O Suicídio do Ocidente de James Burnham

“O esquerdismo é a ideologia do suicídio ocidental.” – James Burnham
O autor investiga a estrutura intelectual, moral e psicológica do esquerdismo, e como mediante esta ideologia a civilização ocidental racionaliza, legitima e acelera sua perda de poder e de confiança em si mesma – o esquerdismo é a sistematização verbal do processo da contração civilizacional, fornecendo-lhe justificativas morais e intelectuais.
No começo do século XX, as potências europeias e os Estados Unidos exerciam influência política, econômica ou cultural sobre enorme parte do planeta. Nas décadas seguintes, porém, esse espaço diminuiu rapidamente, observando-se a revolução comunista na Rússia, expansão soviética, a revolução chinesa, a dissolução dos impérios coloniais europeus e a multiplicação de novos Estados na Ásia e na África. Essa retração não ocorreu porque o Ocidente tivesse sido materialmente superado, pois ele continuava dispondo de recursos econômicos, científicos, tecnológicos e militares extremamente superiores aos demais. Logo, as causas fundamentais da contração deveriam ser procuradas dentro do próprio Ocidente, em fatores intelectuais, morais e espirituais – uma civilização materialmente capaz de defender sua posição deixava progressivamente de possuir a vontade de fazê-lo.
Uma das premissas fundamentais da mentalidade progressista é a ideia de que a natureza humana é essencialmente plástica. O homem não possuiria limitações permanentes suficientemente fortes para impedir a construção de uma sociedade radicalmente melhor. Violência, pobreza, desigualdade, guerra, exploração e injustiça seriam, em grande medida, consequências de instituições sociais inadequadas e da ignorância, e não manifestações inevitáveis de características permanentes da condição humana. Eliminadas as instituições defeituosas e difundida uma educação racional, seria possível avançar indefinidamente em direção a uma sociedade caracterizada pela paz, liberdade, justiça e bem-estar.
Porém existem limites permanentes impostos pelas paixões, interesses, conflitos e desigualdades humanas. A política não pode abolir essas características, podendo apenas organizá-las, contê-las e equilibrá-las. Por isso, é perigoso passar da política entendida como administração prudencial de uma sociedade imperfeita para a política entendida como instrumento de construção de uma sociedade justa definitiva. Quanto mais elevadas forem as expectativas colocadas sobre a transformação política, maior será a possibilidade de recorrer à coerção quando seres humanos reais se recusarem a comportar-se conforme o modelo previsto.
Da concepção plástica da natureza humana passa-se para o racionalismo progressista: se os obstáculos à sociedade justa são sobretudo ignorância e instituições defeituosas, então a razão, a ciência e a educação tornam-se instrumentos fundamentais da emancipação. O racionalista desconfia da tradição, do costume, da autoridade herdada e das instituições que não possam oferecer uma justificação racional explícita. A razão passa a ser considerada capaz não apenas de compreender a sociedade, mas de redesenhá-la. O problema não está no emprego da razão em si, mas na transformação do racionalismo em uma espécie de confiança ilimitada na capacidade humana de reconstruir deliberadamente uma ordem social complexa.
O progressista tende a acreditar que os conflitos são fundamentalmente produtos da ignorância, de preconceitos ou de falhas de comunicação e que, portanto, adversários podem alcançar entendimento por meio da discussão racional – ideia particularmente perigosa nas relações internacionais, porque os conflitos entre Estados e movimentos políticos nem sempre decorrem de incompreensão, podendo resultar de interesses efetivamente incompatíveis e da vontade de poder. O adversário pode compreender perfeitamente uma proposta e rejeitá-la porque pretende algo diferente. A disposição permanente para negociar, quando não acompanhada pela compreensão das relações de força, pode converter-se em instrumento de concessão unilateral.
A importância da igualdade jurídica ou da igualdade política é característica das democracias modernas, o problema é a transformação da igualdade em princípio moral dominante. O progressismo tende continuamente a deslocar-se da igualdade perante a lei para a redução das desigualdades econômicas, sociais e culturais. Como as pessoas diferem em capacidades, ambições, escolhas, circunstâncias e resultados, a tentativa de produzir uma igualdade cada vez maior exige intervenção política crescente. Surge daí uma tensão estrutural entre igualdade e liberdade: quanto mais o Estado pretende corrigir resultados desiguais, mais precisa administrar a atividade espontânea dos indivíduos.
A mesma lógica aparece na discussão do Estado de bem-estar social. Enquanto a mentalidade conservadora dá prioridade à iniciativa individual, à oportunidade, ao mercado e à responsabilidade pessoal, a mentalidade progressista dá maior peso à segurança, cooperação e bem-estar coletivo. Ambas podem afirmar buscar o bem comum, mas divergem quanto à ordem causal: para uma, indivíduos livres e responsáveis produzem uma sociedade próspera, enquanto para a outra, a garantia coletiva das condições sociais permite que os indivíduos realizem suas potencialidades. Essa diferença de prioridades acaba produzindo concepções distintas do papel legítimo do Estado.
