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White Slaves, African Masters de Paul Baepler

há 2 horas
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“Accounts of white captives enslaved in Africa have everything to do with accounts of white captives in America and African or African American slaves in the United States” – Paul Baepler, escravidão ultrapassa as fronteiras raciais, religiosas e geográficas.


A escravidão de europeus e americanos no norte da África constitui um capítulo frequentemente esquecido da história atlântica. Durante séculos, milhares de cristãos foram capturados por corsários muçulmanos, transportados para os mercados de escravos da Berbéria e submetidos ao trabalho forçado, à violência física, à humilhação e à ameaça de conversão religiosa. Essa experiência, amplamente conhecida entre os séculos XVI e XIX, marcou as relações entre o mundo cristão e o islâmico, influenciou a formação da política externa dos Estados Unidos e produziu uma literatura que revela tanto a brutalidade da escravidão quanto as contradições morais das sociedades que a praticavam ou condenavam.


A escravidão na Berbéria desenvolveu-se principalmente em Marrocos, Argel, Túnis e Trípoli, onde governantes e corsários organizaram um sistema de captura, comercialização e exploração de prisioneiros estrangeiros. A partir do século XVI, com a ascensão dos irmãos Barbarossa e a expansão da influência otomana no Mediterrâneo, a pirataria e a escravização de cristãos tornaram-se atividades economicamente importantes. Os corsários atacavam embarcações mercantes, saqueavam carregamentos e capturavam tripulações, exigindo resgates ou vendendo os prisioneiros como escravos. Estes eram empregados nas galés, nos portos, nas obras públicas, nas residências particulares e nas propriedades de seus senhores. Embora o antagonismo religioso entre cristãos e muçulmanos justificasse grande parte dessas práticas, o conflito também envolvia interesses comerciais e rivalidades políticas, e os próprios europeus capturavam e escravizavam muçulmanos. Algumas estimativas apontam que Argel abrigava aproximadamente vinte mil cristãos cativos em 1621, enquanto outras indicam cerca de vinte e sete mil escravos, entre homens e mulheres, na década de 1630.


A experiência americana começou ainda no período colonial, quando embarcações procedentes da América do Norte passaram a ser interceptadas pelos corsários. Joshua Gee, capturado em 1680, permaneceu aproximadamente sete anos escravizado em Argel. Após a independência dos Estados Unidos, o problema agravou-se, pois os navios americanos perderam a proteção anteriormente oferecida pela Coroa britânica. Em 1785, os argelinos capturaram os navios Maria e Dauphin, aprisionando vinte e um americanos. Nos anos seguintes, novas capturas obrigaram o governo a negociar tributos e resgates com os governantes africanos. A situação expunha uma contradição fundamental: uma nação fundada sobre os princípios da liberdade não conseguia proteger seus próprios cidadãos contra a escravidão estrangeira, enquanto mantinha a escravidão de africanos em seu território.


Os primeiros relatos americanos interpretavam o cativeiro sobretudo como uma provação religiosa. No sermão The Glory of Goodness, de Cotton Mather, publicado em 1703, os cristãos escravizados enfrentam trabalhos extenuantes, castigos, alimentação insuficiente e pressões para abandonar sua fé. Para preservar a identidade religiosa, organizam comunidades próprias, estabelecem regras de convivência e realizam orações coletivas. A resistência espiritual torna-se tão importante quanto a sobrevivência física, e a libertação é compreendida como manifestação da providência divina.


O testemunho de John D. Foss, capturado em 1793, apresenta uma descrição particularmente detalhada da brutalidade do sistema. Os escravos eram confinados em prisões conhecidas como bagnios, submetidos à vigilância permanente e obrigados a trabalhar no transporte de enormes blocos de pedra, na construção de instalações portuárias, no carregamento de mercadorias e na manutenção das embarcações corsárias. Pequenas infrações podiam resultar em centenas de golpes nas plantas dos pés, castigo conhecido como bastinado. A alimentação consistia principalmente em pequenas porções de pão grosseiro e azedo, e os prisioneiros precisavam pagar até mesmo pelo espaço onde dormiam. Aqueles que não conseguiam reunir dinheiro permaneciam ao relento ou sofriam novas punições. Argel apresentava uma sociedade hierarquizada, dominada politicamente pelos turcos, com árabes, mouros, judeus, renegados e cristãos escravizados ocupando diferentes posições sociais.


