The Search for Neofascism de A. James Gregor

“Whatever the argued distinctions between the right and the left, the term ‘fascist,’ regardless of its reference, has remained, in ordinary language, a general term of disapprobation, having emotive impact but scant cognitive content.” – A. James Gregor
O fascismo tornou-se uma das palavras mais abusadas do vocabulário político contemporâneo. Décadas depois do desaparecimento do regime de Benito Mussolini, o termo continua sendo empregado para designar uma variedade quase ilimitada de movimentos, doutrinas e comportamentos, frequentemente sem qualquer preocupação com sua correspondência histórica. Nacionalismo, conservadorismo, autoritarismo, anticomunismo, racismo, xenofobia, fundamentalismo religioso e até manifestações de violência juvenil são indiscriminadamente reunidos sob a denominação de fascismo ou neofascismo. O resultado é uma profunda deterioração da linguagem das ciências sociais, na qual conceitos que deveriam servir à compreensão da realidade transformam-se em instrumentos de condenação moral e desqualificação política.
A investigação do neofascismo encontra-se comprometida por um vício fundamental: procura identificar os herdeiros de um fenômeno histórico sem estabelecer satisfatoriamente o que esse fenômeno efetivamente foi. O fascismo italiano, o nacional-socialismo alemão e os movimentos autoritários contemporâneos são frequentemente tratados como manifestações de uma mesma essência política, apesar de suas diferenças ideológicas, institucionais e históricas. Essa confusão tem raízes na propaganda da Segunda Guerra Mundial, quando a necessidade de mobilizar a opinião pública contra as potências do Eixo favoreceu a identificação de todos os adversários com uma categoria comum. A simplificação, compreensível nas circunstâncias da guerra, sobreviveu ao conflito e acabou incorporada ao discurso acadêmico.
A interpretação marxista contribuiu decisivamente para essa deformação. Desde os anos 1920 e 1930, o fascismo foi apresentado como instrumento político da burguesia industrial e financeira, destinado a impedir a revolução proletária e preservar o capitalismo diante de suas contradições internas. A formulação consagrada pela Internacional Comunista, particularmente sob a influência de Stalin e Georgi Dimitrov, converteu o fascismo na expressão extrema da reação capitalista. Essa interpretação permitiu classificar como fascistas praticamente todos os movimentos anticomunistas, independentemente de seus objetivos econômicos, de sua composição social ou de suas convicções ideológicas.
A documentação histórica, entretanto, não sustenta a redução do fascismo italiano a uma simples conspiração dos grandes capitalistas. O regime de Mussolini constituiu um movimento revolucionário autônomo, dotado de uma concepção própria da sociedade e do Estado. Embora tenha preservado formalmente a propriedade privada, subordinou progressivamente a atividade econômica aos objetivos políticos nacionais. O sistema corporativo, o intervencionismo estatal e a crescente direção pública da indústria demonstram que o fascismo não se limitava à proteção dos interesses empresariais. Seu propósito era mobilizar os recursos materiais e humanos da nação para acelerar a industrialização, conquistar autonomia econômica e transformar a Itália numa potência moderna.
A interpretação convencional também obscureceu as afinidades existentes entre o fascismo e determinadas correntes do socialismo revolucionário. O fascismo italiano não surgiu simplesmente da direita tradicional, mas de uma complexa combinação de nacionalismo, sindicalismo revolucionário, socialismo heterodoxo e teorias da mobilização política. Sua concepção de Estado, sua rejeição do individualismo liberal, sua defesa da organização coletiva da economia e sua pretensão de transformar integralmente a sociedade aproximavam-no, em aspectos importantes, dos movimentos revolucionários marxistas. A oposição entre fascismo e comunismo não elimina suas semelhanças estruturais, assim como a rivalidade política entre dois regimes não demonstra necessariamente uma oposição absoluta entre suas concepções de organização social.
O desenvolvimento dos estudos históricos, particularmente com as contribuições de Renzo De Felice, Ernst Nolte e Zeev Sternhell, permitiu recuperar a complexidade intelectual do fascismo. Em lugar de considerá-lo uma explosão irracional de violência, ódio e ressentimento, tornou-se possível reconhecer a existência de uma ideologia articulada, sustentada por concepções específicas de história, autoridade, economia, nacionalidade e revolução. Reconhecer essa coerência não significa justificar seus crimes, mas admitir que movimentos políticos não podem ser compreendidos mediante sua simples condenação moral. O estudo científico exige distinguir aquilo que os homens acreditavam, os objetivos que perseguiam e os resultados efetivamente produzidos por suas ações.
