Anamnese de Eric Voegelin

“A consciência [---] é a realidade da participação humana.” – Eric Voegelin, o homem não é um observador exterior da realidade
A questão fundamental da filosofia é a descoberta da ordem da existência humana mediante a investigação da própria consciência. A ordem política, a ordem histórica e a ordem da alma não constituem realidades independentes, pois todas participam da mesma estrutura de existência. O homem não é um observador exterior ao mundo, capaz de contemplá-lo de uma posição absoluta, mas um ser que participa da realidade e procura compreender a ordem na qual já se encontra inserido. A filosofia nasce dessa experiência de participação, da inquietação diante do mistério da existência e da busca de seu fundamento transcendente.
A história da filosofia, entretanto, revela um processo recorrente de afastamento das experiências originais que deram nascimento aos grandes símbolos da verdade. Aquilo que começou como uma descoberta espiritual viva transforma-se frequentemente em doutrina, sistema, fórmula ou ideologia. Os símbolos deixam de remeter às experiências que os produziram e passam a ser tratados como objetos autônomos, manipuláveis pelo pensamento ou pelo poder. A tarefa filosófica consiste, portanto, em recuperar as experiências esquecidas sob as camadas de construções intelectuais acumuladas ao longo dos séculos.
Essa recuperação é a anamnese, a recordação da verdade da existência. Não se trata simplesmente de reconstituir acontecimentos passados, mas de trazer novamente à consciência as experiências fundamentais que tornam possível a compreensão da realidade. A filosofia é, nesse sentido, uma resistência ao esquecimento, à deformação da consciência e às pretensões humanas de substituir a ordem do ser por uma ordem artificialmente construída.
Parte I — Recordação
1. In memoriam Alfred Schütz
A investigação filosófica exige reconhecer que a consciência não pode ser compreendida adequadamente quando reduzida a um mecanismo de apreensão de objetos. A experiência humana inclui a percepção do mundo exterior, mas também a consciência da própria existência, da participação numa realidade comum e da tensão em direção a um fundamento que transcende o indivíduo.
O diálogo com Alfred Schütz tornou possível esclarecer os limites da fenomenologia e a necessidade de uma investigação mais ampla da consciência. A análise das estruturas da experiência cotidiana, das relações intersubjetivas e dos processos pelos quais o homem atribui sentido ao mundo representa uma contribuição decisiva. Entretanto, a investigação não pode encerrar-se no mundo da vida cotidiana, porque a experiência humana também compreende as questões filosóficas e espirituais relativas à origem, ao sentido e ao fundamento da existência.
A amizade intelectual constitui uma forma de participação na busca comum da verdade. O pensamento não se desenvolve como atividade de uma consciência isolada, mas mediante a comunicação entre pessoas que procuram esclarecer experiências compartilhadas. A morte interrompe o diálogo pessoal, sem destruir a realidade espiritual que nele se constituiu. A continuidade dessa investigação revela que a filosofia não é propriedade de um indivíduo, mas participação numa busca que ultrapassa a duração de cada vida.
2. Uma carta a Alfred Schütz acerca de Edmund Husserl
A fenomenologia de Edmund Husserl representa uma tentativa importante de recuperar o rigor da filosofia mediante a investigação das estruturas da consciência. Sua análise da intencionalidade, pela qual toda consciência se dirige a alguma coisa, esclarece aspectos fundamentais da experiência cognitiva. Contudo, o projeto fenomenológico encontra seu limite quando transforma o ego transcendental no fundamento último da filosofia.
A consciência não pode ser adequadamente explicada a partir de um sujeito que constitui o mundo, pois o próprio sujeito já existe dentro de uma realidade que não produziu. O homem encontra-se num cosmos cuja existência precede sua reflexão e cuja ordem não depende dos atos constitutivos do pensamento. A tentativa de estabelecer uma filosofia fundada exclusivamente na subjetividade transcendental termina por obscurecer a participação humana na realidade.
O problema se agrava quando a história da filosofia é interpretada como um desenvolvimento que culminaria necessariamente na descoberta do método fenomenológico. Tal interpretação transforma uma investigação histórica em narrativa de legitimação do próprio sistema. A filosofia deixa de ser uma busca aberta e passa a apresentar-se como realização definitiva da razão.
A experiência filosófica clássica oferece uma perspectiva distinta. Em Platão e Aristóteles, a consciência não é fundamentalmente o centro constitutivo dos objetos, mas o lugar em que o homem experimenta sua abertura para a ordem do ser. A investigação nasce do espanto, da inquietação e da atração exercida pela verdade. O movimento da alma em direção ao fundamento transcendente não pode ser reduzido à relação intencional entre sujeito e objeto.
A superação dos limites da fenomenologia exige, portanto, recuperar a consciência como participação na realidade, reconhecendo que a verdade não é constituída pelo ego, mas descoberta na experiência da existência.
3. Da teoria da consciência
A consciência não constitui uma coisa localizada no interior do homem, nem um recipiente de representações. Ela é um processo vivo de iluminação da realidade, mediante o qual a existência se torna parcialmente transparente para si mesma. A investigação filosófica deve partir dessa experiência concreta, em vez de construir uma teoria abstrata sobre um sujeito supostamente separado do mundo.
É necessário distinguir dois aspectos inseparáveis da consciência. Pela intencionalidade, o homem conhece objetos e dirige sua atenção às coisas existentes. Pela luminosidade, experimenta a própria participação na realidade e percebe que sua existência se encontra inserida numa ordem mais ampla. A primeira dimensão permite conhecer os entes; a segunda torna possível interrogar o fundamento do ser.
O homem não dispõe de um ponto exterior à existência a partir do qual possa explicar definitivamente o conjunto da realidade. Toda investigação ocorre dentro da própria realidade investigada. O sujeito que pergunta pelo fundamento do ser participa desse fundamento, embora não possa convertê-lo num objeto plenamente dominável pelo conhecimento.
