Africa and Africans in the Making of the Atlantic World (1400-1800) de John K. Thornton

“At the beginning, at least, Europeans were only tapping existing slave markets.” – John K. Thornton
A formação do mundo atlântico entre os séculos XV e XVIII não pode ser compreendida como uma história em que os europeus aparecem como os únicos agentes e os africanos como participantes exclusivamente passivos. Muito antes da expansão marítima portuguesa, a África possuía reinos organizados, sistemas políticos complexos, redes comerciais extensas e instituições próprias de escravidão. As sociedades africanas não foram simplesmente arrastadas para o comércio atlântico de escravos por uma força externa irresistível. Seus governantes, aristocracias, comerciantes e chefes militares participaram ativamente da captura, utilização e comercialização de seres humanos, tanto para atender às necessidades de suas próprias economias quanto para abastecer mercados estrangeiros. O tráfico atlântico desenvolveu-se, em grande medida, a partir dessas estruturas preexistentes, adaptando-as a uma demanda internacional crescente.
A escravidão era uma instituição profundamente enraizada em numerosas sociedades africanas, embora assumisse formas diferentes conforme a região, o período e a organização política. Sua importância estava relacionada à própria estrutura jurídica e econômica do continente. Enquanto na Europa a propriedade privada da terra constituía uma das principais fontes de riqueza e rendimento, em grande parte da África a terra pertencia coletivamente às comunidades ou era controlada por instituições políticas. A riqueza privada e a capacidade de extrair rendimentos dependiam, portanto, muito mais do controle sobre pessoas e sobre seu trabalho. Possuir escravos significava controlar diretamente uma fonte de produção, riqueza e poder, de maneira comparável, em certos aspectos econômicos, à posse de terras e à cobrança de rendas na Europa.
Essa diferença institucional é fundamental. A ampla difusão da escravidão africana não decorria simplesmente de atraso econômico ou de uma imposição europeia. Resultava de sistemas jurídicos que permitiam transformar o domínio sobre pessoas em direitos sobre sua produção. Reis, nobres e proprietários podiam acumular riqueza mediante a posse de trabalhadores dependentes, a cobrança de tributos, a apropriação de serviços e a utilização de cativos em atividades agrícolas, domésticas, comerciais e políticas. O escravo não era apenas uma mercadoria destinada à exportação: constituía um elemento central da organização econômica e social de muitas comunidades africanas.
Consequentemente, a escravidão e o comércio de escravos não surgiram com a chegada dos portugueses à costa africana no século XV. Já existiam mercados internos e circuitos de longa distância pelos quais pessoas escravizadas eram transferidas entre diferentes sociedades. As rotas transaarianas, que ligavam a África subsaariana ao Norte da África e ao mundo islâmico, integravam esse sistema comercial anterior à expansão atlântica. Escravos eram transportados juntamente com ouro, sal e outras mercadorias. Governantes e comerciantes africanos participavam dessas redes, vendendo cativos a compradores muçulmanos ou utilizando-os em suas próprias sociedades.
A existência desse comércio anterior demonstra que a transformação de africanos em mercadorias não foi uma invenção europeia. A expansão islâmica e o desenvolvimento das redes mercantis transaarianas haviam contribuído para estabelecer mercados externos para a mão de obra escravizada. As populações capturadas nas guerras, nas incursões militares e em outras formas de sujeição podiam ser incorporadas às sociedades vencedoras ou vendidas a intermediários que as encaminhavam para regiões distantes. O comércio com os muçulmanos, portanto, precedeu o comércio atlântico e constituiu uma das modalidades pelas quais sociedades africanas participavam de mercados internacionais de escravos.
Com a chegada dos portugueses, desenvolveu-se uma nova direção para um comércio que já possuía fundamentos institucionais e econômicos locais. Inicialmente, os europeus procuraram estabelecer relações comerciais com os governantes da costa ocidental africana, oferecendo cavalos, tecidos, metais e outras mercadorias em troca de ouro, escravos e produtos regionais. Os comerciantes europeus não encontraram uma população desorganizada, incapaz de negociar ou inteiramente submetida à sua vontade. Encontraram autoridades políticas que controlavam os portos, cobravam impostos, regulamentavam transações e exigiam o cumprimento de condições para autorizar o comércio.
