Paidéia de Werner Jaeger


Paidéia (paidos – criação e meninos, mesma matriz de pedagogia) corresponde à formação do homem (bildung do idioma alemão – seria sua melhor representação). Formação de um elevado tipo de homem, a partir do ensinamento dos melhores exemplos humanos.

Os gregos viram uma ordem nas coisas, no mundo, e chamaram isto de cosmo (ordem). Paidéia é a manifestação educacional desta cosmovisão em todas as manifestações humanas. Buscavam refletir nas artes aquilo que depreenderam da realidade, do cosmo (ordem), e seguiam o mesmo princípio na educação. Tudo deveria ser pedagogia, voltado para formar o homem: literatura, música (boa música era primeira coisa a ser ensinada para as crianças), teatro, escultura, arquitetura, astronomia, cavalaria, caça (estimular estratégia e coragem – dar chance ao animal, riscos – por isso não gostavam de pescaria). Todas as matérias se relacionavam: da caça à música, da filosofia à ginástica (esporte era a educação para o heroísmo – vencer, ultrapassar seus aparentes limites) – há uma harmonia entre todas as artes.


O grego queria ser um homem melhor, e a educação visava isso – içá-lo as montanhas do entendimento próprio e da realidade do mundo. O objetivo era elevar o homem do caos interior através da integração com a ordem universal – fazer trinfar o homem dentro do homem, buscando a semelhança com Deus (paidéia é a ponte entre a alma e Deus).


O desenvolvimento de um povo se reverte em educação visando a conservação e transmissão da herança cultural. A educação é o instrumento de transmissão deste legado. Educação é elevar a criança da planície de sua ignorância até o pico das montanhas de onde ela pode expandir seu horizonte de consciência, ampliar o entendimento do mundo, da realidade.


Partem do conceito objetivo de Verdade, Bem e Beleza – uma visão objetiva do Ser e de seus predicados. Daí as faculdades humanas estarem dispostas à busca e compreensão destes três predicados.


Somos compostos de corpo e alma (animi do grego, aquilo que anima, move o corpo). Nossa alma tem faculdades para conhecer o Ser e seus predicados.


Potências da alma:

  • Intelectual (ênfase pitagórica): intelecto destina-se a apreensão da Verdade (apreende o ser como verdadeiro – intelige o ser como verdadeiro, como aquilo que a coisa é – inteligência = latim intellectus de intelligere = composto de intus-dentro e lègere-ler, recolher = inteligir, compreender, leitura interior da coisa).

  • Vontade (ênfase aristotélica - junto com o intelecto): A vontade quer o Bem, quero inteligir porque a coisa é boa, desejamos as coisas porque elas são apetecíveis, pois o Bem é Belo – Beleza é a soma da Verdade com o Bem – uma coisa Bela é Boa e Verdadeira simultaneamente (o alcance de um ideal).

  • Memória (ênfase platônica): é a memória que é convidada a tomar a Beleza como Boa e Verdadeira. É preciso lembrar o Belo. Para lembrar o Belo, preciso da memória.

Quanto mais exercitarmos o intelecto, a vontade e a memória, mais nossa alma será bela. Quanto mais bela a alma, mais bela será nossa vida – articulação entre nosso interior e exterior Mais integro seremos – uma pessoa integra, que é a mesma em qualquer situação, em sintonia entre o interior e exterior. Esta conexão entre a vida interior e a vida exterior os antigos chamavam de Paidéia.


Paidéia como formação do espírito e do carácter – pedagogia que conduz a um ideal de Beleza, de uma vida bela, ou seja, baseada na Verdade e na Bondade.


Educação vem do latim educare = ex-fora e ducere-guiar = guiar para fora, dirigir para o exterior – vínculo entre a beatitude da alma e da vida.


A Paideia tem rigorosas exigências (seguem as cinco mais importantes):

  1. Aquisição das artes mecânicas: artes para produzir coisas que aprendemos com os mais velhos - aprender processos, aprender a produzir coisas, coisas básicas (lavar-se, comer, escovar os dentes). João Escoto Erígena (810-877) as dividiu um tanto arbitrariamente em sete partes: (a) vestiaria (alfaiataria, tecelagem), (b) agricultura, (c) architectura (arquitetura, alvenaria), (d) militia e venatoria (vida militar e caça, educação militar e artes marciais), (e) mercatura (comércio), (f) coquinaria (culinária e gastronomia), e (g) metallaria (ferraria, metalurgia). Em sua obra intitulada Didascalion, Hugo de São Vitor (1096-1141) incluiu navegação, medicina e artes teatrais ao invés de comércio, agricultura e culinária.

  2. Empatia pelos outros, i.e. philia = amizade ou amor: estabelecer hierarquia dos afetos. Assim como as anteriores, é ensinada pelos pais.