A consciência apresenta, assim, uma estrutura paradoxal: é simultaneamente parte da realidade e lugar em que a realidade se torna consciente de si mesma. A reflexão filosófica precisa conservar essa tensão, evitando tanto a redução materialista da consciência a um fenômeno natural quanto sua transformação idealista em princípio absoluto da realidade.
A experiência da transcendência é constitutiva da existência humana. A alma percebe sua própria finitude e, ao mesmo tempo, sua orientação para aquilo que ultrapassa os limites da experiência mundana. Essa tensão não é uma deficiência provisória que o progresso do conhecimento possa eliminar. É a própria condição da vida espiritual.
Consequentemente, uma filosofia da consciência não pode ser construída como sistema fechado de proposições. Ela deve desenvolver-se como interpretação meditativa das experiências concretas pelas quais a realidade se manifesta. Seu rigor depende da fidelidade à experiência, não da pretensão de submetê-la a categorias previamente estabelecidas.
4. Anamnese
A recordação das experiências da infância permite investigar a formação da consciência antes que a experiência seja inteiramente organizada por conceitos filosóficos, científicos e sociais. A memória não é utilizada como simples instrumento autobiográfico, mas como caminho para descobrir estruturas fundamentais da existência humana.
As primeiras lembranças revelam um mundo que já se apresenta dotado de sentido, profundidade e mistério. Antes de formular teorias sobre a realidade, a criança experimenta sua presença no mundo, a distinção entre proximidade e distância, a relação entre o conhecido e o desconhecido, a sucessão temporal, a autoridade, o medo, a curiosidade e a descoberta de sua própria individualidade.
Essas experiências mostram que a consciência não começa como um sujeito abstrato diante de objetos neutros. Desde o princípio, o homem encontra-se envolvido numa realidade significativa. A formação posterior de conceitos não cria essa participação originária, mas procura articulá-la mediante a linguagem.
A recordação permite reconhecer também que o desenvolvimento da consciência não consiste simplesmente no acúmulo de conhecimentos. A experiência humana pode tornar-se mais clara, mas também pode sofrer deformações e esquecimentos. O adulto pode perder a percepção de dimensões da realidade que estavam presentes, embora ainda não articuladas, na experiência infantil.
A anamnese procura recuperar essas dimensões esquecidas. Ao recordar experiências concretas, torna-se possível distinguir o que pertence à estrutura permanente da existência daquilo que foi acrescentado por interpretações posteriores.
A investigação conduz à descoberta de que a consciência possui uma história interna. Seu desenvolvimento é um movimento de esclarecimento, no qual experiências inicialmente obscuras adquirem expressão simbólica e filosófica. O conhecimento de si não resulta da observação de um objeto chamado consciência, mas da participação reflexiva no próprio movimento da existência.
A recordação filosófica, portanto, não busca retornar sentimentalmente ao passado. Seu objetivo é recuperar a abertura originária para a realidade e reconhecer as experiências que tornam possível a busca da verdade.
Parte II — Experiência e história
5. Historiogênesis
As sociedades humanas procuram compreender sua existência histórica mediante símbolos que relacionam a ordem política à ordem do cosmos. Desde as civilizações antigas, a narrativa da origem de uma comunidade frequentemente se apresenta como continuação da própria criação do mundo. A história de um povo torna-se, assim, parte de uma história universal cujo princípio é identificado com a fundação cósmica.
Esse procedimento constitui a historiogênese: a construção de uma narrativa que estabelece uma continuidade entre a origem do cosmos e a situação histórica de determinada sociedade. O presente é interpretado como resultado necessário de um desenvolvimento iniciado no princípio dos tempos. A sociedade atribui à sua existência uma significação cósmica e transforma sua própria ordem numa expressão privilegiada da realidade.
Nas civilizações do antigo Oriente Próximo, particularmente nas tradições mesopotâmicas, egípcias e israelitas, aparecem diferentes modalidades dessa simbolização. As genealogias, os relatos de criação, as sucessões dinásticas e as narrativas de acontecimentos fundadores organizam a experiência histórica mediante uma continuidade que liga o passado remoto ao presente político.
Essas construções não devem ser simplesmente descartadas como narrativas falsas ou primitivas. Elas exprimem experiências reais de ordem e tentativas de compreender a posição humana no cosmos. Entretanto, tornam-se problemáticas quando a estrutura simbólica é confundida com a própria estrutura da realidade.
A historiogênese revela uma tendência permanente da consciência humana: interpretar a história como um processo linear cujo sentido estaria definitivamente determinado por um ponto privilegiado. Essa tendência reaparece nas filosofias modernas da história que apresentam determinada época, civilização ou transformação política como culminação necessária do desenvolvimento humano.
O erro consiste em transformar a participação histórica numa posição de conhecimento absoluto. Nenhuma sociedade pode colocar-se fora da história para conhecer seu sentido definitivo. A consciência histórica é sempre consciência situada, e suas interpretações permanecem condicionadas pela experiência concreta de quem as produz.
A compreensão adequada da história exige distinguir os acontecimentos efetivos dos símbolos mediante os quais os homens procuram interpretá-los. A história humana não constitui um sistema fechado cujo princípio e fim possam ser possuídos intelectualmente.
Ela é o campo aberto em que sucessivas sociedades experimentam, simbolizam, esquecem e redescobrem a ordem da existência.
6. Justo por natureza
A expressão aristotélica physei dikaion, ou justo por natureza, não designa originalmente um código de normas eternas e imutáveis, pronto para ser aplicado às circunstâncias humanas. Ela nasce da investigação filosófica sobre a justiça e da experiência de uma ordem que não depende exclusivamente das convenções estabelecidas pela sociedade.
A tradição posterior transformou progressivamente essa descoberta num conjunto de proposições abstratas, dando origem às doutrinas sistemáticas do direito natural. Entretanto, a recuperação de seu significado exige retornar à experiência que tornou possível a distinção entre o justo natural e o justo convencional.
A justiça política apresenta uma tensão entre a permanência da ordem justa e a mutabilidade das circunstâncias em que essa ordem precisa realizar-se. O justo por natureza possui uma validade que não deriva da vontade humana, mas sua realização concreta varia conforme as condições da vida política.
