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Quand les Noirs Avaient des Esclaves Blancs de Serge Bilé

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“Ce que démontre ce livre qui raconte, dans leur grandeur et leur décadence, l'histoire de Ghana, de Mali et du Songhay.” – Serge Bilé,a grandeza histórica dos impérios africanos



A África foi durante muito tempo apresentada como a história de um continente sem civilização própria, condenado à passividade até a chegada dos árabes e dos europeus. Essa visão, alimentada por preconceitos raciais e perpetuada por interpretações históricas equivocadas, obscureceu a existência de grandes impérios africanos, dotados de instituições políticas, exércitos poderosos, sistemas jurídicos, atividades comerciais, centros intelectuais e tradições culturais sofisticadas. Muito antes da colonização europeia e do tráfico atlântico de escravos, a África Ocidental conheceu sociedades prósperas que mantinham relações diplomáticas e comerciais com o mundo mediterrâneo e o Oriente. Seus soberanos conquistavam territórios, acumulavam riquezas, exerciam autoridade sobre populações diversas e possuíam escravos, entre os quais se encontravam também homens e mulheres brancos. A escravidão não foi, portanto, uma instituição exclusivamente europeia, nem a condição de escravo esteve historicamente associada a uma única cor de pele.


A recuperação desse passado exige inicialmente desfazer o mito segundo o qual os grandes impérios da África Ocidental teriam sido fundados por estrangeiros de pele branca. Durante o período colonial, estudiosos europeus procuraram atribuir a origem das civilizações africanas a povos vindos do Oriente Médio, a judeus, árabes ou populações mediterrâneas, como se os africanos fossem incapazes de criar autonomamente organizações políticas complexas. O exemplo mais significativo dessa interpretação foi a hipótese de que os primeiros soberanos do Império de Gana seriam descendentes de judeus expulsos da Cirenaica. A interpretação baseava-se em uma leitura equivocada de antigas crônicas árabes, nas quais expressões relacionadas à cor e à identidade étnica foram compreendidas segundo categorias raciais europeias. A tradição histórica africana, entretanto, associa a fundação de Gana aos soninquês, demonstrando que o desenvolvimento dessas civilizações não dependeu de uma suposta intervenção civilizadora estrangeira.


O primeiro grande exemplo dessa potência africana foi o Império de Gana, também conhecido como Wagadou, que floresceu na região situada entre os atuais territórios da Mauritânia e do Mali. Sua origem está ligada à tradição de Dinga, personagem apresentado como fundador de uma dinastia e organizador de uma força militar que permitiu a seus descendentes estabelecer um reino poderoso. O soberano de Gana, denominado Kaya Maga, exercia uma autoridade simultaneamente política, militar e religiosa. Sua corte reunia dignitários, conselheiros, guerreiros e administradores, enquanto uma organização militar disciplinada assegurava a defesa do território e a realização de campanhas de conquista. A cavalaria, a infantaria e os carros de guerra constituíam instrumentos de expansão territorial, permitindo ao império subjugar povos vizinhos e controlar importantes rotas comerciais.


A riqueza de Gana provinha sobretudo do ouro, abundante nas regiões sob sua influência, e do comércio transaariano. Mercadores árabes e berberes atravessavam o deserto transportando sal, tecidos, metais e outras mercadorias, que trocavam por ouro, produtos africanos e escravos. O soberano controlava parte dessa circulação, cobrava impostos sobre as mercadorias e reservava para si determinadas pepitas de ouro, deixando aos demais comerciantes o ouro em pó. Essa organização econômica proporcionava recursos para sustentar uma corte luxuosa, manter um exército numeroso e financiar novas conquistas. A prosperidade de Gana impressionava os viajantes estrangeiros, que descreviam um reino rico, militarmente respeitado e politicamente organizado.


