Eurabia: l'axe euro-arabe de Bat Ye'Or

"Elle (Europe) sacrifie son indépendance politique tout comme ses valeurs culturelles et spirituelles en échange de garanties (quelque peu illusoires) contre le terrorisme et d’avantages économiques que lui dispensent les pays arabes.” – Bat Ye'Or
A Europa atravessa uma transformação histórica profunda, silenciosa e deliberadamente conduzida, que ameaça dissolver sua identidade civilizacional, sua independência política e os fundamentos culturais e espirituais que a constituíram ao longo de dois milênios. Essa transformação não resulta simplesmente da imigração muçulmana, da globalização econômica ou de uma evolução espontânea das sociedades europeias. É consequência de uma estratégia geopolítica concebida a partir dos anos 1970, institucionalizada mediante acordos entre a Comunidade Econômica Europeia e os países da Liga Árabe e progressivamente estendida à política externa, à educação, à cultura, à religião, aos meios de comunicação e às instituições públicas. O resultado desse processo é o nascimento de uma nova entidade político-cultural, a Eurábia, caracterizada pela crescente subordinação da Europa aos interesses estratégicos do mundo árabe-islâmico, pelo enfraquecimento de sua herança judaico-cristã e pela substituição de seus princípios tradicionais por uma ideologia marcada pelo antiamericanismo, pelo antissionismo e pela acomodação às exigências políticas e religiosas islâmicas.
Para compreender esse fenômeno, é necessário reconhecer a continuidade histórica entre a expansão islâmica medieval e as novas modalidades de influência exercidas sobre as sociedades ocidentais. A expansão do Islã não se realizou exclusivamente pela conquista militar, mas também pela implantação de uma ordem jurídica e religiosa que subordinava as populações não muçulmanas ao poder islâmico. Dois conceitos são fundamentais para compreender esse processo: a jihad e a dhimmitude. A primeira, em sua dimensão político-militar clássica, constituiu um instrumento de expansão e consolidação do domínio islâmico; a segunda estabeleceu um sistema de submissão jurídica, tributária, política e social dos judeus e cristãos que permaneciam nos territórios conquistados. Embora conservassem determinados direitos de culto e de existência comunitária, essas populações eram submetidas a restrições que institucionalizavam sua inferioridade perante a comunidade muçulmana.
A dhimmitude não representa apenas uma condição jurídica histórica, mas também uma relação política e psicológica de dependência, caracterizada pela aceitação da inferioridade, pela autocensura, pelo pagamento de tributos, pela renúncia à resistência e pela necessidade permanente de conquistar a tolerância do poder dominante. Sua manifestação contemporânea não exige necessariamente uma conquista territorial ou a implantação formal da legislação islâmica. Pode desenvolver-se mediante pressões diplomáticas, dependência econômica, intimidação, concessões políticas e adaptações culturais que levam sociedades formalmente soberanas a restringir voluntariamente suas próprias liberdades.
A transformação europeia deve ser compreendida à luz dessa continuidade. Durante séculos, a Europa resistiu às tentativas de expansão militar islâmica, preservando sua independência e suas instituições. Entretanto, na segunda metade do século XX, especialmente depois da crise petrolífera de 1973, seus dirigentes passaram a adotar uma estratégia radicalmente distinta: em vez de preservar uma separação política e civilizacional, procuraram integrar progressivamente as duas margens do Mediterrâneo, criando um espaço de cooperação que ultrapassaria as relações comerciais e alcançaria a própria identidade cultural europeia.
A Guerra do Yom Kippur, em outubro de 1973, e o embargo petrolífero imposto pelos países árabes constituíram o momento decisivo dessa reorientação. A dependência energética europeia revelou-se uma poderosa arma de pressão diplomática. Os países produtores de petróleo passaram a condicionar o abastecimento e as vantagens comerciais a uma aproximação política com suas posições no conflito árabe-israelense. Os governos europeus, preocupados com a segurança energética, com os mercados do Oriente Médio e com os investimentos financeiros provenientes dos países petrolíferos, aceitaram estabelecer uma relação de cooperação cujas contrapartidas ultrapassavam amplamente a esfera econômica.
O chamado Diálogo Euro-Árabe, institucionalizado a partir desse contexto, tornou-se o principal mecanismo de construção da Eurábia. Apresentado como uma iniciativa de entendimento entre povos e civilizações, funcionou como uma estrutura permanente de negociação política, coordenação diplomática, cooperação econômica e transformação cultural.