Não há contradição entre essas duas dimensões. A ordem justa não é arbitrária, mas tampouco se manifesta como uma coleção de regras invariáveis aplicáveis mecanicamente a todas as situações. A ação justa exige discernimento, maturidade moral e capacidade de reconhecer as exigências da realidade concreta.
A melhor constituição política, a ariste politeia, representa a investigação da ordem adequada à realização da vida humana. Contudo, a diversidade das constituições existentes mostra que a realização histórica dessa ordem depende das circunstâncias e das possibilidades efetivas das comunidades.
A virtude da phronesis, a prudência prática, torna-se indispensável para mediar a tensão entre a medida permanente da justiça e as situações mutáveis da ação. O homem prudente não deduz simplesmente suas decisões de princípios abstratos, mas reconhece, dentro da realidade concreta, aquilo que corresponde à ordem da boa vida.
A justiça natural é, portanto, uma realidade que deve ser experimentada e realizada, não um objeto intelectual que possa ser definitivamente possuído. Sua compreensão exige a formação da alma e o exercício da razão prática. Quando essa dimensão existencial é esquecida, o direito natural degenera em doutrina abstrata, incapaz de esclarecer adequadamente os problemas da ordem política.
7. O que é natureza?
A investigação sobre o justo por natureza conduz necessariamente à questão do significado da própria natureza. A palavra grega physis não possui um sentido único e invariável. Sua utilização filosófica resulta de um processo histórico no qual diferentes experiências da realidade foram progressivamente diferenciadas e articuladas.
A natureza não deve ser entendida simplesmente como o conjunto dos objetos físicos submetidos a leis regulares. Na filosofia clássica, ela designa também a estrutura própria dos seres, seu princípio de desenvolvimento e a ordem segundo a qual realizam suas possibilidades.
A descoberta filosófica da natureza representa uma diferenciação decisiva da consciência. O homem deixa de interpretar exclusivamente o mundo mediante símbolos míticos e passa a investigar racionalmente os princípios da realidade. Essa transformação, entretanto, não elimina a experiência do mistério da existência, pois a razão continua participando de uma ordem que a transcende.
Na investigação aristotélica, a natureza humana não pode ser separada das virtudes pelas quais o homem realiza sua existência. A prudência, a justiça e a amizade não constituem meros comportamentos exteriores, mas expressões da maturidade de uma vida ordenada.
O homem não possui sua natureza como uma essência abstrata inteiramente conhecida antes de viver. A natureza humana manifesta-se na experiência concreta da existência e na tensão entre suas possibilidades de realização e suas formas de desordem.
A descoberta da natureza também modifica a relação entre a ordem divina e a ordem humana. Aquilo que anteriormente era compreendido mediante a referência direta à lei divina passa a ser investigado por meio da estrutura própria dos seres. Essa diferenciação filosófica, contudo, não significa que a existência tenha perdido seu fundamento transcendente.
A natureza não substitui o fundamento do ser. Ela é uma dimensão da realidade cuja compreensão exige reconhecer a participação humana numa ordem que não foi criada pelo homem.
O problema das filosofias posteriores surge quando os conceitos desenvolvidos para esclarecer essa experiência são separados de sua origem e transformados em definições autossuficientes. A investigação da natureza degenera então em disputa terminológica, esquecendo-se de que seu objetivo é compreender a realidade experimentada.
A filosofia precisa recuperar a ligação entre natureza, existência e fundamento, evitando tanto o convencionalismo que dissolve a ordem natural na vontade humana quanto o dogmatismo que transforma a natureza em sistema fechado de conceitos.
8. A imagem dos humanistas sobre Timur
A aparição de Timur, ou Tamerlão, no horizonte político europeu produziu um problema intelectual de grande importância. As conquistas do governante centro-asiático e sua vitória sobre o poder otomano alteraram o equilíbrio político conhecido pelos europeus, obrigando os humanistas a interpretar uma figura que parecia escapar às categorias tradicionais da história ocidental.
Timur tornou-se objeto de interpretações contraditórias. Sua violência e suas conquistas podiam ser apresentadas como manifestações de barbárie, mas sua capacidade de dominar vastos territórios e modificar o destino dos impérios também permitia representá-lo como instrumento da providência, figura heroica ou agente de uma transformação histórica extraordinária.
O interesse filosófico dessas interpretações não reside apenas na personalidade do conquistador. Ele está na maneira pela qual os humanistas procuraram compreender a ação política excepcional e a relação entre poder, virtude, fortuna e providência.
A imagem de Timur contribuiu para a formação de uma nova compreensão da ação histórica. A figura do conquistador capaz de transformar radicalmente a ordem política favoreceu a elaboração de um simbolismo no qual a grandeza do governante passou a ser associada à capacidade de produzir acontecimentos decisivos.
Esse desenvolvimento participa da transformação intelectual que culmina na concepção moderna da política, particularmente na reflexão de Maquiavel sobre o príncipe e a ação fundadora. O governante excepcional aparece como aquele que, mediante sua capacidade de decisão e domínio das circunstâncias, pode impor uma nova ordem.
Entretanto, essa transformação contém uma ambiguidade fundamental. A capacidade de conquistar e reorganizar politicamente o mundo não demonstra, por si mesma, a posse de uma ordem verdadeira. A eficácia do poder não equivale à legitimidade espiritual ou moral.
As interpretações humanistas de Timur revelam, portanto, um momento importante na passagem de uma compreensão providencial da história para uma concepção cada vez mais concentrada na ação humana e na capacidade de dominar os acontecimentos.
A análise desses símbolos permite compreender como a política moderna desenvolveu uma tendência a atribuir à ação extraordinária do governante um significado quase criador, aproximando o exercício do poder da pretensão de determinar o próprio curso da história.
9. A ordem de Deus
As ordens de submissão dirigidas pelos governantes mongóis aos poderes europeus revelam uma concepção imperial na qual a autoridade política se apresenta como expressão direta da vontade divina. O soberano mongol não se considera simplesmente governante de determinado território, mas representante de uma ordem universal que abrange todos os povos.
