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Tróilo e Cressida de William Shakespeare


Devassidão, devassidão! Sempre, guerra e devassidão! É o que sempre está na moda. Que um diabo em chamas arrebate a eles todos! – Tersites sintetiza o mundo moderno (Ato V – Cena II)

Personagens Principais Tróilo – filho de Príamo Cressida – jovem troiana Ulisses – comandante grego Hector – filho de Príamo Personagens Secundárias Príamo – rei de Troia Calcante – sacerdote troiano, pai de Cressida Pândaro – tio de Cressida Tersites – grego disforme e maldizente Agamémnone – general dos gregos Ajaz, Nestor, Diomedes e Aquiles – comandantes gregos


Interpretação Tendo como cenário uma versão degradada da narrativa de Troia, o drama apresenta uma série de debates sobre valor, verdade, honra, hierarquia, ordem e caos.


Seria o valor de algo – um soldado, uma mulher, uma joia – apenas aquele que os outros lhe atribuem? E o que dizer da reputação de Helena como a mais bela entre todas as mulheres? Ela vale o sangue derramado naquela guerra? Heitor crê que não, e quer devolvê-la a Menelau, encerrando a contenda – acredita que valor é algo intrínseco e Helena não o possui. Mas Tróilo e Páris contradizem que valor depende somente de avaliação (tomaram Helena pelo que ela parecia ser e querem mantê-la em defesa de sua (deles) própria honra):


Trólio: “Nada vale mais que o preço que nós próprios damos.”


Heitor: “Mas não depende este valor apenas da vontade pessoal. A dignidade de um objeto e seu preço se regulam pelo valor, não só, que lhe for próprio, como pelos encômios do entendido.” (Ato II – Cena II).


Os argumentos são abstratos: valor é uma questão de verdade ou de opinião? Disputa tratada desde Platão, sendo opinião (doxa) sempre inferior a verdade.


Honra, fama, virtude militar existe apenas na boca dos outros? A tentativa de Ulisses de atrair Aquiles de volta à luta aborda o problema da fama. Honra, fama, seria meramente reputação – valor refletido na opinião dos outros; uma vez que o reflexo cessa, a honra desaparece; não é intrínseco ao seu possuidor, mas sujeito à regra do tempo:


Ulisses: “O tempo, meu senhor, carrega às costas um alforje de esmolas para o olvido, monstro que a ingratidão torna gigante. Essas migalhas são os grandes atos do passado, que ficam devorados no instante que são feitos, esquecidos tão logo que se afirmam.” (Ato III – Cena III)


Também é de Ulisses o destacado discurso sobre hierarquia e ordem:


Ulisses: “(…) os próprios céus, os astros e seu centro revelam propriedade, graus e postos, hora, estação, parada, curso e forma, hábito e ofício em modelar sequência. Por isso tudo o sol, planeta excelso, em nobre preeminência o trono ostenta em sua esfera própria, entre outros astros; seu olho salutar corrige os males que as estrelas nocivas ocasionam, e como editos reais, sem contradita promove bens e males. Porém, quando em nociva mistura os astros andam, desordenadamente, que de pragas, portentos, que desordens, terremotos, que agitações dos ventos e das ondas transmutações, catástrofes, horrores, fendem, abalam, desarreigam, tiram, quase, dos próprios gonzos a unidade e a calma consorciada dos Estados! Quando abalada fica a jerarquia, que é a própria escada para os altos planos, periclita a obra toda. Como podem ter estabilidade duradoura os degraus das escolas, os Estados, os membros das corporações, o tráfico pacífico entre praias afastadas, os direitos do berço e nascimento, de primogenitura, os privilégios da idade, louros, cetros e coroas, se a desfazer-se viesse a jerarquia? Tirai a jerarquia; dissonante deixai só essa corda, e vede a grande discórdia que se segue! As coisas todas cairão logo em conflito; as fortes ondas, contidas até então em seus limites, o seio elevarão além das praias, a papa reduzindo a terra firme; sobre a fraqueza dominara a força; o rude filho ao pai tirara a vida; fora o direito a força; o justo e o injusto — cuja tensão contínua, equilibrada sempre é pela justiça — acabariam perdendo o nome, como também esta. Todas as coisas no poder se abrigam; o poder, na vontade, que se abriga, por sua vez, na cobiça. Ora, a cobiça, esse lobo de todos, tendo o apoio redobrado da força e da vontade, transforma logo em presa o mundo todo, para a si mesmo devorar por último. Grande Agamémnone, sufocada que seja a jerarquia, segue-se o caos ao seu abafamento.” (Ato I – Cena III)


Esta grande dissertação sobre a necessidade de hierarquia é proferida maquiavelicamente por Ulisses que só visa o retorno de Aquiles à guerra. Mas assim como a defesa do real valor, da verdade e da honra, esta também falhará no seu intento.


O grande debate entre os irmãos detém a chave intelectual da peça, e seu efeito é acentuado pela caracterização de cada um: Heitor pensativo, maduro, paciente, temeroso do desastre; Tróilo jovem, apaixonado por sexo e luta, amor e honra – a paixão subverteu a sua razão (o controle dos apetites concupiscíveis e irascíveis é condição indispensável para a sabedoria).