  3. Gramática: ter as formas linguísticas e verbais para poder expressar-se, o primeiro passo é ouvir, apreensão do esqueleto de signos e significados, apreensão da estrutura da língua.

  4. Retórica: capacidade de relacionar a gramática com a própria imaginação. Retórica é do filósofo (buscam a verdade) e erística é do sofista (discurso com o objetivo de enganar o ouvinte).

  5. Matemática: transferência da alma do mundo visível para o conceptual, desperta do pensamento do homem.

Quanto maior a aquisição dos ensinamentos da Paideia mais livre o homem será – da ignorância a uma forma de vida racional. Ser livre é tomar uma decisão sobre si mesmo com consciência – o ser racional, animal racional, é o único capaz de viver na pólis (em sociedade).


Uma consciência racional produz atos que deverão ser julgados pelo padrão da Verdade, do Bem e da Beleza. Devemos julgar conforme estes três predicados do Ser.


A razão (dianoia) é a operação do intelecto (nous) que nos destina para a Verdade, Bem e Beleza. Razão teórica (busca a Verdade), prática (busca o Bem) e técnica-memorativa (busca o Belo). Quanto mais artes adquirimos, mais capacitados estaremos para teorizar sobre a Verdade, praticar o Bem e memorizar segundo um padrão objetivo de Beleza, em suma, mais inteligentes seremos, mais unidade possuiremos e mais integro seremos.


A pessoa cujo intelecto, vontade e memória se destinam para o fim acima era definida pelos gregos de aretè = virtude – agir em conformidade com a razão é ser virtuoso.


Virtude é um hábito bom segundo a razão, e as (quatro) virtudes educam nosso interior:

  1. Temperança, domínio de si, quem não tem temperança fica submetido à concupiscência e a irascibilidade.

  2. Fortaleza (ou Coragem), resiliência e superação.

  3. Prudência, a mãe de todas as virtudes, a virtude intelectual da vida prática. A prudência constrói uma alma, edifica uma alma – para Aristóteles a virtude intelectual da razão prática.

  4. Justiça constrói a relação com os demais, as três virtudes acima edificam o caráter e a Justiça a relação com os demais.

Ser livre é libertar-se de si mesmo em primeiro lugar. Libertar-se da ignorância. Os gregos legaram algo fundamental – a educação é pressuposto para a liberdade.


E o homem livre busca o Bem Comum, o conjunto das condições materiais para o desenvolvimento das virtudes de seus habitantes. O bem comum é o bem de todos e o bem de todos é o bem comum.


Agentes da paidéia são poetas, políticos e filósofos. Na poesia já havia o germe da filosofia. Começa com a tradição oral que transmitiu a Ilíada e a Odisseia – Homero é o grande nome da paidéia.


Werner Jarger aborda os principais destes agentes, relacionando suas obras e pensamentos à paidéia. Destacam-se: (1) Homero (Ilíada e Odisseia), (2) Hesíodo (Teogonia e Os Trabalho e os Dias), (3) Tirteu (Eunomia), (4) poetas jônicos, (5) Sólon, (6) os filósofos naturalistas, (7) Píndaro, (8) os sofistas, (9) Ésquilo, (10) Sófocles, (11) Eurípides, (12) Aristófanes, (13) Tucídides, (14) Sócrates, (15) Platão, (16) Hipócrates, (17) Isócrates, (18) Xenofonte, e (19) Demóstenes.


Seguem alguns pontos anotados:

  • A sociedade forma-se assentada em um conjunto de normas/leis escritas e não-escritas. A solidez destas normas corresponde à solidez da educação. Sem normas claras não é viável uma verdadeira educação.

  • Conceito de tragédia na Ilíada ensina que o destino não está nas mãos do indivíduo, diferentemente da equivocada ideia kantiana de que a nossa mente é que define a realidade (a física quântica comparte este conceito a partir do fato de que o observador modifica o ente observado – não haveria certezas, mas apenas probabilidades).

  • Os mitos explicam a realidade humana e ensinam a adotar o melhor curso de ação diante desta. Mitos faziam parte da educação das crianças. Encerra um conteúdo moral. Ensinavam através dos mitos. Todo mito grego era circular, pois lhes faltava o conceito de finalidade. Exemplos de mitos: Mito de Medusa: símbolo pedagógico. Os pensamentos são perigosos como serpentes vêm da cabeça. A verdade lógica petrifica. Mito de Circe: transformava os homens em porcos que cedem à luxúria e à gula. O porco não consegue levantar a cabeça, olhar para o céu. Mito da Sereia: seres alados que seduziam os marinheiros. Odisseu se amarrou no mastro de madeira. Falsos elogios, ideologias são cantos da sereia. Amarrar-se a cruz de Cristo (madeira do mastro de Odisseu).

  • Na Ética a Nicômaco Aristóteles aborda (indiretamente) as quatro castas, criticando os sudras (vida quase animal), os vaishas (visam o meio – riqueza – e não o fim que ele pode comprar) e os xátrias (glória é passageira). Para Aristóteles só a busca do conhecimento, ampliação da consciência, pode levar a felicidade (eudaimonia).