Os reis e chefes africanos determinavam quem podia negociar, quais tributos deveriam ser pagos e quais mercadorias seriam aceitas. Os estrangeiros precisavam obter permissões, estabelecer alianças, oferecer presentes e adaptar-se às regras comerciais locais. A tentativa portuguesa de monopolizar o comércio frequentemente fracassava diante da concorrência europeia e da capacidade de negociação dos próprios africanos. Os comerciantes africanos podiam procurar outros compradores e aproveitar a rivalidade entre portugueses, holandeses, ingleses e franceses para conseguir condições mais favoráveis.
O tráfico de escravos, portanto, não pode ser explicado apenas pela superioridade militar ou comercial europeia. Durante grande parte do período inicial, os europeus dependiam das autoridades africanas para obter cativos e tinham capacidade limitada de impor unilateralmente suas condições aos mercados locais. O fornecimento de escravos era organizado, em grande medida, por estruturas políticas e comerciais africanas, que conservavam o controle sobre as pessoas escravizadas até sua transferência aos compradores estrangeiros.
Essa participação não era acidental. As elites políticas e econômicas africanas tinham razões materiais para manter e ampliar o comércio. A venda de cativos permitia adquirir mercadorias estrangeiras, aumentar receitas, fortalecer alianças, financiar atividades políticas e ampliar o prestígio dos governantes. Os benefícios eram concentrados entre aqueles que controlavam a guerra, o comércio e as instituições de dependência, enquanto os custos humanos e demográficos recaíam principalmente sobre as populações capturadas e sobre as comunidades atingidas pelas incursões.
A ideia de que os africanos teriam sido obrigados a vender escravos porque não compreendiam as consequências de suas decisões não explica adequadamente o funcionamento desses mercados. Os governantes e comerciantes conheciam o valor dos cativos e das mercadorias recebidas em troca. Suas decisões eram coerentes com os interesses econômicos e políticos das elites participantes, ainda que produzissem consequências destrutivas para outras populações africanas. A racionalidade dos negociantes não significava benefício para a sociedade africana como um todo.
A principal fonte de escravização era a guerra. Os conflitos entre reinos, as disputas sucessórias, as campanhas de expansão territorial e as incursões contra comunidades vizinhas produziam grande quantidade de prisioneiros. Esses cativos podiam ser empregados nas propriedades dos vencedores, incorporados aos serviços de governantes, utilizados como soldados ou vendidos a comerciantes estrangeiros. A distinção entre guerras políticas e guerras destinadas à obtenção de escravos nem sempre era clara, pois a captura de pessoas podia fortalecer economicamente e politicamente um governante mesmo quando não havia conquista territorial.
Na região da Senegâmbia, essa realidade já era observável em meados do século XV. No reino de Jolof, os escravos provinham principalmente das guerras contra povos vizinhos e dos conflitos internos. Parte dos prisioneiros era incorporada à economia local, enquanto outra parte era vendida aos mouros em troca de cavalos. A chegada dos comerciantes cristãos à costa abriu uma alternativa comercial a esse sistema. Os mesmos governantes africanos que utilizavam escravos em suas próprias sociedades podiam vendê-los tanto aos compradores muçulmanos das rotas saarianas quanto aos europeus recém-chegados ao Atlântico. A existência de mercados concorrentes ampliava suas possibilidades de negociação.
A relação entre guerra e escravidão também demonstra que os governantes africanos não vendiam necessariamente seus próprios súditos. Em grande parte dos casos, os escravos exportados eram estrangeiros capturados em conflitos com outras comunidades. A distinção entre membros da própria sociedade e populações inimigas era decisiva. Os vencedores podiam considerar legítimo escravizar pessoas pertencentes a outros reinos, grupos políticos ou comunidades, sem estender necessariamente esse tratamento à população que governavam. A escravização não obedecia a uma solidariedade racial abrangente entre africanos, mas às fronteiras políticas, jurídicas e sociais estabelecidas pelas diferentes sociedades.
