guiados por um auriga. Podemos entender esta imagem como o cavalo nobre representando o espírito (desejos legítimos – virtudes), o cavalo ruim seria o corpo (desejos ilegítimos – paixões), e o auriga a nossa mente (razão). Nosso corpo também percebe o mundo sensível, mas só nossa mente pode perceber o mundo das ideias (inteligível) e só nosso espírito pode captar o mundo dos princípios (das leis eternas) – segunda navegação platônica.


A mente (inteligência) é capaz de raciocínios, mas não é capaz de perceber a verdade (só o espírito é capaz). A mente percebe a coerência, contradição, inconsistência, viabilidade, lógica, etc. A mente tem abordagem horizontal e o espírito tem orientação vertical.


Os deuses (imortais) possuem dois cavalos nobres e vivem na abóboda do céu, mas as parelhas conflitivas (almas) não conseguem alimentar-se das essências ideais, tendo apenas lampejos do Mundo das Formas, e acabam perdendo suas asas, sofre a queda e corporificando-se na matéria (análogo a Queda no Cristianismo) – neste estado o homem têm reminiscências dos lampejos da beleza real e verdadeira que transcende o mundo sensível. Psyche passa athanatos (todo o que é alma é imortal – 245c) e a alma é imortal na medida em que vê e, pela visão, participa da Ieia. A diferença entre os seres está no quanto são capazes de lembrarem-se da Beleza pura.


A Beleza é importante porque é a forma que mais facilmente a alma corporificada se recorda – as belezas materiais nos atraem porque nos remetem a forma da Beleza (uma beleza em si própria que não podemos definir, apenas inteligir – o UNO que se manifesta sobre diversas formas concretas no múltiplo). Perceber a beleza é uma volta ao Mundo que deixamos quando perdemos as asas – é o maior estimulo a reminiscências, daí ser a Beleza (neste contexto) a forma mais importante. É o que mais ajuda a lembrar o Mundo das Formas.


Platão introduz a concepção tripartite da existência: (1) Mundo Sensível: material, múltiplo, cópias imperfeitas das essências ideais, (2) Mundo das Formas: apenas inteligível, unidade, concepções perfeitas das ideias, e (3) Mundo dos Princípios: pré-condições para existência, e.g. só pode existir o que tem potencia de existir, tudo que existe, existe em unidade – princípios dos quais Deus cria as formas ideais. A teoria das formas é uma teoria metafísica dentro de uma filosofia moral.


Aquela existência tensional, representada pelos dois cavalos de diferente natureza (ascensão e queda – espírito e matéria) permeia toda a mitologia grega, e está na essência do Cristianismo. Porém é abandonada após Descarte retirar a alma da equação ontológica, restando apenas corpo e mente.


Sócrates recupera Eros explicando que os deuses conferem manikê, manias (delírio, loucura) benignas (não patológicas). Estas dádivas seriam de quatro naturezas: dom da profecia, dom do augúrio, inspiração poética, e a paixão (como delírio amoroso) – corrige assim a natureza de Eros dada no discurso anterior.


Este delírio amoroso deveria ser usado para lembrar do mundo das ideias, pois o verdadeiro amor é aquele que tende ao ideal – a paixão deve ser sublimada (o homem deve buscar os desejos legítimos – aqueles sancionados por Deus – e enjeitar os ilegítimos). O problema central da vida humana é dominar os desejos ilegítimos, dominar o cavalo ruim.


As almas caídas corporificam-se conforme a visão que tiveram das essências (Mundo das Formas ou Ideias). Segue a hierarquia das encarnações por ordem decrescente dependendo do quanto mais a alma contemplou as essências:


1) Filósofo, amante da Beleza, Poeta 2) Rei, guerreiro 3) Político, ecônomo e comerciante 4) Ginastas, entendidos em doenças 5) Adivinho 6) Poeta, imitador 7) Artista, lavrador 8) Sofista e demagogo 9) Tirano


Observa-se que o filósofo separa-se do rei, coincidindo as primeiras posições acima com a hierarquia das quatro castas da filosofia perene (brâmanes, xátrias, vaixás e sudras na nomenclatura adotada no hinduísmo) – o poder espiritual é separado do poder governamental (porém no mundo moderno o Estado cada vez mais ilegitimamente incorpora o poder espiritual).