O que os países árabes ofereciam à Europa: (a) garantia de fornecimento de petróleo e gás, (b) acesso aos mercados árabes e contratos comerciais lucrativos, (c) investimentos financeiros provenientes das receitas petrolíferas, (d) cooperação política e promessa de estabilidade nas relações bilaterais, (e) expectativa de redução das ameaças terroristas contra interesses europeus, (f) cooperação econômica de longo prazo, e (g) participação numa parceria euro-mediterrânea.
Em contrapartida a Europa oferecia aos países árabes: (a) apoio diplomático à causa palestina e alinhamento político contra Israel, (b) transferência de tecnologia industrial, científica, nuclear e militar, (c) investimentos em infraestrutura, industrialização e modernização dos países árabes, (d) maior autonomia em relação aos Estados Unidos e aproximação estratégica com a Liga Árabe, (e) acomodação política perante organizações palestinas e reivindicações árabe-islâmicas, (f) facilitação da imigração árabe e muçulmana e preservação de seus vínculos culturais e religiosos com os países de origem, e (g) promoção da língua, da cultura e da religião islâmica por meio de escolas, universidades, instituições culturais e programas de cooperação.
Essa aliança não se limitou aos governos nacionais. Desenvolveu uma extensa rede de organismos parlamentares, comissões intergovernamentais, associações culturais, centros acadêmicos, instituições religiosas, organizações de amizade euro-árabe e meios de comunicação. A participação dessas estruturas permitiu que decisões tomadas no plano diplomático fossem progressivamente transmitidas à vida cotidiana dos cidadãos, sem que estes compreendessem plenamente sua origem, seus objetivos ou suas consequências.
A formação de um bloco euro-árabe implicava, portanto, muito mais do que uma política de boa vizinhança. Tratava-se de produzir uma convergência estratégica e cultural capaz de transformar a Europa numa extensão política do mundo árabe. A cooperação econômica fornecia os incentivos materiais, a questão palestina oferecia o fundamento ideológico, a imigração criava uma nova realidade demográfica, e as instituições educacionais, culturais e religiosas preparavam a transformação das mentalidades.
O antissionismo ocupa uma posição central nesse projeto. A hostilidade a Israel não constitui um elemento secundário da aproximação euro-árabe, mas seu principal instrumento de coesão política e ideológica. Desde os primeiros acordos, a posição europeia sobre o conflito árabe-israelense foi progressivamente subordinada às exigências da Liga Árabe. A causa palestina converteu-se numa referência moral obrigatória, enquanto Israel passou a ser apresentado como responsável pela instabilidade regional, pelo ressentimento árabe, pelo terrorismo e pelas dificuldades de aproximação entre o mundo islâmico e o Ocidente.
Essa transformação foi acompanhada por uma inversão dos critérios morais aplicados à violência política. Atentados terroristas palestinos passaram a ser frequentemente explicados ou relativizados como consequências da ocupação, da humilhação e da injustiça, enquanto as medidas israelenses de defesa eram submetidas a uma condenação particularmente severa. A linguagem dos direitos humanos, da paz e da justiça internacional foi progressivamente incorporada a uma narrativa que atribuía à existência e à política de Israel uma responsabilidade desproporcional pelos conflitos do Oriente Médio.
A identificação entre antissionismo e antissemitismo emerge quando a crítica política a Israel se transforma na demonização sistemática do Estado judeu, na negação de sua legitimidade histórica e na tolerância perante manifestações de hostilidade contra comunidades judaicas europeias. O antissemitismo deixa então de aparecer apenas como preconceito individual e passa a manifestar-se como uma cultura política institucionalmente difundida, revestida de uma linguagem humanitária e legitimada pela solidariedade à causa palestina.
A questão palestina adquire, assim, uma dimensão quase religiosa. O palestinismo converte-se num culto político que reorganiza as categorias de vítima e opressor, culpa e inocência, justiça e injustiça. A figura do palestino ocupa o centro de uma nova moralidade pública, enquanto Israel assume a função simbólica do mal a ser combatido. Essa substituição possui consequências espirituais profundas, pois rompe o vínculo histórico entre o cristianismo europeu e suas raízes judaicas, enfraquecendo a compreensão da tradição bíblica como fundamento da identidade ocidental.
