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The Faces of Janus de A. James Gregor

há 11 minutos
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“The contest of the twentieth century [...] was not between the Right and the Left. It was between representative democracies and their anti-democratic opponents.” – A. James Gregor


A história política do século XX foi profundamente deformada por uma interpretação ideológica que apresentou o fascismo e o comunismo como fenômenos essencialmente antagônicos, situados em extremos opostos do espectro político. O fascismo foi identificado com a direita, a reação, a violência e a opressão, enquanto o marxismo-leninismo foi associado à esquerda, ao progresso, à emancipação humana e à justiça social. Essa distinção, repetida durante décadas por intelectuais, historiadores e cientistas políticos, obscureceu as profundas semelhanças existentes entre os dois grandes movimentos revolucionários do século. A oposição decisiva da época não se estabeleceu entre direita e esquerda, mas entre as democracias representativas e os regimes revolucionários antidemocráticos, sustentados por ideologias totalizantes, partidos monopolistas, líderes carismáticos e Estados que pretendiam subordinar integralmente a sociedade aos seus objetivos.


O século que produziu duas guerras mundiais também testemunhou o assassinato de milhões de pessoas pelos próprios governos. Os regimes de Stalin, Mao Tsé-tung e Pol Pot demonstraram que a violência política, o terror organizado e o extermínio de populações inteiras não constituíam monopólio de movimentos classificados como fascistas. Entretanto, uma parcela considerável da intelectualidade ocidental continuou tratando os crimes comunistas como desvios circunstanciais de projetos essencialmente humanitários, enquanto atribuía os crimes fascistas à própria natureza de sua ideologia. Essa assimetria moral e intelectual tornou-se um dos maiores obstáculos à compreensão das revoluções modernas.


O marxismo exerceu influência extraordinária sobre essa interpretação porque se apresentou não apenas como doutrina política, mas como teoria científica da história. A partir de uma concepção materialista e dialética, Marx e Engels anunciaram que o desenvolvimento das forças produtivas conduziria o capitalismo a contradições insolúveis, provocaria o empobrecimento progressivo do proletariado e culminaria numa revolução socialista nas sociedades industrialmente avançadas. O proletariado, convertido em sujeito privilegiado da história, destruiria as relações capitalistas de produção e inauguraria uma sociedade sem classes, livre da exploração e dos conflitos que caracterizavam as formações sociais anteriores.


Essas previsões, entretanto, não se realizaram. O capitalismo demonstrou capacidade de adaptação e crescimento, as condições materiais dos trabalhadores melhoraram em muitas sociedades industriais, e as revoluções que se proclamaram marxistas ocorreram principalmente em países economicamente atrasados, predominantemente agrários e desprovidos do proletariado industrial que deveria protagonizar a transformação histórica. A Revolução Bolchevique de 1917 representou uma contradição particularmente evidente: em lugar da emancipação de uma classe operária amadurecida pelo capitalismo avançado, estabeleceu-se uma ditadura revolucionária num país cuja estrutura social e econômica contrariava os pressupostos fundamentais da teoria.


A despeito dessas contradições, o marxismo conservou seu prestígio intelectual. Sua força não derivava de uma capacidade comprovada de explicar ou prever os acontecimentos, mas de seu poder de satisfazer expectativas morais e esperanças utópicas. A promessa de igualdade, abundância, paz e emancipação universal conferia-lhe uma legitimidade que parecia dispensar a comprovação empírica. Quando os fatos contrariavam suas previsões, novas interpretações eram introduzidas para preservar a doutrina. Assim, um sistema de proposições apresentado como ciência tornou-se progressivamente impermeável à refutação, funcionando mais como instrumento de justificação ideológica do que como teoria explicativa.


Foi nesse ambiente intelectual que surgiram as primeiras interpretações marxistas do fascismo italiano. Desde o aparecimento do movimento de Mussolini, os teóricos comunistas procuraram enquadrá-lo nas categorias tradicionais da luta de classes. Como o fascismo combatia os socialistas e os bolcheviques, concluiu-se que deveria representar necessariamente os interesses da burguesia capitalista. Sua violência foi interpretada como instrumento de repressão do proletariado, sua organização política como expressão da reação e sua ascensão ao poder como tentativa desesperada das classes dominantes de impedir o triunfo inevitável do socialismo.