A escravidão integrava esse sistema econômico e militar. As campanhas de conquista produziam prisioneiros que eram incorporados à sociedade como trabalhadores, servidores domésticos, soldados ou mercadorias destinadas ao comércio. Os escravos podiam ser negros ou brancos, provenientes de povos africanos derrotados, de comunidades berberes e árabes ou de regiões mais distantes. Alguns eram empregados na agricultura e na mineração, enquanto outros serviam à corte e recebiam funções de confiança. As mulheres escravizadas podiam tornar-se concubinas dos soberanos e dignitários. A condição servil não correspondia necessariamente a uma posição social uniforme: determinados escravos adquiriam prestígio, acumulavam responsabilidades e participavam da administração ou da vida militar. Isso não eliminava a violência da instituição, fundada na captura, na submissão e na apropriação de seres humanos, mas demonstrava a diversidade de situações existentes no interior das sociedades africanas.


As relações entre Gana e as populações árabes e berberes eram marcadas simultaneamente pelo comércio, pela rivalidade política, pela guerra e pela escravidão. Os soberanos negros não se encontravam numa posição de inferioridade diante dos comerciantes muçulmanos. Ao contrário, impunham tributos, regulavam sua presença e, quando necessário, atacavam caravanas e territórios vizinhos. A cidade de Aoudaghost, importante centro comercial situado na região saariana, tornou-se objeto de disputa entre populações negras e berberes. Sua conquista pelo Império de Gana inverteu relações anteriores de dominação e colocou comunidades de origem árabe e berbere sob autoridade africana. As expedições militares, os saques e a captura de prisioneiros demonstravam que a escravidão podia atingir também aqueles que, em outros contextos, participavam do comércio de africanos escravizados.


A capital do império, Koumbi-Saleh, constituía um centro político e comercial de grande importância. A cidade possuía bairros distintos, incluindo um espaço reservado aos mercadores muçulmanos, com mesquitas, escolas religiosas e residências de comerciantes. A separação entre a corte africana e os bairros islâmicos expressava tanto a tolerância religiosa quanto a preocupação do soberano em preservar sua autoridade e limitar a influência estrangeira. Embora o islamismo estivesse presente nas relações comerciais e entre certos funcionários, a monarquia conservava suas tradições religiosas próprias. O rei era considerado uma figura sagrada, associada às forças espirituais responsáveis pela prosperidade e pela proteção do reino. Cerimônias, rituais, práticas funerárias e manifestações de submissão pública reforçavam o caráter excepcional de sua posição.


A corte impressionava pela riqueza de suas cerimônias. O soberano recebia embaixadores e súditos cercado por dignitários, guardas e servidores, enquanto os visitantes observavam regras rigorosas de comportamento. O ouro aparecia nas vestimentas, nos ornamentos e nos objetos utilizados nas audiências. Ao mesmo tempo, a administração recorria a funcionários de diferentes origens, inclusive estrangeiros e escravos, selecionados por suas habilidades e conhecimentos. A presença de comerciantes e estudiosos muçulmanos proporcionava acesso a técnicas, informações e redes comerciais mais amplas, sem que isso significasse uma submissão automática do poder africano ao mundo islâmico.


A expansão do islamismo, contudo, modificou progressivamente o equilíbrio político da região. As campanhas dos almorávidas, movimento religioso e militar surgido entre populações berberes do Saara, representaram uma ameaça crescente ao Império de Gana. A conquista de Aoudaghost e a ofensiva contra Koumbi-Saleh enfraqueceram a monarquia e comprometeram suas estruturas econômicas e militares. A imposição de novas relações de dependência, os conflitos religiosos e as transformações das rotas comerciais contribuíram para a desagregação do antigo império. Depois de séculos de prosperidade, Gana perdeu sua posição dominante, abrindo caminho para o surgimento de novas potências africanas.