A construção da Eurábia também exigiu uma transformação da política externa europeia. A aproximação com os países árabes estimulou o distanciamento em relação aos Estados Unidos, especialmente quando a política americana contrariava os interesses dos parceiros do Oriente Médio. O antiamericanismo tornou-se um componente ideológico da nova orientação europeia, associado à rejeição do poder ocidental, à crítica da influência americana e à apresentação da Europa como mediadora privilegiada entre o mundo islâmico e o restante do Ocidente.
O conflito entre a orientação atlântica e a orientação euro-árabe tornou-se particularmente evidente depois dos atentados de 11 de setembro de 2001. A ofensiva americana contra o terrorismo jihadista ameaçou comprometer décadas de acomodações diplomáticas e de relações políticas estabelecidas entre governos europeus e organizações do mundo árabe. As investigações revelaram a existência de redes extremistas instaladas em território europeu, expondo as contradições de políticas que haviam procurado preservar a segurança interna mediante concessões e entendimentos com interlocutores islâmicos.
Os atentados de Madri, em 2004, e de Londres, em 2005, demonstraram a fragilidade dessa estratégia. A expectativa de que uma política externa favorável às posições árabes pudesse proteger a Europa do terrorismo revelou-se ilusória. Em vez de enfrentar as raízes ideológicas do jihadismo, grande parte das autoridades europeias preferiu explicar a violência como reação às políticas americanas, ao conflito palestino ou às discriminações sofridas por populações muçulmanas.
A consequência dessa interpretação foi a substituição da análise da ameaça por uma política de apaziguamento, na qual o receio de provocar novas reações violentas passou a orientar decisões governamentais. O terrorismo tornou-se, assim, não apenas um instrumento de destruição física, mas também um mecanismo de pressão psicológica e política capaz de induzir concessões e restringir o debate público.
A imigração muçulmana representa outra dimensão essencial da transformação europeia. O deslocamento de milhões de pessoas provenientes do Norte da África, do Oriente Médio e de outras regiões islâmicas não é interpretado apenas como consequência das necessidades econômicas europeias ou das desigualdades internacionais. Ele se insere também numa política de aproximação euro-árabe que favorece a constituição de comunidades culturalmente vinculadas aos países de origem, com instituições religiosas, organizações sociais e estruturas de representação próprias.
O problema central não é a presença de muçulmanos na Europa, mas a formação de sociedades paralelas que rejeitam a integração aos princípios jurídicos e culturais dos países de acolhimento. A valorização institucional do multiculturalismo, quando transformada em obrigação de preservar indefinidamente identidades coletivas separadas, pode enfraquecer a cidadania comum e legitimar reivindicações incompatíveis com a igualdade perante a lei. A consequência é o surgimento de comunidades nas quais a autoridade religiosa disputa com o Estado o controle da educação, da família, da moralidade pública e das relações sociais.
Essa fragmentação favorece a atuação de organizações islamistas que apresentam a comunidade muçulmana como parte de uma umma transnacional, cuja identidade religiosa deve prevalecer sobre a lealdade ao país de residência. As exigências de reconhecimento de normas religiosas particulares, de restrições à crítica do Islã e de tratamento jurídico diferenciado convertem a integração em um processo de acomodação unilateral, no qual a sociedade anfitriã é continuamente pressionada a modificar suas instituições.
A escola constitui um dos principais campos dessa transformação. A educação, tradicionalmente responsável pela transmissão da história nacional, dos valores cívicos e da cultura europeia, torna-se um espaço de disputa entre princípios republicanos e reivindicações religiosas. A contestação de determinados conteúdos escolares, a resistência à igualdade entre homens e mulheres, a pressão sobre professores e a hostilidade dirigida a alunos judeus revelam as dificuldades de preservar uma cultura cívica compartilhada. O relatório Obin, produzido na França em 2004, evidencia manifestações de pertencimento religioso e tensões comunitárias que desafiam a autoridade escolar e a transmissão dos valores republicanos.
Paralelamente, a cooperação cultural euro-árabe promove uma revisão da interpretação histórica das relações entre o Islã e o Ocidente. Seminários, conferências, programas educacionais, publicações e instituições acadêmicas difundem uma narrativa que enfatiza a contribuição islâmica à civilização europeia, enquanto minimiza a história das conquistas militares, das perseguições religiosas e da subordinação jurídica de judeus e cristãos. A apresentação seletiva do passado contribui para legitimar uma nova concepção da identidade europeia, na qual o Islã deixa de ser uma civilização historicamente distinta para tornar-se um componente constitutivo e indispensável da própria Europa.
