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Hitler e os Alemães de Eric Voegelin

há 6 horas
22 min de leitura

“O sucesso de Hitler deve ser situado no quadro geral de uma sociedade arruinada intelectual e moralmente, no qual figuras que em outros tempos seriam grotescas e marginais podem ascender no poder público por representarem formidavelmente o povo que as adora.” – Eric Voegelin


A ascensão de Hitler ao poder não pode ser compreendida simplesmente como o resultado da ação de um indivíduo excepcionalmente perverso, de uma conspiração política ou de circunstâncias econômicas desfavoráveis. O verdadeiro problema é muito mais profundo: como foi possível que uma sociedade inteira, dotada de uma tradição filosófica, científica, artística e religiosa extraordinária, se deixasse governar por um homem espiritualmente medíocre, intelectualmente limitado e moralmente degenerado? A questão fundamental não é apenas compreender Hitler, mas compreender os alemães que tornaram possível sua ascensão, aceitaram sua autoridade, participaram de seus crimes e, depois da derrota, procuraram escapar à responsabilidade pelo que havia acontecido.


O nacional-socialismo não surgiu de um acidente histórico inexplicável. Foi a manifestação política de uma profunda desordem espiritual, intelectual e moral que já existia na sociedade alemã. Hitler não criou sozinho essa desordem, pois encontrou uma população suficientemente degradada para reconhecê-lo como seu representante. A qualidade de uma ordem política depende da qualidade humana daqueles que a constituem. Uma sociedade não pode produzir uma ordem política espiritualmente superior à consciência de seus membros quando estes abandonam a busca da verdade, perdem a capacidade de julgamento e substituem a realidade por fantasias ideológicas.


A investigação do fenômeno hitlerista deve, portanto, ultrapassar a história dos acontecimentos e penetrar na estrutura da consciência humana. É necessário compreender como homens aparentemente normais, instruídos, religiosos e socialmente respeitáveis podem tornar-se incapazes de reconhecer o mal, mesmo quando ele se manifesta diante de seus olhos. Essa incapacidade não resulta necessariamente da falta de inteligência. Pode decorrer de uma corrupção mais grave: a recusa deliberada de perceber a realidade e de orientar a existência segundo a verdade.


Parte I — Descida ao abismo


1. Introdução: a ascensão de Hitler e a estupidez de uma sociedade


O problema central da história alemã contemporânea é a ascensão de Hitler ao poder e a incapacidade persistente de compreender suas verdadeiras causas. A derrota militar do nacional-socialismo não significou necessariamente a superação da desordem espiritual que o produziu. Muitas das atitudes, dos hábitos intelectuais e das deformações morais que permitiram o surgimento do regime continuaram presentes na Alemanha do pós-guerra, inclusive entre pessoas que passaram a se apresentar como democratas.


A dificuldade começa quando se procura explicar Hitler sem examinar a qualidade humana da sociedade que o acolheu. A investigação de Percy Ernst Schramm sobre a personalidade do ditador constitui um exemplo revelador desse problema. Embora reúna observações históricas e testemunhos, sua análise frequentemente demonstra uma incapacidade de reconhecer a natureza espiritual do fenômeno estudado. Hitler é tratado como uma personalidade fascinante, um dirigente dotado de qualidades extraordinárias ou um enigma psicológico, quando o verdadeiro problema reside na combinação de inteligência instrumental, vulgaridade cultural, deformação moral e ambição ilimitada.


A estupidez que permitiu a ascensão de Hitler não deve ser confundida com deficiência intelectual. Trata-se de uma incapacidade espiritual de perceber e julgar a realidade. Uma pessoa pode possuir elevada formação universitária, dominar conhecimentos especializados e ocupar posições importantes, permanecendo radicalmente estúpida diante das questões fundamentais da existência humana.


A chamada síndrome de Buttermelcher ilustra essa deformação. O cidadão que se comporta com aparente normalidade, respeita convenções sociais e conserva sua respeitabilidade burguesa pode, simultaneamente, aceitar atrocidades políticas e participar de uma ordem criminosa. A convivência entre decência exterior e corrupção interior revela uma ruptura entre os hábitos sociais e as virtudes fundamentais.


A Alemanha do pós-guerra continuou a manifestar essa mesma enfermidade quando antigos participantes do regime foram reintegrados à vida pública sem um exame suficientemente profundo de suas responsabilidades. A mudança das instituições políticas não eliminou automaticamente os hábitos de submissão, oportunismo e autoengano. O problema não se resolve pela simples substituição de um regime autoritário por instituições democráticas, porque a ordem política depende da disposição espiritual daqueles que a sustentam.


2. Desenvolvimento dos instrumentos de diagnóstico: estupidez, realidade e responsabilidade


Para compreender a desordem alemã, é necessário abandonar os lugares-comuns que substituem o pensamento verdadeiro. Expressões como passado não superado, culpa coletiva, Estado e democracia frequentemente funcionam como fórmulas que dispensam a investigação das experiências humanas concretas.