A própria identificação entre fascismo italiano e nacional-socialismo alemão exige qualificações fundamentais. Ambos foram nacionalistas, autoritários, mobilizadores de massas e adversários da democracia liberal, mas suas respectivas ideologias não eram equivalentes. O racismo biológico e o antissemitismo exterminador ocuparam posição central no nacional-socialismo, enquanto o fascismo italiano nasceu de uma tradição intelectual distinta, predominantemente nacionalista, estatista e desenvolvimentista. A adoção posterior de políticas raciais pelo regime de Mussolini não elimina essas diferenças de origem e estrutura. A fusão dos dois fenômenos numa categoria indiferenciada impede compreender tanto a especificidade do fascismo quanto a singularidade histórica do nacional-socialismo.
A dificuldade torna-se ainda maior quando se procura reconhecer um fascismo genérico, supostamente reproduzível em diferentes épocas e sociedades. Se a categoria for definida de maneira muito restrita, praticamente nenhum movimento posterior poderá ser considerado fascista. Se for definida de maneira excessivamente ampla, acabará incluindo nacionalismos, ditaduras militares, movimentos revolucionários, organizações religiosas e regimes socialistas que compartilham algumas características, mas divergem profundamente em outras. A validade de uma classificação depende de sua capacidade de distinguir fenômenos, e não de reunir indiscriminadamente tudo aquilo que desperta reprovação política.
O fascismo histórico deve ser compreendido no contexto das condições que favoreceram seu surgimento: a experiência traumática da Primeira Guerra Mundial, a percepção de humilhação nacional, a fragilidade institucional, a mobilização das massas, o atraso relativo da industrialização e a ambição de construir um Estado capaz de superar a inferioridade econômica e militar da nação. A promessa fascista consistia na regeneração coletiva por meio de uma revolução nacional, conduzida por uma elite disciplinada e organizada em torno de uma liderança carismática. O indivíduo deveria encontrar sua realização na comunidade nacional, e a sociedade deveria abandonar os conflitos partidários e de classe em favor de uma unidade política superior.
Essas características não pertencem exclusivamente à direita. A mobilização revolucionária, o partido disciplinado, a liderança carismática, a subordinação do indivíduo ao coletivo e o planejamento estatal também aparecem em experiências marxistas-leninistas. A insistência em localizar o fascismo necessariamente na extrema direita decorre mais de convenções políticas herdadas do século XX do que de uma análise consistente de suas propriedades históricas.
A busca pelo neofascismo na Europa do pós-guerra ilustra a precariedade dessas classificações. Pequenos grupos de antigos fascistas e nacional-socialistas sobreviveram à derrota militar de 1945, preservando símbolos, lembranças e algumas convicções dos regimes desaparecidos. Contudo, a existência de indivíduos nostálgicos não constitui prova da sobrevivência de um movimento histórico dotado de unidade doutrinária. Muitos desses grupos eram politicamente insignificantes, intelectualmente incoerentes e incapazes de reproduzir as condições sociais que haviam permitido a ascensão do fascismo original.
O caso italiano é especialmente revelador. O Movimento Sociale Italiano, surgido depois da guerra, reuniu antigos partidários do regime de Mussolini, mas sua trajetória envolveu adaptações profundas às instituições republicanas. A posterior transformação desse ambiente político na Alleanza Nazionale, sob a liderança de Gianfranco Fini, evidenciou um processo de afastamento de importantes elementos da tradição fascista. A participação em eleições, a aceitação do pluralismo constitucional e a integração ao governo parlamentar não podem ser simplesmente descartadas como disfarces de um fascismo oculto. Quando toda declaração democrática é interpretada como fraude e toda evidência contrária à hipótese neofascista é apresentada como prova de sua capacidade de dissimulação, a classificação torna-se impossível de refutar. Deixa, portanto, de funcionar como instrumento legítimo de investigação científica.
O mesmo problema aparece na identificação do neofascismo com movimentos nacionalistas e conservadores da Europa ocidental e dos Estados Unidos. A hostilidade à imigração, a defesa de tradições nacionais, o anticomunismo e a rejeição de determinadas políticas sociais não bastam para estabelecer continuidade ideológica com Mussolini. Tampouco grupos racistas, milícias, organizações de supremacistas brancos ou associações juvenis violentas podem ser considerados fascistas apenas porque manifestam intolerância ou recorrem à violência. O racismo e a violência política existiram muito antes do fascismo e manifestaram-se em regimes e movimentos de orientações inteiramente diferentes.
A inadequação da classificação torna-se particularmente evidente quando se examina o pensamento de Julius Evola, frequentemente apresentado como um dos grandes inspiradores intelectuais do neofascismo europeu. Sua filosofia tradicionalista, aristocrática, esotérica e radicalmente anti-moderna divergia de aspectos essenciais da ideologia fascista italiana. Enquanto o fascismo procurava mobilizar as massas, industrializar a economia e construir um Estado nacional moderno, Evola rejeitava a própria civilização moderna, o igualitarismo, a democracia de massas e o materialismo associado ao desenvolvimento industrial. Sua concepção de uma ordem espiritual hierárquica, fundada em princípios transcendentes e numa aristocracia de qualidades superiores, era incompatível com a orientação predominantemente secular, nacionalista e modernizadora do fascismo.