A captura de escravos não se limitava, entretanto, às guerras regulares. Condenações judiciais, punições, dívidas, sequestros e atividades de banditismo também podiam produzir cativos. Em certas regiões, autoridades judiciais distorciam procedimentos legais para transformar acusados e até seus parentes em escravos. Missionários observaram práticas desse tipo em Ndongo, por volta de 1600, e na Alta Guiné durante o século XVII. Apesar disso, a escravização decorrente de guerras parece ter sido quantitativamente muito mais importante para o comércio de exportação do que a escravização judicial.
A própria demanda estrangeira podia estimular campanhas militares. Em 1576, o governante de Kayor realizou uma guerra com o objetivo de obter escravos suficientes para pagar uma dívida contraída com um comerciante de Cabo Verde. Em Serra Leoa, em 1580, um negociante inglês acreditava que seu pedido de escravos havia levado um governante local a organizar uma campanha militar destinada a conseguir milhares de cativos. Esses episódios demonstram que a captura de pessoas podia ser deliberadamente orientada para satisfazer compromissos comerciais. Ao mesmo tempo, não se pode reduzir todas as guerras africanas a operações destinadas exclusivamente ao tráfico, pois as rivalidades dinásticas, a expansão territorial e as disputas de poder frequentemente possuíam causas independentes.
Os grandes Estados africanos também participavam dessa dinâmica. O Império Songhai, que dominou extensas regiões do Sudão ocidental, realizou campanhas militares frequentes durante os reinados de Sonni Ali e Askia Muhammad. Suas guerras visavam principalmente à expansão territorial, à afirmação da autoridade política e à repressão de adversários, mas a captura de pessoas integrava as consequências da atividade militar. A escravidão não era, portanto, uma característica exclusiva de pequenos reinos fragmentados ou de sociedades politicamente desorganizadas. Estados poderosos e centralizados também empregavam mão de obra escravizada e participavam dos sistemas de circulação de cativos.
Na África centro-ocidental, particularmente nos reinos do Congo e de Ndongo e nas regiões que viriam a constituir Angola, o comércio de escravos adquiriu grande importância. O Reino do Congo possuía uma estrutura política sofisticada, com monarquia, aristocracia, administração territorial, sistemas tributários e relações diplomáticas. A conversão de parte de sua elite ao cristianismo e o estabelecimento de relações com Portugal não eliminaram a escravidão. Os governantes congoleses continuaram a utilizar trabalhadores dependentes e a participar de transações comerciais envolvendo cativos.
Os comerciantes portugueses instalados no Congo frequentemente dependiam da proteção de autoridades africanas. Alguns estrangeiros adquiriram posições influentes nas estruturas políticas locais e atuaram como intermediários entre os mercados africanos e os navios europeus. A integração desses comerciantes às sociedades africanas demonstra que o tráfico não era simplesmente uma operação imposta de fora para dentro. Desenvolveu-se por meio de alianças, interesses compartilhados e negociações entre agentes africanos e europeus.
Em Angola, entretanto, a situação tornou-se mais complexa devido à intervenção militar portuguesa. As guerras contra Ndongo, as disputas sucessórias e os conflitos envolvendo a rainha Njinga produziram grande quantidade de prisioneiros. A presença portuguesa alterou o equilíbrio regional e contribuiu diretamente para a violência e para a exportação de escravos. Mesmo nesse contexto, as guerras não podem ser compreendidas exclusivamente como campanhas de captura de mão de obra. A conquista territorial, a imposição de governantes aliados, a resistência africana e as disputas pelo poder misturavam-se aos interesses comerciais.
O crescimento do tráfico não significava que todas as sociedades africanas fossem beneficiadas. Ao contrário, as comunidades derrotadas sofriam perdas populacionais, destruição econômica e desorganização familiar. A exportação de homens e mulheres em idade produtiva podia modificar a composição demográfica, reduzir a capacidade de trabalho e enfraquecer regiões inteiras. Os efeitos, contudo, eram desiguais. As elites que controlavam o comércio podiam continuar acumulando riqueza mesmo quando outras comunidades sofriam perdas devastadoras. Essa diferença entre os interesses dos negociantes e as consequências para a população constitui uma das chaves para compreender a persistência do tráfico.
