top of page

Homo Sovieticus de Aleksandr Zinoviev

há 52 minutos
18 min de leitura

“I myself am a Homosos. Therefore I am merciless and cruel when I describe him. Judge us, because you yourselves will be judged by us.” – Aleksandr Zinoviev, adverte o Ocidente sobre o risco de subestimar a ameaça comunista



O Homo Sovieticus, ou simplesmente Homosos, é um novo tipo humano produzido pela civilização comunista. Não se trata apenas de um cidadão submetido a determinado regime político, mas de um ser humano formado por uma organização social específica, com hábitos, reflexos, valores, mecanismos de adaptação e formas de pensamento próprios. O comunismo não se limita a impor instituições, leis e doutrinas: ele transforma a própria natureza social do homem. O resultado dessa transformação é uma criatura contraditória, simultaneamente admirável e desprezível, resistente e servil, inteligente e estúpida, cínica e crédula, capaz de suportar privações extraordinárias e de participar voluntariamente dos mecanismos que perpetuam sua própria submissão. Não há como compreender essa criatura de fora, aplicando-lhe os critérios morais, políticos e psicológicos das sociedades ocidentais. O homem soviético deve ser compreendido a partir das condições concretas que o produziram, pois sua existência obedece a uma lógica social distinta daquela que governa o mundo capitalista.


O Homosos não é necessariamente um comunista convicto. Na realidade, sua característica mais importante é precisamente a capacidade de viver sem convicções verdadeiras. O homem ocidental imagina que o comportamento resulta de crenças, princípios e decisões conscientes, mas o homem soviético funciona principalmente por estereótipos de comportamento. Aprende desde cedo a reagir às circunstâncias, identificar as relações de força, adaptar suas opiniões às exigências do ambiente e preservar sua posição dentro da coletividade. Pode defender uma ideia hoje e a ideia contrária amanhã sem experimentar qualquer conflito interior, porque suas declarações não constituem necessariamente manifestações de uma consciência comprometida com a verdade. São instrumentos de sobrevivência e participação social. A coerência intelectual tem pouca importância diante da necessidade de ajustar-se às circunstâncias. O que importa não é aquilo em que se acredita, mas a maneira como se comporta diante dos outros e das instituições.


Essa ausência de convicções não significa incapacidade intelectual. Pelo contrário, a vida soviética exige uma inteligência prática extremamente desenvolvida, voltada para a percepção das hierarquias, das intenções ocultas, das oportunidades e dos perigos. É preciso compreender o que se pode dizer, a quem se pode dizer, quando convém permanecer em silêncio e quando uma demonstração de entusiasmo ideológico pode trazer vantagens. A sinceridade torna-se uma imprudência, a independência uma ameaça e a dissimulação uma competência social indispensável. A duplicidade deixa de ser uma anomalia moral e converte-se em norma de convivência. O indivíduo aprende a existir simultaneamente em diversos planos: aquilo que pensa, aquilo que diz, aquilo que escreve oficialmente e aquilo que faz. Essas dimensões podem contradizer-se sem que o funcionamento da sociedade seja perturbado.


O comunismo criou uma organização da existência na qual a distância entre as declarações oficiais e a realidade cotidiana se tornou estrutural. A propaganda proclama a superioridade moral do socialismo, a igualdade entre os cidadãos, o caráter científico da ideologia, a fraternidade dos trabalhadores e a marcha inevitável em direção ao futuro radiante. A experiência concreta revela privilégios, rivalidades, burocracia, ineficiência, mentira, oportunismo, inveja e submissão. Contudo, seria um erro imaginar que essa contradição torna o sistema necessariamente instável. A contradição é uma de suas condições normais de funcionamento. Os cidadãos não precisam acreditar integralmente na propaganda para participar de seus rituais. Basta que saibam reproduzi-la quando necessário. A ideologia funciona menos como uma descrição verdadeira do mundo do que como uma linguagem obrigatória de integração coletiva.