O passado não constitui uma realidade encerrada que possa ser dominada por procedimentos políticos ou psicológicos. Os atos humanos permanecem presentes na consciência daqueles que os praticaram e na ordem histórica que ajudaram a constituir. O problema não consiste em dominar o passado, mas em viver corretamente no presente, sob a exigência permanente da verdade e da responsabilidade diante de Deus.


Também a noção de culpa coletiva precisa ser examinada. A culpa moral e espiritual não pode ser atribuída indiscriminadamente a todos os integrantes de uma nação. Existem responsabilidades individuais distintas, que não desaparecem pelo pertencimento a um povo. Entretanto, uma sociedade pode apresentar uma corrupção amplamente disseminada, expressa na aceitação de representantes políticos degradados. O princípio de que uma sociedade representa a qualidade humana de seus membros permite compreender essa relação sem transformar todos os indivíduos em criminosos.


O mesmo cuidado deve ser aplicado aos conceitos de Estado e democracia. Nenhuma dessas palavras possui valor moral automático. Um Estado pode tornar-se instrumento de criminalidade, assim como uma democracia pode conservar profundas deformações espirituais. A legitimidade da ordem política não decorre simplesmente da existência de instituições, procedimentos ou normas, mas de sua participação numa ordem humana orientada pela verdade e pela justiça.


A tradição filosófica clássica e a experiência bíblica oferecem instrumentos mais adequados para compreender essa questão. O homem não é apenas um organismo biológico, um agente econômico ou um membro de uma coletividade. Sua humanidade se realiza na abertura à realidade, à razão e à transcendência. A vida propriamente humana exige a consciência de uma ordem que não é produzida arbitrariamente pela vontade individual ou pelo poder político.


Quando essa abertura desaparece, ocorre uma mutilação da existência. O indivíduo perde a capacidade de distinguir a realidade de suas próprias construções imaginárias. A estupidez radical surge precisamente quando o homem se fecha à verdade, embora continue capaz de raciocinar com eficiência sobre questões secundárias.


As reflexões de Karl Kraus sobre a mentira e a propaganda permitem reconhecer a corrupção da linguagem como uma das manifestações dessa doença. A linguagem deixa de comunicar a realidade e passa a servir à manipulação das consciências. As palavras são utilizadas para encobrir crimes, produzir justificativas e destruir a capacidade pública de julgamento.


Robert Musil acrescenta uma distinção decisiva entre a estupidez simples e a estupidez inteligente. A primeira decorre de limitações comuns da capacidade intelectual; a segunda é muito mais perigosa, pois utiliza uma inteligência desenvolvida para sustentar ilusões, justificar absurdos e escapar às exigências da realidade. Essa estupidez sofisticada encontra terreno particularmente favorável entre intelectuais, especialistas e autoridades acadêmicas.


Carl Amery permite compreender outra dimensão do problema: a substituição das virtudes primárias pelas virtudes secundárias. Pontualidade, disciplina, diligência, obediência, asseio e respeito às convenções podem contribuir para uma vida social ordenada, mas não constituem, por si mesmas, virtudes morais fundamentais. Quando são separadas da justiça, da prudência, da coragem e do reconhecimento da dignidade humana, podem servir igualmente a uma organização criminosa.


Um funcionário eficiente pode administrar um campo de concentração com a mesma diligência com que administraria uma repartição pública. A eficiência não transforma o crime em virtude. A obediência não absolve a consciência. A respeitabilidade social não substitui a humanidade.


A estupidez criminosa resulta, assim, da perda de contato com a realidade moral. Uma sociedade torna-se desordenada quando seus membros passam a considerar normais comportamentos que contradizem as condições fundamentais da existência humana.


3. A descida ao abismo acadêmico: a incapacidade de compreender Hitler


A análise da personalidade de Hitler realizada por Schramm revela a extensão da corrupção intelectual das elites alemãs. O problema não está apenas nas informações apresentadas, mas na inadequação das categorias empregadas. A descrição pode ser historicamente minuciosa e, ao mesmo tempo, espiritualmente cega.


A tentativa de explicar a aura de Hitler transforma uma personalidade vulgar num objeto de fascinação. O magnetismo exercido sobre multidões não deve ser confundido com grandeza espiritual. O sucesso político de um demagogo revela tanto suas habilidades de manipulação quanto as disposições daqueles que se deixam manipular.


A relação de Hitler com o cristianismo constitui outro exemplo dessa confusão. Referências ocasionais à Providência, à religião ou a valores cristãos não demonstram uma orientação espiritual genuinamente cristã. A questão decisiva é saber se existe uma abertura efetiva à transcendência e à ordem moral. Quando a religião é subordinada à vontade de poder, transforma-se num instrumento ideológico.


Suas relações com as mulheres, com os colaboradores próximos e com a própria vida intelectual também devem ser compreendidas nesse contexto de deformação da personalidade. A comitiva de Hitler não constitui simplesmente um grupo de subordinados eficientes, mas um ambiente em que a mediocridade espiritual, a adulação e a submissão pessoal se reforçam mutuamente.