Tróilo e Cressida apresenta uma atmosfera de desilusão, um ceticismo corrosivo que beira o cinismo niilista. Desdenha de todas as pretensões a sentimentos ou ideais mais nobres ou mesmo à moralidade. Nenhuma das personagens é poupada de críticas mordazes. Todos são, mais cedo ou mais tarde, mostrados como falsários, hipócritas e enganadores.


Neste conflito entre o ideal heroico e um realismo prosaico prevaleceu o reverso da virtude expresso no elóquio misantropo de Tersites, para quem o amor é luxúria, e a busca por honra mera cólera. A ordem fora destruída, os valores colapsaram porque os gregos e troianos lutavam por um objeto indigno, a voluptuosa Helena. O caos instalado repercutirá na destruição de Troia, nos excessos cometidos pelos gregos após a vitória e no seu desastroso regresso à terra natal.


O caos de Tróilo e Cressida expressa-se no interior das personagens, permeando todo o entorno social. A perda da transcendência – o homem como medida de todas as coisas – é a quebra da maior hierarquia, a qual fatalmente produzirá a ruína social.


 

A desintegração da autoridade significa o colapso da justiça. O poder está novamente à solta no mundo, reduzindo-se a vontade racional ao apetite – começo da fragmentação social. O objetivo do hierarquia é evitar a fragmentação. Portanto, devemos ascender do poder de volta à autoridade. Como isso pode ser feito, a menos que os homens estejam preparados para reconhecer – neste ou naquele indivíduo, neste ou naquele cargo – uma autoridade investida pela qual eles são constrangidos? Como submeter-se diante de autoridades desprovidas de toda a responsabilidade e dever intrínsecas a sua posição?



 

O conservadorismo adverte que a lógica, as proposições e o raciocínio prático têm apenas um papel menor a desempenhar no discernimento da verdade. Pois a razão é uma ferramenta que pode ser usada tanto para ajudar como para prejudicar. E os fatos repetidos da história humana demonstram que sem um fundamento em um padrão superior permanente ou fonte de verdade, visões morais criadas pela razão são facilmente destruídas pela razão; e a vida comum da sociedade, desprovida de princípios e práticas morais subjacentes, logo se reduz a uma disputa, primeiro de razões irreconciliáveis, depois de poderes políticos opostos.



 


Notas

  • William Shakespeare (1564-1616) em Stratford-upon-Avon, Inglaterra. Era católico num mundo protestante.

  • Shakespeare escrevia, dirigia, produzia e atuava em suas peças. Deixou-nos a maior obra teatral do mundo moderno.

  • Apesar de serem denominadas como Tragédias, as peças de Shakespeare são Dramas. Pois o que caracteriza a tragédia é a inexistência da malícia humana.

  • Bons livros para entender Shakespeare: Sobre Shakespeare de Northrop Frye e A Arte Sagrada de Shakespeare de Martin Lings.

  • Tróilo e Cressida foi escrita entre 1599 e 1603 é publicada pela primeira vez em 1609.

  • A peça se desenvolve em Troia e no acampamento grego defronte da cidade

  • Os nomes de Tróilo e Cressida são mencionados por Homero, mas o romance entre ambos é uma criação medieval que alcançou a Bretanha através da pena de Chaucer (Troilus and Criseyde) – mescla de heroísmo clássico com amor cortês.

  • O prólogo de Tróilo e Cressida começa com uma linguagem elevada, mas torna-se irreverente em relação as personagens e rude com o público – oposto ao tom adotado no prólogo de Romeu e Julieta.

  • A presença de debates complexos explica a razão de muitos críticos considerarem que esta peça foi escrita para um público especial, talvez em uma das Inns of Court, onde os argumentos seriam melhor apreciados; mas provavelmente também foi apresentada no Globe.

  • Tersites é, talvez, o primeiro daqueles que Dostoiévski chama de “os homens do subsolo”; ele insulta a sociedade por ser hipócrita em seus ideais professados e derrama sobre os outros a escória de seu autodesprezo.

  • O Ulisses de Shakespeare é uma paródia dos políticos.

  • Em Tróilo e Cressida Shakespeare deliberadamente subverter as lendas – as devoções ortodoxas da coragem troiana e da bravura grega são derrubadas, revelando uma realidade insensível, brutal e hipócrita subjacente aos atos de ambos os lados. Isso pode ter sido um artifício para burlar a censura e critica a Inglaterra. Shakespeare era proibido de lamentar a condição de seu próprio país nos palcos de Londres, mas a apresentação do mundo antigo era tratada com considerável clemência pelos censores. O que poderia ser mais natural do que desabafar sua fúria conservadora em um contexto mais seguro?

  • Hierarquia – do grego hieros (augusto, admirável, potente, santo) e arkhê (princípio, o que está na frente). Há algo de sagrado na hierarquia (demandando deveres de todos os envolvidos).

  • O conceito de hierarquia já se encontrava em Platão, e.g. do mundo inteligível e do mundo sensível, e no mundo das ideias (hierarquia ontológica). Aristóteles desenvolve a hierarquia lógica (subgêneros, gêneros, subespécies, espécies).

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