A sociedade soviética aperfeiçoou extraordinariamente a arte da denúncia. Denunciar colegas, superiores, subordinados, vizinhos e conhecidos tornou-se uma forma de participação na vida pública, uma manifestação de zelo político e um instrumento de ascensão pessoal. A denúncia não depende exclusivamente do medo ou da coerção policial. Alimenta-se também da inveja, do ressentimento, da ambição, das rivalidades profissionais e do desejo de prejudicar concorrentes. Pessoas de todas as idades, profissões e níveis intelectuais participam dessa atividade, produzindo um imenso universo de informações, acusações e suspeitas. A polícia política não precisa inventar todos os seus inimigos nem vigiar diretamente cada cidadão, porque a própria sociedade fornece continuamente o material necessário à vigilância. O sistema utiliza disposições humanas comuns e as transforma em mecanismos permanentes de controle.


Com o desenvolvimento da burocracia, a denúncia encontra um equivalente aparentemente mais respeitável: o relatório oficial. Tudo deve ser relatado, documentado, classificado e submetido à autoridade competente. Viagens, congressos, reuniões, pesquisas, atividades profissionais e realizações pessoais convertem-se em relatórios periódicos. A quantidade de documentos produzidos não corresponde à quantidade de trabalho efetivamente realizado. Muitas vezes, quanto menos se faz, mais facilmente se escreve sobre o que foi feito. A linguagem administrativa permite transformar a insignificância em realização grandiosa, a incompetência em eficiência e a falsidade em demonstração de fidelidade institucional. Os relatórios raramente são lidos com atenção, mas isso não diminui sua importância. Sua função principal não é transmitir conhecimento, e sim integrar os indivíduos ao sistema, obrigando-os a participar de seus procedimentos e a reconhecer continuamente sua autoridade.


A burocracia comunista não é, portanto, um simples excesso administrativo que poderia ser eliminado mediante reformas técnicas. Ela constitui um dos instrumentos fundamentais de organização da sociedade. A proliferação de documentos, reuniões, controles e formalidades absorve o tempo e a energia dos indivíduos, estabelece dependências, distribui responsabilidades e produz a aparência de uma atividade incessante. A ineficiência não impede a sobrevivência do sistema, porque sua finalidade efetiva não coincide necessariamente com as finalidades anunciadas. Uma instituição pode fracassar na realização de seus objetivos declarados e, ainda assim, cumprir perfeitamente sua função social de manter pessoas ocupadas, subordinadas e mutuamente dependentes.


O trabalho soviético obedece a essa mesma lógica. A produtividade real não determina necessariamente o prestígio profissional, a remuneração ou a possibilidade de ascensão. O desempenho depende de relações pessoais, proteção burocrática, capacidade de adaptação e habilidade para participar dos jogos coletivos. O indivíduo excepcionalmente competente pode representar um perigo para os colegas, pois sua eficiência evidencia a mediocridade dos demais e perturba os equilíbrios estabelecidos. A coletividade tende a favorecer aqueles que respeitam suas regras informais, mesmo quando essas regras contrariam os objetivos oficiais da organização. A mediocridade organizada pode tornar-se mais poderosa do que a excelência individual.


A vida coletiva constitui o verdadeiro laboratório de formação do Homosos. O indivíduo não enfrenta simplesmente um Estado abstrato e distante, mas também encontra diariamente pequenos grupos, repartições, institutos, organizações partidárias e redes de dependência que regulam sua existência. É nesses ambientes que aprende a subordinação, a competição dissimulada, a solidariedade oportunista e a hostilidade contra quem ameaça o equilíbrio do grupo. O poder não se encontra apenas no topo da hierarquia política. Reproduz-se continuamente nas relações ordinárias, por meio das quais os próprios cidadãos participam da manutenção da ordem comunista.


Por isso, é enganoso atribuir todos os males da sociedade soviética exclusivamente a Stalin, aos dirigentes do Partido ou à polícia política. O comunismo não consiste apenas em uma minoria de opressores dominando uma população inteiramente inocente. Ele se apoia em mecanismos sociais dos quais milhões de pessoas participam, frequentemente por interesse próprio. A população é vítima do sistema, mas também sua matéria-prima, seu instrumento e sua força de reprodução. A eliminação de determinados governantes não extinguiria automaticamente os comportamentos e as relações que sustentam a organização comunista. O problema é mais profundo do que a tirania pessoal: encontra-se na própria estrutura da vida coletiva.


