Os Irmãos Karamázov de Fiódor Dostoiévski



Personagens Principais Fiódor (Esopo) Pávlovitch Karamázov – patriarca Dimitri (Mitia) Karamázov – filho mais velho de Fiódor, tenente reformado, lembra o pai Ivan (Vânia) Karamázov – segundo filho de Fiódor, intelectual ateu Alieksiéi (Aliócha) Karamázov – terceiro filho de Fiódor, seminarista Paviel Smierdiákov – filho bastardo de Fiódor, epilético, empregado da casa Agrafiena (Grúchenka) Svietlova – mulher disputada por Fiódor e Dimitri Katierina (Kátia) Ivânovna Vierkhóvtseva – noiva de Dimitri

Personagens Secundárias Zinovi (Zózima) – stáret (monge preceptor), um santo Grigóri Kutúzov – criado de Fiódor Marfa Ignátievna – mulher de Grigório Katierina Óssipovna Khokhlakova – proprietária de terras, amiga de Kátia e mãe de Lisa Lisavieta (Lisa) Ivânovna Khokhlakova – filha de Katierina, paralítica, apaixonada por Aliócha Kuzmá Kuzmitch Samsómov – comerciante protetor de Grúchenhka Nikolai Ilitch Smeguiriov – velho capitão na miséria, humilhado por Dimitri Iliúchka – tuberculoso, filho do capitão Nikolai Fierapont – monge inimigo de Zósima Mikhail (Micha) Rakitin – noviço, amigo de Aliócha


Interpretação “Em verdade, em verdade vos digo que se o grão de trigo que cai na terra não morrer, fica infecundo; mas se morrer, produz muito fruto” (Evangelho de São João 12, 24-25)


A chave para decifrar o enigma da obra está em entender suas principais personagens:


  • Fiódor Karamázov: libertino, bufão, descarado, imoral, lascivo, hipnotizado pelo mal, sem consciência moral, sádico.

  • Dimitri Karamázov: arrogante, ousado, violento, passional, dirigido pelas emoções (para o bem e para o mal), mas tem consciência moral.

  • Ivan Karamázov: lembra Raskólnikov de Crime e Castigo. É um revolucionário cínico, ateu, intelectual. “Deus não existe, então tudo é permitido” – não existe esquema moral. “Deus só existe para controlar o homem”. Pensa que Deus “é incompetente” pois a Rússia tem muitos problemas.

  • Aliócha Karamázov: jovem, ingênuo, provoca o “milagre” da aceitação de Iliúchka pelos colegas.

  • Smierdiákov: morte, deficiência mental, sentido rejeição do mundo, totalmente submisso ao Ivan.

  • Grúchenka: Jezebel, mulher fatal, “big teaser”, volúvel, pivô da história – desejada por pai e filho, personagem que unifica a narrativa

  • Katierina Ivânovna: orgulhosa, submetida por dinheiro, mas ainda melhor que Grúchenka.

O velho Fiódor Karamázov representa a Rússia infesta, aquela que está acabando junto com o sistema de servidão (servos, ou “almas” eram forçados a permanecer nas terras que não possuíam e os donos das terras tinham o direito de dispor dos servos quase da forma como quisessem – em 19 de fevereiro de 1861 Alexandre II decreta o fim deste sistema).

Os três irmãos representam os componentes humanos:

  • Espírito (Aliócha – uma pessoa de fé, tem uma crise mas se recupera)

  • Mente (Ivan – representa o raciocinador, dá a sensação de ser distante das emoções)

  • Corpo (Dimitri – representa o cultivo das sensações)

O homem vive entre os desejos espirituais e terrenos. As mulheres representam as duas possibilidades do desejo terreno:

  • Desejos terrenos legítimos (Katierina): vida viável, usufruto dos benefícios.

  • Desejos terrenos ilegítimos (Grúchanka): ter a terra toda, excesso, sem temperança.

Dimitri cai quando decide por Grúchenka e depois se redime pela dor.

Dostoiévski indica que o a velha Rússia (o velho Karamázov) tem que morrer para nascer uma nova Rússia (remetendo ao trecho do Evangelho de São João no início do livro – tem que morrer a semente para nascer algo).