A mais importante dessas potências foi o Império do Mali, cuja formação está associada à figura de Sundiata Keita. Sua trajetória, preservada pela tradição oral, reúne episódios de sofrimento, superação e conquista. Nascido com uma deficiência que o impedia de caminhar, Sundiata foi desprezado durante a infância e submetido a humilhações na corte. Sua mãe, Sogolon, sofreu igualmente o desprezo de seus adversários. A transformação ocorreu quando o jovem conseguiu finalmente erguer-se, demonstrando uma força extraordinária e iniciando o caminho que o levaria à liderança militar. Depois de um período de exílio, reuniu aliados, enfrentou o poderoso soberano Sosso Soumaoro Kanté e conquistou a vitória decisiva na batalha de Kirina, por volta de 1240.


A derrota de Soumaoro permitiu a unificação de extensos territórios e o nascimento de um império que alcançaria regiões correspondentes aos atuais Mali, Senegal, Guiné, Níger e outros países da África Ocidental. Sundiata organizou uma monarquia sustentada por governadores provinciais, ministros, chefes militares e representantes das grandes famílias. O império tornou-se um centro de comércio, produção agrícola e exploração de ouro, ao mesmo tempo que desenvolveu instituições jurídicas e administrativas destinadas a regular a convivência entre os diversos povos submetidos à sua autoridade.


A tradição da Carta de Kurukan Fuga, associada à fundação do Mali, apresenta princípios destinados a limitar abusos, proteger a vida humana, disciplinar as relações sociais e reconhecer determinadas obrigações dos governantes. Entre suas disposições figuram a proteção da integridade física, o respeito às mulheres, a assistência aos necessitados e regras relativas à propriedade e à escravidão. A carta não significava a abolição da instituição servil, mas procurava estabelecer limites para o tratamento dos escravos e impedir determinadas formas de violência. A existência dessas normas revela uma sociedade preocupada com a organização jurídica da vida coletiva, muito distante da imagem de um continente desprovido de instituições ou princípios políticos.


A escravidão continuou, entretanto, a desempenhar papel fundamental na economia do Mali. Os soberanos possuíam numerosos escravos, utilizados na agricultura, no serviço doméstico, nas atividades comerciais e na administração. Alguns trabalhavam em grandes propriedades pertencentes à monarquia e entregavam parte de sua produção como tributo. Outros eram distribuídos entre dignitários e chefes militares como recompensa por serviços prestados. A captura de prisioneiros nas guerras de expansão alimentava constantemente essa estrutura. Também havia escravos brancos, oriundos das populações berberes e de outras comunidades do norte africano, empregados em diferentes atividades ou incorporados à vida urbana. A escravidão não se organizava exclusivamente segundo a cor da pele, mas conforme as relações de força, conquista e dependência.


A condição das mulheres no Mali apresentava características que surpreendiam os visitantes estrangeiros, especialmente aqueles provenientes de sociedades muçulmanas mais restritivas. As mulheres africanas participavam da vida econômica, circulavam livremente e podiam manter relações sociais sem a vigilância constante de parentes masculinos. Algumas exerciam influência política significativa, chegando a participar das decisões governamentais. A independência feminina manifestava-se também no interior da própria família imperial. A rainha Kasa, esposa de Mansa Suleyman, protagonizou um conflito político que demonstrou sua capacidade de mobilização e sua disposição para enfrentar a autoridade do marido. Esses costumes contrastavam com as expectativas de viajantes islâmicos, que frequentemente interpretavam a liberdade feminina africana como uma violação de seus próprios padrões religiosos e morais.


As cidades do Mali atraíam comerciantes, juristas, estudiosos e viajantes de diversas origens. Negros, árabes, berberes, judeus e europeus encontravam oportunidades de enriquecimento e ascensão social. Os estrangeiros podiam possuir propriedades, estabelecer negócios e desfrutar da proteção das autoridades. A hospitalidade e a segurança das rotas comerciais eram frequentemente elogiadas. O funcionamento das cidades, a organização dos mercados, a circulação de mercadorias e a presença de escolas e centros religiosos demonstravam uma vida urbana intensa e diversificada.