Uma ideologia não é avaliada apenas pela veracidade de suas proposições. Ela também desempenha funções sociais e psicológicas. As pessoas podem professar crenças contraditórias sem perceber plenamente suas implicações, e uma doutrina pode sobreviver apesar de fracassos empíricos porque satisfaz necessidades morais e emocionais. Por isso, é questionável se os progressistas realmente acreditam no progressismo. Muitas vezes acreditam sinceramente em seus princípios abstratos, mas não necessariamente aceitam todas as consequências práticas desses princípios – daí a abstração dos fracassos e crimes das experiências socialistas e comunistas. A ideologia esquerdista funciona menos como um sistema lógico rigoroso do que como uma estrutura de sentimentos, preferências e julgamentos morais.
O progressista moderno tende a privilegiar igualdade sobre diferenciação, segurança sobre risco, internacionalismo sobre patriotismo, bem-estar coletivo sobre iniciativa individual e negociação sobre afirmação do poder. O problema decisivo não é que qualquer um desses valores seja intrinsecamente ilegítimo. O problema estaria na sua hierarquização. Uma civilização que coloca sistematicamente os interesses dos outros acima dos próprios, que considera moralmente suspeito seu próprio poder e que interpreta a defesa dos próprios interesses como manifestação de egoísmo ou opressão pode tornar-se incapaz de preservar as condições institucionais que permitem a existência daqueles mesmos valores.
A culpa é uma característica geral da condição humana, mas ela assume uma forma específica entre as elites progressistas ocidentais. O cristianismo tradicional reconhecia a universalidade da culpa e oferecia um mecanismo de redenção, já o progressismo secularizado busca transferir a culpa do indivíduo para a civilização e suas instituições. Colonialismo, desigualdade, riqueza, poder militar e privilégios históricos tornam-se objetos dessa consciência culpada. O ocidental privilegiado passa a interpretar seu próprio sucesso como algo que precisa ser moralmente justificado perante os menos favorecidos. Dessa maneira, a culpa individual pode transformar-se em culpa coletiva e finalmente em hostilidade à própria sociedade da qual o indivíduo faz parte.
Há uma assimetria na maneira como progressistas ocidentais avaliam movimentos políticos. Erros, crimes ou abusos cometidos por forças consideradas historicamente progressistas recebem maior tolerância ou contextualização – pas d'ennemi à gauche –, enquanto atos semelhantes praticados por forças classificadas como conservadoras são condenadas com severidade. Tal assimetria revela que a ideologia não funciona simplesmente como um conjunto neutro de princípios universais, contendo uma direção histórica implícita, segundo a qual determinados movimentos são percebidos como representantes do futuro e outros como obstáculos a ele.
Essa lógica produz a dialética do esquerdismo: princípios aparentemente universais acabam funcionando de maneira assimétrica quando aplicados à luta política concreta. Autodeterminação nacional, por exemplo, favorece movimentos anticoloniais que diminuem o domínio das potências ocidentais, o internacionalismo tende a limitar a soberania das próprias nações ocidentais, a crítica ao poder concentra-se especialmente no poder exercido pelo Ocidente, e a defesa das culturas não ocidentais pode coexistir com uma crítica radical às tradições culturais ocidentais. O resultado acumulado é que valores formulados como universais operam repetidamente numa única direção histórica: enfraquecer a legitimidade do poder ocidental.
A política externa norte-americana constitui uma demonstração prática desse fenômeno. Escrito no contexto da Guerra Fria, o livro interpreta episódios como Suez, Hungria, Cuba, a descolonização e a expansão comunista através desse prisma (ver detalhes nas notas abaixo). As democracias ocidentais têm dificuldade de pensar em termos de poder e interesse nacional. Uma potência não deixa de possuir adversários porque prefere o diálogo, e tampouco consegue preservar uma ordem internacional apenas demonstrando boas intenções – poder não utilizado não deixa simplesmente de existir, mas tende a ser ocupado por outros agentes dispostos a empregá-lo.
A sociedade perfeita prometida pelo racionalismo político é inviável: desigualdades persistem, conflitos internacionais permanecem, interesses continuam divergindo e o poder não desaparece. Quando a realidade contradiz a teoria, porém, a reação ideológica pode consistir não em abandonar o ideal, mas em atribuir o fracasso à insuficiência da transformação realizada. Esse mecanismo produz uma escalada: se determinada intervenção não produziu igualdade suficiente, exige-se mais intervenção, se a educação não eliminou preconceitos, pede-se maior transformação educacional, e se o diálogo não resolveu o conflito, atribui-se o fracasso à persistência de estruturas consideradas irracionais. O ideal permanece protegido contra a refutação porque cada fracasso pode ser reinterpretado como prova de que o programa ainda não foi aplicado suficientemente.
Uma doutrina tão difundida não poderia sobreviver apenas por erro intelectual, ela precisa desempenhar uma função. E a função histórica do progressismo é justamente tornar psicologicamente aceitável a retração do Ocidente. A perda de território, influência, autoridade, poder e confiança deixa de ser percebida como derrota quando pode ser reinterpretada como emancipação, justiça, autodeterminação ou progresso. Assim, a ideologia oferece uma justificativa moral para que uma civilização aceite voluntariamente a diminuição de seu próprio poder.