O pensamento de Evola não pode ser confundido com o de Mussolini simplesmente porque ambos rejeitavam o liberalismo e o comunismo. Evola desprezava o nacionalismo de massas, considerava insuficiente a autoridade meramente política e subordinava a organização social a uma hierarquia espiritual que antecederia a própria formação do Estado moderno. Suas especulações sobre raça, tradição, castas e civilizações antigas pertenciam a um universo intelectual muito diferente daquele dos principais teóricos fascistas. Sua influência sobre pequenos grupos radicais posteriores à guerra não transforma retrospectivamente sua filosofia numa expressão representativa do fascismo histórico. A identificação entre tradicionalismo radical e fascismo revela, mais uma vez, a tendência de reunir sob uma mesma denominação doutrinas que possuem apenas algumas afinidades superficiais.
A aplicação seletiva da categoria torna-se ainda mais problemática quando se consideram os movimentos nacionalistas negros dos Estados Unidos. O movimento organizado por Marcus Garvey, por meio da Universal Negro Improvement Association, apresentava características frequentemente apontadas como distintivas do fascismo: nacionalismo militante, exaltação da comunidade racial, liderança carismática, disciplina coletiva, organização de massas, símbolos uniformizadores, rituais públicos e ambição de regeneração nacional. Garvey defendia a recuperação da dignidade dos negros mediante a construção de uma consciência coletiva, a autonomia econômica, a solidariedade racial e a criação de instituições próprias. A emancipação dependeria da superação da dispersão individual e da submissão voluntária a uma causa nacional comum.
A semelhança entre determinados aspectos do garveyismo e do fascismo italiano não pode ser ignorada apenas porque o primeiro surgiu entre uma população historicamente oprimida. O nacionalismo de Garvey também possuía uma dimensão revolucionária, voltada à transformação da condição coletiva de seu povo. Sua concepção da liderança, sua ênfase na disciplina e sua defesa da unidade racial aproximavam-se de características atribuídas ao fascismo. Entretanto, a maior parte dos estudos acadêmicos evita essa comparação, ao mesmo tempo que aplica prontamente o rótulo fascista a movimentos nacionalistas brancos que apresentam características semelhantes. A assimetria demonstra que a classificação frequentemente depende da identidade racial e da posição política dos envolvidos, e não de critérios conceituais uniformes.
A Nation of Islam, particularmente sob a liderança de Elijah Muhammad, oferece outro exemplo das dificuldades conceituais. Sua doutrina articulava separatismo racial, autoridade religiosa, disciplina moral, rejeição da integração racial e uma interpretação mitológica da história humana. Os negros eram apresentados como membros de uma comunidade originária superior, enquanto os brancos eram descritos, em sua mitologia racial, como uma população artificialmente produzida e essencialmente destrutiva. A narrativa atribuía aos conflitos raciais um significado cósmico e religioso, transformando a emancipação negra numa missão de regeneração espiritual e coletiva.
O movimento desenvolveu uma organização hierárquica, exigiu obediência aos seus dirigentes e estabeleceu normas rigorosas de conduta pessoal. Seu separatismo, sua hostilidade aos brancos e suas manifestações antissemitas apresentavam analogias com certas doutrinas supremacistas brancas. No entanto, enquanto estas últimas eram frequentemente classificadas como neofascistas, a Nation of Islam raramente recebia a mesma denominação. A diferença de tratamento não decorre de uma análise sistemática das propriedades ideológicas dos movimentos, mas de pressupostos políticos e morais que antecedem a investigação.
Ainda assim, a existência de semelhanças não autoriza classificar automaticamente a Nation of Islam como fascista. Sua estrutura religiosa, sua escatologia, suas concepções raciais e sua posição social particular exigem análise específica. O propósito da comparação não é demonstrar que todo nacionalismo racial constitui fascismo, mas evidenciar a inconsistência de uma metodologia que emprega critérios diferentes conforme o movimento examinado. Se racismo, autoritarismo, separatismo e liderança carismática bastassem para definir o neofascismo, seria necessário aplicar a categoria de maneira muito mais ampla do que habitualmente se admite. Se não bastam, não podem continuar sendo utilizados como provas conclusivas contra organizações previamente identificadas com a direita.