A prosperidade africana não se limitava à riqueza material. A medicina, a arquitetura, o ensino e a produção intelectual alcançaram níveis notáveis. Havia conhecimentos sobre tratamentos de doenças, intervenções cirúrgicas e utilização de plantas medicinais. As cidades possuíam edifícios elaborados, sistemas de comunicação e instituições de ensino frequentadas por numerosos estudantes. A cultura africana combinava tradições locais, conhecimentos transmitidos oralmente e influências provenientes do mundo islâmico, formando um universo intelectual próprio. A imagem de uma África incapaz de produzir ciência ou civilização revela, assim, mais os preconceitos daqueles que a difundiram do que a realidade histórica do continente.


O apogeu da riqueza e do prestígio internacional do Mali ocorreu durante o reinado de Mansa Musa, também conhecido como Kankan Moussa. Sua peregrinação a Meca, em 1324, tornou-se um dos acontecimentos mais célebres da história medieval africana. O soberano atravessou o Saara acompanhado por uma comitiva extraordinária, composta de soldados, servidores, dignitários, mulheres e numerosos escravos, transportando enormes quantidades de ouro. Durante sua passagem pelo Egito, distribuiu presentes e esmolas de tamanha magnitude que impressionou profundamente as autoridades e os habitantes do Cairo. A abundância do metal precioso demonstrava a dimensão das riquezas controladas pelo império africano e transformou Mansa Musa numa figura conhecida em todo o mundo mediterrâneo.


A peregrinação teve também um significado diplomático e político. Mansa Musa apresentou-se diante dos soberanos muçulmanos como governante de um império independente, poderoso e civilizado, recusando gestos que pudessem ser interpretados como submissão. Suas relações com o Egito e o Magrebe favoreceram intercâmbios culturais, comerciais e intelectuais. O ouro africano tornou-se cada vez mais importante para a economia mediterrânea, enquanto o Mali passou a atrair arquitetos, juristas, religiosos e estudiosos estrangeiros. A fama de Mansa Musa chegou à Europa, onde sua imagem apareceu no célebre Atlas Catalão de 1375, representado como um rei negro coroado, segurando uma esfera de ouro, símbolo da extraordinária riqueza de seus domínios.


O reinado de Mansa Musa também impulsionou a construção de edifícios monumentais, mesquitas, bibliotecas e instituições de ensino. Timbuktu e Djenné consolidaram-se como centros comerciais e intelectuais, reunindo mercadores e estudiosos provenientes de diversas regiões. O conhecimento religioso, a jurisprudência, a medicina, a matemática e outras disciplinas encontravam espaço nessas cidades. A instrução não se restringia necessariamente aos círculos aristocráticos: escolas elementares e instituições superiores recebiam numerosos estudantes, sustentados por famílias, professores e benfeitores. O desenvolvimento cultural demonstrava que a África Ocidental participava ativamente da circulação internacional de conhecimentos, em vez de permanecer isolada das grandes correntes intelectuais de seu tempo.


Entretanto, o Império do Mali não permaneceu imune às rivalidades dinásticas, aos conflitos militares e às transformações políticas. O enfraquecimento progressivo da autoridade central favoreceu a emancipação de províncias e o surgimento de novas potências. Entre elas destacou-se o Império Songhai, que acabaria por substituir o Mali como principal força política da região. Sua ascensão esteve ligada à cidade de Gao e à expansão de uma monarquia militar capaz de controlar importantes centros comerciais e territórios anteriormente subordinados aos soberanos malineses.


