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Quincas Borba de Machado de Assis

  • há 3 dias
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Ao vencedor, as batatas. – Quinca Borba, sátira das filosofias materialistas, cientificistas e darwinistas



Personagens Principais Rubião – protagonista, professor, ingênuo, herda a fortuna Quincas BorbaQuincas Borba – excêntrico, criador do Humanitismo, amigo de Rubião Quincas Borba (cão) – cão do filósofo, que leva o mesmo nome Cristiano Palha – ambicioso e oportunista Sofia Palha – esposa de Cristiano Palha, bela e sedutora, paixão de Rubião


Personagens Secundárias Camacho – jornalista e político, interesseiro Maria Benedita – prima de Sofia Major Siqueira – representa tipos sociais da época Dona Fernanda – caráter mais moralizado, contraponto aos interesseiros



Interpretação Machado de Assis foi um gênio da ironia que desnudava a falsidade, a vaidade e a ilusão da sociedade brasileira com uma tal precisão que nenhum sociólogo jamais alcançou. E Quincas Borba é um grande exemplo disto.


Rubião é o retrato do brasileiro arrivista: o homem comum seduzido pelo dinheiro, pela alta sociedade carioca e por uma ideologia que justifica sua ambição. Seu dramático final não é acidente, mas o destino inevitável de quem adota uma falsa visão de mundo – o drama existencial do homem moderno que vive no abstrato (ambição, vaidade, doutrinas falsas), perde o contato com a realidade e desaba na loucura.


 O casal Palha encarnam a elite hipócrita que usa charme, inteligência e boas maneiras para destruir os ingênuos sem perder o sorriso. Enquanto Rubião morre louco e pobre, eles prosperam. É a representação da natureza humana caída do brasileiro: o forte devora o fraco e ainda se acha moralmente superior. É a elite que vence no mundo sem Deus nem valores absolutos; retrato perfeito do nosso estamento burocrático e da nossa intelligentzia.


Já a filosofia de Quinca Borba, o Humanitismo, é uma paródia genial do darwinismo social, do positivismo comteano e do materialismo historicista do século XIX (e de suas versões atualizadas no globalismo e no progressismo do século XX) – são ideologias que disfarçam a lei do mais forte com palavras bonitas como progresso, humanidade e ciência. As palavras de Quinca Borba revelam a brutalidade do niilismo: por baixo de todo discurso humanitário, o que resta é a devoração do fraco pelo forte. O Humanitismo é uma paródia genial do “melhor mundo possível” e do “novo homem”; colocado na boca de um louco, satiriza a mazela das ideologias modernas.


Quincas Borba é uma valiosa obra sobre a vaidade, o poder e a autodestruição provocada por filosofias falsas. O romance é uma profecia sobre o Brasil moderno, onde humanitaristas de todo tipo continuam pregando “ao vencedor, as batatas” enquanto fingem salvar a humanidade





Notas


  • Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) é o maior escritor brasileiro e um dos maiores da língua portuguesa junto com Camões, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa e Padre Antônio Vieira.

  • Extremamente culto, é autor de finíssima ironia e sarcasmo.


  • Filho de pai mulato pintor de parede e mãe portuguesa lavadeira. A família era agregada a uma família de posses. Seus escritos nunca fazem menção a sua condição social. Ao contrário, abordou assuntos universais e imortalizou-se.


  • A obra de Machado de Assis nos dá pistas para entender ontologicamente o brasileiro. Este estudo ainda está por ser feito.


  • Seus principais romances, já produtos da sua maturidade, são: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1880), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908).


  • Apesar de extraordinário romancista, foi ainda melhor contista. Entre estes se destacam O Alienista, Teoria do Medalhão e A Missa do Galo.

  • Quincas Borba também é um laboratório de técnica psicológica: a loucura de Rubião não é mero enredo, mas a exploração magistral da fragilidade da mente humana.

  • Na criação do Humanitismo é influenciada pelo pensamento de Schopenhauer (o universo como vontade cega, obscura e irracional vontade de viver), de Montaigne (o homem como animal sujeito aos caprichos da natureza, não soberano da criação) e dos moralistas franceses (bons sentimentos como máscara hipócrita do egoísmo).

  • O cachorro Quincas Borba, fiel até o fim, contrasta com a infidelidade humana – símbolo da superioridade da lealdade concreta sobre as abstrações intelectuais.

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