A experiência de James Leander Cathcart, que permaneceu onze anos em Argel após sua captura em 1785, revela a complexidade desse sistema. Inicialmente submetido aos trabalhos comuns dos escravos, conseguiu conquistar posições de confiança, desenvolver atividades comerciais e administrar estabelecimentos frequentados por outros cativos. Sua ascensão demonstra que a escravidão norte-africana não possuía uma estrutura uniforme: enquanto alguns prisioneiros permaneciam submetidos aos trabalhos mais brutais, outros adquiriam recursos e relativa autonomia. Entretanto, mesmo um escravo economicamente próspero continuava privado da liberdade e subordinado à vontade de seus senhores. A humilhação era agravada pela consciência de que os Estados Unidos, recém-libertados do domínio britânico, ainda não conseguiam garantir a liberdade de seus cidadãos no exterior.


As narrativas atribuídas a Maria Martin e Eliza Bradley apresentam a escravidão sob a perspectiva feminina, enfatizando o isolamento, os castigos, as ameaças à integridade pessoal e a resistência moral. Maria Martin é confinada em uma construção deteriorada, obrigada a realizar trabalhos domésticos e submetida a pesadas correntes após uma tentativa de fuga. Eliza Bradley enfrenta um naufrágio, a captura por habitantes do deserto, a fome, os deslocamentos penosos e a incerteza sobre seu destino, encontrando na fé cristã a principal fonte de perseverança. Ambas as histórias exploram o sofrimento físico e psicológico como demonstração de virtude e fortaleza espiritual. Sua autenticidade histórica, porém, é extremamente duvidosa, e parte de seu conteúdo reproduz episódios de outros relatos, revelando como o interesse popular pela escravidão africana estimulou a produção de narrativas sensacionalistas e provavelmente fictícias.


A guerra entre os Estados Unidos e Trípoli, iniciada em 1801, transformou a questão dos escravos americanos em um conflito militar. Em 1803, a fragata Philadelphia encalhou nas proximidades de Trípoli, e mais de trezentos marinheiros foram capturados. Jonathan Cowdery, médico da embarcação, descreve as condições dos prisioneiros, os trabalhos forçados, os castigos e as desigualdades de tratamento entre oficiais e marinheiros. Sua profissão permitiu-lhe prestar assistência médica ao governante e a membros de sua família, revelando que as relações entre captores e cativos podiam combinar violência, dependência e cortesia. William Ray, outro prisioneiro da Philadelphia, denunciou especialmente a arbitrariedade do poder e a transformação do homem livre em propriedade de outro indivíduo. A destruição da fragata capturada, por uma operação comandada por Stephen Decatur, e as posteriores ações militares americanas contribuíram para a libertação dos prisioneiros em 1805, afirmando a disposição dos Estados Unidos de empregar sua força naval para proteger cidadãos e interesses comerciais.


O relato de Robert Adams desloca a experiência do cativeiro para o interior africano. Após naufragar na costa de Marrocos, Adams foi capturado e transferido sucessivamente entre diferentes senhores, realizando trabalhos domésticos e atividades de subsistência em comunidades do deserto. Sua trajetória incluiu uma permanência em Timbuktu, cidade que despertava enorme curiosidade no Ocidente. A narrativa demonstra a diversidade das formas de escravidão africana, nas quais as condições dos prisioneiros variavam conforme os costumes locais, os recursos econômicos e a personalidade de seus proprietários. Ao mesmo tempo, alguns acontecimentos relatados suscitam dúvidas quanto à sua autenticidade, evidenciando a dificuldade de distinguir observações verdadeiras, exageros e construções literárias.