O exemplo mais expressivo dessa reconstrução histórica é a idealização de Al-Andalus, a Espanha governada por dinastias muçulmanas entre os séculos VIII e XV. A convivência entre muçulmanos, judeus e cristãos é apresentada como uma idade de ouro da tolerância, da liberdade intelectual e da harmonia inter-religiosa, destinada a servir de modelo para a futura sociedade euro-mediterrânea. Essa representação omite as condições de inferioridade jurídica impostas aos não muçulmanos, os períodos de perseguição, as conversões forçadas e as restrições políticas e religiosas. As realizações culturais da Espanha islâmica não eliminam a existência de uma ordem hierárquica fundamentada na supremacia do Islã. Transformar essa experiência histórica em paradigma de igualdade significa substituir a complexidade dos acontecimentos por um mito político destinado a legitimar o presente.
A manipulação da memória histórica é acompanhada por uma transformação da linguagem pública. Termos como tolerância, diversidade, diálogo, paz e respeito às culturas passam a funcionar como instrumentos de legitimação de políticas que não admitem contestação. A crítica ao islamismo, às práticas discriminatórias ou às exigências de organizações religiosas pode ser apresentada como manifestação de racismo, xenofobia ou islamofobia. A confusão entre a proteção legítima das pessoas contra a discriminação e a proteção das doutrinas religiosas contra o exame crítico permite restringir a liberdade intelectual em nome da própria tolerância.
A da'wa, entendida como propagação e difusão da fé islâmica, adquire nesse contexto uma importância particular. O diálogo intercultural e inter-religioso, quando estabelecido entre interlocutores que não compartilham os mesmos objetivos, pode converter-se num mecanismo assimétrico. Enquanto as instituições europeias procuram evitar conflitos e demonstrar abertura, organizações religiosas e políticas utilizam os espaços de cooperação para ampliar sua influência, obter reconhecimento institucional e consolidar reivindicações. O diálogo deixa de ser um encontro entre parceiros independentes e passa a funcionar como um processo de transformação unilateral da sociedade europeia.
O desenvolvimento do Processo de Barcelona, iniciado em 1995, representa a continuidade e o aprofundamento dessa estratégia. A Parceria Euro-Mediterrâneo ampliou a cooperação econômica e política para incluir questões de segurança, educação, cultura, imigração e diálogo entre civilizações. A criação de novas estruturas institucionais, entre elas a Fundação Anna Lindh, reforçou a formação de uma rede permanente destinada a promover uma identidade mediterrânea comum. Sob a linguagem da estabilidade e da prosperidade compartilhadas, consolidou-se um projeto que pretendia reorganizar as relações entre a Europa e seus vizinhos meridionais, ultrapassando os limites tradicionais da diplomacia.
A transformação alcança igualmente as instituições cristãs. O diálogo islâmico-cristão, embora apresentado como instrumento de reconciliação religiosa, pode favorecer interpretações teológicas que enfraquecem a consciência da identidade própria do cristianismo. A busca de elementos comuns entre as religiões, quando acompanhada da omissão de suas diferenças fundamentais, conduz à relativização de doutrinas, à desvalorização das raízes judaicas da fé cristã e à aceitação de reconstruções históricas orientadas por objetivos políticos.
A tentativa de separar Jesus Cristo de sua identidade judaica constitui uma manifestação particularmente significativa desse processo. A apresentação de Jesus, Maria e dos apóstolos como figuras essencialmente árabes ou palestinas, desvinculadas da história religiosa de Israel, reproduz uma forma contemporânea de marcionismo, doutrina que procurava separar o cristianismo de suas origens veterotestamentárias. Essa reinterpretação rompe a continuidade espiritual entre o judaísmo e o cristianismo, substituindo-a por uma identidade religiosa e política ajustada ao palestinismo.
A consequência é uma progressiva islamização da interpretação cristã da história sagrada, na qual a legitimidade bíblica de Israel é obscurecida e o cristianismo é reinterpretado em função de uma narrativa arabo-palestina. O problema ultrapassa a teologia, pois atinge os fundamentos espirituais da civilização europeia. Uma Europa que renuncia à compreensão de suas origens judaicas e cristãs perde também parte de sua capacidade de reconhecer os princípios históricos sobre os quais construiu sua concepção da dignidade humana, da liberdade religiosa e da distinção entre autoridade espiritual e poder político.
