Wall Street and the Bolshevik Revolution de Antony C. Sutton

“Revolution and international finance are not at all inconsistent if the result of revolution is to establish more centralized authority.” – Antony C. Sutton
A Revolução Bolchevique não deve ser compreendida apenas como um confronto entre socialismo revolucionário e capitalismo, porque determinados representantes do grande capital financeiro ocidental – especialmente círculos ligados a Wall Street – colaboraram, direta e indiretamente, com os revolucionários russos antes, durante e depois de 1917. O autor reconstruiu o caso principalmente a partir de documentos oficiais norte-americanos, especialmente arquivos do Departamento de Estado, complementados por correspondência, memórias, documentos britânicos e canadenses e outras fontes. Sua proposição não é que Wall Street como um todo tenha criado a Revolução Russa, mas que determinados banqueiros, financistas e empresas mantiveram relações concretas com agentes revolucionários e posteriormente com o regime soviético.
O ponto de partida intelectual é uma rejeição da oposição convencional entre capitalistas e socialistas – o verdadeiro antagonismo não é necessariamente entre capitalismo e socialismo, mas entre uma sociedade descentralizada, baseada na concorrência e na iniciativa individual, e sistemas de concentração do poder. O grande capital monopolista poderia, portanto, encontrar interesses comuns com um Estado socialista centralizado. O empresário competitivo seria uma ameaça ao monopolista, enquanto uma economia dirigida politicamente poderia transformar-se num mercado previsível e controlável. Certos grandes interesses financeiros poderiam preferir uma Rússia centralizada – fosse czarista ou comunista – a uma Rússia livre, descentralizada e economicamente competitiva. Ambos, o corporate welfare state e o socialismo, permitiriam, de maneiras diferentes, a concentração político-econômica.
Leon Trotsky passou por Nova York no início de 1917 chamando atenção pela discrepância entre os modestos rendimentos conhecidos do revolucionário e os recursos de que aparentemente dispunha. Quando Trotsky deixou os Estados Unidos rumo à Rússia, foi detido pelas autoridades britânicas e canadenses em Halifax sob suspeita de levar dinheiro proveniente de socialistas e de fontes alemãs. Trotsky viajou portando documentação que lhe permitiu retornar à Rússia e, após pressões e intervenções cuja origem final é considera obscura, acabou liberado e pôde prosseguir viagem.
Muito mais bem estabelecido,é o auxílio alemão a Lenin. A Alemanha imperial tinha uma razão estratégica evidente para favorecer revolucionários russos: retirar a Rússia da Primeira Guerra Mundial. O governo alemão facilitou a famosa viagem de Lenin e outros revolucionários através da Alemanha em abril de 1917 e financiou atividades destinadas a desorganizar o adversário russo. Lenin não deve simplesmente ser qualificado como agente alemão, mas havia uma convergência temporária de interesses: Berlim pretendia desintegrar o esforço de guerra russo e obter vantagens econômicas posteriores, e Lenin pretendia utilizar as circunstâncias para estabelecer uma ditadura marxista.
É nesse circuito internacional que aparece uma das figuras decisivas: o banqueiro sueco Olof Aschberg, proprietário do Nya Banken. Antes da revolução, Aschberg já participava de negócios financeiros envolvendo a Rússia e os Estados Unidos. Durante a guerra, seu banco aparece nas transferências associadas aos revolucionários e, posteriormente, ele se tornaria dirigente do Ruskombank, banco soviético voltado às operações internacionais. A importância de Aschberg está precisamente em sua continuidade através dos três períodos: Rússia czarista, revolução e Rússia soviética. Ele representa a ponte entre o mundo financeiro ocidental e o novo poder revolucionário. O autor reconhece que parte da documentação célebre sobre o financiamento bolchevique – os chamados documentos Sisson – foi demonstrada como falsificada, mas apoia sua tese em outras fontes, particularmente telegramas e arquivos oficiais.
A estrutura financeira norte-americana da época era fortemente concentrada em torno dos grupos Morgan e Rockefeller, ligados por participações, bancos, trusts, seguradoras, ferrovias e grandes corporações. Nesse ambiente, a American International Corporation (AIC) assume importância excepcional. Seus diretores estavam ligados ao National City Bank, aos interesses Morgan e Rockefeller, à Kuhn, Loeb & Company, aos du Pont, à Stone & Webster e ao Federal Reserve Bank of New York. Portanto, não se tratava de indivíduos periféricos simpatizando romanticamente com a revolução, mas de pessoas situadas em posições centrais do sistema financeiro americano.