A consolidação do Songhai ocorreu sobretudo sob Sonni Ali Ber, guerreiro e conquistador que reorganizou o exército, desenvolveu uma poderosa cavalaria e utilizou uma frota fluvial para assegurar o domínio sobre o rio Níger. Suas campanhas permitiram conquistar Djenné e Timbuktu, incorporando cidades de grande importância econômica e cultural. A expansão foi acompanhada, porém, de extrema violência. Sonni Ali perseguiu adversários, reprimiu revoltas e entrou em conflito com estudiosos e religiosos muçulmanos que se recusavam a reconhecer plenamente sua autoridade. As campanhas militares produziram mortes, destruições e escravizações, revelando o caráter brutal que podia assumir a construção dos grandes impérios africanos.


Após a morte de Sonni Ali, a ascensão de Askia Mohammed inaugurou uma nova etapa. O soberano reorganizou a administração, fortaleceu o exército e procurou legitimar seu poder por meio do islamismo. Sua peregrinação a Meca, a valorização dos juristas e a aproximação com as autoridades religiosas ampliaram o prestígio internacional do Songhai. O governo incorporou homens de diferentes origens, incluindo árabes, berberes e outros estrangeiros, que ocupavam funções administrativas e diplomáticas. A presença de funcionários brancos no interior de uma monarquia negra demonstrava novamente que as relações de poder na África Ocidental não correspondiam à hierarquia racial posteriormente imposta pela colonização europeia.


A escravidão continuou presente no Songhai, tanto na produção econômica quanto na vida doméstica e na corte. Os soberanos possuíam escravos de diferentes procedências, e as guerras forneciam novos contingentes de cativos. Entre eles encontravam-se europeus e outros indivíduos de pele branca, capturados em conflitos ou adquiridos nos mercados do norte da África. Algumas mulheres brancas eram incorporadas aos haréns dos governantes, enquanto homens podiam servir como trabalhadores, soldados ou servidores palacianos. O comércio de escravos integrava uma rede internacional que ligava o Saara, o Mediterrâneo, o mundo islâmico e a África subsaariana.


A legitimidade religiosa da escravidão provocava, contudo, debates entre os próprios intelectuais africanos. O grande estudioso de Timbuktu Ahmed Baba contestou a ideia de que a cor negra constituísse fundamento legítimo para a escravização. A condição servil não poderia decorrer da pigmentação da pele, mas das regras religiosas relativas à guerra, ao cativeiro e à condição dos não muçulmanos. Negros e brancos poderiam ser escravizados conforme essas regras, enquanto a escravização de muçulmanos livres contrariava os princípios jurídicos defendidos pelos estudiosos islâmicos. A discussão evidenciava a existência de uma tradição intelectual africana capaz de enfrentar argumentos raciais e questionar os fundamentos de determinadas práticas escravistas, ainda que não rejeitasse universalmente a instituição.


A prosperidade do Songhai, entretanto, começou a ser comprometida por conflitos sucessórios, corrupção, abusos administrativos e disputas entre facções. Alguns soberanos abandonaram as preocupações com a justiça e o bem comum, entregando-se ao luxo, à arbitrariedade e à exploração de seus súditos. A cobrança excessiva de tributos e a apropriação de riquezas privadas provocaram descontentamento entre comerciantes e intelectuais. A autoridade política, que anteriormente sustentara o florescimento econômico e cultural, passou progressivamente a constituir um instrumento de opressão e instabilidade.


A crise culminou na invasão marroquina de 1591. O sultão do Marrocos, interessado nas riquezas do Sudão ocidental, enviou uma expedição militar através do Saara. Embora numericamente inferior às forças songhais, o exército invasor dispunha de armas de fogo, que lhe proporcionaram uma vantagem decisiva. A derrota das tropas africanas destruiu a unidade política do império e permitiu aos marroquinos ocupar os principais centros urbanos. A conquista foi acompanhada de saques, confiscos, perseguições e violência contra a população. As riquezas acumuladas durante séculos passaram a alimentar os interesses dos conquistadores, enquanto a antiga ordem política se desintegrava.