A suposta arte de ler de Hitler revela a diferença entre acumular informações e compreender a realidade. A leitura orientada exclusivamente para confirmar opiniões anteriores e adquirir instrumentos de luta política não constitui verdadeira formação intelectual. O conhecimento transforma-se em arsenal para uma vontade previamente estabelecida.


O darwinismo social presente em seu pensamento reforça essa redução da existência humana à luta pelo poder. A história é interpretada como competição entre coletividades biológicas, e a vitória passa a ser considerada critério de legitimidade. A ordem moral é substituída por uma concepção brutal de força, seleção e dominação.


A comparação com o diagnóstico de Alan Bullock permite evidenciar a insuficiência da abordagem de Schramm. O verdadeiro entendimento de Hitler exige reconhecer a ausência de grandeza espiritual por trás da eficácia política. Não basta enumerar características psicológicas, hábitos e capacidades. É necessário compreender a deformação da existência que permitiu converter uma personalidade espiritualmente empobrecida em representante de uma sociedade inteira.


O fracasso da análise acadêmica é, portanto, parte do próprio fenômeno investigado. Uma elite incapaz de reconhecer a vulgaridade espiritual de Hitler participa, em alguma medida, da mesma desordem que tornou possível sua ascensão.


4. A descida ao abismo eclesiástico: a Igreja Evangélica


A corrupção espiritual alemã também se manifesta nas instituições religiosas. O simples pertencimento a uma Igreja não garante a compreensão da verdade cristã, assim como a formação teológica não assegura a capacidade de reconhecer uma ordem política criminosa.


A dificuldade começa pela própria compreensão do significado da Igreja. É necessário distinguir as instituições eclesiásticas historicamente organizadas da comunidade espiritual constituída pela relação dos homens com Cristo. A Igreja como organização social possui interesses, autoridades, estruturas jurídicas e preocupações administrativas. A Igreja como comunidade cristã participa de uma verdade universal que ultrapassa todas as organizações políticas e identidades nacionais.


Quando essa distinção desaparece, a instituição religiosa corre o risco de subordinar a verdade espiritual aos interesses de sua própria conservação.


O declínio intelectual e espiritual das Igrejas alemãs tornou-se evidente na incapacidade de enfrentar o nacional-socialismo a partir de princípios fundamentais da existência cristã. Em vez de reconhecer imediatamente a incompatibilidade entre a universalidade da humanidade sob Deus e a ideologia racial, setores importantes da Igreja Evangélica aceitaram categorias nacionalistas e raciais.


A participação de correntes protestantes na ideologia völkisch demonstrou como a identidade nacional podia substituir a comunidade espiritual. O povo alemão passou a ser tratado como uma realidade quase sagrada, enquanto a pertença racial adquiriu uma importância incompatível com o universalismo cristão.


As discussões teológicas sobre as leis raciais revelaram a gravidade dessa inversão. Em vez de rejeitar a perseguição racial como uma violação da humanidade, procurou-se discutir sua compatibilidade com normas e tradições eclesiásticas. A existência de uma legislação estatal passou a funcionar como justificativa para uma realidade moralmente intolerável.


Mesmo figuras associadas à resistência eclesiástica, como o bispo Theophil Wurm e o pastor Martin Niemöller, não estavam inteiramente livres de pressupostos antissemitas. A oposição a determinadas políticas do regime não significava necessariamente a superação de todos os preconceitos que haviam contribuído para a desumanização dos judeus.

Os resíduos de antissemitismo na Igreja Evangélica do pós-guerra demonstram que a derrota do nazismo não eliminou automaticamente a desordem espiritual anterior.


A interpretação de Romanos 13, frequentemente utilizada para justificar a obediência às autoridades constituídas, exige uma investigação mais profunda. A afirmação paulina de que a autoridade procede de Deus não pode ser convertida numa autorização irrestrita para obedecer a qualquer poder político. A autoridade legítima participa de uma ordem superior, ela não se torna moralmente legítima pelo simples fato de existir.


Confundir a ordem divina com o poder efetivamente estabelecido significa transformar a religião em instrumento de submissão política. O cristianismo perde sua força crítica quando a obediência institucional substitui o julgamento moral.


5. A descida ao abismo eclesiástico: a Igreja Católica


A situação da Igreja Católica apresenta diferenças importantes em relação à Igreja Evangélica, mas também revela graves falhas espirituais e morais. A maior independência institucional da Igreja Católica diante do Estado e sua tradição doutrinária universal ofereceram recursos de resistência ao nacional-socialismo. Entretanto, esses recursos nem sempre foram utilizados de maneira coerente.


A preocupação com a preservação da instituição e com os direitos dos católicos frequentemente se sobrepôs à defesa universal da humanidade. A perseguição aos membros da Igreja provocava reações que nem sempre se estendiam, com igual intensidade, às vítimas externas à comunidade católica.