A experiência da emigração revela com especial clareza a natureza do homem soviético. Ao deixar a União Soviética e instalar-se na Europa Ocidental, não deixo de ser aquilo que fui formado para ser. Posso abandonar Moscou, mas Moscou não me abandona. Carrego comigo seus hábitos, sua linguagem, seus reflexos e sua maneira de interpretar o mundo. A liberdade exterior não produz automaticamente uma transformação interior. O indivíduo pode escapar ao poder político soviético sem conseguir libertar-se das estruturas psicológicas e sociais que esse poder ajudou a formar. A emigração representa uma mudança de ambiente, não uma regeneração humana.


A própria condição do emigrante contém um paradoxo. Moscou continua sendo o centro do universo, a capital da história, enquanto o Ocidente, apesar de sua riqueza e superioridade material, parece uma província afastada dos acontecimentos decisivos. A União Soviética não é simplesmente um país entre outros, mas uma potência histórica empenhada em transformar a organização do mundo. A existência individual adquire significado em relação a esse movimento gigantesco. Fora dele, mesmo desfrutando de liberdade, segurança e conforto, o imigrante pode experimentar uma sensação de insignificância e deslocamento.


O Ocidente é ao mesmo tempo objeto de inveja, desprezo, fascínio e hostilidade. Suas cidades são mais agradáveis, seus produtos melhores, seus serviços mais eficientes e suas condições materiais incomparavelmente superiores. A abundância ocidental impressiona aqueles que passaram a vida enfrentando escassez, filas, habitações precárias e dificuldades burocráticas. Entretanto, essa superioridade material não implica necessariamente superioridade histórica ou política. O homem soviético pode admirar a prosperidade ocidental e, simultaneamente, considerar seus habitantes ingênuos, frágeis, desorientados e incapazes de compreender a verdadeira natureza da ameaça comunista.


Os ocidentais interpretam a União Soviética utilizando categorias que não correspondem ao funcionamento efetivo da sociedade comunista. Procuram distinguir sinceridade e mentira, convicção e oportunismo, liberdade e submissão, democracia e ditadura, como se essas oposições possuíssem o mesmo significado em todos os sistemas sociais. Imaginam que os dirigentes soviéticos acreditam necessariamente naquilo que proclamam, que os dissidentes representam automaticamente a consciência da população e que o desejo de consumir produtos ocidentais corresponde ao desejo de adotar as instituições políticas do capitalismo. Não percebem que a sociedade soviética possui sua própria racionalidade e que a transferência de comportamentos de um sistema para outro altera profundamente seu significado.


A sovietologia ocidental, apesar de seus especialistas, institutos, conferências e publicações, frequentemente produz uma imagem superficial do comunismo. Concentra-se nos dirigentes, nas decisões diplomáticas, nas disputas ideológicas e nos acontecimentos espetaculares, enquanto ignora os mecanismos cotidianos que asseguram a reprodução da sociedade. Conhecer os nomes dos membros do Politburo não equivale a compreender o funcionamento do poder soviético. Da mesma maneira, acumular informações sobre prisões, perseguições e violações de direitos humanos não basta para explicar a natureza do comunismo. Os fenômenos mais importantes encontram-se nas relações sociais ordinárias, nos grupos de trabalho, nas instituições, nos comportamentos espontâneos e nas regras não escritas que governam a existência coletiva.


A oposição entre democracia e comunismo também é mais complexa do que imaginam os ideólogos ocidentais. A democracia não representa uma fórmula universal capaz de solucionar todos os problemas da organização humana. Suas instituições dependem de determinadas condições históricas e sociais. O homem soviético não se transforma em democrata apenas porque passa a viver sob instituições democráticas, assim como a adoção formal de eleições, partidos e liberdades públicas não converteria automaticamente a sociedade comunista em uma sociedade ocidental. As estruturas sociais não são acessórios que possam ser substituídos sem modificar a totalidade da vida coletiva.