Essa explicação, contudo, dependia mais das premissas marxistas do que da investigação histórica. O fascismo não surgiu simplesmente como uma conspiração de capitalistas ameaçados pela revolução. Suas origens intelectuais e políticas encontravam-se, em parte substancial, no próprio socialismo revolucionário. Mussolini havia sido um destacado dirigente socialista e marxista, e muitos dos primeiros teóricos fascistas provinham de correntes sindicalistas revolucionárias, socialistas radicais e dissidentes do marxismo. O movimento incorporou concepções de mobilização das massas, disciplina coletiva, transformação revolucionária da sociedade e organização política que possuíam evidentes afinidades com as tradições revolucionárias da esquerda.


A interpretação comunista também não conseguia explicar satisfatoriamente a composição social do fascismo, que recrutava adeptos entre trabalhadores, antigos socialistas, sindicalistas, veteranos de guerra, setores médios e grupos nacionalistas. A participação de operários no movimento era desqualificada como manifestação de falsa consciência, enquanto sua orientação revolucionária era negada simplesmente porque se opunha ao bolchevismo. A conclusão estava estabelecida antes da investigação: se a revolução proletária era, por definição, progressista, qualquer força que a combatesse deveria ser necessariamente reacionária.


A ascensão de Mussolini ao poder e a consolidação do Estado fascista tornaram cada vez mais difícil sustentar essa explicação. O fascismo não se limitou a restaurar instituições tradicionais ou preservar intactas as relações políticas existentes. Procurou construir um novo Estado, reorganizar as relações entre capital e trabalho, mobilizar permanentemente a população, subordinar interesses particulares aos objetivos nacionais e promover a transformação econômica e social da Itália. Seu projeto era revolucionário, embora não correspondesse ao modelo de revolução previsto pelo marxismo clássico.


As primeiras formulações marxistas do fascismo passaram, assim, por sucessivas revisões. A interpretação que o apresentava como simples instrumento da burguesia precisou acomodar a autonomia crescente do Estado fascista, sua capacidade de disciplinar os próprios capitalistas e sua ambição de dirigir a economia nacional. A tese de que o fascismo constituía a ditadura terrorista dos setores mais reacionários do capital financeiro, consagrada pela ortodoxia comunista, preservou a aparência de uma explicação coerente, mas não resolveu suas contradições fundamentais. O Estado fascista não podia ser reduzido a um comitê executivo dos grandes proprietários, assim como o Estado soviético não podia ser compreendido como simples expressão do poder efetivo dos trabalhadores.


Após a Segunda Guerra Mundial, a interpretação marxista tornou-se ainda mais rígida. A derrota militar do fascismo e a associação de Mussolini à Alemanha nacional-socialista favoreceram a fusão de experiências políticas distintas numa categoria moral única. Fascismo passou a designar indistintamente movimentos autoritários, nacionalistas, racistas, anticomunistas e violentos, enquanto as diferenças históricas e doutrinárias entre eles eram frequentemente negligenciadas. A enormidade dos crimes nazistas contribuiu para que o fascismo italiano fosse interpretado quase exclusivamente por associação com o hitlerismo, obscurecendo características próprias de sua formação e de seu programa.


Ao mesmo tempo, a União Soviética, fortalecida pela vitória militar e pelo prestígio adquirido na derrota da Alemanha, conservou entre numerosos intelectuais ocidentais a imagem de uma experiência socialista essencialmente progressista. A repressão política, os expurgos, a censura, os campos de trabalho forçado, a coletivização coercitiva e o culto à personalidade foram frequentemente tratados como deformações de um ideal legítimo. A diferença entre os regimes não era estabelecida pelo funcionamento de suas instituições, mas pelas intenções que lhes eram atribuídas. O fascismo era condenado por aquilo que efetivamente fazia; o comunismo era frequentemente absolvido em nome daquilo que declarava pretender realizar.