Idealmente as quatro primeiras reencarnações formariam o núcleo da pólis bem ordenada, as três seguintes constituiriam a sociedade decadente e as duas últimas os corruptores da sociedade (inimigos da alma). O poeta (a arte) é listado duas vezes, pois há a arte boa (voltada para a sublimação dos desejos ilegítimos) e a arte ruim, decadente.


Terminado o discurso sobre o real papel de Eros na condução do homem-alma, Sócrates demarca a diferença entre a retórica sofista e a dialética filosófica – esta sendo processo de síntese e análise (análogo ao funcionamento do coração – sístole (contração) e diástole (expansão)). O retórico quer persuadir (vencer a discussão) e o dialético quer iluminar, alcançar a verdade. Retórica com verdade chama-se filosofia.


Nesta confrontação da dialética com a retórica já se encontra em potência o elenco dos quatro discursos aristotélicos (poético, retórico, dialético e lógico). Sócrates ensina Fedro a amoldar o discurso conforme a interlocutor, de onde se pode fazer um novo paralelo com as quatro castas: o discurso poético seria mais adequado aos sudras, o retórico aos vaixás, o dialético aos xátrias e o lógico aos brâmanes).


Finalmente, Sócrates fala da superioridade da oralidade sobre a escrita, pois esta não permite o debate – indicando que certos ensinamentos só poderiam ser transmitidos oralmente. Assim os diálogos platônicos comporiam sua obra exotérica, sendo de caráter esotérico seus ensinamentos orais (agrapha dogmata).


Notas

  • Platão (427-348 a.C.) nasceu em Atenas ou na próxima Egina.

  • Filho de Ariston, descendente do rei Codro, Perictíone e de um irmão de Sólon do lado materno. Ainda na juventude, recebe o apelido de Platão (“largo”) por razões incertas, mas provavelmente ligadas ao seu tipo físico. Seu nome era Arístocles.

  • Aos 19 anos torna-se discípulo de Sócrates. Sua obra escrita nos chegou aparentemente completa (26 diálogos são considerados legítimos).

  • Segundo o matemático e filósofo Alfred North Whitehead (1861-1947), “A mais segura caracterização da tradição filosófica europeia é que esta se constitui de uma série de notas de rodapé a Platão.”

  • Os subnomes dos diálogos, e.g. Fedro, sobre o Belo, foram dados por Trasilo no século I, na Biblioteca de Alexandria que então comandava.

  • Fedro é diálogo legítimo (gênero moral), provavelmente escrito no período mediano, fase de ascensão, do autor. Eric Voegelin considera que Fedro foi escrito logo após a República, onde a proposta do rei-filósofo não convenceu seus concidadãos.

  • Independência do individuo perante o saber: “até agora não fui capaz de conhecer a mim mesmo... cuido apenas de examinar-me.” (229e) – logo no início do diálogo Platão deixa claro que Sócrates é um filósofo.

  • Platão faz uso de uma alegoria para explicar a alma em função do seu caráter inefável. Nossa razão só pode lidar com as coisas finitas, por isso a dificuldade humana de entender e explicar a alma ou Deus – somos como deuses mas não somos deuses.

  • As religiões tendem a similaridade no simbolismo relacionado à realidade humana, mas variam muito no tocante a doutrina (mesmo as religiões bramânicas – todas vindas do mesmo tronco, Abraão).

  • Homero e Estesícoro (c. 640-566 a.C. – poeta lírico) teriam sido cegos pelos deuses por terem caluniado Helena (fugir voluntariamente com Páris). Estesícoro teria recuperado a visão ao contar a história real.

  • Palinódia: retratação num poema, daquilo que se disse em outro (no caso foram discursos e não poemas).

  • Sexo como recuperação da Unidade perdida: o homem é saudoso da parte dele retirada para fazer a mulher e esta saudosa do tudo ao qual pertencia. – paixão de origem divina que impulsiona o homem a recuperar sua própria origem (Deus).

  • A “fé metástica” de que fala Eric Voeglin só ocorre pela perda do espírito, a perda da capacidade de ver a verdade.

  • “Delírios coribintias”: de coribantes que gritavam alucinados em seus ritos a deusa frígia Cibele (natureza – potência vegetativa).

  • Tifão: o último adversário de Zeus (o único entre os Olímpicos com coragem de combatê-lo e capacidade para vencê-lo). Na batalha da alma representa o fogo devorador, revolta destrutiva do intelecto. Perda do impulso evolutivo em direção ao espírito. Banalização, morte da alma.

  • Ditirombos: poemas oferecidos a Dionísio.