O problema assume proporções ainda maiores quando se examinam os movimentos políticos do Oriente Médio. O nacionalismo árabe do século XX apresentou diversas características comparáveis às do fascismo histórico. A humilhação diante das potências estrangeiras, a aspiração à independência nacional, a necessidade de industrialização, o culto à unidade coletiva e a defesa de um Estado forte compuseram um ambiente político favorável ao surgimento de movimentos revolucionários de massas. O nacionalismo árabe não se limitou à restauração de tradições antigas, mas procurou construir sociedades modernas capazes de superar a dependência econômica, a fragmentação política e a inferioridade militar.
O nasserismo, no Egito, constitui uma manifestação importante dessa orientação. A revolução nacional deveria superar as divisões sociais e reunir os recursos da comunidade em torno de objetivos comuns. A industrialização, a reforma agrária, a intervenção estatal e a organização funcional da economia eram apresentadas como instrumentos da emancipação nacional. O Estado assumia a responsabilidade de dirigir o desenvolvimento, enquanto os interesses particulares deveriam subordinar-se à realização dos objetivos coletivos. Essas características revelam afinidades com o corporativismo e o nacionalismo desenvolvimentista do fascismo italiano, embora o nasserismo tenha sido geralmente classificado como socialista e situado à esquerda do espectro político.
O islamismo revolucionário acrescentou uma dimensão religiosa à mobilização nacional e social. Pensadores como Hasan al-Banna, Abul Ala Mawdudi e Sayyid Qutb defenderam a reconstrução da sociedade segundo princípios islâmicos, rejeitando a soberania humana desvinculada da autoridade divina. A democracia liberal, o secularismo, o individualismo e a influência cultural ocidental foram apresentados como manifestações de uma ordem moral corrompida. A verdadeira comunidade política deveria fundar-se na submissão à lei religiosa, e sua regeneração exigiria uma transformação integral da vida pública e privada.
A concepção islamista da sociedade guarda determinadas semelhanças formais com movimentos totalitários modernos: rejeição do pluralismo, pretensão de unidade moral absoluta, mobilização revolucionária e subordinação do indivíduo a uma comunidade concebida como portadora de uma missão histórica. Entretanto, a centralidade da revelação religiosa e da lei islâmica distingue fundamentalmente o islamismo do fascismo italiano. A legitimidade política não deriva simplesmente da nação ou do Estado, mas de uma ordem transcendente cuja autoridade não pode ser contestada pelos indivíduos.
A revolução iraniana e o pensamento de Ali Shariati demonstram como o vocabulário revolucionário moderno pôde ser incorporado a uma concepção religiosa da política. A crítica à exploração, ao imperialismo e à decadência ocidental foi associada à recuperação da identidade islâmica e à construção de uma comunidade moralmente regenerada. O resultado foi uma combinação de mobilização popular, religião, nacionalismo e autoridade revolucionária que não se deixa compreender adequadamente pelas categorias convencionais de esquerda e direita.
A expressão islamofascismo procura identificar determinadas semelhanças entre o radicalismo islamista e o fascismo histórico, mas sua utilidade analítica permanece limitada. A violência terrorista, inclusive o assassinato deliberado de civis, não constitui por si só uma propriedade especificamente fascista. O terrorismo jihadista contemporâneo apresenta características próprias, entre elas a justificação religiosa explícita de ataques contra não combatentes. Sua lógica não pode ser simplesmente deduzida das práticas políticas do fascismo italiano. A gravidade moral dos crimes cometidos por organizações islamistas não dispensa a necessidade de compreender suas motivações e estruturas doutrinárias específicas.
A tendência de identificar toda violência política extrema com o fascismo também obscurece o fato de que regimes comunistas, movimentos revolucionários religiosos e outras organizações autoritárias praticaram atrocidades de proporções imensas. A categoria neofascismo torna-se particularmente enganosa quando pretende funcionar como denominação geral de toda manifestação de fanatismo, intolerância e terror.
O nacionalismo hindu da Índia constitui outro caso em que a acusação de fascismo foi empregada com considerável liberalidade. O movimento conhecido como Hindutva surgiu da preocupação com a fragmentação nacional, a experiência da dominação colonial britânica e a necessidade de recuperar uma identidade civilizacional comum. A Índia era concebida não apenas como uma entidade territorial, mas como uma comunidade histórica formada ao longo de milênios por tradições religiosas, culturais e sociais compartilhadas. A regeneração nacional dependeria da recuperação dessa consciência coletiva e da superação das divisões que haviam facilitado a subordinação do país a potências estrangeiras.
Vinayak Damodar Savarkar, Keshav Baliram Hedgewar e Madhav Sadashiv Golwalkar contribuíram para a formulação de uma doutrina nacionalista que atribuía importância fundamental à unidade cultural, à disciplina e à organização comunitária. A Rashtriya Swayamsevak Sangh procurou desenvolver essas qualidades mediante uma estrutura de formação moral, educação, serviço social e mobilização voluntária. Sua ênfase na identidade nacional, na disciplina coletiva e na reconstrução de uma comunidade historicamente humilhada suscitou comparações com os movimentos fascistas europeus.