Essa diferença de tratamento revela uma desumanização fundamental. A obrigação cristã não se limita à proteção dos correligionários. A humanidade do outro não depende de seu batismo, de sua pertença eclesiástica ou de sua posição perante uma instituição religiosa.


A aceitação da autoridade estatal como fundamento suficiente para a obediência agravou o problema. Quando uma ordem política pratica crimes contra seres humanos, a questão decisiva não é apenas determinar a competência jurídica do Estado ou preservar os interesses administrativos da Igreja, mas reconhecer a violação da ordem moral.


As descrições da vida nos campos de concentração, incluindo as reflexões de Karl Kraus, tornam impossível reduzir a questão a disputas institucionais. Diante da degradação e do extermínio de seres humanos, a neutralidade burocrática e o silêncio religioso deixam de ser atitudes moralmente inocentes.


A figura do jesuíta Alfred Delp representa uma possibilidade diferente. Sua resistência ao nacional-socialismo e sua morte demonstram que a consciência cristã pode conservar sua integridade mesmo quando as instituições sociais se encontram profundamente corrompidas. A fidelidade à verdade não depende da segurança pessoal nem da aprovação das autoridades.


A experiência de Delp evidencia a diferença entre uma religião reduzida à pertença institucional e uma existência efetivamente orientada pela transcendência.


A história do cristianismo envolve avanços e regressões na diferenciação da consciência espiritual. O reconhecimento da presença do homem diante de Deus constitui uma conquista decisiva, mas essa conquista pode ser obscurecida por nacionalismos, ideologias, legalismos e interesses corporativos.


A Igreja tem o dever de representar a universalidade da humanidade. Quando deixa de reconhecer essa universalidade nas vítimas de perseguição, fracassa precisamente naquilo que constitui sua responsabilidade espiritual mais profunda.


6. A descida ao abismo legal: o Estado de Direito e a perda da justiça


A desordem alemã manifesta-se também na concepção jurídica do Estado. O conceito de Rechtsstaat, ou Estado de Direito, ocupa uma posição central na tradição alemã, mas pode transformar-se numa fórmula enganosa quando o direito é separado de sua substância moral.


O problema não consiste apenas em estabelecer se determinada ação corresponde a uma norma vigente. É necessário perguntar se a própria ordem normativa conserva alguma relação com a justiça.


O positivismo jurídico tende a identificar o direito com o conjunto de normas produzidas por autoridades reconhecidas. Quando essa concepção é radicalizada, desaparece a possibilidade de julgar moralmente a legislação a partir de critérios superiores à vontade estatal.


Uma ordem política criminosa pode produzir leis, organizar tribunais e estabelecer procedimentos administrativos. A existência dessas formas jurídicas não transforma seus atos em justiça.


A experiência nacional-socialista demonstra os perigos de uma consciência jurídica incapaz de distinguir legalidade e legitimidade. Os assassinatos em massa, a perseguição racial e os programas de extermínio não podem ser compreendidos adequadamente mediante categorias jurídicas que excluem previamente a dimensão moral e política.


A separação dos poderes e a organização hierárquica das normas também exigem reflexão. Nenhuma arquitetura institucional resolve automaticamente o problema da justiça quando os responsáveis por sua aplicação perderam a capacidade de julgamento moral.


A formação histórica dos sistemas jurídicos fechados contribuiu para a tendência de tratar o direito como uma construção autossuficiente. A coerência interna do sistema passou a ocupar o lugar da investigação sobre a natureza da ordem humana.


Entretanto, o direito positivo não existe independentemente da substância moral da sociedade. Sua legitimidade pressupõe uma ordem de justiça que não pode ser reduzida à decisão do legislador, à interpretação do juiz ou à eficácia do poder.


A tradição do direito natural conserva importância justamente porque reconhece que a existência humana possui uma estrutura normativa anterior às convenções políticas. A justiça não é criada arbitrariamente pelo Estado.


A restauração do Estado de Direito não se realiza apenas mediante novas constituições ou instituições. Depende da recuperação de uma ordem espiritual em que o direito volte a ser compreendido como expressão da justiça, e não como simples instrumento do poder.


Parte II — Em direção a uma restauração da ordem


7. Primeira e segunda realidades: a fuga ideológica da existência


A compreensão da desordem espiritual moderna exige distinguir entre a primeira realidade, que corresponde à existência efetiva do homem no mundo e à sua participação na ordem do ser, e a segunda realidade, constituída pelas construções imaginárias mediante as quais o indivíduo procura substituir aquilo que não deseja reconhecer.


A segunda realidade não é simplesmente uma ficção literária ou um erro de conhecimento. Ela pode transformar-se numa estrutura de consciência que organiza a existência humana em oposição à realidade efetiva. Quando o indivíduo passa a viver segundo essa construção imaginária, os fatos que a contradizem deixam de ser reconhecidos como elementos capazes de corrigir seu entendimento. São rejeitados, reinterpretados ou eliminados.