Entretanto, uma comparação institucional revelava semelhanças profundas. Fascismo e marxismo-leninismo rejeitavam os princípios fundamentais da democracia liberal, desconfiavam do pluralismo político, subordinavam o indivíduo à coletividade e atribuíam ao Estado uma missão histórica superior. Ambos recorriam ao partido hegemônico, à liderança carismática, à propaganda sistemática, à mobilização das massas e à repressão dos adversários. Ambos procuravam formar um novo tipo humano, transformar a consciência coletiva e superar os conflitos sociais mediante uma organização política que pretendia representar a totalidade da comunidade.


As diferenças relativas à propriedade privada e à organização econômica não eliminavam essas afinidades. Na União Soviética, a estatização dos meios de produção não entregou o poder aos trabalhadores, mas a uma burocracia político-administrativa que controlava os recursos nacionais. Na Itália fascista, a preservação formal da propriedade privada não impediu a crescente intervenção do Estado, a organização corporativa da economia e a subordinação das atividades produtivas às prioridades nacionais. Em ambos os casos, a economia deveria servir aos objetivos definidos pelo poder político, e não constituir uma esfera autônoma de decisões individuais.


O conceito de totalitarismo permitiu reconhecer essas características comuns, mas encontrou resistência entre intelectuais comprometidos com a distinção tradicional entre esquerda e direita. Admitir que o bolchevismo e o fascismo pertenciam a uma mesma família de regimes revolucionários significava abandonar a convicção de que o socialismo representava necessariamente a emancipação humana. Significava também reconhecer que a violência, a concentração de poder e a supressão das liberdades não eram acidentes exteriores à experiência comunista, mas componentes estruturais dos regimes que haviam surgido em seu nome.


A experiência soviética demonstrou, de maneira particularmente reveladora, a transformação de uma revolução proclamadamente internacionalista numa forma de nacionalismo autoritário. A doutrina marxista anunciava a superação dos antagonismos nacionais e a solidariedade universal do proletariado. Entretanto, as exigências de sobrevivência do Estado soviético, seu atraso econômico e sua vulnerabilidade diante das potências industrializadas conduziram à concentração dos esforços nacionais na construção de uma base industrial e militar capaz de assegurar a independência e o poder da Rússia. A fórmula stalinista do socialismo em um só país consagrou essa transformação. A revolução que deveria emancipar os trabalhadores tornou-se um gigantesco empreendimento de modernização nacional, imposto por uma burocracia dirigente mediante coerção, disciplina e sacrifícios humanos extraordinários.


A industrialização forçada, os planos quinquenais, a coletivização da agricultura e a mobilização compulsória da força de trabalho não representavam a realização da sociedade sem classes prevista pelo marxismo. Constituíam instrumentos de acumulação e desenvolvimento econômico dirigidos por um Estado que buscava superar a inferioridade material da nação diante de seus adversários. A sobrevivência nacional, o prestígio internacional e a capacidade militar passaram a determinar as prioridades políticas. O proletariado, supostamente convertido em classe dominante, tornou-se objeto de exploração por uma elite burocrática que monopolizava o poder e exigia sacrifícios em nome do futuro coletivo.


A China comunista reproduziu, sob circunstâncias próprias, uma trajetória semelhante. A revolução de Mao Tsé-tung ocorreu numa sociedade essencialmente camponesa e foi impulsionada por objetivos de libertação nacional, reunificação territorial e superação da subordinação às potências estrangeiras. Embora empregasse a linguagem da luta de classes e da revolução proletária, seu conteúdo político estava profundamente associado ao nacionalismo chinês. O partido comunista assumiu a responsabilidade de reconstruir uma nação enfraquecida, restaurar sua grandeza e assegurar sua independência econômica e militar.


O fracasso das políticas econômicas maoístas e a posterior ascensão de Deng Xiaoping tornaram ainda mais evidentes as limitações do marxismo como orientação efetiva do desenvolvimento. A introdução de mecanismos de mercado, a tolerância à propriedade privada e a abertura a investimentos estrangeiros ocorreram sem que o Partido Comunista abandonasse seu monopólio político. A ideologia oficial permaneceu socialista, mas a organização econômica passou a incorporar práticas anteriormente condenadas como capitalistas. A permanência do partido único, da autoridade centralizada e da mobilização nacional em torno do desenvolvimento demonstrava que a continuidade do regime dependia menos da fidelidade às doutrinas econômicas marxistas do que da preservação do poder político e da realização dos objetivos nacionais.