Algumas formulações do nacionalismo hindu apresentaram efetivamente semelhanças com o nacionalismo orgânico europeu, particularmente na concepção da nação como uma comunidade histórica superior à simples associação contratual de indivíduos. Entretanto, a existência dessas afinidades não demonstra identidade ideológica. A tradição hindu possui características religiosas e culturais próprias, e a organização política da Índia moderna desenvolveu-se em circunstâncias muito diferentes daquelas da Itália fascista.
A ascensão do Bharatiya Janata Party (BJP) tornou a questão especialmente relevante. Sua participação no processo eleitoral, sua integração às instituições parlamentares e sua atuação governamental exigem uma avaliação que não pode ser substituída pela simples referência às origens nacionalistas de seus dirigentes. A defesa de uma identidade hindu e a crítica ao secularismo indiano não bastam para caracterizar um projeto fascista. As acusações de participação ou cumplicidade de nacionalistas hindus em episódios de violência contra muçulmanos são graves e devem ser examinadas mediante provas e procedimentos judiciais, mas a responsabilidade por crimes específicos não estabelece automaticamente a natureza fascista de uma organização inteira.
O BJP também desenvolveu uma atuação social significativa, apoiada em redes de assistência, educação e mobilização comunitária. Sua orientação política incorporou concepções de humanismo integral, solidariedade nacional e igualdade cívica, que não podem ser simplesmente ignoradas em favor de uma classificação previamente estabelecida. A insistência em identificar o nacionalismo hindu com o nazismo ou o fascismo frequentemente impede distinguir entre doutrina, prática institucional, violência sectária e rivalidade partidária.
A dificuldade de classificar o nacionalismo hindu contrasta com a relativa ausência de estudos que investiguem a possível natureza fascista de determinados regimes comunistas contemporâneos. A China pós-maoísta oferece, nesse sentido, um exemplo particularmente revelador. Embora continue formalmente governada por um partido marxista-leninista, sua organização econômica, sua ideologia nacionalista e sua estratégia de desenvolvimento apresentam afinidades significativas com características historicamente associadas ao fascismo italiano.
A experiência maoísta havia submetido a sociedade chinesa a sucessivas campanhas revolucionárias, culminando na Revolução Cultural, que destruiu instituições, perseguiu adversários políticos e comprometeu gravemente a vida econômica e cultural do país. A morte de Mao Zedong e a ascensão de uma nova direção política permitiram abandonar progressivamente elementos fundamentais da economia socialista tradicional. Sob Deng Xiaoping, a China passou a admitir a iniciativa privada, os investimentos estrangeiros, a concorrência econômica e a busca do lucro como instrumentos legítimos do desenvolvimento nacional.
Essa transformação não significou a adoção do liberalismo político. O Partido Comunista preservou seu monopólio do poder, manteve o controle das principais instituições e continuou a subordinar a sociedade aos objetivos estratégicos do Estado. A propriedade privada passou a ser tolerada e estimulada na medida em que contribuísse para a modernização econômica, o fortalecimento nacional e a expansão da capacidade produtiva. O desenvolvimento industrial deixou de depender exclusivamente da planificação centralizada, mas permaneceu submetido à direção política de um Estado autoritário.
A combinação de propriedade privada condicionada, intervencionismo estatal, nacionalismo militante e autoridade política centralizada apresenta notáveis semelhanças com aspectos do sistema econômico fascista. Na Itália de Mussolini, a iniciativa privada também era reconhecida como instrumento eficiente de produção, desde que subordinada às necessidades nacionais. O Estado reservava-se o direito de intervir, coordenar investimentos, orientar setores estratégicos e mobilizar a economia em função de objetivos políticos superiores. A propriedade não constituía um direito absoluto do indivíduo, mas uma instituição cujo exercício deveria servir à comunidade nacional.
A China pós-maoísta reproduziu, em circunstâncias históricas diferentes, uma lógica semelhante de instrumentalização política da economia. A iniciativa privada deixou de ser tratada como inimiga ideológica e passou a desempenhar papel fundamental na modernização nacional. A direção comunista preservou o controle político enquanto abandonava grande parte das restrições econômicas que haviam caracterizado o maoísmo. O resultado foi uma forma de autoritarismo desenvolvimentista cuja classificação como simples socialismo marxista se tornou progressivamente problemática.
O nacionalismo chinês também recuperou elementos intelectuais associados a Sun Yat-sen e Chiang Kai-shek, tradicionalmente rejeitados pela historiografia comunista. A concepção de uma nação chinesa historicamente humilhada pelas potências estrangeiras, destinada a recuperar sua grandeza mediante disciplina coletiva, industrialização e fortalecimento militar, aproxima-se de temas recorrentes no nacionalismo revolucionário do século XX. A reconstrução do orgulho nacional e a recuperação da posição internacional da China tornaram-se objetivos centrais da legitimidade política do regime.
