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Cinco Contos de Machado de Assis

  • há 17 horas
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Machado de Assis é um mestre na arte de sugerir, mais do que dizer. – Antonio Candido, revela capacidade de síntese de Machado de Assis


Machado de Assis escreveu cerca de 200 contos, muitos originalmente publicados em jornais e revistas do Brasil, o que torna a contagem dependente de pesquisa filológica. Ainda hoje há debates sobre o corpus completo, pois depende de inclusão ou não de textos muito breves publicados em jornais, versões diferentes de um mesmo conto, e classificação de certas crônicas como contos.


Ele é considerado o maior contista da língua portuguesa. Domina ironia, ambiguidade psicológica e construção perfeita. Contos como O Alienista e Missa do Galo são referência universal, a Teoria do Medalhão é um estudo sociológico da classe política brasileira.

Seguem comentários sobre cinco entre os melhores contos de Machado de Assis:


O Alienista

Simão Bacamarte encarna o tipo humano que transforma uma teoria em critério absoluto da realidade, ele não observa a loucura: ele define o que é loucura e força o mundo a caber nessa definição. A ciência deixa de ser investigação e vira instrumento de poder – o discurso científico perde o vínculo com a experiência concreta e passa a funcionar como autoridade incontestável.


Há uma inversão progressiva na narrativa. Primeiro, os loucos são exceções, depois, tornam-se a maioria, e por fim, a própria ideia de normalidade é invertida. Isso mostra como um sistema teórico fechado pode substituir a realidade, criando um mundo fictício, mas socialmente imposto. O autor antecipou ficcionalmente as ideologias modernas que redefinem o real por decreto (e.g. teoria de gênero, a “democracia” do STF).


Bacamarte age isolado da realidade viva da comunidade. Ele não dialoga com ela, apenas impõe sua vontade. E não aprende com a experiência, deduzindo tudo a priori. Bacamarte simboliza o intelectual que perde o contato com a realidade concreta e passa a viver dentro de um sistema lógico próprio — um tipo cada vez mais comum na cultura moderna.


A auto-internação de Bacamarte é consequência inevitável de um sistema que pretende explicar tudo e acaba se voltando contra seu próprio criador – a lógica abstrata, levada ao extremo, se autodestrói.


O Alienista é uma alerta do perigo de qualquer forma de conhecimento que, ao se absolutizar, perde o contato com a realidade e se transforma em instrumento de dominação intelectual e social.


Missa do Galo

Um conto moral cuja situação íntima e contida revela o delicado equilíbrio entre desejo e autocontrole, dando um exemplo da força moral expressa na renúncia, ainda que ambígua.


A ação não concretizada é mais significativa do que qualquer ato explícito, sugerindo que a vida é feita mais de possibilidades intuídas do que de fatos realizados.


Nogueira, jovem e ainda ingênuo, vive ali uma espécie de iniciação silenciosa que nunca compreendeu totalmente. A recordação do episódio anos depois demonstra a fragilidade da memória e a dificuldade de recuperar plenamente a verdade de uma experiência.


É um conto sobre aquilo que poderia ter sido, e por isso mesmo permanece mais intenso, pois nunca se resolve.


Teoria do Medalhão

Sátira profundamente realista e profética da formação do homem público na sociedade brasileira – retrato fiel de um tipo humano dominante.


O conselho do pai ao filho é um manual de ascensão social pela nulidade. O pai ensina o filho a não ter ideias, ou a escondê-las, recomenda a adesão ao lugar-comum, e valoriza a aparência de sabedoria em vez da substância – o brasileiro aprende desde cedo a simular inteligência em vez de buscá-la (pedagogia da mediocridade).


Assim, o medalhão é o indivíduo que evita qualquer pensamento próprio, repete opiniões consagradas, busca prestígio e não verdade, e molda sua personalidade para agradar – correspondendo a uma precisa descrição a maior parte das elites intelectuais e políticas brasileiras.