A literatura oferece exemplos particularmente esclarecedores desse fenômeno. Em Dom Quixote, de Cervantes, encontramos uma personalidade que interpreta o mundo por meio das categorias das novelas de cavalaria. A realidade concreta é continuamente deformada para corresponder a uma imagem previamente estabelecida.


As três expedições de Dom Quixote revelam diferentes modalidades da tensão entre a realidade efetiva e a realidade imaginária. O personagem não é simplesmente incapaz de perceber os objetos que encontra; sua consciência está dominada por uma interpretação que determina antecipadamente o significado de tudo aquilo que experimenta.


A fantasia cavaleiresca funciona como um divertissement, uma forma de desviar a atenção da realidade. Esse desvio pode assumir uma dimensão cômica na literatura, mas torna-se profundamente perigoso quando é transferido para a existência política.


O homem moderno pode criar sistemas intelectuais e ideológicos que desempenham a mesma função. A diferença é que, em lugar de cavaleiros, gigantes e castelos encantados, surgem construções abstratas sobre a história, a sociedade, a raça, a classe ou o destino da humanidade.


A lógica moderna também pode participar desse processo quando suas operações formais são separadas da investigação filosófica sobre a realidade. O desenvolvimento de sistemas simbólicos e de técnicas de raciocínio não garante, por si só, a compreensão da existência.


A análise dos paradoxos lógicos, incluindo os problemas examinados por Bertrand Russell, permite reconhecer a importância e os limites da formalização. A coerência de um sistema de proposições não deve ser confundida com a verdade da experiência humana que esse sistema pretende representar.


A lógica pode tornar-se uma forma de divertimento intelectual quando suas construções substituem o contato com a realidade. A capacidade de produzir argumentos formalmente elaborados não impede a perda da compreensão filosófica.


A literatura de Robert Musil e Heimito von Doderer aprofunda o diagnóstico. Em O Homem sem Qualidades, a personalidade moderna aparece fragmentada em funções sociais, capacidades técnicas e papéis especializados. O homem possui qualidades, mas essas qualidades já não se encontram integradas numa existência espiritualmente ordenada.


O indivíduo passa a identificar-se com suas funções, sem possuir uma compreensão adequada de sua própria humanidade. A competência profissional substitui a formação da personalidade; a adaptação social substitui o julgamento moral.


Em Doderer, a segunda realidade manifesta-se como uma recusa persistente de reconhecer a existência efetiva. A consciência constrói um mundo próprio, protegido contra as exigências da experiência. Essa atitude pode adquirir caráter patológico quando a realidade é sistematicamente subordinada a uma interpretação imaginária.


O fenômeno ideológico moderno representa uma intensificação dessa deformação. A ideologia não é apenas um conjunto de ideias falsas. É uma tentativa de reorganizar a realidade segundo uma construção imaginária que se pretende absoluta.


O nacional-socialismo constitui uma manifestação extrema dessa segunda realidade. A fantasia de uma comunidade racial destinada à grandeza histórica substituiu a compreensão efetiva da humanidade. A realidade foi reinterpretada segundo uma mitologia política, e os seres humanos que não se ajustavam a ela passaram a ser tratados como obstáculos que deveriam ser removidos.


A violência torna-se uma consequência da tentativa de impor a segunda realidade à primeira. Quando a experiência contradiz a ideologia, não é a ideologia que deve ser corrigida; é a realidade que deve ser transformada pela força.


A recuperação da ordem exige o movimento inverso. É necessário abandonar as construções imaginárias que impedem a percepção da existência e recuperar a abertura à realidade. Essa recuperação não constitui apenas uma correção intelectual, mas uma transformação da consciência.


8. A grandeza de Max Weber: a recuperação da responsabilidade intelectual e espiritual


A história intelectual alemã do século XIX apresenta uma ruptura significativa após o encerramento do grande período do idealismo, do classicismo e do romantismo. A morte de Hegel e Goethe simboliza o fim de uma época de extraordinária intensidade espiritual.


O período seguinte foi marcado por grandes realizações científicas, pelo desenvolvimento das disciplinas especializadas e pela expansão do conhecimento positivo. Entretanto, essas conquistas não foram acompanhadas por uma compreensão igualmente profunda da existência humana.


O historicismo, o relativismo e a crescente especialização contribuíram para a perda de uma orientação espiritual comum. A sociedade tornou-se cada vez mais capaz de explicar fenômenos particulares e cada vez menos capaz de compreender a ordem da existência como um todo.


Nesse ambiente surgiram grandes pensadores que procuraram desmascarar as paixões e ilusões de sua época: Karl Marx, Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud e Max Weber.


Marx procurou revelar as estruturas econômicas e os conflitos sociais ocultos sob as representações ideológicas. Nietzsche investigou a crise dos valores e a decadência espiritual da cultura europeia. Freud explorou as forças psíquicas que atuam abaixo da consciência racional. Weber examinou os processos de racionalização, as formas de dominação e os conflitos de valores característicos da modernidade.