A crescente importância atribuída à identidade histórica, à unidade étnica e à grandeza civilizacional chinesa revela a substituição parcial do internacionalismo proletário por uma concepção nacionalista do desenvolvimento. O partido continua empregando a linguagem do marxismo-leninismo, mas sua atuação efetiva é cada vez mais orientada por interesses nacionais, crescimento econômico, estabilidade política e expansão da influência internacional.
Se o fascismo for definido por características como nacionalismo revolucionário, autoridade centralizada, mobilização coletiva, subordinação da economia ao Estado e busca acelerada de modernização industrial, a China pós-maoísta constitui um candidato muito mais plausível à comparação do que numerosos pequenos grupos conservadores ou nacionalistas ocidentais habitualmente identificados como neofascistas. O fato de o regime chinês continuar a apresentar-se como comunista não elimina suas afinidades com o fascismo histórico. Ao contrário, demonstra a insuficiência das categorias políticas convencionais para compreender determinadas formas contemporâneas de autoritarismo revolucionário.
A experiência chinesa evidencia ainda que o fascismo não pode ser definido exclusivamente por sua oposição ao comunismo. A rivalidade histórica entre fascistas e marxistas-leninistas não impede que ambos tenham desenvolvido soluções institucionais semelhantes para problemas de industrialização, mobilização política e organização nacional. Em sociedades economicamente atrasadas ou submetidas à dominação estrangeira, diferentes tradições revolucionárias podem convergir na defesa de um Estado forte, de uma elite dirigente disciplinada e da subordinação dos interesses particulares ao desenvolvimento coletivo.
A comparação também revela a importância do nacionalismo como força política autônoma. O marxismo clássico atribuíra prioridade à luta internacional de classes e considerara as identidades nacionais fenômenos historicamente transitórios. Entretanto, a experiência dos regimes marxistas-leninistas demonstrou a extraordinária persistência do sentimento nacional. Na União Soviética, na China e em outras sociedades revolucionárias, o nacionalismo frequentemente se sobrepôs às pretensões universalistas da doutrina marxista. A defesa da pátria, a recuperação de territórios, o orgulho histórico e a competição entre Estados tornaram-se elementos essenciais de regimes que proclamavam sua fidelidade ao internacionalismo proletário.
O nacionalismo revolucionário moderno também deve ser compreendido à luz dos problemas enfrentados pelas sociedades de industrialização tardia. A necessidade de superar o atraso econômico e a dependência internacional favoreceu doutrinas que atribuíam ao Estado a responsabilidade de organizar recursos, disciplinar interesses sociais e promover o desenvolvimento acelerado. As ideias econômicas associadas a Friedrich List, particularmente a importância da proteção e do fortalecimento das capacidades produtivas nacionais, oferecem elementos importantes para compreender essas experiências. A industrialização não era concebida apenas como um processo econômico, mas como condição indispensável da independência política e da sobrevivência nacional.
Nesse contexto, o fascismo italiano aparece como uma manifestação histórica específica de um fenômeno mais amplo: a tentativa de mobilizar integralmente uma sociedade para superar sua condição de inferioridade econômica, militar e política. A revolução fascista procurou produzir uma nova comunidade nacional, disciplinada e industrialmente poderosa, capaz de competir com as grandes potências. Seu fracasso militar e seu desaparecimento histórico não eliminam a possibilidade de que outras sociedades tenham desenvolvido projetos com objetivos e estruturas semelhantes, ainda que sob denominações ideológicas diferentes.
Isso não significa que todos os nacionalismos desenvolvimentistas sejam fascistas. Tampouco significa que a presença de um Estado autoritário ou de uma economia dirigida baste para estabelecer identidade com o regime de Mussolini. A comparação histórica exige considerar as condições de surgimento, os sistemas de crenças, os objetivos políticos, as instituições e os resultados efetivos de cada experiência. As semelhanças devem ser examinadas com a mesma atenção dedicada às diferenças, evitando tanto a identificação indiscriminada quanto a recusa dogmática de reconhecer afinidades incômodas.
A investigação do neofascismo fracassa quando abandona esses critérios e se transforma numa busca seletiva de inimigos políticos. Grande parte da literatura contemporânea parte da convicção de que o fascismo pertence necessariamente à direita e de que suas manifestações atuais devem ser procuradas entre conservadores, nacionalistas, adversários da imigração e movimentos anticomunistas. Essa premissa exclui antecipadamente a possibilidade de encontrar características fascistas em organizações de esquerda, regimes marxistas-leninistas ou movimentos revolucionários do Terceiro Mundo.