Os possíveis caminhos a seguir nesta nova Rússia são dados pelos três filhos: Dimitri, Ivan e Aliócha

Dimitri é pura emoção, portanto não é conhecimento. A vida com base em sensações não é humana, pois elas são quantitativas (Aristóteles). Porém Dimitri ainda tem salvação, mas é preciso mortificar o corpo. Simboliza, portanto, a alma russa que precisa ser depurada.

Ivan representa o pensamento revolucionário em formação. O revolucionário que toma o lugar de deus e enlouquece. Sua solução é enlouquecedora. Sua mente pode criar esquemas coerentes, mas não quer dizer que sejam verdadeiros. A mente é perigosa, a mentira vem da mente. Matar o pai na história (Ivan gritando ao sair do tribunal – “Todos querem matar o pai”) é matar Deus – matar o pai é matar o espírito para ficar com a mãe terra. Em um sentido mais superficial, Smierdiákov pode ser visto como o povo que será manipulado pelo revolucionário. Mas em contexto mais profundo ele simboliza um instrumento de Deus. O raio enviado por Deus (Zeus) que interfere para levar a uma situação. Ele nasce de forma estranha e morre de forma estranha.

Aliócha é espiritualidade pura, que Dostoiévski acreditava ser a salvação da Rússia. O episódio com o menino Iliúchka representa a inversão do karma. O velho Karamázov era odiado, mas Aliócha (o novo caminho) é ovacionado ao final – “Viva Karamázov”. Iliúchka representa o ressentido social (humilhado e ofendido), é o futuro revolucionário que Dostoiévski discute em Memórias do Subsolo.

Dostoiévski achava que o caminho da espiritualidade seria a salvação da Rússia. A solução do mundo dostoiévskiano só pode se realizar por meio do cristianismo (Aliócha). Porém a história mostra que, infelizmente, Ivan venceu no século XX.



Notas

  • Fiódor Dostoiévski (1821-1881) nasceu em Moscou, Rússia. Estreia literariamente em 1846 com Gente Pobre e O Duplo.

  • Principais obras: Crime e Castigo (1866), O Idiota (1868), Os Demônios (1871), Irmãos Karamazov (1878) e Memórias do Subsolo (1864). Outras boas obras de Dostoiévski não incluídas nas Expedições Pelo Mundo da Cultura: Humilhados e Ofendidos (1861) e Recordação da Casa dos Mortos (1855).

  • Memórias do Subsolo é o único livro do autor com conotações filosóficas. A personagem principal é figura típica do autor e chave para interpretação geral da sua obra.

  • Joseph Frank é o maior biógrafo de Dostoiévski (obra em cinco volumes – editados pela EDUSP no Brasil). O Diário de um Escritor do autor é boa fonte para entendê-lo.

  • Segundo Otto Maria Carpeaux “existem poucos escritores cuja obra tenha sido tão tenazmente mal compreendida como a de Dostoiévski”.

  • Dostoiévski escreveu uma grande interpretação da psicologia humana, associando-a aos movimentos políticos da época e profetizando a evolução do mundo moderno.

  • A narrativa de Os Irmãos Karamázov se desenvolve em uma cidade fictícia ao longo de meses na década e 1860.

  • A personagem Zósima pode ter sido inpirada em Santo Ambrósia de Optina (santo da igreja ortodoxa).

  • “Smiert”, de Smierdiákov, em russo significa morte.

  • Ivan é o criador da frase “Deus não existe, então tudo é permitido”. Coloca a religião como instrumento de dominação social.

  • Na Rússia os padres ortodoxos têm de casar, menos os que vivem nos monastérios. Daí o Stárets dizer a Aliócha para deixar o mosteiro e casar-se.

  • Esta saída do mosteiro, bem como a carta de Lisa para Aliócha, é “gancho” para os outros livros da saga que acabaram não sendo escritos. O processo de redenção de Dimitri também daria um novo livro.

  • Padre Zósima para Aliócha: “Tal é a sua vocação: buscar a felicidade na dor”. Este pensamento é o pilar da obra de Dostoiévski.

  • Não há nada mais ofensivo e humilhante para um russo do que ser puxado pela barba (como Dimitri fez com o pai de Iliúchka).