Essas investigações possuem importância porque reconhecem que a consciência humana não pode ser compreendida apenas por suas declarações explícitas. Existem paixões, interesses, deformações e estruturas de experiência que precisam ser examinados.


Entretanto, o problema decisivo reside na relação desses diagnósticos com a transcendência.


A modernidade produziu uma transformação profunda na concepção da realidade. A existência passou a ser identificada predominantemente com aquilo que se encontra no mundo espaço-temporal e pode ser objeto de investigação empírica.


A realidade da razão e do espírito, conhecida por meio das experiências filosóficas e religiosas, foi progressivamente excluída do horizonte intelectual. Aquilo que não possui a forma de um objeto material passou a ser tratado como inexistente ou subjetivo. Essa redução constitui uma das fontes fundamentais da desumanização moderna.


O homem não é plenamente compreendido quando sua existência é reduzida a processos biológicos, econômicos, psicológicos ou sociais. Sua humanidade manifesta-se precisamente na abertura a uma realidade que transcende os objetos do mundo.


A experiência da razão e do espírito não é um acréscimo arbitrário à existência humana. É uma dimensão constitutiva da própria consciência. Quando essa dimensão é negada, a compreensão do homem torna-se incompleta. A vida espiritual passa a ser interpretada como ilusão, projeção ou simples produto de condições materiais.


A grandeza de Max Weber reside em sua capacidade de enfrentar essa situação sem se entregar às soluções ideológicas características de outros pensadores modernos.Weber não construiu uma doutrina de salvação política, não prometeu a transformação revolucionária da humanidade e não procurou substituir a realidade por uma visão apocalíptica da história.


Sua obra conserva uma extraordinária honestidade intelectual. A investigação científica deve reconhecer seus próprios limites e não pode pretender resolver, por procedimentos técnicos, os problemas últimos da existência.


A distinção entre conhecimento científico e julgamento de valor expressa uma tensão profunda. Weber compreende que a ciência moderna não fornece, por si mesma, uma resposta definitiva sobre os fins da vida humana. Entretanto, não abandona a exigência de responsabilidade diante da verdade. Sua relação com a transcendência permanece irresolvida. Ele reconhece a gravidade das questões espirituais, mas não alcança uma formulação plenamente diferenciada da experiência filosófica e religiosa que permitiria integrá-las numa compreensão da ordem do ser.


A reflexão de Weber sobre a política oferece um exemplo especialmente importante. A atividade política exige paixão, responsabilidade e senso de proporção. Entretanto, a paixão não deve ser confundida com excitação emocional ou entrega irracional aos impulsos.


A verdadeira paixão política envolve concentração objetiva sobre a realidade, disciplina interior e domínio da própria alma. O homem político deve possuir uma dedicação intensa à sua tarefa sem perder a capacidade de julgar suas consequências.


A responsabilidade exige reconhecer os efeitos concretos das decisões. Não basta proclamar intenções moralmente elevadas ou identificar-se com causas grandiosas. A ação política deve responder pela realidade que produz.


O senso de proporção impede que a personalidade seja absorvida pela vontade de poder. A capacidade de manter distância diante dos acontecimentos constitui uma condição indispensável para o julgamento político.


Essas virtudes representam precisamente aquilo que faltou à sociedade alemã durante a ascensão do nacional-socialismo. A paixão foi substituída pelo fanatismo, a responsabilidade pela obediência e o senso de proporção pela exaltação ideológica.


A grandeza de Weber consiste também na integridade de sua busca intelectual. Sua consciência permanece aberta a questões que não consegue resolver definitivamente. Existe nessa atitude uma espécie de mística intelectual, não porque Weber tenha desenvolvido uma doutrina mística, mas porque sua dedicação à verdade revela uma tensão existencial que ultrapassa o mero exercício técnico da razão.


O verdadeiro intelectual não é aquele que domina um sistema fechado de explicações, mas aquele que conserva a consciência dos limites do conhecimento e permanece responsável diante da realidade.


A restauração da ordem intelectual e política depende dessa disposição. É necessário recuperar a capacidade de distinguir conhecimento e ideologia, autoridade e poder, justiça e legalidade, verdade e propaganda, virtude e simples eficiência.

A existência humana não pode ser ordenada mediante sistemas que eliminam a transcendência ou transformam a vontade política em fundamento último da realidade.


A consciência precisa recuperar sua abertura à verdade, mesmo quando essa verdade não pode ser convertida em fórmulas definitivas.



A recuperação da ordem exige uma conversão da consciência: abandonar as fantasias ideológicas, reconhecer a realidade, recuperar o julgamento moral e aceitar a tensão permanente entre a existência temporal e a transcendência.

A grandeza espiritual não consiste na posse de uma doutrina capaz de explicar definitivamente o mundo, mas na disposição de viver responsavelmente diante da verdade.


A lição fundamental da experiência alemã é que uma sociedade não se torna bárbara apenas quando abandona suas instituições civilizadas, mas quando conserva essas instituições enquanto perde a consciência espiritual e moral que lhes confere sentido. O perigo representado por Hitler não pertence exclusivamente ao passado alemão. Ele permanece presente onde quer que a estupidez inteligente, a submissão à autoridade, a corrupção da linguagem e a fuga ideológica da realidade substituam a responsabilidade pessoal diante da verdade.