  • Na Suma Teológica, Tomás de Aquino apresenta os anjos divididos em três hierarquias: (a) relacionado com a finalidade temos os serafins, querubins e tronos, (b) relacionados aos meios de execução temos dominações, virtudes e potestades, e (c) relacionados à execução temos principados, arcanjos e anjos. Em linha com esta ordenação do mundo angélico, nossa civilização se apoia em três pilares: (a) Israel refere-se a finalidade da existência ligada a Deus, (b) a Grécia relacionado com ordenação dos meios de execução segundo as finalidades (paidéia é ordenação dos meios), e (c) Roma relaciona-se a execução, fermento da expansão.

  • Os gregos ensinaram que nada é neutro. Tudo forma ou deforma o homem. Dai buscar modelos nos quais espelhar-se. Aquiles era um modelo. Odisseu era outro modelo. Na Idade Média tínhamos Cristo e os santos como modelos. Este conceito deteriorou-se com o tempo. No renascimento virou o homem inteligente (Da Vinci, Michelangelo), depois no romantismo viraram os sensíveis (Byron) e hoje me dia são os famosos, aqueles que falam com as massas. Decadência.

  • Platão foi o apogeu da Paidéia. Queria modelar as almas na República.

  • Valorizava-se a memória, manutenção do saber para o resto da vida. Estudos e exercícios mnemônicos. Tradição oral. Hoje isso se perdeu.

  • A religião grega sobre um desgaste, o deuses deixam de ser seres concretos para transformarem-se em personagens literárias. Com isso a força da poesia homérica também perde força educativa. O teatro grego assume o papel antes assumido pela religião. Era um teatro de formação visando ampliar o horizonte de consciência das pessoas, formar estadistas. Um dos principais meios de educação na Paidéia. A recuperação do poder espiritual da poesia.

  • A mulher é honrada não apenas por sua utilidade e a legitimidade dos filhos, mas sim por ser mãe de uma geração ilustre, ela é mantenedora e guardiã dos mais altos costumes e tradições. (O feminismo foi idealizado para destruir os costumes e tradições)


Notas

  • Werner Jaeger (1888-1961) nasceu na Alemanha.

  • Paidéia foi publicado em diversos volumes entre 1933 e 1947. Considerado o mais importante trabalho de avaliação da cultura grega.

  • Paidéia significa ao mesmo tempo civilização, cultura (no sentido elevado de formação), tradição, literatura e educação.

  • Por que a Grécia? Ninguém sabe o porquê.

  • Todos os cavalos são variações do cavalo árabe (matriz genética). O cavalo inglês é bom para corrida, o cavalo percheron é bom para puxar carroças e o campolina é usado na lida do gado. Já o árabe não é particularmente veloz, nem forte. Também é um cavalo pouco dócil (elege apenas um dono). Mas quando uma espécie enfrenta uma degeneração genética a cruzam com um árabe para recuperá-la. A cultura grega funciona como um cavalo árabe.

  • O ensino moderno é um modelo de controle social. Um real educador não deve ter a pretensão de mudar o ensino, se educar bem uma só pessoa já cumpriu a sua missão.

  • Educação não é transformar pessoas (reengenharia humana), mas sim potencializar as possibilidades do indivíduo. A educação deve preocupar-se com cada aluno real e concreto e não a sociedade.

  • Os dez mandamentos são dez pilares de sustentação da possibilidade humana.

  • Para Orlando Fidelis há três grandes revoluções contrárias a nossa civilização e a ordem da natureza segundo Deus: (a) Reforma de Lutero contra a igreja, quebrando a finalidade da existência; (b) Revolução Francesa, Kant e Revolução Industrial destroem os meios de execução, e (c) Revolução Comunista na Rússia funciona como fermento da destruição do homem.

  • Educação pressupõe a liberdade para assim o fazer. A autoeducação é a verdadeira educação, mesmo que feito em uma instituição de ensino.

  • As cidades gregas elegia um deus como intercessor com o Olímpio. Oferendas e sacrifícios eram feitos ao deus da cidade. Um correspondente ao padroeiro católico.

  • O currículo americano correspondente ao nosso Ensino Fundamental e Médio é muito mais simples que no Brasil. Isso é bom, pois o aluno realmente aprende (apreender) o básico. A complexidade do ensino no Brasil dificulta a prática do homeschooling.

  • “Sacrificar a metafísica do desejável no altar da geometria do possível”. – Monir

  • Temos a obrigação de sermos bons mesmo se o mal predomine ao nosso redor.

  • Arte era para ter memória dos deuses. As musas servem à memória, a memória dos deuses.

  • Ethos = síntese dos costumes de um povo.

  • Pathos = apelo à emoção, evocação de piedade.