A situação das comunidades cristãs do Oriente Médio revela outra contradição fundamental do projeto euro-árabe. Enquanto os governos europeus proclamam a necessidade de respeitar as sensibilidades religiosas islâmicas e combater a discriminação contra muçulmanos, frequentemente demonstram indiferença diante das perseguições, restrições jurídicas e violências sofridas por cristãos em países de maioria muçulmana. Essa assimetria expõe a fragilidade de um diálogo que exige concessões constantes de uma parte, sem assegurar reciprocidade efetiva da outra.
O mesmo padrão manifesta-se no tratamento da liberdade de expressão. O assassinato do cineasta Theo van Gogh, na Holanda, em 2004, e a crise internacional provocada pelas caricaturas de Maomé publicadas na Dinamarca em 2005 demonstram o confronto entre a liberdade ocidental de crítica religiosa e a exigência de proteção especial aos símbolos islâmicos. As ameaças de morte, os protestos violentos e as pressões diplomáticas transformaram controvérsias culturais em crises políticas internacionais.
A reação de muitos governos europeus revelou a disposição de limitar ou desencorajar manifestações legítimas de liberdade intelectual para evitar confrontos com organizações e autoridades islâmicas. A defesa da convivência pacífica converteu-se, em determinadas circunstâncias, numa aceitação tácita de limites religiosos à liberdade de imprensa. A autocensura passou a exercer uma função equivalente à censura formal, pois jornalistas, escritores, professores e artistas começaram a restringir suas manifestações por receio de represálias.
Essa dinâmica expressa a essência contemporânea da dhimmitude: a submissão não precisa ser imposta exclusivamente por leis explícitas, podendo resultar da interiorização do medo e da aceitação preventiva das exigências de grupos capazes de exercer intimidação. A liberdade deixa de ser um direito incondicional e passa a depender da aprovação daqueles que ameaçam reagir violentamente ao seu exercício.
A política europeia de acomodação também favoreceu uma cultura de impunidade em relação a determinadas organizações e manifestações de violência política. O tratamento concedido à Organização para a Libertação da Palestina, apesar de sua participação histórica em ações terroristas, exemplifica a disposição de subordinar princípios jurídicos e morais a interesses diplomáticos. O reconhecimento político de dirigentes envolvidos em movimentos violentos contribuiu para normalizar práticas que seriam condenadas quando exercidas por outros atores.
O fortalecimento do Hamas, a difusão do jihadismo internacional e a expansão de organizações islamistas transnacionais demonstram os riscos dessa política. A crença de que concessões diplomáticas, vantagens econômicas e reconhecimento cultural bastariam para neutralizar projetos ideológicos expansionistas ignora a natureza das doutrinas que orientam esses movimentos. O jihadismo não pode ser reduzido à pobreza, à exclusão social ou à reação contra decisões americanas e israelenses, pois possui fundamentos religiosos, históricos e políticos próprios, que continuam a influenciar organizações militantes contemporâneas.
A ascensão da Eurábia também depende da convergência entre interesses árabe-islâmicos e correntes ideológicas europeias. O antiamericanismo, o anticolonialismo, determinadas formas de terceiro-mundismo e a hostilidade à tradição judaico-cristã fornecem pontos de contato entre movimentos políticos distintos. A esquerda radical, setores da intelectualidade, organizações militantes e correntes religiosas progressistas encontram na causa palestina e na crítica ao Ocidente elementos de mobilização que favorecem a aproximação com movimentos islâmicos, apesar das profundas divergências entre seus princípios sociais e religiosos.
Essa convergência produz uma aliança paradoxal entre ideologias secularistas e movimentos religiosos que rejeitam aspectos fundamentais da modernidade ocidental. A hostilidade compartilhada aos Estados Unidos, a Israel e à herança cultural europeia torna possível uma cooperação que ultrapassa as incompatibilidades doutrinárias. O adversário comum assume maior importância do que os princípios que distinguem os participantes dessa aliança.
A difusão dessas ideias depende de um sistema de condicionamento intelectual que envolve instituições políticas, meios de comunicação, universidades e organizações culturais. A repetição de determinadas interpretações históricas e políticas cria uma visão aparentemente consensual da realidade, enquanto opiniões divergentes são desqualificadas como extremistas ou intolerantes. A formação da opinião pública passa a ser orientada por categorias morais previamente estabelecidas, que dificultam o exame independente dos acontecimentos.
O resultado é a formação de uma cultura política marcada pela culpabilização permanente do Ocidente. A história europeia é apresentada sobretudo como uma sucessão de conquistas, perseguições e injustiças, enquanto os aspectos expansionistas e discriminatórios da história islâmica são relativizados ou omitidos. Essa assimetria alimenta uma consciência coletiva de culpa que enfraquece a disposição europeia de defender sua própria civilização.