O episódio final, ocorrido em 1904, apresenta o sequestro de Ion Perdicaris, rico residente de Tânger, pelo chefe marroquino Raisuli. O sequestro foi utilizado para pressionar o sultão de Marrocos, enquanto Theodore Roosevelt enviou navios de guerra para exigir a libertação do refém. A crise adquiriu grande repercussão política nos Estados Unidos, embora posteriormente se descobrisse que Perdicaris havia renunciado à cidadania americana. Diferentemente das narrativas anteriores, sua experiência também revelou qualidades pessoais e códigos de honra em seu captor, questionando a representação tradicional do africano como figura exclusivamente cruel e bárbara.


O conjunto dessas experiências demonstra que a escravidão norte-africana assumia diferentes formas. Os prisioneiros podiam pertencer ao Estado, a governantes, a particulares ou a grupos tribais; podiam ser empregados em trabalhos brutais, utilizados como criados, comercializados ou mantidos como instrumentos de pressão diplomática. Alguns morriam em cativeiro, outros eram resgatados e uma minoria conseguia melhorar sua condição material. A importância do resgate, a possibilidade de conversão religiosa e as diferenças entre as condições dos prisioneiros distinguiam esse sistema da escravidão hereditária e racializada das plantações americanas, embora ambos compartilhassem a negação da liberdade humana.


Esses relatos também contribuíram para a formação da identidade nacional americana e para a construção de imagens duradouras da África e do islamismo. A representação dos senhores africanos como cruéis e despóticos frequentemente reforçava sentimentos de superioridade ocidental, mas a existência de escravos brancos submetidos a senhores africanos também invertia as hierarquias raciais que começavam a consolidar-se no mundo atlântico. A experiência do cativeiro demonstrava que as posições de dominador e dominado não eram determinadas por uma suposta ordem natural das raças, mas por circunstâncias históricas, militares e políticas.


A circulação dessas narrativas alimentou igualmente os debates sobre a escravidão nos Estados Unidos. Benjamin Franklin utilizou a figura de um governante argelino que justificava a escravização de cristãos com argumentos semelhantes aos dos proprietários americanos de escravos, expondo a incoerência de condenar a servidão quando sofrida por europeus e legitimá-la quando imposta a africanos. A popularidade desses relatos, contudo, também estimulou exageros e invenções, especialmente nas histórias de mulheres submetidas a torturas e ameaças, demonstrando que a percepção ocidental da África foi formada tanto por acontecimentos reais quanto por expectativas religiosas, políticas e raciais.


A escravidão dos brancos na Berbéria revela, em última análise, a instabilidade histórica das relações de poder e a insuficiência das divisões simplistas entre povos civilizados e bárbaros. A mesma sociedade que proclama a liberdade pode tolerar a escravidão, o indivíduo protegido por sua nacionalidade pode tornar-se propriedade de um estrangeiro, e o escravo pode conquistar riqueza sem recuperar a liberdade. A experiência norte-africana pertence, portanto, à história mais ampla da escravidão atlântica e demonstra que essa instituição não foi monopólio de uma civilização, religião ou população, mas uma prática legitimada por diferentes formas de poder. Sua lição fundamental reside na contradição entre a pretensão universal da liberdade e a disposição recorrente das sociedades humanas de negá-la aos outros, transformando pessoas em propriedade enquanto reivindicam para si mesmas a dignidade e os direitos que recusam aos seus semelhantes.





Notas

  • Paul Baepler (1961- ) nasceu em Valparaiso (IN), Estados Unidos

  • Pesquisador, professor universitário e historiador literário, especializado em literatura americana, narrativas de cativeiro, escravidão e relações culturais entre os Estados Unidos e o norte da África.

  • White Slaves, African Masters: An Anthology of American Barbary Captivity Narratives foi publicado em 1999.

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