A ascensão ao poder de uma figura grotesca como Lula apresenta grande similitude com a evento nazista na Alemanha.


Todas as nossas instituições sociais encontram-se corrompidas: os governantes entranhados no patrimonialismo, as Forças Armadas voltam-se contra a população, os membros do Judiciário sistematicamente burlam as leis, a Igreja destroçada por dentro, a Imprensa mente por interesses ideológicos e pecuniários, professores tornaram-se militantes – não ensinam e deseducam seus alunos –, as artes exaltam o horrendo, e substitui-se a semântica das palavras por sentimentos distorcidos… os xátrias abandonaram a ordem e os brâmanes perderam de vista a transcendência, todos chafurdam na matéria.


É inegável que a sociedade brasileira apresenta um quadro espiritual, intelectual e moral desolador – a Verdade e a Justiça definham. A “segunda realidade” na qual vive a maioria da sociedade foi urdida pelo utilitarismo espiritual e secularização da esperança cristã, pela ideologia coletivista, e pela exacerbação da concupiscência e do amor sui inordinatus.


Nesta “segunda realidade”, entre outras coisas, (1) Deus é um produto da consciência humana, (2) o Estado é gerador de riqueza, (3) a economia é um jogo de soma zero, (4) o rico é responsável pela penúria do pobre, (5) a igualdade de condições entre os homens é possível, (6) o criminoso é vítima de sociedade, (7) a natureza humana é plástica, (8) o indivíduo define seu sexo, (9) o nascituro não é humano, (10) o prazer é um dos principais objetivos da existência, (11) o passado é superado e não tem nada a ensinar, (12) “climate change” é um problema, (13) os métodos das ciências empíricas são critérios universais de todo conhecimento, (4) cada um tem sua verdade, (15) o que é bom para uns pode ser mau para outros, e (16) a beleza está nos olho de que vê.


Este crescente distanciamento da realidade e o fato das novas gerações estarem expostas aos piores exemplos morais, a uma educação e um ensino cada vez mais deficitários, e a um ambiente onde a transcendência é vista como superstição, indicam que o pior ainda está por vir.





Notas


  • Eric Voegelin (1901-1985) nasceu em Colônia, Alemanha.

  • Sua filosofia caracteriza-se pela crítica à tentativa moderna de substituir a realidade por construções ideológicas e pela recuperação das experiências clássicas e cristãs de transcendência. Inspirando-se especialmente em Platão, Aristóteles e Santo Agostinho, sustentou que a ordem política depende da ordem espiritual e que as crises das sociedades modernas resultam, em grande medida, da perda de contato com os fundamentos transcendentes da existência.

  • Sua contribuição central foi demonstrar que as grandes crises políticas não podem ser compreendidas apenas como conflitos econômicos ou institucionais, pois frequentemente expressam uma desordem mais profunda da consciência humana.

  • Foi um dos mais importantes filósofos políticos do século XX, destacando-se por suas investigações sobre a ordem política, a filosofia da história, a consciência humana, as religiões e as origens espirituais dos movimentos totalitários.

  • A lista de suas principais obras incluem: Raça e Estado (1933), As Religiões Políticas (1938), The New Science of Politics (1952), Ordem e História em cinco volumes (1956-1987), Anamnese (1966), e Reflexões Autobiográficas (1989 – póstumo).

  • Hitler e os Alemães foi publicado em 1964.

  • Ideologia é uma construção intelectual que substitui a realidade por uma representação imaginária do mundo, fechando a consciência humana à verdade da existência e à transcendência – uma deformação da consciência, pela qual o homem deixa de procurar compreender a realidade e passa a interpretá-la segundo um sistema previamente concebido, que pretende explicar definitivamente a história, a sociedade e o destino humano. Essa deformação apresenta quatro características fundamentais: 1. Alienação da realidade: a ideologia substitui a experiência concreta por uma construção intelectual que seleciona, distorce ou rejeita os fatos incompatíveis com seus pressupostos. 2. Fechamento à transcendência: a ideologia recusa a tensão constitutiva da existência humana entre o mundo temporal e o fundamento transcendente do ser. A realidade passa a ser concebida como inteiramente explicável e transformável pela ação humana. 3. Imanentização da salvação: aquilo que as experiências religiosas situam na transcendência – a redenção, a perfeição e a plenitude da existência – é transferido para a história. A salvação passa a ser prometida por meio de uma revolução, de uma sociedade perfeita, da vitória de uma raça ou da realização de um destino histórico. 4. Proibição de questionar os fundamentos: a ideologia protege seus pressupostos contra a crítica. Quando a realidade contradiz o sistema, procura-se desacreditar os fatos ou aqueles que os apresentam, em vez de reconsiderar a própria doutrina.

