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A Terceira Existência de Joseph Kerkhoven de Jakob Wassermann


A história não passa no fundo de um itinerário das pessoas até Deus. – Edgar Quinet (1803-1973), historiador, filósofo e político francês


Quando duas pessoas vivem uma verdadeira comunhão, não há contagem das culpas nem cobrança de dívidas. Cada um assume o encargo do outro em troca de confiança. – Joseph Kerkhoven (vale como definição do casamento católico)


In every person, even in such as appear most reckless, there is an inherent desire to attain balance. – Jakob Wassermann (1873-1934)

Personagens Principais Joseph Kerkhove – médico, 50 anos Marie Kerkhove – esposa de Joseph, 38 anos Alexandre Herzog – escritor, 59 anos Ganna Mewis – primeira esposa de Herzog. 51 anos Bettina – segunda esposa de Herzog


Personagens Secundárias Williem e Mabel Hardy – casal inglês do consulado em Java Aleida – filha do primeiro casamento de Marie Eugen Hansen – médico, apaixona-se por Marie Martin Mordann – dono de jornal, enfermo tratado por Joseph, 60 anos


Interpretação O que mais claramente define a personalidade de Joseph Kerkhoven é a consciência de um núcleo vital profundo que as pressões do ambiente, as taras hereditárias e o peso do hábito ameaçam a todo instante enrijecer e tornar quebradiço, e que deve constantemente adaptar-se e renovar-se para permanecer ativo e fiel a si mesmo. Ele observa, consternado, a facilidade com que as almas, levadas pela voragem das forças alienantes, se perdem de si mesmas e desenvolvem toda uma constelação de rituais neuróticos para defender-se de uma angústia que elas mesmas criaram no esforço de evitar o trabalhoso e às vezes humilhante retorno ao seu próprio centro.


Ele aprende a fazer a jornada de volta tantas vezes quanto necessário. Vive, por assim dizer, perto do seu próprio coração, de onde observa as coisas, fatos e pessoas com um realismo e uma compreensão admiráveis. Nisso reside a sua força., mas também a sua limitação permanente: ele não pode negociar nem transigir, tem de permanecer fiel a si mesmo contra todas as circunstâncias, contra todas as adversidades e seduções. É isso o que lhe permite enxergar tão claro na alma alheia ao ponto de perceber o nexo de causa e efeito entre as decisões de ontem e o sofrimento de hoje, entre os compromissos inconscientemente assumidos e as angústias que brotam anos depois como que surgidas do nada. O senso da misteriosa continuidade do destino por entre as falhas de uma atenção volúvel, salientada por mil estímulos fortuitos, é a raiz da sua capacidade de restaurar vidas estilhaçadas e corações retalhados.


Kerkhoven é, sem dúvida, o alter ego do romancista, cuja tarefa não é outra senão a de revelar a unidade dos trajetos humanos por trás das consciências fragmentadas.


 

No primeiro volume da trilogia de Jacob Wassermann, o jovem Etzel Andergast, para corrigir um erro judiciário, destrói a vida do próprio pai. O leitor fica com a impressão amarga de que há um erro trágico no fundo do senso de justiça. No segundo volume, o erro latente se mostra à plena luz do dia, quando Etzel cai de herói para patife, seduzindo a mulher do seu melhor amigo e mestre, e covardemente fugindo. No terceiro, o marido traído, Joseph Kerkhoven, passa por uma metanoia, reencontra o sentido da vida por meio do perdão e atinge o cume da sabedoria. A obra mais cristã da literatura alemã foi escrita por um judeu.


 

As personagens todas estão indecisas, sem saber exatamente o que fazer. A grande personagem é o próprio sistema de justiça, a noção de justiça, e consequentemente a própria sociedade europeia que perdeu seu chão. Todos nós estamos nesta mesma confusão.


Há algo maligno por trás desta história toda, o colapso social.

Wassermann consegue introduzir tal personagem sem nunca nomeá-la, não há personagens agentes (como em Os Demônios).