Machado mostra-se um observador moral profundo, capaz de identificar a vaidade intelectual,o conformismo, e a fuga da responsabilidade pessoal – produzindo um tratado ficcional sobre a corrupção da inteligência.


O Medalhão mostra que, no Brasil, muitas vezes o caminho para o sucesso público não é o talento ou a verdade, mas a habilidade de parecer importante sem ser.


A Cartomante

A cartomante simboliza todas as formas de ideologia ou crença usadas para justificar o erro – Camilo sabe que está errado, mas constrói uma narrativa para continuar Ele se recusa em reconhecer a realidade moral do adultério, e busca validação externa (cartomante) como fuga da consciência


É também uma crítica à decadência da inteligência: ao deixar-se guiar pela cartomante, Camilo submete a inteligência às paixões – o homem que abdica da verdade quando ela contraria seus desejos. É o abandono da razão verdadeira (intelecto orientado ao ser) em favor de uma razão instrumental voltada ao prazer.


A Cartomante não é uma crítica à superstição, mas à mentira interior deliberada (cegueira voluntária).


O Espelho Crítica mordaz ao tipo humano que deixa sua consciência ser mediada pelo olhar social (“alma exterior”), solapando sua verdadeira interioridade (“alma interior”).

Machado ironiza a fragilidade da identidade individual diante da dependência psicológica da hierarquia social, apresentando o caráter teatral da vida social – substituição do eu inteiro por papéis desempenhados. O conto antecipa a questão da identidade como construção social muito antes da sociologia do século XX.


O espelho representa o domínio da aparência enquanto a alma verdadeira pertence ao plano da essência (ser). O drama do narrador (Jacobina) não prova que o “eu” depende do outro,apenas evidencia que ele se alienou de sua própria essência – sem o olhar social, ele não desaparece, apenas não sabe mais quem é, porque nunca se conheceu de fato.


A redução do homem ao que os outros pensam dele é uma decadência ontológica. Jacobina é o homem que perdeu o contato com sua interioridade real – consciência desordenada que perdeu contato com o fundamento do ser.


O homem só encontra sua identidade na verdade interior e realidade transcendente. A substituição disto por imagens imanentes na tentativa de encontrar o ser dentro do mundo – tentativa de reduzir o sentido último da existência ao plano mundano – é um dos traços centrais da crise espiritual da modernidade.


O ser humano vive numa tensão essencial entre o mundo imanente (história, sociedade, política) e o fundamento transcendente do ser. A modernidade rompe essa tensão ao tentar eliminar o transcendente, substituindo-o por projetos intramundanos de salvação, resultando numa desordem da consciência, pois o homem passa a exigir do mundo o que o mundo não pode dar. E é neste momento que proliferam as ideologias revolucionárias e prometeicas que, em vez de ordem, geram fanatismo, vitimismo, perda de sentido e totalitarismo.





Notas


  • Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) é o maior escritor brasileiro e um dos maiores da língua portuguesa junto com Camões, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa e Padre Antônio Vieira.

  • Extremamente culto, é autor de finíssima ironia e sarcasmo.


  • Filho de pai mulato pintor de parede e mãe portuguesa lavadeira. A família era agregada a uma família de posses. Seus escritos nunca fazem menção a sua condição social. Ao contrário, abordou assuntos universais e imortalizou-se.


  • A obra de Machado de Assis nos dá pistas para entender ontologicamente o brasileiro. Este estudo ainda está por ser feito.


  • Seus principais romances, já produtos da sua maturidade, são: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1880), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908).

  • Entre as obras que reúnem seus contos destacam-se: Contos Fluminenses (1870), Histórias da Meia-Noite (1873), Papéis Avulsos (1882), Histórias sem Data (1884), Várias Histórias (1896), Páginas Recolhidas (1899) e Relíquias de Casa Velha (1906).

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