A incorporação dos africanos às sociedades americanas inaugurou outra dimensão desse processo. Os escravizados transportados através do Atlântico não constituíam uma população culturalmente homogênea. Procediam de diferentes reinos, regiões linguísticas e tradições religiosas. Entre eles havia indivíduos provenientes da Alta Guiné, da Costa do Ouro, do golfo do Benim, da região do Congo e de Angola. A diversidade africana foi transportada para o Novo Mundo, onde diferentes grupos participaram da formação das sociedades coloniais.
Nas Américas, os africanos foram empregados na agricultura, na mineração, nos serviços domésticos, nos transportes, no artesanato e em numerosas atividades especializadas. Sua participação não se limitou ao fornecimento de força física. Trouxeram conhecimentos agrícolas, habilidades técnicas, experiências comerciais, tradições militares e formas de organização social. A economia atlântica dependia não apenas da quantidade de trabalhadores importados, mas também de suas capacidades produtivas e de seus conhecimentos.
A distribuição desses africanos variava conforme as rotas comerciais e as necessidades das colônias. O Brasil português recebeu importantes contingentes provenientes da África centro-ocidental, especialmente do Congo e de Angola. As colônias espanholas, as ilhas caribenhas e, posteriormente, as possessões inglesas e francesas também receberam populações africanas de origens diversas. As redes comerciais que ligavam portos africanos a mercados americanos contribuíram para determinar a composição cultural das comunidades escravizadas.
A travessia atlântica e a condição servil impunham uma ruptura violenta com as sociedades de origem, mas não eliminavam automaticamente as identidades africanas. Os escravizados procuravam reconstruir relações sociais, estabelecer comunidades, preservar práticas religiosas e transmitir conhecimentos. A presença de pessoas provenientes de regiões semelhantes facilitava a continuidade de línguas, costumes e formas de sociabilidade. Ao mesmo tempo, a convivência entre grupos diferentes produzia adaptações e novas sínteses culturais.
A cultura afro-atlântica não foi simplesmente uma reprodução intacta da cultura africana, nem uma criação inteiramente nova resultante da influência europeia. Desenvolveu-se mediante processos de conservação, transformação e recombinação de elementos culturais. A música, a dança, a religião, as práticas familiares e as formas de organização comunitária foram continuamente reconstruídas. A capacidade de adaptação dos africanos tornou-se um dos elementos fundamentais da formação das sociedades americanas.
As religiões africanas desempenharam papel importante nessa continuidade cultural. Diferentes povos possuíam concepções próprias sobre o mundo espiritual, a relação entre vivos e mortos, a intervenção de forças sobrenaturais e a legitimidade das autoridades religiosas. O contato com o cristianismo não produziu necessariamente a substituição integral dessas crenças. Em muitas regiões, especialmente onde já existiam tradições cristãs africanas, como no Congo, as populações escravizadas encontraram formas de interpretar e praticar o cristianismo a partir de experiências religiosas anteriores.
A presença de africanos cristianizados demonstra que o encontro entre cristianismo e culturas africanas não começou exclusivamente nas plantações americanas. O Reino do Congo havia desenvolvido, desde o final do século XV, uma tradição cristã própria, vinculada à monarquia e à organização política local. Africanos provenientes desse ambiente podiam chegar às Américas trazendo conhecimentos cristãos e interpretações religiosas que não dependiam diretamente da catequese colonial.
A resistência à escravidão constituiu outra dimensão permanente da experiência africana no mundo atlântico. Os escravizados resistiam por meio de fugas, formação de comunidades independentes, preservação de vínculos culturais, negociações e rebeliões. Essas ações não eram necessariamente improvisadas ou desorganizadas. Muitos africanos possuíam experiência militar anterior, conheciam formas de liderança política e eram capazes de estabelecer alianças e estruturas de comando.
Os quilombos e outras comunidades de fugitivos demonstraram essa capacidade de reorganização. A experiência política e militar adquirida na África podia ser utilizada na formação de sociedades autônomas, na defesa de territórios e na resistência às autoridades coloniais. A participação africana na história americana, portanto, não se limitou à submissão e ao trabalho compulsório: incluiu iniciativas políticas e militares que desafiaram diretamente o sistema escravista.