  • Muitas culturas antigas consideravam o acesso de delírio ou a loucura como uma forma de intermediária de aproximação com o divino (um exemplo disso seriam as bacantes). Os poetas delirantes seriam amis efetivos que os normais.

  • Adrastia: uma consequência da qual não se escapa (circunstância da vida humana) – algo que precisa acontecer para que outro algo ocorra (similar ao destino).

  • Homéridas: que recitam no estilo de Homero ou obras deste.

  • Nietzsche em A Origem da Tragédia diz que a filosofia matou a tragédia, pois a racionalização matou a mitologia (em 229d Platão diz que ao entender a história por trás da mitologia revela-se a sua simbologia, acabando com os deuses, esvaziando-os).

  • Mitologia: descrição simbólica da realidade dentro da qual a estrutura humana opera. Mitologia >>> Tragédia >>> Filosofia.

  • Os pássaros eram usados pelos gregos para fazer previsões, pois eles estão entre o céu (deuses) e a terra (homens). Portanto, o melhor veículo para interpretar o desejo dos deuses. Isso era feito tanto pela interpretação do voo como pelo exame das entranhas do pássaro.

  • A biblioteca de Alexandria foi atacada diversas vezes (as tragédias gregas que lá estavam – “compradas / custódia em ouro” de Roma – foram queimadas para esquentar a água das termas). Júlio César (Roma - acidente), Aureliano (Roma – saque), Imperador Theodosius (Papa Copta – decreto contra templos pagão) e invasão árabe contra Constantinopla teriam sido responsáveis por diferentes partes da destruição da biblioteca.

  • Segundo Aristóteles tudo tem uma causa, uma coisa é movida por outra coisa, se recuarmos não dá para projetar isso no infinito, uma hora algo começou a mover algo – este princípio é Deus.

  • No Cristianismo a alma é eterna (participa da eternidade), pois não vai perecer. Porém ela teve um começo, criada por Deus. Mas Este não teve começo, é a eternidade plena.

  • Axioma (A=A), é auto evidente (e.g. você não pode provar que você é você mesmo).

  • Perfeito (em filosofia) é ser do jeito que tinha que ser, cumprir sua natureza, plenamente realizado, cumprir sua missão ontológica (e.g. o ser humano é dual – o casamento heterossexual é “perfeito”).

  • O maior problema da incultura é o potencial de não entender o que te acontece – diferente de quem lê e reconhece seus problemas nos livros, entende-os e sabe que não é só ele que os tem, e isso pode ser muito reconfortante. A leitura da Bíblia deve ser feita nesta condição – buscar encontrar nela os seus próprios problemas e entender as soluções que ela (Bíblia) oferece.

  • Os ritos funerários em várias culturas tradicionais servem para dar destino aos resquícios psíquicos. Assim como o nosso corpo fica e decompõem-se, o mesmo acontece com a nossa psique. Os fenômenos (fantasmas) são reais e acontecem por não ter sido dado um destino correto ao morto. Mas não é a pessoa que está ali, e sim seus resquícios psíquicos. Exemplo: Corronte, na Odisséia, que pede a Odisseu para voltar e fazer os ritos, pois sem eles ele não podia entrar no Hades.

  • Deus dá passos para trás e cria: Esfera Divina (seu ponto de partida), (1) Esfera Espiritual – espírito, (2) Esfera Psíquica – mental / mente (os fenômenos são desta esfera), e (3) Esfera Física – matéria / corpo.

  • Deucalião e Pirra – ele era filho de Prometeu que, escondido pelo pai, escapou (com a esposa) da ira de Zeus. Ao encontrá-los no topo de uma montanha Zeus se apieda de ambos e pede para que joguem os “ossos da mãe” de costas. Com o tempo eles percebem que os ossos da mãe seriam as pedras (mãe Gaia) e as atiram, e as pedras transformam-se em homens e mulheres. Mesma história de Noé, o melhor do ciclo velho vai povoar o novo ciclo. Como os filhos de Noé: Sem (Oriente), Cã (África – castigado por humilhar o pai (quando este inventou o vinho e embriagou-se – seus filhos negros viraram escravos / versão fraca pois os negros também escravizaram outros povos) e Jafé (Europa). Cada um dirigiu-se para uma região para povoar a terra.

  • O cumprimento islâmico de colocar em ato contínuo a mão no peito, na cabeça e para cima só é feito para Deus e nunca para os homens. Significa você entregar-se totalmente (coração, mente e alma) para Deus.

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