O Espelho Partido de Marques Rebelo
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“Nós terminamos, apesar de todo nosso senso de realidade, por não distinguir o dia do sonho, como diria Rilke. E dessa confusão é que me foi saindo O Espelho Partido – caco a caco, mistura de biografia e ficção. Mas ao cabo um grande espelho da minha e de outras vidas, igualmente ásperas, um espelho de nossa época. Ele é muito camuflado. Nele se confundem o homem e o escritor sofrendo o mesmo drama – não saber para o que veio, não sabendo o que foi, não sabendo para onde irá e o que legar.” – Marques Rebelo
Personagens Principais
Eduardo – narrador, escritor, alter-ego do autor
Julião Tavares (Carlos Lacerda) – intelectual, político, brilhante e combativo
Gustavo Orlando (Graciliano Ramos) – escritor, austero e íntegro
Vasco Araújo (José Olympio) – editor, articulador cultural
Francisco Amaro (Francisco Inácio Peixoto) – escritor, elo entre cultura e elite econômica
Guilherme Grunberg (Oscar Niemeyer) – arquiteto, ligado à vanguarda
Personagens Secundárias
Lobélia e Luísa – primeira e segunda esposa de Eduardo
Catarina – amante de Eduardo, moça rica, sangue com antepassado negro
Susana Mascarenhas – mulher de origem tradicional, possibilidade afetiva de Eduardo
Interpretação
O romance tem a forma de um longo diário em cujos dias não são apenas anotados os acontecimentos com o narrador, país (modernismo literário, Revolução de 30 e Estado Novo) e mundo (II Guerra Mundial), mas também diálogos, curtas análises, recordações e aforismas. Formando assim um espelho fragmentado daquela época envolvendo o país e o mundo, com ênfase social e individual junto à intelectualidade nacional, e particularmente carioca, daqueles anos – o tema é a vida de um intelectual nos meios intelectuais do Rio Janeiro abordado num misto de ficção e biografia.
À diferença de um simples diário em que são registrados os acontecimentos dos dias, na maioria das vezes secamente e sem uma preocupação formal, as anotações de Rebelo demonstram um cuidado próprio da construção literária. Isso fica marcado no ritmo de frases e parágrafos aos moldes da poesia, na escolha minuciosa do vocabulário, no encadeamento das anotações – na maioria das vezes irônico – e também na confusão entre acontecimentos íntimos e externos.
As inúmeras personagens foram inspiradas em pessoas de seu convívio pessoal efiguras do meio intelectual e político carioca. Trocando nomes de amigos e conhecidos, Rebelo fica livre para criticar, apoiar ou dar um tom de ficção às histórias vividas, muitas vezes transcritas na forma de diálogos. É uma visão pessoal do autor, que comenta sobre eventos históricos com conhecimento de suas consequências.
Muitas personagens são figuras reais, fusões de algumas delas, caricaturas parciais, outipos inspirados nos círculos sociais do autor. Algumas delas podem ser claramente identificadas com o ente histórico:
Adonias Ferraz – Cornélio Pena (1896-1958), romancista, pintor, gravador e desenhista
Altamirano Azevedo – Augusto Frederico Schmidt (1906-1965), poeta
Antenor Palmeiro – Jorge Amado (1912-2001), escritor
Débora Freijó – Rachel de Queiroz (1910-2003), escritora, jornalista e tradutora
Francisco Amaro – Francisco Inácio Peixoto (1909-1986), escritor
Guilherme Grunberg – Oscar Niemeyer (1907-2012), arquiteto
Gustavo Orlando – Graciliano Ramos (1892-1953), romancista, cronista, jornalista e político
Jacobo Giorgio – Otto Maria Carpeaux (1900-1978), / Paulo Rónai (1907-1992)
João Soares – Octavio de Faria (1908-1980), jornalista e escritor
Joaquim Borba – Cyro dos Anjos (19061994), escritor, jornalista e professor
Julião Tavares – Carlos Lacerda (1914-1977), jornalista e político
Júlio Melo – José Lins do Rego (1901-1957), escritor
Lucas Barros – Álvaro Lins (1912-1970), advogado, jornalista e crítico literário
Luís Cruz – Gastão Cruls (1888-1959), médico e escritor