A ocupação marroquina atingiu especialmente a vida intelectual de Timbuktu. Bibliotecas foram saqueadas, estudiosos perseguidos e instituições de ensino enfraquecidas. Ahmed Baba tornou-se uma das vítimas mais conhecidas dessa repressão. Preso e deportado para o Marrocos, foi obrigado a viver afastado de sua cidade e de seus livros. Mesmo no exílio, seu conhecimento despertou admiração, permitindo-lhe ensinar e manter contato com outros intelectuais. Seu destino simbolizava a tragédia de uma civilização que, depois de alcançar elevado desenvolvimento político, econômico e cultural, via suas instituições destruídas pela conquista estrangeira e pela desagregação interna.


A dominação marroquina prolongou-se por décadas e mergulhou a região em crescente instabilidade. A autoridade dos invasores enfraqueceu, mas a antiga unidade imperial não foi restaurada. A fragmentação política, as guerras, a insegurança comercial e o declínio das instituições intelectuais comprometeram a prosperidade anteriormente alcançada. Timbuktu perdeu progressivamente parte de sua importância, e a tradição científica que florescera sob os grandes soberanos africanos entrou em decadência. A destruição não resultou de uma incapacidade intrínseca das sociedades negras, mas de processos históricos concretos, envolvendo invasões, conflitos políticos, exploração econômica e dissolução das estruturas que sustentavam a civilização.


A história dos impérios de Gana, Mali e Songhai demonstra que a África Ocidental conheceu uma longa época de grandeza anterior à colonização europeia. Seus soberanos governaram vastos territórios, comandaram exércitos, desenvolveram instituições jurídicas, promoveram o comércio internacional e sustentaram importantes centros de conhecimento. Também conquistaram povos vizinhos, praticaram a escravidão e submeteram negros e brancos à sua autoridade. Os africanos não foram apenas vítimas da história, mas protagonistas de conquistas, dominações, realizações culturais e conflitos comparáveis aos de outras civilizações.


Reduzir o passado africano à escravidão atlântica e à colonização europeia significa apagar séculos de experiências políticas e culturais e transformar povos inteiros em simples objetos da ação estrangeira. A recuperação dessa história não exige idealizar os impérios africanos nem ocultar suas práticas de violência e escravidão. Exige reconhecer que eles foram sociedades complexas, capazes tanto de grandes realizações quanto de crueldades e injustiças. A existência de soberanos negros que possuíam escravos brancos é uma demonstração particularmente expressiva de que as relações históricas entre africanos, árabes e europeus foram muito mais variadas do que sugerem as representações convencionais.


O desaparecimento desses impérios não apaga sua contribuição para a história universal. A riqueza de suas cidades, a organização de seus Estados, o desenvolvimento de suas instituições e a amplitude de suas relações comerciais revelam uma África que participou ativamente da construção do mundo medieval. Recuperar a memória de Gana, Mali e Songhai significa devolver aos africanos uma parte fundamental de sua história e demonstrar que, muito antes de serem submetidos à colonização, seus antepassados haviam construído civilizações poderosas, independentes e influentes. É nesse passado de grandeza, sem esquecer suas contradições, que a África pode encontrar elementos para compreender sua trajetória e reconstruir sua confiança no futuro.





Notas


  • Serge Bilé (1960- ) nasceu em Agboville, Costa do Marfim.

  • Jornalista, escritor, documentarista e historiador autodidata. Radicado na França desde a juventude, estudou jornalismo e desenvolveu uma carreira na televisão francesa, destacando-se como apresentador e repórter da emissora France Télévisions, particularmente na Martinica.

  • Sua produção intelectual concentra-se na história africana, na escravidão, nas relações raciais e em episódios pouco conhecidos da presença negra na história mundial. Tornou-se conhecido por suas pesquisas sobre os africanos na Europa e sobre as relações entre sociedades africanas e outras civilizações.

  • Entre suas obras mais importantes está Noirs dans les camps nazis (2005), dedicada à perseguição de negros pelo regime nazista.

  • Quand les Noirs Avaient des Esclaves Blancs foi publicado em 2008.

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