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Fritz Lang (1890–1976)


Quando a humanidade, subjugada pelo temor da delinquência, se tornar louca por efeito do medo e do horror, e quando o caos se converter em lei suprema, então terá chegado o tempo para o Império do Crime. – Fritz Lang sobre O Testamento do Dr. Mabuse


Os filmes de Fritz Lang são um mergulho no fundo mais obscuro da alma humana, da qual o diretor emerge sempre com um apurado senso moral. Um mestre em projetar um pesadelo onde pessoas inocentes são perseguidas e processadas. A forte presença do sentido de sacrifício cristão em seus filmes explica o desdém com que Lang é tratado pela intelligentsia da atual crítica cinematográfica.


Entre seus filmes destacam-se:


Destiny (1920): A implacabilidade do destino e a recordação de que a morte não é inimiga do homem.


Dr. Mabuse, the Gambler (1922): O ambiente decadente da República de Weimar é o ovo da serpente. A nobreza decaída (Conde Told), sem valores, emasculada – interessante notar como a estética desaba junto com os valores (coleção de arte moderna do conde). Consumo de drogas, jogatina, hedonismo, libertinagem, ocultismo, psicologismo no lugar da moral, inflação… germinaram o caos. E a história se repete.



M (1931): O primeiro filme a abordar um serial killer e os procedimentos policiais. Inesquecível embate entre o criminoso bestial (patológico) e os criminosos viciosos (intencionalmente a margem da lei) – ver Ética a Nicômaco de Aristóteles. O hipócrita apelo de insanidade feito pelo assassino tornou-se subterfúgio imoral muito praticado por criminosos: "I can't help myself! I haven't any control over this evil thing that's inside of me! The fire, the voices, the torment!”


The Testament of Dr. Mabuse (1933): Lang coloca na boca de um criminoso insano todos os slogans nazistas (o filme foi confiscado por Goebbels e Lang fugiu da Alemanha). Vemos a classe científica subjugada, usando a ciência para o crime, tal como vemos hoje a classe científica unindo-se aos políticos e fraudando a ciência com desfaçatez para fins escusos. Cada vez mais vivemos num mundo de alucinações e fantasias desnorteantes, onde conhecer a verdade, mesmo sobre coisas simples, será um desafio que só pessoas investidas de uma coragem intelectual fora do comum poderão vencer. Prepare-se para viver no hospício do Dr. Mabuse, onde o mais louco dos pacientes faz a cabeça dos médicos e os coloca a serviço de seus planos malignos.


Fury (1936): Para manter em mente que a barbárie está sempre a espreita, pois faz parte do potencial negativo humano, e que um ambiente de injustiça acirra o conflito. O mundo atual caminha aceleradamente para isto, e não falta muito para que os linchamentos deixem de ocorrer apenas nas redes sociais.


House by the River (1950): A escalada da concupiscência na alma de um homem.


The Big Heat (1953): "Nenhum homem é uma ilha isolada" (John Donne 1572-1631). Apenas com a ajuda de sua família, amigos e da surpreendente Debby o herói consegue reestabelecer a ordem não apenas na naquela sociedade mas também em sua alma. Duas grandes personagens femininas com impecável interpretação (Katie por Jocelyn Brando e Debby por Gloria Grahame).


Beyond a Reasonable Doubt (1956): Progressistas contrários a pena de morte aprenderão uma lição.


The Thousand Eyes of Dr. Mabuse (1960): Quase trés décadas após The Testament of Dr. Mabuse Lang traz de volta seu supervilão para, em seu último filme, insistir na ideia de que nossa decadência civilizacional (i.e. perda do sentido de transcendência, relativismo moral, desconexão da realidade, medo instigado pelo Estado, etc) levará ao reino do crime e ao caos. Lang também, acertadamente, já alertava para o uso da tecnologia como meio de opressão.

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