A dissidência soviética deve ser examinada com o mesmo cuidado. O dissidente não constitui necessariamente a antítese perfeita do Homosos. Pode combater o regime e conservar intactos os hábitos, as ambições, os ressentimentos e os mecanismos de comportamento adquiridos dentro dele. Frequentemente, a oposição nasce de conflitos particulares com as autoridades, de frustrações profissionais, de disputas por reconhecimento ou da impossibilidade de obter determinados privilégios. A perseguição política pode transformar um indivíduo medíocre em celebridade internacional, conferindo-lhe uma importância intelectual e moral que suas realizações pessoais não justificariam. A condição de vítima não garante lucidez sociológica, superioridade ética ou competência política.


Isso não significa que toda oposição seja falsa ou inútil. Significa que é necessário distinguir a resistência efetiva aos mecanismos fundamentais do comunismo da simples luta por posições mais favoráveis dentro deles. Muitos adversários do regime continuam pensando segundo categorias soviéticas. Desejam obter vantagens, reconhecimento, oportunidades e direitos sem compreender que a distribuição dessas coisas depende da organização específica da sociedade. A luta contra determinadas injustiças pode deixar intocadas as relações que as produzem. Mais ainda: a dissidência pode ser absorvida pelo próprio sistema como uma de suas manifestações secundárias, enquanto a estrutura central permanece inalterada.


A emigração também pode servir aos interesses do poder soviético. A saída de indivíduos indesejáveis, insatisfeitos ou socialmente desajustados reduz tensões internas e transfere problemas para o exterior. O Ocidente celebra a chegada de cada dissidente como uma vitória da liberdade, mas a importância atribuída a esses episódios frequentemente excede suas consequências reais. A sociedade soviética continua produzindo novos cidadãos, novas elites e novos mecanismos de adaptação. A partida de algumas personalidades conhecidas não compromete necessariamente sua capacidade de reprodução. A concessão ou restrição da imigração pode obedecer a cálculos políticos, e não simplesmente à pressão moral exercida pelas democracias ocidentais.


Entre os emigrados, reaparecem os mesmos conflitos e hierarquias que caracterizam a vida soviética. Intelectuais, escritores, antigos funcionários, oposicionistas e aventureiros disputam prestígio, dinheiro, posições e influência. Formam círculos, estabelecem alianças, espalham rumores, denunciam adversários e procuram conquistar o favor de organizações ocidentais. A liberdade de expressão não elimina automaticamente a mentira, a vaidade ou a mediocridade. Em muitos casos, apenas oferece novas oportunidades para que essas disposições se manifestem. A comunidade de emigrados pode reproduzir, em escala reduzida, uma caricatura da sociedade da qual pretende ter escapado.


A relação entre a polícia política e os emigrados acrescenta outra dimensão a essa realidade. A presença do KGB não se limita à espionagem convencional. O serviço de informações opera em um universo de relações pessoais, rivalidades, ambições, simpatias e desconfianças. Agentes verdadeiros podem parecer impostores, enquanto impostores podem ser tratados como agentes importantes. Informações corretas podem ser rejeitadas e fantasias podem adquirir valor estratégico. A própria obsessão ocidental pela infiltração soviética favorece a proliferação de suspeitas e equívocos. A espionagem torna-se inseparável de um teatro de identidades, interesses e representações, no qual a distinção entre verdade e invenção frequentemente perde importância prática.


Minha própria condição de emigrado, intelectual e possível agente soviético expõe o caráter absurdo desse universo. A identidade de um indivíduo depende menos de sua realidade interior do que das classificações que os outros lhe atribuem. Posso apresentar-me como espião e não ser acreditado, posso negar qualquer ligação com os serviços secretos e despertar suspeitas ainda maiores. As organizações ocidentais procuram encaixar os acontecimentos em esquemas previamente estabelecidos, reproduzindo, à sua maneira, alguns dos vícios intelectuais que atribuem aos comunistas. A verdade torna-se subordinada à necessidade institucional de confirmar hipóteses, justificar atividades e preservar reputações.