A expansão imperial não é interpretada como uma conquista contingente, sujeita às disputas ordinárias entre Estados. Ela é concebida como cumprimento de um mandato do Céu. O poder universal pertence legitimamente ao grande khan, e os demais governantes devem reconhecer uma autoridade que se considera anterior a qualquer negociação.
Essa concepção aparece nas mensagens enviadas aos representantes da cristandade durante o século XIII. As exigências de submissão não são formuladas como propostas diplomáticas entre poderes equivalentes, mas como ordens provenientes de uma autoridade que reivindica legitimidade universal.
O conflito entre mongóis e europeus é, portanto, mais profundo que uma oposição militar. Trata-se do encontro entre diferentes simbolizações da ordem universal. A cristandade também compreende sua existência dentro de uma ordem divina, mas não reconhece a pretensão mongol de identificar a vontade de Deus com a soberania do khan.
A análise dos documentos revela o processo pelo qual uma experiência de ordem pode ser convertida em instrumento de dominação. A crença na origem divina da autoridade transforma-se numa justificação da conquista universal. A resistência política passa a ser interpretada como resistência à própria ordem divina.
O problema decisivo é a literalização dos símbolos espirituais. Aquilo que deveria exprimir a participação humana numa realidade transcendente é convertido numa proposição política que autoriza o exercício ilimitado do poder.
Esse mecanismo não pertence exclusivamente ao mundo mongol. Ele reaparece nas ideologias modernas que atribuem a determinados movimentos, partidos ou Estados a missão de realizar uma ordem universal necessária. A pretensão de possuir a verdade da história fornece então uma justificação para a conquista, a submissão e a eliminação das resistências.
O imperialismo ideológico moderno apresenta uma estrutura comparável quando transforma sua interpretação da história em fundamento de uma missão política mundial. A expansão deixa de ser apresentada como ambição de poder e passa a ser legitimada como realização inevitável da verdade.
A investigação dos impérios revela, assim, uma dimensão da política que não pode ser compreendida apenas mediante a teoria do Estado nacional. A formação imperial envolve símbolos de universalidade, concepções de legitimidade transcendente e pretensões de reorganização da humanidade.
A questão fundamental consiste em distinguir a experiência autêntica da ordem de sua apropriação por poderes que reivindicam para si uma autoridade absoluta.
10. A confissão de Bakunin
A confissão de Mikhail Bakunin constitui um documento particularmente revelador da consciência revolucionária. Sua importância não se limita às informações sobre os movimentos europeus de 1848 e 1849, mas reside na exposição de uma forma de existência dominada pela vontade de transformação radical da ordem política.
A atividade revolucionária aparece como expressão de uma paixão que ultrapassa a busca de reformas determinadas. O revolucionário deseja participar de um acontecimento histórico capaz de destruir a ordem existente e inaugurar uma realidade inteiramente nova.
A experiência das revoluções europeias, entretanto, revela uma profunda contradição. Os grupos que proclamam a liberdade e a transformação universal frequentemente recuam diante das consequências concretas de seus próprios princípios. Os interesses de propriedade, as rivalidades nacionais e as limitações pessoais desmentem a retórica da emancipação.
O desencanto com os revolucionários ocidentais não conduz necessariamente ao abandono da paixão revolucionária. Pode, ao contrário, fortalecer a convicção de que a transformação desejada exige uma força histórica mais poderosa, capaz de superar as fraquezas das sociedades existentes.
A relação entre o revolucionarismo e o sentimento nacional russo torna-se particularmente significativa. A hostilidade contra a ordem ocidental pode coexistir com a admiração pela energia política de um poder autocrático. O que parece uma contradição entre revolução e despotismo revela uma afinidade mais profunda: ambos podem ser concebidos como instrumentos de transformação histórica mediante o exercício concentrado do poder.
O arrependimento expresso na confissão não equivale simplesmente à renúncia à existência revolucionária. Ele envolve o reconhecimento do fracasso, da inutilidade de determinadas ações e da distância entre as expectativas revolucionárias e os resultados efetivamente alcançados.
A consciência revolucionária encontra-se dominada por uma tensão entre a realidade concreta e a imagem de uma ordem futura. Quando essa imagem se converte em absoluto, os limites da existência humana passam a ser percebidos como obstáculos intoleráveis.
A revolução pode então adquirir características de uma religião política, na qual a salvação é transferida para o processo histórico e a destruição da ordem existente se apresenta como condição necessária da redenção futura.
A confissão permite reconhecer que a desordem revolucionária não nasce exclusivamente de circunstâncias sociais ou de conflitos institucionais. Ela possui uma dimensão espiritual, relacionada à maneira pela qual o homem interpreta sua própria existência e sua capacidade de transformar o mundo.
O problema da revolução radical é, em última instância, o problema de uma consciência que procura substituir a participação na ordem da realidade pela imposição de uma ordem concebida pela vontade humana.
11. John Stuart Mill – Liberdade de discussão e prontidão para discussão
A defesa da liberdade de pensamento e discussão representa uma conquista importante da civilização ocidental. Contudo, a existência formal dessa liberdade não assegura, por si mesma, a continuidade de uma cultura racional. Para que a discussão seja possível, é necessário que os participantes estejam efetivamente dispostos a reconhecer argumentos, examinar evidências e submeter suas opiniões à busca da verdade.
A confiança liberal no progresso pressupõe frequentemente que a ampliação da liberdade de expressão conduzirá naturalmente ao aperfeiçoamento intelectual e moral da sociedade. Essa expectativa ignora a possibilidade de que os próprios homens deixem de desejar a discussão racional.
A concepção de progresso de John Stuart Mill atribui à liberdade uma função decisiva no aperfeiçoamento humano. Entretanto, a liberdade não aparece como princípio inteiramente independente, mas como condição de desenvolvimento de uma humanidade considerada capaz de avançar para formas superiores de civilização.
Essa concepção contém uma dificuldade: a liberdade de discussão depende de uma disposição moral e intelectual que não pode ser produzida automaticamente pelas instituições. Uma sociedade pode conservar formalmente a liberdade de expressão e, ao mesmo tempo, desenvolver mecanismos capazes de impedir qualquer debate genuíno.
