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Bom, Belo e Verdadeiro


The ideals which have always shone before me and filled me with the joy of living are goodness, beauty, and truth. To make a goal of comfort or happiness has never appealed to me; a system of ethics built on this basis would be sufficient only for a herd of cattle.” – Albert Einstein (1879-1955)

A busca da Bondade, da Beleza e da Verdade é a expressão do ápice humano, é atividade específica própria do homem, é sua areté – sem a qual o homem apequena-se, animaliza-se.

Apenas o homem possui uma alma racional (ver Da Alma de Aristóteles), e a ela se relacionam as virtudes intelectuais (dianoéticas – ver Ética a Nicômaco de Aristóteles):


(a) Phrônesis (fazer, sabedoria prática): qualidade racional relativa a ação, deliberação humana frente a situações e relações com os outros. Atinge a verdade correspondente ao correto desejo. É a busca do Bom.


(b) Téchne (criar, arte): criar ou fabricar (de um poema a uma mesa) em vistas de um fim. Atinge a verdade conforme o processo. É a busca do Belo.


(c) Sophia (razão teorética): soma da faculdade de apreender os primeiros princípios que não podem ser provados pela razão (noûs) e da convicção a que se chega com base naqueles primeiros princípios (epistême). É o mais perfeito modo de conhecimento, atinge a verdade em si. É a busca do Verdadeiro.


 

Há uma sinonímia entre os três termos em grego:


Agathos – Bondade: “excelência de algo ou alguém”, os filósofos definiriam como “sentido da existência”


Kalos – Beleza: “belo”, “saudável”, “excelente”, “bom”


Aletheia – Verdade: significa “não esconder”, sentido de “expor”


No século V a.C. os termos kaloi e agathoi são usados como impulsadores do cidadão a abraçar as virtudes da polis, aglutinando-se em uma palavra: kalokagathia.


Para o grego antigo Ser e Verdade são sinônimos (na acepção ontológica), e o Ser perfeito tem que ser ao mesmo tempo Bom, Belo e Verdadeiro. A conexão do Belo e do Bem é típica da mentalidade grega, os filósofos apenas a ratificaram.


A Trindade Platônica (ou Trindade Socrática) está implícita no diálogo platônico Filebo. Verdade, Bondade e Beleza são conceitos divinos para Platão e perfazem o eidon – o eterno e transcendental mundo das ideias. No diálogo Timeo o mundo é animado pela alma racional – a base macrocósmica para o microcosmo da alma humana. Este microcosmo noético é composto de (a) logos representando a capacidade racional, (b) ethos relacionado a moral, e (c) epithymetes englobando os desejos e capacidade estéticas – espelhando assim as imagens da Verdade, Bondade e Beleza, exemplificando e participando da vida divina.


Para Platão, estas qualidades que fazem parte de nossa alma estariam esquecidas (anamnese) e precisam ser recuperadas através da filosofia (amor à sabedoria). Ele busca a Verdade em Fedro e Górgias, a Bondade na República (no livro VII a Bondade é considerada o princípio universal, fonte de todo o ser e irredutível essência da realidade) e a Beleza no discurso de Diotima no Banquete.


Bondade para Platão é a prioridade universal na qual todas as coisas verdadeiras participam e da qual existem, e a Bondade é revelada ao homem através da Verdade. Enquanto a Beleza ajuda a despertar a Bondade no homem, somos atraídos para a Bondade e Verdade através da Beleza. Só é Belo aquilo que realmente nos leva a Verdade e a Bondade, quando aquela é amputada destas não há mais desejo legítimo (diferença entre as Musas e as Sereias), pois a real Beleza deve sempre despertar nossa areté e as virtudes clássicas (sabedoria, temperança, justiça e coragem).


 

A Verdade, a Bondade e a Beleza pertencem ao conceito de piedade cósmica, conceito no qual o universo é preenchido de sentido e proposta divina, obrigando o homem a viver em harmonia com o mundo e seu semelhante. Tais valores harmonizam tanto a alma humana como a sociedade.


Nesta cosmovisão o indivíduo é entendido como microcosmo da substância e ordem macrocósmica do mundo (mikros kosmos) e, reciprocamente, o mundo é a ampliação do homem (macro-anthropos). Esta relação micro-macro já surge com Empédocles (490-430 a.C.) que relaciona os quatro elementos cósmicos (fogo, ar, água e terra) com os quatro humores do corpo humano (bílis amarela-colérico, sangue-sanguíneo, fleuma-fleumático e bílis negra-melancólico) – a doença seria um desbalanceamento destes elementos, cuja simetria deveria ser restaurada.


Mais tarde a polis seria a ponte entre o individuo e o mundo cósmico. Na República Platão discutia a harmonização do cosmo, alma humana e sociedade através da polis. A paidéia visava formar um tipo humano específico inspirando nos jovens a piedade cósmica – a areté homérica, virtude heroica. A paidéia é um processo de três etapas: (a) reconhecer o problema, a ignorância, (b) preencher esta virtude (humildade) com a recuperação dos conhecimentos sobre o mundo que se relacionam a Bondade, Beleza e Verdade (através da purificação moral com a prática das virtudes, purificação intelectual com a contemplação dos três valores principalmente na Matemática, Ginástica (ensina o autocontrole), Poesia e Música (comunicam o ritmo e harmonia do cosmos)), e (c) unir a alma a estes três valores, o que só ocorre na morte.