A propaganda soviética explora precisamente essas fragilidades. A luta contra o Ocidente não se restringe à competição militar ou econômica. É uma luta social, psicológica e ideológica, destinada a enfraquecer a capacidade de resistência das sociedades adversárias. Convém conhecer suas instituições, penetrar seus ambientes culturais, explorar suas contradições, alimentar conflitos internos, estimular divisões e utilizar suas próprias liberdades contra elas. O objetivo não é necessariamente converter todos os ocidentais ao marxismo-leninismo. Basta enfraquecer sua coesão, desorientar suas elites, corromper sua moral e reduzir sua disposição de enfrentar a expansão comunista.


Nesse processo, os simpatizantes ocidentais da União Soviética podem desempenhar um papel especialmente útil. Comunistas, intelectuais de esquerda, pacifistas, neutralistas e outros defensores da conciliação frequentemente interpretam as intenções soviéticas segundo seus próprios ideais e expectativas. Imaginam encontrar em Moscou um aliado na luta pela paz, pela justiça social ou contra as imperfeições do capitalismo. Não compreendem que o poder soviético pode utilizar sua colaboração sem compartilhar suas convicções. A ingenuidade dos amigos pode ser mais proveitosa do que a hostilidade dos inimigos, mas também pode torná-los descartáveis quando deixam de ser úteis. A solidariedade ideológica proclamada não elimina a lógica impessoal dos interesses de poder.


A paz, por sua vez, não constitui necessariamente o oposto da guerra. Pode representar uma modalidade da luta, um intervalo de preparação ou um instrumento de desmobilização do adversário. O discurso pacifista adquire sentidos diferentes conforme as condições políticas em que é empregado. Uma potência pode proclamar incessantemente seu amor à paz e, ao mesmo tempo, preparar-se para conflitos futuros. A contradição desaparece quando se compreende que a linguagem política não tem necessariamente a finalidade de descrever intenções verdadeiras. Sua função é produzir determinados efeitos sobre aqueles que a recebem.


A expansão do comunismo tampouco depende exclusivamente de uma decisão militar de conquistar territórios. A sociedade soviética possui uma tendência expansiva que resulta de sua própria organização. Precisa confrontar-se com o mundo exterior, adquirir recursos, influenciar instituições e ampliar sua presença internacional. O Ocidente oferece não apenas riquezas materiais e conhecimentos técnicos, mas também oportunidades para a ação política soviética. A coexistência entre os dois sistemas é, portanto, atravessada por uma rivalidade permanente, mesmo quando seus dirigentes proclamam intenções amistosas.


A superioridade econômica ocidental não resolve essa rivalidade. O comunismo demonstrou capacidade de sobreviver a dificuldades materiais que seriam consideradas intoleráveis em outras sociedades. Sua estabilidade não depende da satisfação das necessidades individuais nos mesmos termos do capitalismo. O homem soviético foi treinado para suportar carências, adaptar-se à precariedade, relativizar promessas não cumpridas e encontrar formas alternativas de sobrevivência. A escassez produz sofrimento, mas também relações de dependência, oportunidades de privilégio e mecanismos informais de distribuição. O cidadão aprende a obter aquilo de que necessita por intermédio de conhecidos, favores, trocas e influências, desenvolvendo uma habilidade social que compensa parcialmente a ineficiência econômica.


O álcool ocupa lugar importante nessa existência. A embriaguez não é apenas um vício individual, mas uma instituição informal da vida soviética, um meio de sociabilidade, uma fuga da realidade e uma forma de suportar a monotonia, a humilhação e o absurdo. Beber permite suspender temporariamente as exigências da disciplina, expressar sentimentos normalmente reprimidos e estabelecer relações de intimidade que a vida oficial dificulta. Contudo, essa liberdade é passageira e ambígua. A embriaguez pode produzir coragem, sinceridade e fraternidade, mas também degradação, violência, irresponsabilidade e submissão ainda maior às circunstâncias.


O humor desempenha função semelhante. O homem soviético desenvolveu uma capacidade extraordinária de transformar tragédias, humilhações e contradições em anedotas. Ri de seus dirigentes, de suas instituições, de suas misérias e de si mesmo. O riso pode parecer uma forma de resistência, mas também serve para tornar suportável aquilo que não se pretende modificar. A ironia desmascara a mentira sem necessariamente destruir seu poder. Pode revelar uma compreensão profunda da realidade e coexistir perfeitamente com a passividade política. O Homosos sabe que vive em um mundo absurdo, mas essa consciência não o impede de continuar participando dele.