A Eurábia não constitui, portanto, apenas uma transformação demográfica ou uma aproximação diplomática entre Estados. É uma reorganização das relações de poder, dos valores coletivos e da própria percepção histórica da sociedade europeia. Sua característica fundamental é a combinação entre pressões externas e colaboração interna, mediante a qual instituições formalmente democráticas participam da construção de uma ordem cultural que não foi submetida a um debate público proporcional à sua importância.
O problema da legitimidade democrática ocupa, por isso, uma posição decisiva. Uma transformação tão profunda da identidade política e cultural de um continente não pode ser legitimamente conduzida por acordos diplomáticos, comissões administrativas, organizações supranacionais e redes de influência sem o conhecimento e o consentimento dos cidadãos. A substituição gradual de princípios históricos por compromissos estabelecidos entre elites políticas representa uma forma de expropriação da soberania popular.
A promessa de uma civilização mediterrânea harmoniosa encobre, nessa perspectiva, os custos políticos e culturais da dependência. A Europa fornece recursos econômicos, tecnologia, reconhecimento diplomático, abertura territorial e concessões culturais, mas não obtém necessariamente reciprocidade em matéria de liberdade religiosa, igualdade jurídica, segurança e respeito aos direitos individuais. O equilíbrio anunciado pelo diálogo transforma-se numa relação assimétrica, na qual uma das partes adapta progressivamente suas instituições às exigências da outra.
A alternativa não consiste em rejeitar toda cooperação com os países muçulmanos nem em negar a possibilidade de convivência entre diferentes tradições religiosas. Uma relação legítima entre civilizações exige, porém, independência política, reciprocidade, reconhecimento das diferenças históricas e respeito efetivo aos direitos fundamentais. O diálogo somente possui valor quando seus participantes conservam a liberdade de discordar, criticar e defender suas convicções sem intimidação.
A Europa enfrenta, assim, uma escolha civilizacional. Pode preservar sua identidade histórica, sua soberania democrática, sua liberdade intelectual e a universalidade de seus princípios jurídicos, estabelecendo relações de cooperação com outras civilizações a partir de uma posição de independência. Ou pode continuar a substituir esses fundamentos por uma política de concessões, autocensura e acomodação, permitindo que sua identidade seja progressivamente redefinida por interesses externos e por elites internas que dispensam o consentimento dos povos.
A tragédia da Eurábia reside precisamente no fato de que uma civilização não precisa ser conquistada militarmente para perder sua liberdade. Basta que suas instituições renunciem à defesa dos princípios que as legitimam, que suas elites confundam tolerância com submissão, que a busca da paz se transforme em medo do conflito e que a cooperação internacional seja utilizada para impor mudanças culturais e políticas sem debate democrático. A submissão começa quando uma sociedade aceita que a preservação de sua segurança depende de silenciar suas convicções, restringir suas liberdades e negar sua própria história. Nesse momento, a independência formal pode sobreviver, mas a liberdade civilizacional já começou a desaparecer.
A União Soviética estimulou a aproximação entre o mundo árabe e as elites políticas europeias visando o enfraquecimento da Europa Ocidental. A participação soviética aparece principalmente como um fator de apoio político, ideológico e militar à causa palestina, e não como a direção formal do Diálogo Euro-Árabe.
Os palestinos, apoiados e orientados pela União Soviética, procuraram conquistar a esquerda europeia para sua causa. O programa político do Conselho Nacional Palestino de janeiro de 1973, que estabelecia como objetivo fortalecer a solidariedade da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) com os países socialistas e com os movimentos internacionais de libertação. Moscou forneceu à causa palestina apoio estratégico e ideológico, ajudando-a a adquirir influência internacional. Também treinava terroristas palestinos em países comunistas pertencentes à esfera de influência soviética.
Entre os socialistas cooptados pela Liga Árabe destacam-se três dirigentes europeus:
Bruno Kreisky, chanceler socialista da Áustria, que se aproximou de Yasser Arafat e promoveu seu reconhecimento político.
Willy Brandt, ex-chanceler alemão e presidente da Internacional Socialista, que recebeu Arafat em Viena, em 1979.
Olof Palme, primeiro-ministro socialista sueco, associado à reorientação da Internacional Socialista em relação ao conflito árabe-israelense.