Na União Soviética, a morte de Stalin inaugurou um processo gradual de decomposição ideológica. As denúncias dos crimes stalinistas, as tentativas de reforma e a crescente consciência das deficiências econômicas do sistema enfraqueceram a legitimidade do marxismo-leninismo. A promessa de uma sociedade de abundância e liberdade contrastava com a realidade de uma economia ineficiente, de uma burocracia privilegiada e de uma população submetida a severas restrições políticas. O desenvolvimento industrial, inicialmente apresentado como triunfo do socialismo, revelou-se insuficiente para assegurar a competitividade tecnológica e econômica diante das democracias capitalistas avançadas.


À medida que o marxismo perdia sua capacidade de mobilização, intelectuais e dirigentes soviéticos começaram a procurar novas justificações para a autoridade do Estado e para a continuidade da grandeza nacional. A ideologia revolucionária internacionalista cedeu espaço a concepções cada vez mais explicitamente nacionalistas. A própria história soviética passou a ser reinterpretada menos como realização de uma missão proletária universal e mais como etapa da afirmação histórica da Rússia. O Estado, a disciplina, o sacrifício coletivo, a autoridade política e a independência nacional adquiriram importância superior à luta de classes e à emancipação internacional do proletariado.


A dissolução da União Soviética acelerou essa transformação. O desaparecimento do sistema comunista não eliminou as disposições autoritárias, as aspirações de grandeza nacional nem o ressentimento provocado pela perda de poder internacional. Pelo contrário, o colapso econômico, a desorganização institucional e a percepção de humilhação diante do Ocidente favoreceram o aparecimento de movimentos que combinavam elementos do antigo marxismo-leninismo com um nacionalismo militante. Intelectuais anteriormente vinculados à tradição soviética passaram a defender a reconstrução de um Estado forte, a recuperação da autoridade central e a restauração da posição internacional da Rússia.


Essas correntes pós-soviéticas revelaram uma continuidade intelectual que a classificação convencional entre direita e esquerda dificilmente poderia explicar. O nacionalismo revolucionário que emergiu das ruínas do comunismo não resultou necessariamente da imitação deliberada do fascismo italiano. Desenvolveu-se como resposta a condições históricas semelhantes: atraso ou declínio econômico, sentimento de vulnerabilidade internacional, perda de prestígio coletivo e convicção de que somente um Estado autoritário poderia restaurar a dignidade nacional. O fascismo reaparecia, portanto, não simplesmente como sobrevivência de uma doutrina derrotada, mas como uma possibilidade recorrente das sociedades submetidas a crises de desenvolvimento e identidade nacional.


A compreensão dessas transformações exige reconhecer as origens intelectuais comuns do fascismo e de importantes correntes do socialismo revolucionário. Ambos se desenvolveram num ambiente marcado pela crítica ao liberalismo individualista, pela influência da filosofia hegeliana e pela convicção de que a sociedade constituía uma totalidade orgânica superior à soma dos indivíduos. A liberdade individual, entendida como autonomia diante do poder político, foi subordinada à realização de uma vontade coletiva. A sociedade não deveria ser organizada em torno da competição entre interesses particulares, mas mobilizada em função de uma finalidade histórica comum.


A ruptura entre Mussolini e o socialismo ortodoxo tornou-se decisiva durante a Primeira Guerra Mundial. Enquanto os internacionalistas insistiam na solidariedade proletária acima das fronteiras nacionais, os socialistas que posteriormente contribuiriam para a formação do fascismo reconheceram na nação a comunidade política fundamental. A guerra demonstrara a força extraordinária da identidade nacional, capaz de mobilizar populações inteiras e superar antagonismos de classe. A solidariedade nacional revelou-se mais poderosa do que a solidariedade internacional do proletariado. O projeto revolucionário passou, assim, a orientar-se não pela destruição das nações, mas pela regeneração e fortalecimento de uma comunidade nacional específica.