  • A obra de Percy Ernst Schramm (1894–1970) diretamente criticada por Eric Voegelin em Hitler e os Alemães é Anatomie eines Diktators (Anatomia de um Ditador), publicada originalmente em 1963 como introdução ao livro Hitlers Tischgespräche im Führerhauptquartier (Conversas de Hitler no Quartel-General), organizado por Henry Picker.

  • A síndrome de Buttermelcher é uma expressão criada por Eric Voegelin para designar a resistência psicológica, intelectual e moral de uma sociedade em reconhecer a própria degradação ao admitir a mediocridade e a perversidade de seus líderes. A expressão a deriva de uma carta publicada no jornal Süddeutsche Zeitung, cujo remetente morava na rua Buttermelcher. O correspondente resistia à caracterização de Hitler como um homem intelectualmente e moralmente desprezível, pois isso implicaria reconhecer que toda uma geração de alemães havia sido suficientemente estúpida ou degradada para segui-lo.

  • Karl Kraus (1874–1936) foi um escritor, jornalista, dramaturgo, poeta e crítico cultural austríaco, nascido em Jičín, na Boêmia, então parte do Império Austro-Húngaro, e falecido em Viena. Foi um dos mais importantes críticos da imprensa, da propaganda, da hipocrisia burguesa e da degradação intelectual da sociedade europeia nas primeiras décadas do século XX. Die Sprache (A Linguagem), publicada postumamente em 1937, reúne ensaios sobre a linguagem, sua integridade e sua degradação pelo jornalismo, pela retórica vazia e pelo uso irresponsável das palavras.

  • Carl Amery (1922–2005), pseudônimo de Christian Anton Mayer, foi um escritor, ensaísta e crítico social alemão, nascido e falecido em Munique. Católico de formação, destacou-se por suas críticas ao conformismo religioso, ao nacional-socialismo e à sociedade alemã do pós-guerra. Em Die Kapitulation oder Deutscher Katholizismus heute (A capitulação, ou o catolicismo alemão hoje), publicada em 1963, Amery crítica a substituição das virtudes morais fundamentais – justiça, coragem e responsabilidade – por virtudes secundárias, como disciplina, pontualidade, obediência e eficiência.

  • Alan Bullock (1914–2004) foi um historiador britânico, professor da Universidade de Oxford e um dos principais estudiosos do nazismo e da personalidade de Adolf Hitler. Em Hitler: A Study in Tyranny (1952) Bullock analisa a ascensão do ditador, sua personalidade, sua manipulação das massas e o emprego sistemático da propaganda como instrumento de poder. Hitler é apresentado sobretudo como um político oportunista, movido pela ambição de poder e capaz de instrumentalizar ideias, instituições e pessoas para alcançar seus objetivos.

  • A ideologia völkisch foi um movimento nacionalista, étnico, cultural e, frequentemente, racialista que surgiu na Alemanha durante o século XIX, ganhou força no início do século XX e constituiu uma das principais matrizes ideológicas do nacional-socialismo. A palavra alemã Volk significa povo, mas, no pensamento völkisch, adquiriu um significado muito mais profundo: o povo era concebido como uma comunidade orgânica de sangue, ancestralidade, língua, cultura, território e destino histórico, dotada de uma identidade própria que deveria ser preservada contra influências estrangeiras.

  • Alfred Delp (1907–1945) foi um sacerdote jesuíta alemão, filósofo e integrante da resistência intelectual ao nacional-socialismo. Influenciado pela filosofia cristã, especialmente pelo pensamento de Tomás de Aquino, dedicou-se à crítica do materialismo, do coletivismo e das ideologias totalitárias. Sua preocupação central era a perda da liberdade espiritual do homem diante de um Estado que pretendia controlar integralmente a existência humana. Foi preso pela Gestapo e enforcado aos 37 anos por defender a reconstrução da Alemanha sobre fundamentos cristãos, o respeito à dignidade humana, a responsabilidade pessoal e uma organização social inspirada no princípio da subsidiariedade.


  • Robert Musil (1880-1942) foi um escritor, ensaísta e pensador austríaco. Em sua obra magna, O Homem sem Qualidades, Musil desenvolve conceito de “segunda realidade” designando uma realidade imaginária construída pela consciência humana para substituir a realidade efetiva, quando esta se torna insuportável ou incompatível com seus desejos, crenças e ambições – é quando a fantasia construída pela ideologia deixa de ser apenas uma interpretação equivocada do mundo e se converte num instrumento de falsificação sistemática da realidade, podendo justificar a violência necessária à preservação da fantasia.


  • Heimito von Doderer (1896–1966) foi um romancista e ensaísta austríaco, nascido em Viena, considerado um dos grandes representantes da literatura austríaca do século XX. Sua obra investiga a deformação da consciência, o autoengano, a alienação da realidade e a dificuldade humana de alcançar uma existência autêntica. Seu romance Os Demônios (1956) aprofunda, pela literatura, o diagnóstico filosófico de Voegelin sobre o nacional-socialismo.

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