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Memorial de Aires de Machado de Assis

  • há 4 dias
  • 3 min de leitura

Tudo se concilia. – Conselheiro Aires, resignação diante do devir



Personagens Principais Conselheiro Aires – narrador, culto, diplomata aposentado Dona Carmo – afetuosa, delicada e maternal, esposa de Aguiar Aguiar – correto, afável e sentimental, marido de Dona Carmo Tristão – jovem cosmopolita, afilhado de Aguiar e Dona Carmo Fidélia – jovem viúva, bela e reservada


Personagens Secundárias Dona Cesária – parente de Fidélia Osório – pretendente de Fidélia Rita – amiga do círculo social de Aires



Interpretação O Conselheiro Aires é uma daquelas raras personagens autênticas da literatura brasileira que escapam da nossa encenação social feita de aparências e interesses velados. Através das anotações em seu diário, Aires fala consigo mesmo, buscando compreender a si próprio e aos outros.


Os exemplos de dissimulação se acumulam ao longo do romance desde a fidelidade performática de Fidélia (nome irônico) ao relacionamento interesseiro de Tristão com o casal Aguiar. Vemos o comportamento camaleônico de Tristão na política: conservador na França, liberal na Inglaterra; e o casal Aguiar imitar o papel de pais postiços enquanto mantém sonhos de arrimo na velhice, enquanto Tristão e Fidélia imitam reciprocidade afetiva porque lhes convém. Depois do casamento, a performance acaba: partem para Portugal, deixando os Aguiar na solidão – todos se contentavam com o parecer de família unida.


Vemos uma sociedade onde ninguém precisa ser fiel, afetuoso ou generoso – basta parecer com elegância suficiente para que o espetáculo continue – um povo que desistiu de ser, e se satisfaz com o fingimento bem-sucedido. O fingimento da sociedade brasileira torna-se patológico na medida em que as pessoas acreditam nas próprias máscaras sociais.


O romance seria o diário de um homem de espírito superior que observa, com ironia serena e sem ilusões, uma sociedade brasileira fundada na imitação, no fingimento e na ausência de vida interior autêntica – a expressão da sabedoria do solitário que recusa o espetáculo de mediocridade ao seu redor.


Porém, Aires recolhe-se do mundo, nunca enfrentando a mediocridade e banalidade que o rodeia – uma rendição existencial que se contenta com o parecer discreto e superior em vez de ser superior de fato, isto é, agir, expor, combater. Aires limita-se ao não buscar um fundamento mais alto e necessário – a vida aparece como fluxo, não como realização de um sentido superior –, a verdadeira filosofia exige subir da experiência à estrutura do ser.

O melancólico desenlace da narrativa espelha a desolação causada pela observação do caráter da nossa sociedade.





Notas


  • Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) é o maior escritor brasileiro e um dos maiores da língua portuguesa junto com Camões, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa e Padre Antônio Vieira.

  • Extremamente culto, é autor de finíssima ironia e sarcasmo.


  • Filho de pai mulato pintor de parede e mãe portuguesa lavadeira. A família era agregada a uma família de posses. Seus escritos nunca fazem menção a sua condição social. Ao contrário, abordou assuntos universais e imortalizou-se.


  • A obra de Machado de Assis nos dá pistas para entender ontologicamente o brasileiro. Este estudo ainda está por ser feito.


  • Seus principais romances, já produtos da sua maturidade, são: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1880), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908).


  • Apesar de extraordinário romancista, foi ainda melhor contista. Entre estes se destacam O Alienista, Teoria do Medalhão e A Missa do Galo.

  • A narrativa de Memorial de Aires se desenvolve ao longo dos anos 1888 e 1889.

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