Uma civilização pode perder a vontade de continuar existindo como civilização antes de perder os meios materiais necessários à sua sobrevivência. Quando suas elites deixam de acreditar na legitimidade de sua história, de suas instituições e de seu poder, passam a interpretar a própria decadência como virtude – o “suicídio” não uma derrota imposta de fora, mas uma renúncia produzida de dentro.
Civilizações não sobrevivem apenas graças à riqueza, tecnologia ou força militar, pois precisam também considerar sua própria existência digna de preservação. O perigo do esquerdismo não é simplesmente a defesa da igualdade, do bem-estar, da paz ou da autodeterminação – valores que isoladamente podem ser legítimos – mas uma combinação de racionalismo utópico, igualitarismo, culpa histórica, internacionalismo e desconfiança do próprio poder que, levada às últimas consequências, dissolve a disposição da civilização ocidental para defender a si mesma.
Notas
James Burnham (1905-1987) nasceu em Chicago (IL), USA.
Filósofo, teórico político e ensaísta, uma das figuras mais interessantes do realismo político e do conservadorismo americano do século XX. Participou da fundação da revista National Review, de William F. Buckley Jr., tornando-se um dos principais intelectuais do então nascente movimento conservador americano.
Após uma juventude trotskista, Burnham evoluiu para um realismo político fortemente anticomunista. Passou a estudar o poder menos pelas justificações ideológicas dos governantes do que pelas estruturas efetivas através das quais minorias organizadas governam as sociedades.
A lista de outros de seus trabalhos importantes incluem: The Managerial Revolution: What Is Happening in the World (1941), The Machiavellians: Defenders of Freedom (1943), The Struggle for the World (1947), The Coming Defeat of Communism (1950), e Containment or Liberation? (1953).
Suicide of the West: An Essay on the Meaning and Destiny of Liberalism foi publicado em 1964.
Suez (1956) – o Ocidente agindo contra si mesmo. Quando Grã-Bretanha, França e Israel atacaram o Egito após a nacionalização do Canal por Nasser, os Estados Unidos pressionaram seus próprios aliados a recuar. Washington não apenas abandonou duas potências ocidentais, mas contribuiu para que o Ocidente perdesse o controle de um dos dois ou três pontos estratégicos mais importantes do mundo. O mais significativo é que os EUA acabaram objetivamente alinhados à URSS contra britânicos e franceses. Suez simboliza, portanto, a substituição da defesa dos interesses estratégicos ocidentais por princípios abstratos como anticolonialismo, autoridade da ONU, igualdade entre as nações e condenação do uso da força.
Hungria (1956) – a renúncia à libertação. Enquanto os EUA intervieram politicamente contra seus aliados em Suez, permaneceram praticamente inativos quando a União Soviética esmagou militarmente a revolta húngara. As condições eram excepcionalmente favoráveis para pressionar o bloco soviético: o regime pós-Stalin ainda estava se consolidando, havia agitação na Europa Oriental e a revolta possuía amplo apoio popular. A ausência de ação mostrou que a política de libertação (rollback) dos países dominados pelo comunismo havia sido abandonada na prática.
Cuba (1959–1961) – o comunismo chega ao hemisfério americano. Entre 1959 e 1960, o movimento comunista conseguiu sua primeira cabeça-de-ponte nas Américas. Cuba não representava apenas a perda de uma ilha para o comunismo, mas uma base a partir da qual poderiam ser organizadas guerrilhas, operações paramilitares e movimentos revolucionários por toda a América Latina. A resposta norte-americana – especialmente o fracasso da Baía dos Porcos – demonstra que os EUA possuíam enorme superioridade material, mas estavam cada vez menos dispostos a empregá-la decisivamente contra a expansão revolucionária.
Descolonização – transformação da retirada em virtude moral. Vastas regiões da Ásia, Oriente Médio e África que antes estavam integradas ao sistema de poder ocidental deixaram de estar – os próprios Estados Unidos passaram a promover esse processo em nome do anti-imperialismo, autodeterminação, igualdade racial e descolonização. Mas a perda objetiva de poder ocidental era reinterpretada ideologicamente como progresso moral. É precisamente esse mecanismo que explica a expressão “suicídio do Ocidente”: não se trata simplesmente de ser derrotado por um adversário, mas de considerar moralmente virtuosa a própria retirada.
Expansão comunista – um adversário dotado de vontade contra um Ocidente que a perde. A expansão soviético-comunista desde 1917 foi um processo contínuo: Rússia, Europa Oriental, China, partes da Ásia e finalmente Cuba. Onde o comunismo tomava completamente o poder não ocorria apenas uma mudança de governo: o território, sua população e seus recursos eram incorporados a um contra-sistema hostil à civilização ocidental. Essa expansão só foi possível porque o Ocidente estava perdendo a confiança em sua própria causa e disposição para exercer seu poder. A passagem da política de contenção para coexistência foi danosa, pois o comunismo continuava concebendo a coexistência como parte da luta revolucionária, enquanto os ocidentais tendiam a entendê-la como substituição da luta pela negociação.