A dialética, elevada à condição de método universal de pensamento, contribui para essa capacidade de conciliar afirmações incompatíveis. Quando utilizada como instrumento ideológico, permite justificar qualquer resultado, transformar fracassos em vitórias, explicar contradições como manifestações de uma verdade superior e adaptar os princípios às conveniências do momento. A realidade deixa de funcionar como critério de verificação das teorias; são as teorias que determinam antecipadamente a interpretação dos fatos. O pensamento converte-se em uma técnica de legitimação, capaz de conferir aparência científica à arbitrariedade.


Entretanto, o erro seria considerar a sociedade soviética simplesmente irracional. Ela possui uma racionalidade própria, que deve ser investigada mediante uma análise rigorosa de seus mecanismos sociais. As contradições entre discurso e prática não demonstram a inexistência de leis de funcionamento. Demonstram apenas que essas leis não coincidem com as proclamadas oficialmente. Para compreender o comunismo real, é necessário abandonar as idealizações doutrinárias, as condenações morais superficiais e as analogias inadequadas com as sociedades ocidentais. É preciso examinar como os indivíduos efetivamente se comportam, como se formam os grupos, como surgem as hierarquias, como se distribuem os privilégios e como as instituições reproduzem suas condições de existência.


O mesmo rigor deve ser aplicado às personalidades políticas. A história não é produzida exclusivamente pela vontade de grandes dirigentes. Estes atuam dentro de estruturas sociais que limitam suas possibilidades e condicionam suas decisões. O poder de um governante soviético não pode ser compreendido apenas por suas qualidades individuais ou por sua posição formal. Sua força deriva da organização coletiva que representa. As instituições podem produzir dirigentes medíocres e, ainda assim, exercer enorme influência histórica. A grandeza de um sistema político não deve ser confundida com a grandeza intelectual ou moral de seus representantes.


A comparação com os governantes ocidentais evidencia essa diferença. Nas democracias, os políticos são submetidos à competição eleitoral, à imprensa, às disputas partidárias e às exigências de popularidade. Essas condições limitam sua capacidade de agir e favorecem preocupações imediatas com a própria carreira. A sociedade soviética, por outro lado, dispõe de mecanismos de continuidade institucional que não dependem da aprovação periódica dos governados. A concentração do poder pode coexistir com a mediocridade dos indivíduos que o exercem, pois sua eficácia provém da estrutura organizada que os sustenta.


A própria oposição política no Ocidente pode tornar-se prisioneira de uma linguagem ritualizada. Organizações, partidos, movimentos e intelectuais produzem discursos destinados a confirmar sua identidade e justificar sua existência. Assim como os relatórios soviéticos, muitas atividades políticas ocidentais podem adquirir valor independentemente de seus resultados concretos. A diferença entre os sistemas permanece fundamental, mas isso não impede que ambos apresentem manifestações de burocratização, conformismo, oportunismo e falsificação da realidade.


O homem ocidental não é, portanto, uma criatura naturalmente superior ao Homosos. Vive sob condições sociais diferentes, que estimulam outras disposições e permitem outros comportamentos. Sua liberdade, sua prosperidade e seu individualismo são resultados de uma organização histórica específica, não garantias de imunidade contra a degradação coletiva. A experiência soviética revela possibilidades da natureza humana que não pertencem exclusivamente aos russos. Sob determinadas condições, outros povos também podem desenvolver mecanismos semelhantes de submissão, duplicidade e adaptação.


A religião, a cultura e a vida intelectual tampouco escapam à lógica do sistema. O interesse pela espiritualidade, pelo passado nacional e pelas tradições religiosas pode expressar necessidades humanas autênticas, mas também pode converter-se em moda, instrumento de prestígio ou oportunidade de manipulação. O renascimento religioso não implica automaticamente a superação da mentalidade soviética. A apropriação de símbolos espirituais pode coexistir com os mesmos hábitos de conformismo, vaidade e oportunismo que dominam as instituições seculares. O indivíduo pode trocar de linguagem ideológica sem transformar sua maneira de viver.