A crescente fragmentação e polarização observada na sociedade resulta da perda da piedade cósmica, de entender que há uma ordem no mundo, uma ordem divina, onde a Bondade, a Beleza e a Verdade interligam-se, e juntas ajudam o homem a elevar seu espírito. Mas o homem afastou-se desta ordem, ignora o Criador desta ordem. Orgulhoso (húbris) de seu conhecimento científico o homem descartou tudo que não pode ser pesado ou medido, tudo que lhe escapa os sentidos corpóreos. Assim a sombra do relativismo decai sobre a Bondade, a Beleza e a Verdade. Aprendemos que a beleza está nos olhos de quem a vê, que a moral pertence a cada um, e cada um tem a sua verdade. Como não haver conflito fratricida diante de tamanha aberração?


Sem ordem, perdido no caos e enfraquecido (desumanizado), cada vez mais o homem se vê como vítima e clama por compensação por seu sofrimento. Tal conflito e sentimento interessa àqueles que ambicionam um governo totalitário, pois apenas um governo absoluto poderia restaurar a disciplina, e este engodo de pacificação demandará a perda da liberdade e individualidade do homem – a consequência de o homem ser a medida de todas as coisas é a imposição da verdade do poderoso de plantão.


 

Com o advento do Cristianismo (oriental), o cosmo repleto de sentido e propósito divino é ameaçado pela Queda, mas restaurado com a vinda de Cristo e a evocação de uma particular piedade no ser humano. Criado a imagem de Deus para responder ao diáfano cosmos que revela Sua Bondade, Beleza e Verdade. O homem caído volta a companhia de Deus mediante a contemplação aos atributos divinos da Bondade, Beleza e Verdade em antecipação ao Juízo Final quando o Céu e a Terra tornar-se-ão um só.


No Ocidente, Agostinho prega que nossa humanidade está no insaciável desejo de encontrar a Bondade, a Beleza e a Verdade de uma forma transformadora da própria vida. E é através dos recessos de nossa alma que encontramos o caminho para contemplar Deus. Reconhecendo e apreciando a nós mesmos como imagem Dele é que podemos nos dirigir a Ele.


O primeiro passo deste movimento encontra-se na Verdade – apenas com a sabedoria (sapientia – realidade eterna) agraciada a nossas almas com a palavra de Cristo é que podemos contemplar o conhecimento (scientia – mundo temporal).


Em seguida, Agostinho associa a divina e redentora graça da sabedoria com o conceito de Bondade – o summun bonus (bem supremo) é o próprio Deus. O bom e o mal estão relacionados à ordem divina, à hierarquia divina. Só Deus é amado por si mesmo, ao passo que todo o resto é usado por amarmos ao benefício de Deus – amamos algo sempre que seja em benefício de Deus. A sabedoria, a Verdade, nos permite entender a hierarquia divina.


Finalmente, as noções de sapientia e ordo amoris (reordenamento dos afetos) providenciam as referências para a busca da Beleza. Agostinho vê a Beleza como a harmonia da ordem cósmica de todas as coisas, uma ordem estética que, como para Platão, serve de escada para ascender na vida divina. A Beleza nos serve no indispensável papel de momentos em direção a Deus, uma força gravitacional que puxa nossa alma em direção da Verdade e Bondade. A busca da Verdade, Bondade e Beleza é a busca por Deus.


 

Notas

  • Observamos como o homem pode construir pensamentos que, combinados com seus desejos, podem anestesiar seus critérios morais, levando-o a cometer atrocidades, e.g. ideologias de esquerda. Pensamentos distantes da Verdade podem levar ao Mal. Mas a Verdade atrai o Bem.

  • Para Aristóteles, o Motor Primeiro, ou seja, Substância Primeira, a Inteligência Suprema, é Belo e Bom, e por isso atrai todo o universo e o move como objeto de desejo e de amor.

  • Will Durant lista como fatores condicionantes para o surgimento e manutenção de uma sociedade a tradição moral (constituinte), busca de conhecimento e artes (constituinte), crença e moral uniformes (psicológico) e educação como transmissão de conhecimento (psicológico). A perda de um ou mais destes fatores leva à destruição da sociedade. George Washington já havia dito que “religion and morality are the essential pillars of civil society”.

  • A beleza seria um valor supremo que buscamos por si só, sem ser necessário fornecermos qualquer motivo ulterior? Desse modo, a beleza deveria ser comparada à verdade e à bondade, integrando um trio de valores supremos que justifica nossas inclinações racionais. Por que acreditar em p? Porque p é verdadeiro. Por que desejar x? Porque x é bom. Por que contemplar y? Porque y é belo. Mas há uma natureza subversiva na beleza. Alguém que se veja encantado por determinado mito pode se sentir tentado a crer nele; nesse caso, a beleza é inimiga da verdade (Primeira Ode Olímpica de Píndaro: “A beleza, que dá ao mito aceitação, faz do incrível crível”). Um homem atraído por uma mulher pode sentir-se tentado a perdoar seus vícios, e nesse caso a beleza é inimiga da bondade (Manon Lescaut de Abade Prévost, em que a ruína moral do Cavaleiro des Grieux é causada pela bela Manon). A bondade e a verdade, supõem-se, jamais rivalizam, e a busca de uma é sempre compatível com o respeito que se deve à outra. A busca da beleza, por outro lado, demanda maior atenção.


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