Magalhães Braga – Guimarães Rosa (1908-1967), médico, diplomata, escritor e poeta
Marcos Rebich – Adolpho Bloch (1908-1995), empresário da imprensa
Mário Mora – pintor Santa Rosa (1909-1956), pintor, cenógrafo, figurinista e crítico de arte
Martins Procópio – Alceu Amoroso Lima (1893-1983), escritor, professor e crítico literário
Nicolau – Cândido Portinari (1903-1962), artista plástico
Pedro Morais – Prudente de Morais Neto (1904-1977), jornalista, cronista e crítico literário
Ribamar Lasotti – Amando Fontes (1899-1967), político
Saulo Pontes – Aníbal Machado (1894-1964), escritor, professor e homem de teatro
Vasco Araújo – José Olympio (1902-1990), editor e livreiro
Zagalo – Lasar Segall (1899-1957), pintor e escultor
“o famoso sociólogo” – Gilberto Freyre (1900-1987), sociólogo, jornalista e poeta
“o poeta” – Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), poeta e cronista
O protagonista transforma-se ao longo da trilogia, formando uma consciência cada vez mais aguda e problemática.
Nas reminiscências em O Trapicheiro o vemos passar da ingenuidade à autoconsciência, compreendendo o natural desajuste entre expectativa e realidade – observador mas ainda inseguro. Tem os primeiros contatos com ideias e cultura, mostrando um interesse intelectual ainda difuso, sem posição definida. Ele ainda não pensa sistematicamente, apenas percebe. Moralmente comporta-se conforme a herança familiar, vivendo dentro dos valores recebidos, sem reflexão própria.
Em A Mudança ocorre um verdadeiro salto. Sua sensação de deslocamento se acentua, aumentando sua capacidade de observação. Eduardo ingressa no meio literário, mas sem aderir completamente a nenhum grupo – formação intelectual (aumento do contato com ideais, debates e autores) sem pertencimento. Moralmente começa a questionar o comportamento alheio, e as ambições e vaidades do meio literário, surgindo o conflito entre adaptação social e fidelidade interior.
Finalmente, em A Guerra Está Entre Nós, vemos Eduardo em plena consciência das máscaras sociais, demonstrando uma aguda visão das contradições humanas, o que, por outro lado, aumenta seu isolamento, dificultando sua ação (lucidez paralisante). A compreensão profunda do seu meio intelectual e suas dinâmicas de poder, vaidade e competição, o afasta de qualquer grupo, exercendo uma inteligência crítica sem adesão. Externa uma consciência moral rigorosa junto ao meio intelectual ao custo de certa marginalidade e perda de eficácia social. Porém, Eduardo não sustenta, na vida íntima, os valores que admira, falhando onde a moral é concreta (no vínculo conjugal) – uma consciência que não se converte em caráter.
Ao final da trilogia, Eduardo se torna mais lúcido, moralmente mais exigente de seus pares, e intelectualmente mais sofisticado. Porém ele fica preso entre os dois modelos de intelectual representados por Julião Tavares (Carlos Lacerda) e Gustavo Orlando (Graciliano Ramos), isolado, indeciso e incapaz de síntese.
A trajetória de Eduardo é ascendente mas não redentora. É uma personagem inacabada, expressão do próprio processo histórico brasileiro, e problemática, que aparenta compreender tudo, mas nada realiza. Ele flerta com a soberba de quem tudo critica, sem nunca se comprometer, como quem não quer sujar as mãos num mundo que estaria abaixo de si.
De certa forma, Eduardo exemplifica o fracasso da intelectualidade brasileira no processo civilizatório da nação.
O meio literário e cultural do Rio de Janeiro funciona como uma espécie de crônica ficcional da intelligentsia brasileira, e a trilogia revela uma intelectualidade como um campo cultural em formação, com todas as suas contradições: brilhante, mas dispersa; ativa, mas pouco estruturada; sofisticada em aparência, mas estruturalmente frágil (dependente de modelos europeus); povoada por alguns poucos talentos reais, e por muitas vaidades.