A cultura dos emigrados evidencia essa continuidade. Escritores e intelectuais procuram apresentar-se ao Ocidente como testemunhas privilegiadas da verdade soviética. Alguns encontram um público disposto a recompensar relatos que confirmem suas expectativas. A denúncia dos horrores do comunismo transforma-se em gênero literário e em atividade profissional. A experiência pessoal, elevada à condição de autoridade universal, pode substituir a investigação rigorosa. O sofrimento real não impede a fabricação de mitos, a simplificação dos acontecimentos ou a exploração comercial da própria biografia.


A verdade sobre o comunismo é frequentemente menos conveniente do que as representações produzidas por seus inimigos. O Ocidente prefere imaginar uma sociedade dividida entre um pequeno grupo de tiranos e uma população ansiosa por libertar-se. Essa imagem permite acreditar que a eliminação dos dirigentes ou a introdução de instituições democráticas resolveria o problema. A realidade é mais desconfortável: o comunismo criou uma sociedade capaz de reproduzir espontaneamente muitas das relações que a mantêm subordinada. A maioria de seus membros não vive em permanente estado de revolta. Procura adaptar-se, melhorar sua posição e encontrar um lugar estável dentro da ordem existente.


O Homosos possui uma capacidade extraordinária de adaptação, mas essa mesma capacidade constitui sua tragédia. Sobrevive a condições que destruiriam outros indivíduos, suporta humilhações sem perder inteiramente o humor, encontra oportunidades onde aparentemente não existem e transforma a precariedade em rotina. Entretanto, sua resistência pode converter-se em instrumento de perpetuação da própria miséria. Quanto maior sua habilidade para adaptar-se a uma ordem desumana, menor pode ser sua necessidade de transformá-la. A sobrevivência coletiva não equivale ao florescimento humano.


A experiência soviética também destrói a ilusão de que a liberdade política produz necessariamente indivíduos livres interiormente. A emancipação formal não elimina imediatamente os hábitos de dependência, os reflexos de obediência ou a incapacidade de assumir responsabilidades. O homem formado pelo comunismo pode experimentar a liberdade como um vazio, uma situação desconcertante na qual desaparecem as regras familiares de comportamento. Sua inteligência, antes ajustada à percepção das hierarquias e à exploração das contradições burocráticas, precisa encontrar novas formas de expressão. Nem todos conseguem realizar essa transformação.


A vida ocidental, por sua vez, não corresponde à imagem idealizada que os emigrados construíram antes de conhecê-la. A abundância material não elimina a solidão, a competição, a superficialidade intelectual, o conformismo ou a mediocridade. O mundo livre possui suas próprias formas de submissão e seus próprios mecanismos de manipulação. A imprensa, a indústria cultural, as instituições acadêmicas e os movimentos políticos também produzem representações convencionais da realidade. O homem soviético descobre que o Ocidente não é o paraíso prometido pela propaganda anticomunista, assim como a União Soviética nunca foi o paraíso anunciado pela propaganda comunista.


Essa descoberta não significa que os dois sistemas sejam equivalentes. Significa que a análise social deve abandonar a comparação entre uma realidade concreta e um ideal abstrato. O comunismo real deve ser comparado com o capitalismo real, e não com as promessas de seus respectivos ideólogos. Cada organização social produz vantagens, defeitos, comportamentos e contradições específicos. A compreensão dessas diferenças exige mais do que entusiasmo político ou fidelidade doutrinária.


A luta histórica entre o comunismo e o Ocidente não será decidida apenas pela superioridade econômica, pela qualidade dos armamentos ou pela força dos argumentos morais. Dependerá também da capacidade de cada sociedade de preservar sua organização, reproduzir seus valores e mobilizar seus integrantes. Uma sociedade materialmente inferior pode possuir extraordinária força política e capacidade de expansão. Uma sociedade próspera pode revelar-se vulnerável quando suas elites perdem a compreensão dos mecanismos de poder e seus cidadãos deixam de reconhecer as condições necessárias à preservação de suas liberdades.