William Boyce Thompson, diretor do Federal Reserve Bank of New York, foi à Rússia em 1917 integrado à missão da Cruz Vermelha Americana, mas a missão possuía uma dimensão política muito maior do que sua designação humanitária sugeria. Thompson acreditava que os bolcheviques poderiam consolidar-se e que as potências ocidentais deveriam trabalhar pragmaticamente com eles. Thompson contribuiu com US$ 1 milhão para propaganda favorável à causa bolchevique e empreendeu esforços para influenciar a política britânica em relação ao novo regime. William Lawrence Saunders, também ligado ao Federal Reserve Bank de Nova York e à AIC, foi outro empresário que manifestava simpatia pelo sistema soviético. Ambos casos contradizem frontalmente a narrativa de uma hostilidade automática e universal entre alta finança americana e bolchevismo.
A investigação de Sutton também inclui John Reed, autor de Ten Days That Shook the World, Robert Minor, Ludwig Martens e Alexander Gumberg. Os revolucionários americanos ou agentes soviéticos podiam receber apoio, proteção ou emprego de indivíduos ligados ao establishment financeiro. Gumberg é particularmente significativo porque teria atuado sucessivamente junto aos bolcheviques e a importantes interesses financeiros americanos, sendo quase uma personificação da permeabilidade entre os dois mundos. John Reed, por sua vez, teria recebido apoio financeiro de Eugene Boissevain e trabalhado para uma publicação de Harry Payne Whitney, diretor do Guaranty Trust. Martens, primeiro representante soviético importante nos Estados Unidos, também aparece associado a recursos provenientes de círculos financeiros americanos.
A concentração dessas conexões confere importância quase simbólica ao endereço 120 Broadway, Nova York. Ali funcionavam ou estavam ligados o Federal Reserve Bank of New York, a American International Corporation e diversas empresas e personagens que aparecem repetidamente na narrativa. O Guaranty Trust situava-se nas proximidades, enquanto sua subsidiária Guaranty Securities estava no próprio endereço. O endereço representa uma extraordinária sobreposição institucional e pessoal entre finanças, diplomacia, comércio internacional e indivíduos ligados à atividade revolucionária.
Se todo o auxílio ocidental aos revolucionários pudesse ser explicado apenas pelo interesse em derrotar a Alemanha ou manipular os acontecimentos militares de 1917, tal suporte deveria desaparecer depois da consolidação do regime soviético. Porém, banqueiros, advogados e empresários americanos passaram a auxiliar os soviéticos na obtenção de recursos, na movimentação de ouro, no estabelecimento de representação comercial, na realização de importações e na busca por reconhecimento diplomático.
O Guaranty Trust Company, ligado ao grupo Morgan, foi uma das instituições centrais neste processo desempenhando papel relevante nas operações financeiras externas do novo regime culminando em 1922-23 no estabelecimento do Ruskombank, primeiro grande banco soviético de comércio internacional: Olof Aschberg tornou-se seu dirigente, enquanto Max May, vice-presidente do Guaranty Trust, tornou-se diretor e responsável pelo departamento estrangeiro do banco soviético. O Ruskombank, por sua vez, designou o Guaranty Trust como seu agente nos Estados Unidos – Aschberg ligava-se às finanças ocidentais antes da revolução, aparece no financiamento revolucionário e reaparece depois como banqueiro do Estado soviético.
Algumas instituições dos mesmos círculos financeiros que mantinham relações com os bolcheviques também apoiavam forças anti-bolcheviques. J. P. Morgan, por exemplo, aparece ligado ao financiamento do almirante Aleksandr Kolchak durante a Guerra Civil, enquanto o Guaranty Trust esteve associado à organização anticomunista United Americans. Porém, essa aparente contradição reforça que objetivo fundamental não seria ideológico, mas a preservação da influência, do acesso aos mercados e de estruturas centralizadas favoráveis aos grandes interesses financeiros. Assim, financiar ou cultivar relações com lados diferentes de uma disputa poderia constituir uma forma de garantir influência independentemente do vencedor.