A partir dessa transformação, o fascismo italiano formulou uma interpretação própria das desigualdades internacionais. O conflito decisivo não ocorreria necessariamente entre burgueses e proletários dentro de cada sociedade, mas entre nações industrialmente avançadas e nações economicamente retardatárias. As primeiras dispunham de capital, tecnologia, recursos militares e vantagens comerciais que lhes permitiam conservar sua posição dominante. As segundas enfrentavam o risco de permanecer indefinidamente subordinadas. A emancipação nacional exigia, portanto, crescimento econômico acelerado, industrialização, disciplina social e concentração dos recursos disponíveis.


Essa concepção transformava a luta de classes numa luta entre nações. A comunidade nacional pobre ou humilhada assumia o lugar anteriormente reservado ao proletariado, enquanto as potências industrializadas ocupavam a posição dos exploradores. A revolução deixava de ter como finalidade imediata a igualdade social universal e passava a buscar a afirmação de uma nação diante de seus concorrentes. O Estado autoritário surgia como instrumento necessário à mobilização dos recursos materiais e humanos exigidos por essa competição. A colaboração entre classes substituía o antagonismo proletário, e o desenvolvimento nacional convertia-se na justificativa superior da disciplina coletiva.


O fascismo italiano e o bolchevismo, apesar de suas rivalidades políticas e diferenças doutrinárias, convergiram na prática para programas de modernização conduzidos por Estados centralizados. Ambos se desenvolveram em sociedades que se percebiam economicamente atrasadas diante das grandes potências industriais. Ambos atribuíram ao poder político a responsabilidade de superar esse atraso mediante mobilização nacional. Ambos exigiram sacrifícios individuais em nome de um futuro coletivo e consideraram a oposição política um obstáculo à realização de sua missão histórica. A retórica podia ser socialista ou nacionalista, mas a dinâmica institucional apresentava afinidades fundamentais.


O nacionalismo constitui, nesse contexto, uma força de mobilização particularmente poderosa porque se relaciona com necessidades humanas de pertencimento, reconhecimento e dignidade coletiva. Indivíduos que percebem sua comunidade como inferiorizada, ameaçada ou humilhada podem identificar a própria realização pessoal com a recuperação da grandeza nacional. A inferioridade econômica e militar transforma-se numa experiência de desvalorização coletiva, capaz de produzir ressentimento, agressividade e disposição para o sacrifício. O movimento revolucionário oferece uma explicação para essa condição, identifica os responsáveis pela humilhação e promete restaurar a dignidade perdida.


A busca de regeneração nacional pode assumir formas distintas. Em determinadas circunstâncias, manifesta-se principalmente como projeto de industrialização e fortalecimento do Estado; em outras, incorpora concepções de pureza étnica, exclusividade cultural ou superioridade racial. O racismo não constitui uma consequência necessária de todo nacionalismo revolucionário, mas pode surgir quando a identidade coletiva é definida por critérios biológicos ou quando determinados grupos são apresentados como obstáculos à sobrevivência da comunidade. A identificação de inimigos internos e externos facilita a mobilização política e pode justificar perseguições, deportações e assassinatos em massa.


A relação entre marxismo, fascismo e racismo demonstra, igualmente, a insuficiência das classificações ideológicas convencionais. Embora o marxismo proclame o internacionalismo e a igualdade humana, regimes marxistas incorporaram preconceitos nacionais, perseguições étnicas e práticas discriminatórias. O stalinismo manifestou tendências antissemitas, enquanto experiências comunistas posteriores recorreram a formas agressivas de nacionalismo. A antiga Iugoslávia ofereceu exemplos particularmente perturbadores de como dirigentes formados na tradição marxista podiam participar de movimentos nacionalistas envolvidos em perseguições e limpeza étnica. A adesão formal a uma doutrina universalista não impedia que o nacionalismo se convertesse em fundamento efetivo da ação política.


A análise dos diferentes movimentos classificados como fascistas exige, contudo, evitar o erro de tratá-los como manifestações idênticas de uma mesma doutrina. O nacional-socialismo alemão, o fascismo italiano e os movimentos nacionalistas autoritários da Europa Oriental possuíam origens, prioridades e características distintas. Na Alemanha hitlerista, o racismo biológico assumiu posição central e determinante. A concepção racial da história, a obsessão antissemita e a ideia de uma comunidade nacional definida pela hereditariedade distinguiram profundamente o nacional-socialismo de outras experiências revolucionárias autoritárias. A política de extermínio nazista não pode ser compreendida simplesmente como consequência de um programa de industrialização nacional.