O futuro não está garantido por nenhuma lei histórica que assegure a vitória automática da democracia ou a ruína inevitável do comunismo. As sociedades podem conservar-se durante períodos extraordinariamente longos apesar de suas contradições internas. Podem também transformar-se de maneiras inesperadas. A crença no colapso necessário da União Soviética por causa de sua ineficiência econômica ou de sua inferioridade material constitui uma esperança, não uma demonstração científica. O sistema deve ser avaliado por sua capacidade efetiva de reprodução, e não pela distância que o separa dos ideais proclamados por seus adversários.


O próprio conceito de progresso humano torna-se problemático diante do Homosos. A história não produz necessariamente indivíduos moralmente superiores, mais livres ou mais conscientes. Pode produzir tipos humanos extraordinariamente adaptados a formas de organização que restringem sua autonomia. O desenvolvimento científico, a educação de massas, a burocratização e a modernização podem ampliar tanto as possibilidades de emancipação quanto os instrumentos de submissão. A formação de um novo homem não significa necessariamente o aperfeiçoamento do homem.


A existência humana não se deixa reduzir a esquemas ideológicos de salvação. A sociedade perfeita, o homem novo, a emancipação definitiva e o futuro radiante pertencem ao universo das promessas que a realidade insiste em desmentir. O comunismo transformou essas promessas em fundamento de uma gigantesca organização social, mas seu produto mais significativo não foi o homem ideal anunciado pela doutrina. Foi o homem efetivamente criado por suas instituições: resistente, contraditório, adaptável, moralmente ambíguo e profundamente marcado pela experiência coletiva.


O Homosos não é apenas uma aberração histórica destinada a desaparecer com a eventual transformação do regime soviético. É a demonstração de que determinadas formas de organização social podem modificar profundamente o comportamento humano e criar mecanismos de reprodução que sobrevivem às convicções declaradas dos indivíduos. A civilização comunista não se sustenta somente pela violência exercida de cima para baixo, mas também pela participação cotidiana daqueles que vivem dentro dela. Sua força encontra-se tanto nas instituições quanto nos homens que elas produziram.


O Ocidente pode julgar o homem soviético, condenar suas instituições e celebrar sua própria superioridade material e política. Mas não deve imaginar que está diante de uma espécie humana inteiramente estranha. O Homosos revela possibilidades de adaptação, submissão e degradação que pertencem à natureza social do homem em geral. Sua existência constitui uma advertência sobre a capacidade das organizações coletivas de transformar indivíduos em instrumentos de sua própria perpetuação. O problema fundamental não é apenas saber como libertar os homens de um poder opressor, mas compreender como os homens aprendem a viver dentro desse poder, a reproduzi-lo e, finalmente, a reconhecê-lo como parte de si mesmos.


A verdadeira dimensão da experiência soviética está nessa transformação do homem. O comunismo pode ser combatido como ideologia, criticado como economia e condenado como sistema político, mas continuará incompreendido enquanto não for reconhecido como uma organização social que produziu um tipo humano próprio. O Homosos é simultaneamente vítima e participante, produto e sustentáculo, crítico e cúmplice de sua civilização. Sua tragédia não consiste simplesmente em ter perdido a liberdade, mas em ter adquirido uma forma de existência na qual a própria ausência de liberdade se tornou um dos elementos constitutivos de sua identidade.





Notas


  • Aleksandr Zinoviev (1922-2006) nasceu em Pakhtino na região de Kostroma, Rússia soviética.

  • Filósofo, lógico, sociólogo e escritor russo, um dos mais originais críticos da sociedade soviética. Sua obra combina análise sociológica, sátira política e reflexão filosófica, procurando compreender o comunismo não apenas como ideologia ou regime de governo, mas como um sistema de organização social capaz de produzir um tipo humano específico.

  • Para compreender o núcleo de seu pensamento há outras três leituras essenciais: (a) The Yawning Heights (1976), uma monumental sátira da sociedade soviética, de sua burocracia, hipocrisia e mediocridade institucionalizada, (b) The Radiant Future (1978) desmistificando a promessa comunista de construção de uma sociedade perfeita, e (c) Communism as a Reality (1981), uma análise sociológica do comunismo como sistema efetivamente existente, independentemente de suas promessas ideológicas.

  • Homo Sovieticus foi publicado em 1982.

©2019 by Cultura Animi

    bottom of page