 

O capítulo 87 é um romance dentro do romance, estendendo-se por mais de duzentas páginas, nas quais o escritor Alexandre Herzog, a conselho do Dr. Kerkhoven, conta a vida de misérias e humilhações que levou sob o império da sua esposa, a voraz e louca Ganna Mewis. É a descrição mais exata, cruel e implacável do casamento burguês, contrato comercial que substituiu ao matrimônio cristão, usurpando-lhe o estatuto de instituição altamente moral mediante o emprego de uma retórica jurídica repugnante. A autodestruição da civilização europeia já estava toda ali em germe.


Com este artifício (romance dentro do romance) Joseph Kerkhoven saí do centro da cena e nos é mostrado aquilo que ele está vendo com total devoção e esquecimento de si – com este expediente Wassemann estressa a grandeza de espírito de Kerkhoven.


Nas páginas finais o atormentado escritor Alexandre Herzog liberta-se de uma obsessão de décadas e redescobre o amor da sua esposa Betina, Joseph Kerkhoven, próximo da morte, alcança a perfeita e doce conformidade com o destino, e a raivosa Aleida, que durante a gravidez só pensava em abortar, recebe o seu bebê como uma graça divina. Bem está o que bem acaba.



 


Notas

  • Jakob Wassermann (1873-1934) nasceu em Fürth, Bavária (Alemanha).

  • A Terceira Existência de Joseph Kerkhovens foi publicado em 1934. Faz parte de uma trilogia incluindo O Processo Maurizius (1928) e Etzel Andergast (1931). A trilogia ajuda a entender como o culto e sofisticado povo alemão caiu na esparrela do nazismo.

  • Outras obras de destaque: Casper Hauser (1908), The World’s Illusion (1919) e o autobiográfico My Life as German and Jew (1921).

  • Os temas dos romances do Jacob Wassermann são: a falibilidade da justiça humana, o contraste entre a maldade e a inocência, a opressão estatal e social, a busca de Deus e do sentido da vida num mundo absurdo.

  • A ação de A Terceira Existência de Joseph Kerkhoven começa no outono de 1929 em Lindow, uma propriedade rural ao norte de Berlim.

  • O pai de Jakob Wassermann era um comerciante sem talento nem energia, que depois de vários fracassos acabou falindo e arrumou um emprego de agente de seguros que mal dava para sustentar a família. Seu consolo na vida era a mulher bonita e culta, mas ela morreu quando o filho do casal, Jakob, tinha apenas nove anos. O homem amava o filho, mas, casado em segundas núpcias, tornou-se um escravo da mulher dominadora e má que tinha especial prazer em atormentar o menino. Jakob nasceu com o talento do narrador. Inventava histórias como quem respirava, mas em casa suas narrativas só lhe valiam reprimendas e humilhações. A madrasta adquiriu o hábito de invadir o quarto do menino e rasgar as histórias que ele escrevia. Na escola não davam a ele um tratamento melhor. Aos dezesseis anos ele foi enviado a Viena para trabalhar com o tio, mas mostrou-se totalmente incompetente nas tarefas administrativas e voltou para casa, onde o receberam com recriminações e castigos e decidiram que ele só servia mesmo para alistar-se no exército. Após alguns meses de experiência, ele escreveu um poema sobre as tristezas e sofrimentos da vida militar. O sargento descobriu o poema e o leu para todo o pelotão, fazendo do jovem autor um objeto de chacota geral. Jacob nem por isso desistiu da vocação literária, mas, quando enviou o poema a um escritor famoso, Paul Heyse, do qual esperava um estímulo, recebeu dele o conselho de desistir daquilo e dedicar-se... ao comércio. Desempregado, rejeitado pela família, sem amigos nem qualquer estímulo intelectual, Jacob passou meses vagando pela Floresta Negra, dormindo no mato e alimentando-se exclusivamente dos pães que os meninos das fazendas lhe davam como recompensa das histórias que ele lhes contava. Sua vida só começou a melhorar depois que ele venceu, sobrepujando duzentos concorrentes, um concurso de contos da revista Simplicissimus, em 1896.

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