A intelectualidade aparece desarticulada, sem projeto coletivo claro, e marcada por individualismos fortes. Não há um campo intelectual coeso, como na tradição europeia, mas sim um conjunto de círculos, relações pessoais, e alianças circunstanciais.
Transpira uma vaidade intensa dos intelectuais, disputando entre si por prestígio, cada um buscando construir sua persona pública – o meio literário aparece quase como um palcoonde cada um representa um papel. Destaca-se o relacionamento de inveja e competitividade entre os letrados, e como eles lidam mal com as críticas.
A literatura aparece muitas vezes como meio de inserção social, instrumento de prestígio e/ou forma de convivência, e não necessariamente como vocação profunda e busca desinteressada pela verdade. Há figuras apresentadas com autenticidade moral, mas a maioria delas comportam-se com superficialidade, oportunismo, e carreirismo. A vida intelectual aparece como profundamente dependente de editoras (como José Olympio), jornais e redes de influência. Não há autonomia plena do intelectual que está condicionado por relações sociais e inserção em estruturas de poder.
Ao longo da trilogia há um embate intelectual entre as personagens Julião Tavares (Carlos Lacerda) e Gustavo Orlando (Graciliano Ramos). A relação entre eles é um conflito de éticas, colocando em choque dois diferentes modelos de vida intelectual, sugerindo que a intelectualidade brasileira oscilava entre o brilho da influência e o peso da consciência.
Julião Tavares é expansivo, retórico, voltado para a ação pública, e extremamente consciente da própria imagem. Representa o intelectual com influência política, estrategista da palavra. Ele usa a inteligência como instrumento de poder, e tem tendência à teatralização da vida pública. Seu discurso pode distanciar a moral da efetividade prática – o risco da inteligência se tornar espetáculo.
Já Gustavo Orlando é introspectivo, avesso à autopromoção, e rigoroso consigo mesmo – o intelectual com consciência crítica, testemunha moral do seu tempo, escritor no sentido forte. Há nele uma espécie de ideal implícito que busca coerência entre vida e obra, recusando facilidade e resistindo à vida social superficial – a inteligência como disciplina moral.Estes opostos representariam as tensões reais da formação cultural brasileira, com o autor fazendo uma crítica ao intelectual midiático e performático (denúncia da transformação da cultura em instrumento de ascensão) Para Rebelo, Julião Tavares é quase um arquétipo do intelectual que vence socialmente ao custo de diluição moral, enquanto Gustavo Orlando preservaria a integridade ao custo de permanecer à margem.
A oposição destes dois intelectuais revelaria um dilema estrutural: o intelectual deveinfluenciar a sociedade (mesmo com concessões) ou preservar a verdade (mesmo com isolamento).
A apreciação que Eduardo (Rebelo) faz de Gustavo Orlando (Graciliano Ramos) choca-se com o histórico de Graciliano Ramos que, filiado ao Partido Comunista, não escapou de prestar culto à ideologia e produzir uma literatura militante. Mesmo depois das denúncias de André Gide (1869-1951), Arthur Kostler (1905-1983) e Albert Camus (1913-1960), Ramos não deixava de se referir a União Soviética como “Terra Santa” e endeusar o genocida Stalin.
As personagens envolvem-se em discussões sobre temas nacionais e internacionais relevantes naqueles anos, refletindo diferentes atitudes, sendo que quatro tipos de intelectuais sobressaem-se: (a) o retórico, fala muito e age pouco; (b) o oportunista, adapta o discurso conforme o momento; (c) o cético, não acredita em nada e não se compromete; e, raramente, (d) o íntegro, coerente, mas geralmente isolado.
Os temas mais recorrentes nas discussões dos grupos são:
II Grande Guerra: frequente pano de fundo, discutida em cafés, redações e círculos literários. Há um antifascismo difuso, analisado superficialmente, com a maioria adotando as posições que pareçam mais corretas frente aos outros.