O obstáculo mais profundo não é necessariamente a censura exercida pelo Estado. É a recusa da razão, a transformação das opiniões em posições ideológicas impermeáveis à crítica e a substituição da investigação pela afirmação dogmática.
A discussão torna-se impossível quando um dos participantes não procura descobrir a verdade, mas apenas defender uma conclusão previamente estabelecida. Nesse caso, os argumentos deixam de funcionar como instrumentos de esclarecimento e passam a ser utilizados como armas de combate.
As ideologias modernas desenvolveram diferentes técnicas de imunização contra a crítica. A objeção racional pode ser desqualificada mediante a atribuição de interesses ocultos, condicionamentos sociais ou motivações psicológicas ao interlocutor. Em vez de responder ao argumento, procura-se desacreditar aquele que o apresenta.
O resultado é uma deterioração da vida intelectual. A linguagem conserva a aparência da argumentação, mas sua função efetiva deixa de ser a comunicação racional. O debate transforma-se numa disputa entre posições fechadas.
A preservação da liberdade exige, portanto, mais do que garantias jurídicas. Exige a formação de homens capazes de reconhecer sua própria falibilidade e dispostos a submeter suas convicções ao exame racional.
A crise moderna da discussão revela uma crise da consciência. Quando o homem perde sua abertura para a realidade, perde também a capacidade de participar de uma investigação comum da verdade. A liberdade política depende, em última instância, de uma ordem espiritual que nenhuma instituição pode substituir.
12. O ser eterno no tempo
A existência humana desenvolve-se no tempo, mas a consciência não experimenta a realidade exclusivamente como sucessão de acontecimentos. Na própria experiência temporal, o homem percebe uma abertura para aquilo que não se encontra submetido à passagem do tempo.
A relação entre tempo e eternidade constitui uma das questões fundamentais da filosofia da história. O homem participa da sucessão histórica, mas sua consciência do fundamento do ser introduz uma dimensão que ultrapassa a temporalidade dos acontecimentos.
A experiência do presente não pode ser reduzida a um ponto matemático situado entre passado e futuro. O presente vivido possui profundidade, pois nele se encontram a memória do passado, a expectativa do futuro e a abertura para o fundamento eterno.
A história humana adquire significado mediante experiências concretas nas quais a ordem do ser se torna luminosa para a consciência. Essas experiências não suspendem o tempo nem transportam o homem para uma posição exterior à história. Elas ocorrem dentro da existência temporal e revelam sua participação numa realidade que a transcende.
As grandes experiências filosóficas e religiosas representam diferentes modos de articulação dessa presença do eterno no tempo. Seus símbolos não são simples descrições de acontecimentos históricos, mas expressões de uma realidade experimentada na tensão entre a finitude humana e o fundamento transcendente.
A dificuldade surge quando essas experiências são convertidas em construções cronológicas que pretendem localizar definitivamente a verdade num ponto determinado da história. A eternidade é então indevidamente transformada numa etapa temporal, e o processo histórico passa a ser interpretado como realização progressiva de uma verdade que estaria destinada a tornar-se plenamente imanente.
As filosofias da história que anunciam uma culminação definitiva da existência humana incorrem nessa deformação. Ao identificar o sentido transcendente da existência com um acontecimento futuro, procuram abolir a tensão constitutiva da condição humana.
O homem não pode escapar da história mediante uma interpretação que pretenda conhecer antecipadamente seu desfecho. Tampouco pode converter a eternidade num objeto localizado fora do tempo, como se fosse uma realidade acessível mediante as mesmas categorias utilizadas para conhecer os acontecimentos mundanos.
A experiência do eterno manifesta-se na própria consciência temporal, como presença do fundamento que torna possível a busca de sentido.
A linguagem filosófica encontra aqui seus limites. Os conceitos utilizados para falar do tempo, do ser e da eternidade não devem ser tratados como descrições literais de objetos. São símbolos que indicam experiências cuja estrutura não pode ser inteiramente capturada por proposições.
A filosofia da história precisa, portanto, libertar-se das construções que apresentam o processo histórico como sistema fechado. Sua tarefa é investigar as experiências mediante as quais o homem reconhece a presença do fundamento eterno em sua existência temporal.
A história não é o desenvolvimento necessário de uma fórmula, mas o campo no qual a humanidade participa continuamente da tensão entre tempo e eternidade.
Parte III — A ordem da consciência
13. O que é realidade política?
A ciência política não pode ser adequadamente compreendida mediante a aplicação dos métodos das ciências naturais a um objeto denominado sociedade. A realidade política possui uma estrutura peculiar, pois é constituída por homens que já interpretam sua própria existência e organizam sua vida coletiva mediante símbolos de ordem.
Toda sociedade possui uma autointerpretação. Seus membros compreendem a comunidade à qual pertencem por meio de mitos, tradições, revelações religiosas, doutrinas, instituições e representações históricas. Esses símbolos não são elementos exteriores à realidade política, pois participam de sua própria constituição.
A investigação científica encontra, portanto, uma realidade que já está interpretada pelos homens que a vivem. A ciência política não começa diante de fatos inteiramente neutros, mas diante de uma multiplicidade de experiências e símbolos que exprimem diferentes concepções da ordem.
A filosofia política clássica introduziu uma transformação decisiva nesse campo. Ao investigar racionalmente a justiça e o fundamento da ordem humana, tornou possível distinguir as interpretações tradicionais das sociedades de uma investigação crítica fundada na experiência da razão. Essa diferenciação deu origem à episteme politike, a ciência política.
A interpretação filosófica, ou noética, não elimina as interpretações simbólicas pelas quais as sociedades compreendem sua existência. Ela procura esclarecê-las, confrontando-as com a experiência da ordem verdadeira.
O problema central não consiste em substituir todos os símbolos políticos por conceitos científicos, mas em reconhecer as experiências que lhes deram origem e distinguir as simbolizações adequadas daquelas que deformam a realidade.