Essa aproximação contribuiu para transformar a causa palestina em uma bandeira importante da esquerda europeia, aproximando-a de posições diplomáticas defendidas tanto pelos países árabes quanto pela União Soviética.
A política soviética e a política árabe convergiam em dois objetivos: enfraquecer Israel e reduzir a influência norte-americana no Oriente Médio. A solidariedade com os palestinos teria funcionado como ponto de encontro entre o nacionalismo árabe, o comunismo soviético, o socialismo europeu e determinados movimentos cristãos progressistas. A declaração final da Cúpula Árabe de Amã, de novembro de 1980, defendia simultaneamente a continuidade do Diálogo Euro-Árabe e o fortalecimento da cooperação com os países socialistas, comprovando que as duas frentes diplomáticas eram concebidas como complementares pelos dirigentes árabes.
A Rússia pós-soviética não abandonou esta estratégia conforme se observa em suas alianças e posições referentes ao conflito no Oriente Médio.
A fragilidade da Europa diante da expansão islâmica não resulta apenas da pressão externa, mas sobretudo do enfraquecimento de sua própria tradição judaico-cristã. A secularização, o relativismo moral e o enfraquecimento da tradição cristã produziram um vazio de autoridade cultural na Europa, permitindo que uma tradição religiosa dotada de maior coesão comunitária e disciplina ocupasse espaços abandonados pela própria civilização europeia.
Os valores modernos que os europeus consideravam instrumentos de defesa – racionalismo, democracia, liberdade de expressão, progresso econômico e Estado de bem-estar social – tornam-se, quando desligados de suas raízes civilizacionais, instrumentos de dissolução da identidade nacional.
O notório enfraquecimento civilizacional europeu iniciado na década de 1970 possibilitou as fortes ondas imigratórias no novo milênio como um passo mais avançado do processo descrito em Eurábia – a imigração é hoje a principal arma da guerra assimétrica promovida pelo Islã para conquistar o Ocidente.
O Diálogo Euro-Árabe (DEA), iniciado em 1973, não foi conduzido apenas por diplomatas e representantes comerciais. Ele mobilizou uma ampla rede de elites políticas, burocráticas, empresariais, acadêmicas, culturais e religiosas europeias, com particular protagonismo da França.
Entre as principias personalidades políticas identifica-se:
Georges Pompidou (Presidente da França (1969–1974)): Impulsionou a aproximação estratégica francesa com os países árabes.
Michel Jobert (Ministro francês das Relações Exteriores (1973–1974)): Figura central na formulação do Diálogo Euro-Árabe; o livro lhe atribui a escolha do termo diálogo.
Valéry Giscard d’Estaing (Presidente da França (1974–1981)): Participou da consolidação da cooperação euro-árabe e do fortalecimento das instituições políticas europeias.
Helmut Schmidt (Chanceler da Alemanha Ocidental (1974–1982)): Atuou, juntamente com Giscard d’Estaing, no fortalecimento do Conselho Europeu, importante para a coordenação diplomática comunitária.
Louis Terrenoire (Ex-ministro francês e presidente da Associação de Solidariedade França–Países Árabes): Promoveu a aproximação política franco-árabe por meio de associações de influência.
Claude Cheysson (Ministro francês das Relações Exteriores (1981–1984)): Representou a continuidade da política francesa de aproximação com o mundo árabe.
Roland Dumas (Ministro francês das Relações Exteriores (1984–1986 e 1988–1993): Deu continuidade à orientação diplomática francesa favorável ao aprofundamento das relações euro-árabes.
Jacques Chirac (Presidente da França (1995–2007)): Defendeu a parceria euro-mediterrânea e a aproximação estratégica com os países árabes, especialmente em seu discurso no Cairo, em 1996.
Esses nomes não representam uma lista formal de participantes de todas as reuniões do DEA. São personalidades associadas à construção e à continuidade da política euro-árabe.
Além dos chefes de Estado e ministros, o livro destaca os dirigentes das instituições europeias:
François-Xavier Ortoli (Presidente da Comissão das Comunidades Europeias (1973–1977)): Participante da formalização do diálogo em 1974.
Jean Sauvagnargues (Ministro francês das Relações Exteriores) Representou a presidência do Conselho da CEE nas negociações de julho de 1974.
Étienne Davignon (Diplomata belga): Figura importante da cooperação política europeia.
Henri Simonet (Comissário europeu e posteriormente ministro belga das Relações Exteriores): Defensor da cooperação euro-árabe.