Estado Novo e Getúlio Vargas: tema central no ambiente político da narrativa, especialmente relevante nos meios jornalísticos, com as opiniões dividindo-se em três tendências: (a) pragmatismo, aceitação do regime como necessário; (b) crítica liberal, defesa de liberdades e crítica ao autoritarismo; e, a mais frequente, (c) ambiguidade oportunista, crítica em privado mas adaptação em público.
Ascensão do Comunismo: tema frequente entre intelectuais, alguns aderem com entusiasmo, outros rejeitam fortemente, enquanto muitos adotam postura ambígua, oscilante e superficial. O debate é mais retórico, com pouco compromisso.
Influência Cultural Europeia: referência constante nas conversas, vista como prestígio cultural, com tendência à imitação. Mas também gerando uma incômoda consciência de dependência.
Povo: nas discussões as massas são vistas de fora, os intelectuais falam sobre o povo, mas não com o povo – mas não se furtam de falar em nome do povo, uma representação sem relação. Eles falam sobre o povo com base em abstrações, estereótipos e teorias, visto como objeto de análise ou manobra, nunca como indivíduos concretos. O povo é considerado volúvel e irracional, incapaz de sustentar projetos mais elevados; só sendo enaltecido através da idealização ideológica marxista como agente da história.
Banditismo: a falta de conexão com o povo explica o fato de muitas personagens associarem o banditismo a fatores econômicos, seguindo o modelo ideológico do materialismo marxista. Pouco entre eles, como Julião Tavares (Carlos Lacerda), entendem que a violência social é uma decisão moral de responsabilidade individual.
A trilogia tem o sabor amargo da decadência. As insuficiências apresentadas no comportamento e debates daquela elite cultural (brâmanes) ajudam a entender as carências espirituais, morais e intelectuais do país. E toma proporções alarmantes quando se constata que aquele quadro se precarizou tremendamente: os atuais ditos intelectuais não chegam aos pés daquele grupo dos anos 1930-40.
O desalento do último encontro entre Eduardo e Susana Mascarenhas (a medida silenciosa daquilo que Eduardo não conseguiu ser) reverbera a desesperança brasileira. Um encontro sem ação, uma consciência sem saída, uma vida sem síntese – uma nação sem alma, sem elites responsáveis, sem futuro digno.
Mesmo inacabado, O Espelho Partido permanece como documento vivo da insuficiência da intelectualidade brasileira e do desengano da nação que ela habita.
Notas
Marques Rebelo (1907-1973) nasceu e morreu no Rio de Janeiro. O verdadeiro nome por trás de pseudônimo é Eddy Dias da Cruz.
Ateu, entendia as religiões como superstições e acreditava que a ciência iria aos poucos elucidar todos os mistérios. Mas procurava seguir a moral cristã, nem sempre com sucesso.
Considerava como um dos deveres do escritor a tomada de consciência da realidade, visando interferir na consciência do público. Porém sem apegar-se a nenhuma ideologia, era um escritor engajado na sua versão particular de mundo.
Língua ferina, conquistou muitas inimizades e dificultou o seu reconhecimento artístico num ambiente marcado pela concorrência e inveja.
O Espelho Partido, sua obra-prima, é formado por três volumes: O Trapicheiro (1959 – título remete ao pequeno rio carioca que acompanha a vida do narrador), A Mudança (1962) e A Guerra Está Entre Nós (1968) – estendendo-se do início de 1936 até ao final de 1944. O objetivo original de sete volumes foi interrompido com a morte do autor.
Também se destacam em sua obra os romances Marafa (1935), A estrela sobe (1939) e diversos contos.
O Espelho Partido recupera a tendência memorialista do romance urbano do Rio de Janeiro (Manuel Antônio de Almeida, Lima Barreto, Raul Pompéia, Machado de Assis).
Concebida para homenagear o Rio de Janeiro, que seria o personagem principal, a obra, no entanto, foi também evoluindo para a autobiografia, a memória, o cronograma histórico, o cine-jornal e o documentário, e ganhou a forma de um diário.