A classificação torna-se circular: determinados movimentos são considerados fascistas porque pertencem à direita, e a direita é considerada potencialmente fascista porque nela se supõe encontrar as características do fascismo. Quando surgem evidências de que organizações de esquerda apresentam propriedades semelhantes, essas evidências são ignoradas, minimizadas ou explicadas mediante categorias alternativas. O resultado não é uma ciência política mais precisa, mas uma linguagem ideológica que distribui antecipadamente legitimidade e condenação.
A utilização indiscriminada do termo também produz consequências políticas concretas. Identificar um partido parlamentar, uma organização nacionalista ou um movimento religioso como neofascista significa associá-lo, direta ou indiretamente, às atrocidades do nacional-socialismo e à memória da Segunda Guerra Mundial. Essa associação pode comprometer sua legitimidade pública, restringir suas possibilidades de participação no debate democrático e afetar relações internacionais. A gravidade dessas consequências exige responsabilidade intelectual e rigor na apresentação das provas.
A democracia liberal não se fortalece quando seus adversários são classificados mediante conceitos imprecisos. A defesa das liberdades civis, do pluralismo e dos direitos individuais requer a capacidade de reconhecer ameaças reais, independentemente de sua origem ideológica. O autoritarismo, o racismo, o fanatismo religioso, a violência revolucionária e o terrorismo não são propriedades exclusivas de uma família política. Manifestaram-se em experiências históricas muito diferentes, algumas delas explicitamente antifascistas.
Os regimes comunistas do século XX produziram perseguições políticas, sistemas de repressão, campos de trabalho forçado, deportações e assassinatos em massa que não podem ser compreendidos mediante uma teoria limitada à ameaça fascista. A União Soviética de Stalin, a China de Mao e o Camboja do Khmer Vermelho demonstraram que projetos políticos apresentados como instrumentos de libertação humana também podem gerar formas extremas de opressão. A ausência do fascismo e do nacional-socialismo não teria impedido essas tragédias, assim como sua derrota militar não assegurou a preservação universal da liberdade.
O mesmo se aplica às ditaduras militares, às cleptocracias, aos regimes religiosos autoritários e aos movimentos revolucionários que pretendem impor uma concepção absoluta da verdade política. A ameaça às liberdades individuais não depende necessariamente de uma filiação fascista. Sua origem pode estar em diferentes concepções de autoridade, comunidade, religião, história e transformação social.
A insistência em procurar o neofascismo exclusivamente entre os adversários da esquerda produz, portanto, uma dupla deformação. De um lado, exagera a importância histórica de grupos frequentemente marginais, atribuindo-lhes uma continuidade ideológica com o fascismo que não foi demonstrada. De outro, negligencia regimes e movimentos de enorme importância internacional que apresentam características autoritárias, nacionalistas e mobilizadoras comparáveis às do fascismo histórico.
A distinção entre fascismo, nacional-socialismo, marxismo-leninismo, nacionalismo religioso e outras formas de radicalismo deve resultar da investigação histórica, e não precedê-la como um dogma. Nenhum desses fenômenos pode ser adequadamente compreendido quando suas convicções são reduzidas a sintomas psicológicos, suas instituições a expressões de maldade e seus objetivos a manifestações irracionais de ódio. Mesmo as doutrinas mais destrutivas possuem estruturas intelectuais que precisam ser examinadas para que suas consequências possam ser explicadas.
A história política contemporânea não se divide simplesmente entre uma esquerda emancipadora e uma direita reacionária. Essa representação, herdada de antigas controvérsias ideológicas, obscurece as afinidades existentes entre movimentos revolucionários aparentemente antagônicos e impede reconhecer a diversidade de ameaças que podem surgir contra a liberdade. A realidade histórica é demasiadamente complexa para ser subordinada a uma classificação moral binária.
A ciência social perde sua finalidade quando seus conceitos deixam de distinguir e passam apenas a condenar. O termo neofascismo, empregado sem critérios históricos e conceituais consistentes, converte-se numa expressão de desaprovação política, incapaz de proporcionar conhecimento substantivo sobre os movimentos aos quais é aplicado. Sua proliferação não representa necessariamente um avanço na compreensão do autoritarismo contemporâneo, mas pode constituir um sintoma da incapacidade acadêmica de reconhecer a complexidade dos fenômenos que pretende explicar.