Na Romênia, a Guarda de Ferro e a Legião do Arcanjo Miguel, associadas à liderança de Corneliu Zelea Codreanu, desenvolveram uma forma peculiar de nacionalismo radical, profundamente marcada pelo misticismo religioso e pelo antissemitismo. A regeneração nacional era concebida sobretudo como transformação espiritual e moral. A criação de um novo homem, purificado pelo sacrifício, pela disciplina e pela devoção religiosa, precedia a formulação de um programa consistente de desenvolvimento econômico. Diferentemente do fascismo italiano, cuja preocupação com a modernização industrial ocupava posição central, o movimento legionário romeno inicialmente valorizava a vida camponesa e as tradições religiosas como fundamentos da recuperação nacional.


Outras experiências nacionalistas autoritárias também revelaram combinações variáveis de tradicionalismo, modernização, militarismo e mobilização popular. Na Hungria e na Romênia, movimentos inicialmente comprometidos com a preservação das tradições agrárias foram pressionados pelas exigências da competição internacional a reconhecer a necessidade da industrialização. No Japão, intelectuais provenientes do marxismo reformularam suas convicções para justificar a colaboração entre classes e o fortalecimento econômico nacional. Em diferentes regiões, a necessidade percebida de superar o atraso material favoreceu a aproximação entre doutrinas originalmente distintas.


Fenômenos semelhantes apareceram, com características e intensidades diversas, em movimentos nacionalistas e autoritários de países em desenvolvimento. Experiências como as de Getúlio Vargas no Brasil e Juan Perón na Argentina apresentaram determinados elementos de mobilização nacional, organização corporativa e intervenção estatal que recordavam aspectos do fascismo europeu, sem que isso significasse identidade integral entre seus regimes. A categoria de fascismo deve, portanto, ser utilizada com precisão, distinguindo os elementos comuns de nacionalismo autoritário e desenvolvimento dirigido das características particulares de cada experiência histórica.


A tentativa de identificar todo movimento nacionalista, autoritário ou anticomunista como fascista destrói a utilidade analítica do conceito. A presença de violência política, preconceito racial, liderança carismática ou hostilidade ao liberalismo não basta, isoladamente, para estabelecer a natureza fascista de um regime. É necessário compreender sua origem histórica, sua estrutura institucional, sua ideologia, seus objetivos econômicos e a função desempenhada pelo nacionalismo em sua organização. Caso contrário, fascismo torna-se simplesmente uma expressão de condenação moral aplicada a adversários políticos, sem capacidade efetiva de explicar os acontecimentos.


O mesmo problema ocorre quando o marxismo-leninismo é interpretado exclusivamente a partir de suas declarações doutrinárias. A denominação socialista de um regime não demonstra que os trabalhadores exerçam o poder, assim como a existência formal de propriedade estatal não comprova a realização de uma sociedade sem classes. A experiência histórica precisa ser examinada por suas instituições e resultados efetivos. A concentração do poder numa elite partidária, a supressão das liberdades, a exploração coercitiva do trabalho e a mobilização econômica em nome da grandeza nacional não desaparecem porque são justificadas por uma linguagem de emancipação proletária.


O fascismo italiano revelou, desde sua formação, uma compreensão mais explícita da natureza nacionalista de seu projeto revolucionário. Seus dirigentes reconheceram que a industrialização, a disciplina coletiva e a concentração do poder constituíam instrumentos destinados a assegurar a sobrevivência e o prestígio da nação num ambiente internacional competitivo. Os bolcheviques, em contrapartida, continuaram justificando medidas semelhantes mediante categorias marxistas que progressivamente perdiam correspondência com a realidade. A história soviética tornou-se, assim, a demonstração de como uma ideologia revolucionária podia transformar-se substancialmente sem abandonar sua linguagem original.


A experiência do século XX revela que as grandes revoluções antidemocráticas não podem ser compreendidas adequadamente pela oposição simplificada entre direita e esquerda. Os movimentos que construíram Estados de partido único, mobilizaram populações em torno de missões históricas, exigiram submissão à autoridade política e recorreram sistematicamente à violência pertenciam a uma família de fenômenos muito mais próxima do que suas declarações ideológicas sugeriam. Suas diferenças eram reais, mas não anulavam a existência de mecanismos políticos e sociais comuns.