Em suma, existe documentação de (a) uma relação continuada entre Olof Aschberg e o Guaranty Trust antes, durante e depois da Revolução, (b) da contribuição de Thompson aos bolcheviques, (c) de relações entre banqueiros americanos e propagandistas revolucionários, (d) da assistência prestada ao Soviet Bureau de Martens, e (e) das posteriores operações comerciais e bancárias entre interesses americanos e soviéticos. O mesmo ocorre com relação as revoluções no México e na China – a Revolução Russa não foi um episódio isolado, mas parte de um padrão mais amplo no qual grandes interesses econômicos procuravam influenciar movimentos revolucionários estrangeiros.
A Rússia representava simultaneamente um imenso mercado potencial e um gigantesco concorrente industrial futuro. Uma Rússia economicamente livre, descentralizada e industrializada poderia transformar-se numa poderosa rival dos Estados Unidos. Uma Rússia socialista, centralizada e tecnologicamente atrasada, ao contrário, poderia tornar-se dependente do capital, da tecnologia e dos conhecimentos ocidentais. O grande monopolista não teme necessariamente o socialismo, teme sobretudo a concorrência. O Estado socialista centralizado pode até ser conveniente porque concentra as decisões econômicas em poucas mãos, permitindo que grandes corporações negociem com uma burocracia monopolista (provavelmente corruptível) em vez de competir num mercado formado por milhares de empresários independentes.
A aliança profana entre capitalismo monopolista internacional e socialismo revolucionário internacional não é baseada numa filosofia comum, mas numa convergência de interesses. Os bolcheviques necessitavam de dinheiro, tecnologia, comércio e reconhecimento, e determinados grupos financeiros ocidentais desejavam acesso privilegiado ao mercado russo, oportunidades de concessões e uma estrutura econômica que pudesse ser tratada como um mercado cativo – uma possível colônia técnica do Ocidente: politicamente comunista, mas dependente economicamente da tecnologia e do financiamento capitalistas.
O verdadeiro contraste não é capitalismo versus comunismo, mas entre capitalismo competitivo e capitalismo monopolista. O primeiro depende de propriedade privada, concorrência e descentralização, ao passo que o segundo procura proteção política, privilégios, concessões e restrições à concorrência. Nesse sentido, o monopolista e o planejador socialista podem tornar-se aliados objetivos: ambos preferem estruturas concentradas. O empresário independente e o indivíduo livre tornam-se os verdadeiros perdedores dessa associação.
O poder econômico concentrado e poder político concentrado podem cooperar mesmo quando suas ideologias públicas parecem antagônicas – a Revolução Bolchevique seria um estudo de caso dessa convergência. A aristocracia financeira não teria desejado necessariamente o comunismo como ideal social, mas determinados membros dela teriam percebido no Estado soviético centralizado oportunidades de influência, monopólio, comércio e controle impossíveis numa Rússia genuinamente descentralizada e competitiva.
O povo russo derrubou uma ordem czarista autoritária apenas para cair sob uma concentração de poder incomparavelmente maior, enquanto interesses financeiros ocidentais que proclamavam defender a livre iniciativa contribuíram para fortalecer um sistema que a eliminava. A tragédia não reside apenas na vitória bolchevique, mas na convergência entre revolucionários que desejavam monopolizar o poder político e financistas que desejavam monopolizar oportunidades econômicas. O indivíduo – russo ou americano – é quem termina pagando o preço.
Notas
Antony Cyril Sutton (1925-2002) nasceu em Londres, Inglaterra.
Economista, historiador e escritor, conhecido principalmente por suas investigações sobre as relações entre o poder financeiro ocidental, a União Soviética e os grandes movimentos políticos do século XX.
Sua obra acadêmica mais conhecida dessa fase é Western Technology and Soviet Economic Development, publicada em três volumes entre 1968 e 1973, na qual demonstra que parcela significativa do desenvolvimento industrial soviético dependia de máquinas, conhecimentos técnicos, financiamentos e instalações industriais provenientes de países capitalistas.
Wall Street and the Bolshevik Revolution foi publicado em 1974. Outras obras relevantes incluem Wall Street and FDR (1975), Wall Street and the Rise of Hitler (1976) e The Best Enemy Money Can Buy (1986).