A ciência política moderna frequentemente perde essa orientação. O positivismo, o marxismo, o historicismo, o comportamentalismo e outras correntes ideológicas reivindicam para si a autoridade da ciência, embora suas interpretações possam permanecer encerradas em pressupostos que não submetem à investigação filosófica fundamental.
A pretensão de cientificidade não basta para constituir conhecimento verdadeiro. Uma doutrina pode empregar métodos rigorosos e, ainda assim, deformar a realidade quando exclui previamente dimensões essenciais da existência humana.
O problema da ciência política exige, assim, retornar à consciência concreta na qual a ordem é experimentada.
A consciência do fundamento
A consciência humana não é apenas uma faculdade que conhece objetos. Ela é também o lugar em que o homem experimenta sua participação no ser e sua orientação para o fundamento transcendente da existência.
A experiência da ordem não pode ser convertida integralmente em conhecimento objetivo. O homem não contempla o fundamento divino como contempla um objeto do mundo. Ele experimenta sua relação com esse fundamento mediante uma tensão existencial que envolve toda a sua vida.
A consciência é, portanto, simultaneamente conhecimento e participação. O homem reconhece sua própria existência como parte de uma realidade mais ampla, cuja origem e sentido não podem ser dominados pela vontade ou pelo pensamento.
A investigação filosófica clássica diferenciou essa experiência mediante o nous, a inteligência espiritual orientada para a verdade do ser. A razão não é simplesmente uma faculdade de cálculo ou dedução. Em seu sentido mais profundo, ela é a abertura da alma para o fundamento da realidade.
A racionalidade autêntica consiste em conservar essa abertura. A irracionalidade manifesta-se quando a consciência se fecha contra o fundamento e procura substituir a realidade por construções produzidas pela própria vontade.
O homem experimenta a tensão entre sua finitude e o fundamento transcendente, entre sua existência temporal e a ordem eterna. Essa tensão não pode ser eliminada sem deformar a condição humana.
A filosofia deve, portanto, resistir à tentação de transformar o fundamento em objeto ou de apresentar a relação entre o homem e Deus como uma proposição definitivamente possuída.
O conhecimento filosófico é um processo de iluminação progressiva, no qual a consciência procura articular a experiência de sua própria participação no ser.
A diferenciação histórica da consciência
A consciência humana possui uma estrutura permanente, mas sua compreensão desenvolve-se historicamente. As experiências de ordem podem ser simbolizadas de maneiras diferentes conforme o grau de diferenciação alcançado pelas sociedades.
Nas formas mais antigas de experiência cósmica, o divino, o humano, a sociedade e a natureza encontram-se representados numa unidade relativamente compacta. A ordem política participa da ordem cósmica, e os símbolos religiosos exprimem essa continuidade.
A descoberta filosófica grega e as experiências de revelação introduzem diferenciações fundamentais. O homem passa a reconhecer mais claramente a distinção entre o mundo e seu fundamento transcendente, entre a ordem social existente e a medida da verdade que permite julgá-la.
A filosofia clássica constitui um momento decisivo desse processo, mas não representa sua conclusão definitiva. A experiência da realidade permanece aberta a novas diferenciações, e os símbolos herdados podem tornar-se inadequados quando deixam de corresponder à compreensão alcançada.
O desenvolvimento da consciência não deve ser confundido com um progresso necessário e irreversível. A história também apresenta processos de esquecimento, regressão, deformação e fechamento espiritual.
Uma sociedade pode alcançar elevado desenvolvimento técnico e institucional e, simultaneamente, perder a compreensão de experiências fundamentais da existência.
A diferenciação histórica da consciência exige, portanto, reconhecer tanto as descobertas espirituais quanto as formas pelas quais essas descobertas são obscurecidas.
A deformação ideológica da realidade
As ideologias modernas constituem formas particularmente importantes de deformação da consciência. Sua característica fundamental não reside simplesmente na presença de ideias falsas, mas na construção de sistemas que procuram impedir o reconhecimento de dimensões da realidade incompatíveis com seus pressupostos.
A consciência ideológica não se limita a interpretar incorretamente determinados acontecimentos. Ela desenvolve mecanismos de resistência contra a própria experiência da realidade.
O fechamento pode assumir diferentes formas. O materialismo elimina a transcendência mediante a redução da existência aos processos materiais. O positivismo exclui as questões relativas ao fundamento do ser por considerá-las incompatíveis com seu modelo de ciência. As filosofias progressistas da história podem transformar o futuro em realização necessária de uma ordem concebida pelo pensamento humano.
Essas construções compartilham a tendência de substituir a abertura filosófica por uma imagem fechada da realidade.
O problema torna-se especialmente grave quando a ideologia se converte em fundamento da ação política. A sociedade passa a ser organizada segundo uma representação que não admite correção pela experiência. A resistência dos acontecimentos aos pressupostos ideológicos é interpretada não como motivo para rever a doutrina, mas como obstáculo que precisa ser eliminado.
A deformação da consciência pode então produzir uma deformação sistemática da ordem social.
A perda de realidade possui uma dimensão espiritual. O homem procura escapar da tensão de sua existência mediante a construção de um mundo intelectualmente controlável. Ao recusar a abertura para o fundamento transcendente, procura estabelecer dentro da história uma ordem absoluta.
A ideologia oferece a ilusão de um conhecimento definitivo e de uma solução integral para os problemas humanos. Entretanto, essa pretensão depende da exclusão de aspectos essenciais da realidade.
A recuperação da razão exige romper os mecanismos de fechamento e restabelecer a disposição para reconhecer aquilo que a experiência efetivamente revela.
A realidade como participação
A realidade não é simplesmente o conjunto dos objetos que se apresentam diante de um sujeito. Ela é a totalidade abrangente na qual o próprio sujeito participa.
O homem não existe primeiro como consciência isolada para depois estabelecer relações com o mundo. Sua existência é desde o princípio uma participação na realidade, e a consciência constitui uma das formas pelas quais essa participação se torna luminosa.