A verdadeira tarefa intelectual não consiste em descobrir fascistas por toda parte, mas em compreender as condições históricas, ideológicas e institucionais que tornam possíveis os movimentos revolucionários autoritários, qualquer que seja sua denominação política. A preservação da liberdade exige identificar todas as formas de poder que pretendem subordinar integralmente o indivíduo a uma autoridade coletiva, sem conceder imunidade analítica àquelas que se apresentam sob a linguagem da igualdade, da emancipação, da justiça social ou da regeneração religiosa. Enquanto a investigação permanecer prisioneira das categorias ideológicas que deveria examinar criticamente, continuará confundindo a denúncia política com o conhecimento científico e sacrificando a compreensão da realidade à conveniência de suas próprias convicções.
Notas
A. James Gregor (1929-2019) nasceu em New York (NY), EUA.
Filósofo político, historiador das ideias e cientista político, reconhecido por seus estudos sobre o fascismo, o marxismo e os movimentos revolucionários do século XX.
ua contribuição intelectual mais importante foi a revisão das interpretações tradicionais do fascismo. Contestou sua classificação como fenômeno exclusivamente de direita, destacando suas raízes no socialismo revolucionário e suas afinidades ideológicas e institucionais com o marxismo-leninismo.
Entre suas obras fundamentais também se destacam The Ideology of Fascism (1969), Italian Fascism and Developmental Dictatorship (1979), The Faces of Janus: Marxism and Fascism in the Twentieth Century (2000), Mussolini's Intellectuals (2005) e Marxism, Fascism, and Totalitarianism (2009).
The Search for Neofascism: The Use and Abuse of Social Science foi publicado em 2006.
O Movimento Sociale Italiano (MSI), ou Movimento Social Italiano, foi um partido político italiano de orientação neofascista, fundado em 26 de dezembro de 1946, em Roma, por antigos integrantes e simpatizantes do regime de Benito Mussolini. Existiu até 1995, quando se transformou na Alleanza Nazionale (AN), partido que procurou romper com o legado fascista e integrar-se à direita democrática italiana.
Julius Evola (1898–1974) foi um filósofo, escritor, esoterista e teórico político italiano, considerado um dos principais representantes do tradicionalismo radical e da crítica antimoderna no século XX. Sua filosofia rejeitava o liberalismo, o igualitarismo, a democracia, o marxismo e a própria concepção moderna de progresso. Defendia uma civilização hierárquica, aristocrática e espiritualmente orientada, inspirada em tradições religiosas e metafísicas antigas.
A Universal Negro Improvement Association and African Communities League (UNIA-ACL), ou Associação Universal para o Progresso Negro e Liga das Comunidades Africanas, foi um movimento internacional de nacionalismo negro fundado em 1914, em Kingston, na Jamaica, por Marcus Garvey (1887–1940). Seu objetivo era promover a emancipação política, a independência econômica, o orgulho racial e a união dos povos de ascendência africana em todo o mundo. A organização ganhou enorme projeção após Garvey estabelecer sua principal base de atuação em Nova York, em 1916. Durante a década de 1920, transformou-se num dos maiores movimentos de massas da história do nacionalismo negro, mobilizando comunidades nos Estados Unidos, no Caribe, na África e em outras regiões.
A Nation of Islam é um movimento religioso, político e nacionalista negro fundado em 1930, em Detroit, nos Estados Unidos, por Wallace Fard Muhammad. Surgiu num contexto de segregação racial, discriminação e pobreza da população negra americana, propondo sua regeneração moral, econômica e espiritual mediante a construção de uma comunidade racial autônoma. Seu principal organizador e formulador doutrinário foi Elijah Muhammad (1897–1975), que assumiu a liderança após o desaparecimento de Fard Muhammad, em 1934, e transformou o movimento numa organização nacional disciplinada, hierarquizada e dotada de uma ideologia própria.
A Nation of Islam combinava elementos do islamismo com uma doutrina de supremacia racial negra, separatismo e nacionalismo religioso. Ensinava que os negros constituíam o povo original da humanidade e que os brancos haviam sido artificialmente criados por um cientista chamado Yakub, tornando-se responsáveis pela opressão e corrupção do mundo. Wallace Fard Muhammad era considerado uma manifestação de Deus, e Elijah Muhammad, seu mensageiro. Essas crenças distinguem profundamente o movimento do islamismo sunita tradicional.
O Hindutva (literalmente, hinduidade ou essência do ser hindu) é uma doutrina de nacionalismo cultural e político indiano, formulada sistematicamente por Vinayak Damodar Savarkar (1883–1966) em seu livro Hindutva: Who Is a Hindu?, de 1923. Seu objetivo era construir uma identidade nacional hindu capaz de unificar a população da Índia, superar suas divisões internas e recuperar a independência e a grandeza de uma civilização submetida durante séculos a dominações estrangeiras.
Friedrich List (1789–1846) foi um economista, político e pensador alemão, considerado um dos principais formuladores do nacionalismo econômico e da teoria da proteção às indústrias nascentes. Foi um importante defensor da unificação econômica alemã e influenciou as políticas de industrialização de diversos países.