O conceito de fascismo genérico, compreendido como uma modalidade de nacionalismo revolucionário, coletivista, autoritário e frequentemente orientado para a modernização acelerada, permite reconhecer essas afinidades sem reduzir todas as experiências históricas a uma identidade absoluta. O nacionalismo reativo, alimentado pela percepção de atraso, humilhação ou ameaça externa, oferece uma explicação para o surgimento de movimentos que procuram reorganizar integralmente a sociedade em nome da recuperação nacional. A necessidade de desenvolvimento econômico e poder militar favorece a concentração da autoridade, a mobilização das massas e a subordinação dos interesses individuais a finalidades coletivas.


A trajetória do marxismo-leninismo demonstra que essas forças históricas podem prevalecer sobre os compromissos doutrinários originais. Uma revolução anunciada como internacionalista, proletária e emancipadora pode converter-se num regime nacionalista, hierárquico e coercitivo, comprometido sobretudo com a expansão do poder estatal. O desaparecimento da ideologia marxista não elimina necessariamente as estruturas políticas e as disposições coletivas que ela ajudou a consolidar. Sob novas denominações, elas podem reaparecer quando circunstâncias semelhantes produzirem novamente sentimentos de ameaça, inferioridade e ressentimento nacional.


A grande tragédia intelectual do século XX consistiu em permitir que categorias ideológicas substituíssem a observação da realidade. A crença na superioridade moral intrínseca da esquerda revolucionária impediu que numerosos intelectuais reconhecessem a verdadeira natureza dos regimes comunistas, enquanto a identificação indiscriminada do fascismo com toda forma de extremismo de direita obscureceu suas origens revolucionárias e suas afinidades com o marxismo-leninismo. A consequência foi uma interpretação profundamente inadequada dos movimentos responsáveis por algumas das maiores catástrofes políticas da história moderna.


A experiência revolucionária do século não foi essencialmente uma disputa entre duas concepções antagônicas de justiça social, mas um confronto entre formas de organização política que reconheciam limites ao poder do Estado e sistemas que pretendiam subordinar integralmente a sociedade a uma missão histórica. Fascismo e marxismo-leninismo representaram, sob linguagens distintas, manifestações de uma mesma tentação antidemocrática: a crença de que uma elite revolucionária, investida de autoridade ideológica e apoiada na força organizada, poderia reconstruir a sociedade, regenerar a nação e determinar o destino coletivo.


O colapso do comunismo soviético não significou a derrota definitiva dessa tentação. As condições que alimentaram os movimentos revolucionários do século XX – insegurança nacional, ressentimento coletivo, atraso econômico, aspirações de grandeza e disposição para sacrificar a liberdade em nome de objetivos históricos – continuam presentes no mundo contemporâneo. Enquanto tais condições persistirem, também persistirá a possibilidade de novos movimentos autoritários, quaisquer que sejam suas denominações ideológicas. A lição fundamental do século XX é que o perigo político decisivo não reside necessariamente na direita ou na esquerda, mas na transformação de uma ideologia de salvação coletiva em justificativa para o poder ilimitado do Estado.






Notas


  • A. James Gregor (1929-2019) nasceu em New York (NY), EUA.

  • Filósofo político, historiador das ideias e cientista político, reconhecido por seus estudos sobre o fascismo, o marxismo e os movimentos revolucionários do século XX.

  • Sua contribuição intelectual mais importante foi a revisão das interpretações tradicionais do fascismo. Contestou sua classificação como fenômeno exclusivamente de direita, destacando suas raízes no socialismo revolucionário e suas afinidades ideológicas e institucionais com o marxismo-leninismo.

  • Entre suas obras fundamentais também se destacam The Ideology of Fascism (1969), Italian Fascism and Developmental Dictatorship (1979), Mussolini's Intellectuals (2005), The Search for Neofascism (2006) e Marxism, Fascism, and Totalitarianism (2009).

  • The Faces of Janus: Marxism and Fascism in the Twentieth Century foi publicado em 2000.

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