A distinção entre sujeito e objeto possui validade para determinadas modalidades de conhecimento, mas não pode ser elevada à condição de estrutura definitiva de toda a realidade.
A investigação filosófica deve reconhecer a pluralidade das formas de experiência. O homem conhece objetos, recorda acontecimentos, imagina possibilidades, participa de comunidades, experimenta obrigações morais e reconhece sua orientação para o fundamento transcendente.
Essas dimensões não podem ser reduzidas umas às outras sem empobrecimento da realidade.
A consciência também possui uma estrutura perspectivística. Toda investigação é realizada a partir de uma posição concreta dentro da existência. O conhecimento humano não pode abarcar simultaneamente todas as dimensões da realidade nem escapar inteiramente das condições históricas em que se desenvolve.
Essa limitação não implica relativismo absoluto. A verdade permanece como medida da investigação, mas sua descoberta exige reconhecer que o homem participa de uma realidade maior do que sua capacidade de apreensão.
A filosofia é, portanto, uma busca permanente de esclarecimento, não a posse definitiva de um sistema total.
A linguagem e os símbolos da experiência
A linguagem filosófica enfrenta uma dificuldade particular quando procura exprimir experiências que não possuem a estrutura de relações entre objetos.
Termos como ser, fundamento, transcendência, imanência, participação e consciência não devem ser interpretados sempre como nomes de entidades independentes. Frequentemente funcionam como índices linguísticos que orientam a reflexão para determinadas experiências.
A palavra transcendência, por exemplo, não designa simplesmente uma coisa situada além de outras coisas. Ela indica a dimensão da realidade experimentada como fundamento que ultrapassa a existência mundana.
Da mesma maneira, imanência não representa uma entidade autônoma, mas uma dimensão da realidade diferenciada na experiência filosófica.
Quando esses símbolos são tratados como conceitos objetivos e independentes da experiência que os produziu, surgem disputas artificiais e sistemas dogmáticos.
A linguagem filosófica precisa conservar sua função indicativa. Seu objetivo não é substituir a realidade por definições, mas conduzir a consciência à experiência que torna possível a compreensão.
A meditação filosófica desenvolve-se, assim, mediante um movimento contínuo entre experiência, símbolo e esclarecimento. A linguagem deve permanecer subordinada à realidade, e não a realidade às construções da linguagem.
A consciência concreta e a ordem política
A realidade política não pode ser explicada mediante entidades abstratas como uma consciência coletiva ou uma vontade histórica da humanidade.
A única consciência diretamente experimentada é a consciência concreta de homens concretos. As sociedades existem mediante relações entre pessoas cujas experiências de ordem são comunicadas, compartilhadas e incorporadas a formas relativamente estáveis de convivência.
Os símbolos políticos desempenham papel constitutivo nesse processo. Uma comunidade adquire continuidade quando seus membros reconhecem determinadas interpretações da realidade como fundamento de sua existência comum.
Entretanto, a sociedade não constitui uma entidade espiritual independente dos homens que a compõem. As representações coletivas são produzidas, transmitidas e transformadas por pessoas concretas.
A ordem social também não se reduz à organização institucional do poder. O Estado, suas autoridades e suas estruturas administrativas representam apenas uma dimensão da realidade política.
A existência humana possui uma dimensão corporal que exige subsistência material, proteção, organização e controle das paixões. Por isso, nenhuma sociedade pode dispensar instituições capazes de assegurar a convivência e a defesa contra ameaças.
Contudo, a ordem política não se esgota nessas necessidades. A sociedade também depende das experiências espirituais e morais que orientam a conduta de seus membros.
A liberdade manifesta-se precisamente na impossibilidade de reduzir a consciência humana à organização política. Os homens participam de comunidades espirituais, intelectuais e morais que podem ultrapassar as fronteiras do Estado e resistir às pretensões do poder.
Uma teoria política adequada precisa considerar simultaneamente a corporalidade da existência, a necessidade de organização institucional e a abertura espiritual da consciência.
A redução da política à matéria elimina a dimensão ordenadora da razão. A redução da política a uma consciência abstrata ignora as condições concretas da existência humana.
A ordem verdadeira exige conservar a unidade dessas dimensões.
A recuperação da filosofia política
A ciência política deve recuperar sua condição de investigação racional da ordem humana. Essa recuperação não pode ser realizada mediante a simples restauração de doutrinas antigas, pois os símbolos filosóficos do passado também sofreram processos de dogmatização.
É necessário retornar às experiências que deram origem às descobertas clássicas e prosseguir a investigação a partir dos problemas efetivamente presentes na consciência contemporânea.
A filosofia não pode ignorar a história de suas próprias deformações. O positivismo, o idealismo, o materialismo e as ideologias modernas criaram obstáculos intelectuais que precisam ser esclarecidos antes que a experiência da realidade possa novamente tornar-se transparente.
A tarefa filosófica exige, portanto, uma dupla investigação: a análise das experiências históricas de ordem e a meditação sobre a estrutura da consciência na qual essas experiências se tornam compreensíveis.
A filosofia da história e a filosofia da consciência não constituem disciplinas independentes. A primeira investiga as manifestações concretas da busca humana pela ordem; a segunda procura esclarecer a estrutura existencial que torna essa busca possível.
A realidade política encontra seu fundamento na consciência concreta de homens que procuram ordenar sua existência mediante a participação na verdade.
A ordem social não pode ser produzida definitivamente por uma técnica, uma instituição ou uma ideologia. Ela depende da capacidade humana de reconhecer uma medida que transcende os interesses particulares e as construções arbitrárias do poder.
A filosofia política recupera sua dignidade quando abandona a pretensão de dominar a realidade mediante sistemas fechados e volta a reconhecer sua tarefa originária: esclarecer a ordem da existência humana à luz da experiência do fundamento do ser.
Eric Voegelin identifica diversas ideologias, correntes filosóficas e formas de dogmatismo que podem produzir aquilo que denomina “perda da realidade”: a substituição da experiência concreta da existência por sistemas intelectuais fechados, que pretendem explicar integralmente o homem, a sociedade e a história.