Edgar Pisani (Político francês e posteriormente presidente do Instituto do Mundo Árabe): Ligado à dimensão cultural da aproximação.
O Diálogo também contou com uma importante estrutura parlamentar. A Associação Parlamentar para a Cooperação Euro-Árabe, fundada em março de 1974, reuniu políticos de diferentes partidos europeus. Entre seus articuladores estavam Raymond Offroy, deputado francês, e Christopher Mayhew, parlamentar trabalhista britânico.
No plano econômico, participaram representantes de grandes empresas, especialistas em petróleo, industriais, economistas e técnicos encarregados de organizar investimentos, transferências tecnológicas e projetos comerciais.
Na esfera cultural, a obra destaca também a participação de professores universitários, especialistas em estudos árabes, jornalistas, dirigentes de instituições culturais e representantes de organizações religiosas. A aproximação também foi promovida por publicações como Eurabia e por associações de amizade com o mundo árabe.
A França foi o principal motor político e intelectual do Diálogo Euro-Árabe. Sua diplomacia pretendia construir um bloco euro-mediterrâneo que ampliasse a influência francesa no Oriente Médio e conferisse à Europa maior autonomia perante os Estados Unidos.
Notas
Bat Ye'Or, pseudônimo de Gisèle Littman (1933- ) nasceu Cairo, Egito. Em 1957, em meio à crescente hostilidade contra a comunidade judaica egípcia, deixou o país e posteriormente estabeleceu-se na Suíça
Tornou-se conhecida por seus estudos sobre a condição histórica das comunidades judaicas e cristãs sob o domínio islâmico. Seu trabalho concentra-se especialmente nos conceitos de jihad e dhimmitude, este último empregado para descrever a condição de subordinação jurídica e social atribuída aos não muçulmanos em determinados regimes islâmicos históricos.
Entre suas principais obras estão: The Dhimmi: Jews and Christians under Islam (1985), The Decline of Eastern Christianity under Islam (1996), Islam and Dhimmitude: Where Civilizations Collide (2002), e Europe, Globalization, and the Coming of the Universal Caliphate (2011).
Eurabia: The Euro-Arab Axis foi publicado em 2005.
Jihad (جهاد) é um termo árabe que significa literalmente esforço, empenho ou luta. Na tradição islâmica, designa o esforço realizado em nome de Deus (Allah) para defender, preservar ou promover o Islã. Seu significado varia conforme o contexto religioso, jurídico e histórico. A jihad inclui a luta armada realizada em nome da comunidade islâmica, incluindo a expansão do domínio político muçulmano.
Dhimmi (ذمّي, em árabe) é o termo utilizado na tradição jurídica islâmica para designar um não muçulmano que vive sob o domínio político do Islã, recebendo proteção legal em troca da aceitação de uma condição de subordinação jurídica e religiosa.
Umma (em árabe, ummah, أُمَّة) significa literalmente comunidade ou nação. No contexto islâmico, designa a comunidade universal dos muçulmanos, unidos pela fé em Alá e pelo reconhecimento de Maomé como seu profeta, independentemente de nacionalidade, etnia, língua ou fronteiras políticas.
Da’wa (دعوة) é uma palavra árabe que significa literalmente convite, chamamento ou convocação. No contexto islâmico, designa a atividade de propagação da fé muçulmana, mediante a pregação, o ensino religioso, a persuasão e o convite à conversão ao Islã.
O Processo de Barcelona, também conhecido como Parceria Euro-Mediterrânea, foi uma iniciativa de integração política, econômica e cultural entre a União Europeia e os países do sul e do leste do Mediterrâneo, lançada em 27 e 28 de novembro de 1995, durante uma conferência ministerial realizada em Barcelona, na Espanha. Seu objetivo declarado era criar uma região de paz, estabilidade e prosperidade compartilhada, mediante a aproximação entre a Europa, o Norte da África e o Oriente Médio. O processo reuniu os 15 países que então integravam a União Europeia e 12 parceiros mediterrâneos, entre eles Marrocos, Argélia, Tunísia, Egito, Israel, a Autoridade Palestina, Jordânia, Líbano, Síria e Turquia.
A relação entre a União Soviética e a OLP é um fenômeno histórico amplamente estudado, e.g. The Soviet Union and the PLO de Roland Dannreuther.
Eurabia: l'axe euro-arabe deve ser lido ao lado de The Death of the West de Patrick Buchanan, e The Abolition of Britain de Peter Hitchens.