  • “O Grande Inquisidor’ – referência ao Frei Tomás de Torquemada, o Inquisidor Geral do Santo Ofício na Inquisição portuguesa e espanhola, ou seja, sob regime dos reis católicos e não mais no período medieval.

  • Outro grande diálogo no livro se dá entre o Diabo e Ivan já na parte final da narrativa.

  • Episódio do odor pútrido na sala mortuária do Padre Zósima é a mesma situação de Jesus Cristo na cruz: a fé que espera demonstrações miraculosas não é desejada. Este fato vai provocar uma crise de fé na narrativa.

  • Padre Zósima intui que Dimitri matará o pai e ajoelha-se por ver nele a redenção. Redenção pela dor que Dimitri aceita mesmo sem ter assassinado o pai.

  • Albert Camus sobre Ivan Karamázov e a parábola do Grande Inquisidor: “Ivan encarna a recusa da salvação. A fé conduz à vida imortal. Mas a fé pressupõe a aceitação do mistério e do mal, a resignação à injustiça. Aquele a quem se impede o acesso à fé não receberá, portanto, a vida imortal. Nessas condições, mesmo se a vida imortal existisse, Ivan a recusaria. Ele rejeita tal barganha. Só aceitaria a graça, se essa fosse incondicional, e é por isso que ele próprio estabelece suas condições. A revolta quer tudo ou nada.”

Trechos da Narrativa

Grande Inquisidor: “Tu não podias ignorar esse segredo fundamental da natureza humana, no entanto, repeliste a única bandeira infalível que Te ofereciam e que teria curvado sem contestação todos os homens diante de Ti, a bandeira do pão terrestre; Tu a rejeitaste em nome do pão do Céu e da Liberdade! Vê o que fizeste em seguida, sempre em nome da Liberdade! Não há, repito-Te, preocupação mais aguda para o homem que encontrar o mais cedo possível um ser a quem delegar esse dom de liberdade que o infeliz traz consigo ao nascer.”

“Esqueceste-Te então de que o homem prefere a paz e até mesmo a morte à Liberdade de discernir o bem e o mal? Não há nada de mais sedutor para o homem do que o livre-arbítrio, mas também nada de mais doloroso.”

"Aumentaste a liberdade humana em vez de confiscá-la e assim impuseste para sempre ao ser moral os pavores desta liberdade."

“Há três forças, as únicas que podem subjugar para sempre a consciência desses revoltados, a saber o milagre, o mistério, a autoridade! Tu rejeitaste todas as três dando assim um exemplo."

“Tu não desceste da cruz, quando zombavam de Ti e gritavam-Te por escárnio: 'Desce da cruz e creremos em Ti' Não O fizeste, porque de novo não quiseste sujeitar o homem por meio de um milagre. Desejas uma fé livre e não inspirada pelo maravilhoso".

Diabo com Ivan: “Na minha opinião, não é preciso destruir nada, a não ser a ideia de Deus no espírito do homem: eis por onde é preciso começar. Oh! Os cegos não compreendem nada! Uma vez que a humanidade inteira professe o ateísmo (e creio que essa época, à maneira das eras geológicas, chegará a seu tempo), então, por si mesma, sem antropofagia, a antiga concepção do mundo desaparecera, e sobretudo a antiga moral Os homens se unirão para retirar da vida todos os gozos possíveis, mas somente neste mundo. O espírito humano se elevara até um orgulho titânico e isto será a humanidade deificada. Triunfando sem cessar e sem limites da natureza pela ciência e pela energia, o homem por isso mesmo experimentará constantemente uma alegria tão intensa que ela substituirá para ele as esperanças das alegrias celestes. Cada qual saberá que é mortal, sem esperança de ressurreição, e irá resignar-se à morte com uma altivez tranquila, como um deus. Por altivez, ira abster-se de murmurar contra a brevidade da vida e amará seus irmãos de uma maneira desinteressada. O amor só procurará gozos breves, mas o próprio sentimento de sua brevidade reforçará a sua intensidade tanto quanto outrora ele se disseminava nas esperanças de um amor eterno, além-tumular... e assim por diante. É encantador!”

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