Segue lista destas ideologias e correntes com uma breve descrição da deformação da realidade:
Iluminismo progressista: Converte o progresso histórico e o aperfeiçoamento humano em pressupostos que orientam a interpretação da realidade.
Positivismo: Reduz o conhecimento legítimo ao modelo das ciências positivas, excluindo dimensões fundamentais da experiência humana.
Marxismo: Interpreta a história por meio de uma estrutura ideológica que reivindica conhecimento científico do processo histórico.
Historicismo germânico: Subordina a compreensão da verdade à historicidade, dificultando o reconhecimento das estruturas permanentes da existência.
Cientificismo: Transforma os métodos das ciências empíricas em critérios universais de todo conhecimento.
Comportamentalismo americano: Reduz a realidade política a comportamentos observáveis, deixando de lado a experiência da ordem na consciência.
Comunismo científico pós-stalinista: Apresenta uma interpretação ideológica da sociedade e da história como ciência objetiva.
Psicologização: Pretende explicar experiências filosóficas, espirituais e políticas exclusivamente por categorias psicológicas.
Sociologização: Reduz a verdade e a consciência às condições ou determinações sociais.
Metodologias de significado mundial: Procuram impor esquemas metodológicos de interpretação abrangente da realidade.
Fenomenologias: Quando absolutizadas como métodos, podem obscurecer a participação existencial da consciência na realidade.
Voegelin não afirma que toda investigação histórica, psicológica, sociológica ou fenomenológica seja necessariamente falsa. Sua crítica recai sobre a transformação dessas perspectivas em sistemas que bloqueiam outras dimensões da experiência.
Além das correntes anteriores, Voegelin também menciona explicitamente as seguintes ideologias políticas e sistemas coletivistas, seguidas de uma breve descrição do problema identificado:
Comunismo: A organização da existência humana em torno de uma ordem coletiva que pretende determinar o sentido da história.
Nacional-socialismo: A elevação de uma coletividade histórica e racial a fundamento da ordem humana, exemplificada pelo Volk de Hitler.
Fascismo: A identificação da existência política com uma coletividade histórica absolutizada, exemplificada pela Italianità de Mussolini.
Especulação gnóstico-dialética hegeliana: A construção especulativa de uma imagem totalizante da realidade e de seu desenvolvimento histórico.
Revolucionarismo utópico: A pretensão de transformar radicalmente a condição humana por meio da ação histórica, projetando no futuro a superação das limitações da existência.
Finalmente, Voegelin amplia a crítica para além dos movimentos revolucionários, identificando formas de fechamento intelectual nas seguintes orientações:
Dogmatismo teológico: quando símbolos nascidos de experiências espirituais são transformados em fórmulas rígidas que substituem a experiência original.
Dogmatismo metafísico: quando conceitos filosóficos passam a ser tratados como representações definitivas de uma realidade objetificada.
Conservadorismo meramente tradicionalista: quando a defesa das tradições substitui a investigação filosófica da verdade que originalmente lhes deu sentido.
Liberalismo dogmatizado: quando a confiança no progresso, na discussão racional ou nas instituições liberais encobre os problemas existenciais da liberdade.
Coletivismo filosófico: exemplificado pela crítica ao telos coletivo da razão em Husserl, que corre o risco de subordinar a consciência individual a uma entidade histórica idealizada.
O denominador comum dessas deformações não é uma posição política específica, mas o fechamento da consciência à realidade, especialmente à experiência da transcendência. Para Voegelin, a ideologia surge quando o homem transforma símbolos, conceitos ou projetos históricos em substitutos da ordem real do ser.
A distinção fundamental é que uma filosofia procura compreender a realidade da qual o homem participa, enquanto uma ideologia pretende substituir essa realidade por uma construção intelectual que o homem possa dominar.
Notas
Eric Voegelin (1901-1985) nasceu em Colônia, Alemanha.
Sua filosofia caracteriza-se pela crítica à tentativa moderna de substituir a realidade por construções ideológicas e pela recuperação das experiências clássicas e cristãs de transcendência. Inspirando-se especialmente em Platão, Aristóteles e Santo Agostinho, sustentou que a ordem política depende da ordem espiritual e que as crises das sociedades modernas resultam, em grande medida, da perda de contato com os fundamentos transcendentes da existência.
Sua contribuição central foi demonstrar que as grandes crises políticas não podem ser compreendidas apenas como conflitos econômicos ou institucionais, pois frequentemente expressam uma desordem mais profunda da consciência humana.
Foi um dos mais importantes filósofos políticos do século XX, destacando-se por suas investigações sobre a ordem política, a filosofia da história, a consciência humana, as religiões e as origens espirituais dos movimentos totalitários.
A lista de suas principais obras incluem: Raça e Estado (1933), As Religiões Políticas (1938), The New Science of Politics (1952), Ordem e História em cinco volumes (1956-1987), Hitler e os Alemães (1964), e Reflexões Autobiográficas (1989 – póstumo).
Anamnese foi publicado postumamente em 1966.
Timur (Tamerlão) (1336–1405) foi um conquistador turco-mongol, fundador do Império Timúrida, que dominou vastas regiões da Ásia Central, Pérsia, Mesopotâmia e partes da Índia e do Cáucaso.
Mikhail Aleksandrovitch Bakunin (1814-1876) foi um revolucionário, filósofo e teórico político russo, considerado um dos principais fundadores do anarquismo revolucionário e coletivista e uma das figuras centrais do movimento socialista europeu do século XIX.
John Stuart Mill (1806–1873) foi um filósofo, economista, lógico e político britânico, considerado um dos principais representantes do liberalismo clássico e do utilitarismo no século XIX. Defendeu a liberdade individual, a liberdade de expressão, o governo representativo e a igualdade jurídica entre homens e mulheres. Em Sobre a Liberdade (1859), formulou o célebre princípio do dano, segundo o qual a sociedade somente pode exercer coerção legítima sobre um indivíduo, contra sua vontade, para impedir danos a terceiros. Também sustentou que o confronto entre opiniões divergentes é indispensável à descoberta da verdade e ao aperfeiçoamento humano.