Durante o século XVIII, o tráfico atlântico alcançou proporções muito superiores às dos séculos anteriores. A expansão das plantações americanas e o crescimento da demanda por trabalhadores escravizados intensificaram a circulação de pessoas entre a África e as Américas. O aumento do comércio ampliou as oportunidades de enriquecimento de comerciantes e governantes africanos, mas também agravou os efeitos das guerras, das incursões e da insegurança em diversas regiões.
No Reino do Congo, as guerras civis e a fragmentação da autoridade política favoreceram a captura e a venda de pessoas. Grupos armados, nobres locais e chefes militares aproveitavam a instabilidade para realizar incursões e transformar prisioneiros em mercadorias. Em determinadas circunstâncias, até pessoas que não participavam dos conflitos eram capturadas e vendidas. Um ataque denunciado por um missionário resultou na apreensão de 58 pessoas, inclusive indivíduos que simplesmente se encontravam em um mercado. A venda desses cativos permitia adquirir chapéus e outras mercadorias, sem distinção efetiva entre inocentes e culpados.
A deterioração da ordem política congolesa favoreceu o aparecimento de chefes locais que passaram a viver de pilhagens e capturas. As populações rurais, os comerciantes em trânsito e até comunidades subordinadas aos próprios governantes tornaram-se vulneráveis. O desejo de adquirir tecidos e outros produtos importados estimulava abusos das elites, embora a dinâmica da guerra civil e a necessidade de obter armamentos também influenciassem suas decisões. A participação no comércio internacional de escravos tornava-se, em certos contextos, um instrumento para financiar a própria sobrevivência política e militar.
Na Costa do Ouro, a multiplicidade de pequenos Estados, as disputas comerciais e a formação de alianças militares também contribuíram para a escravização. Os conflitos podiam envolver comerciantes, mercenários, governantes locais e representantes de estabelecimentos europeus. A apreensão de pessoas para compensar dívidas ou resolver disputas comerciais integrava essas práticas. As guerras entre Estados africanos frequentemente produziam grande quantidade de cativos destinados à venda.
A formação e expansão de Estados como Denkyira, Akwamu, Akyem e Asante não eliminaram essas práticas. Exércitos vencedores saqueavam territórios, capturavam populações e utilizavam os prisioneiros como fonte de riqueza. Em 1718, uma invasão de Aowin contra Asante resultou, segundo um relato contemporâneo, na captura de pelo menos vinte mil mulheres e crianças destinadas à venda, além dos homens. Em outras circunstâncias, os vencedores preferiam conservar as populações derrotadas em seus territórios para aproveitar sua capacidade produtiva e militar. A decisão entre escravizar, exportar ou incorporar os vencidos dependia dos interesses políticos e econômicos dos conquistadores.
Na região igbo, a fragmentação política e a ausência de uma autoridade capaz de garantir a segurança de grandes territórios favoreceram guerras locais, sequestros e incursões. O testemunho de Olaudah Equiano, capturado ainda criança, revela como indivíduos podiam ser retirados de suas comunidades e introduzidos em sucessivas redes de comercialização. Comerciantes interessados em adquirir cativos podiam incentivar conflitos entre governantes, enquanto bandos armados e sequestradores exploravam a falta de proteção das populações.
O Reino do Daomé constitui outro exemplo importante da relação entre poder político, guerra e escravidão. Sua expansão durante o século XVIII, incluindo a conquista de Aladá em 1724, colocou-o entre os principais Estados militares da região. Suas campanhas produziram cativos e estiveram ligadas ao comércio atlântico, mas não se destinavam exclusivamente à obtenção de escravos. Disputas dinásticas, controle de territórios, proteção de governantes aliados, rivalidades regionais e confrontos com o poderoso Império de Oió também orientavam sua política externa. O Daomé participou intensamente de um sistema em que a guerra e a escravização estavam relacionadas, sem que toda a sua atuação militar possa ser reduzida ao fornecimento de mão de obra para os europeus.
O comércio de armas e outros produtos estrangeiros influenciava essas relações, mas não transformava automaticamente os governantes africanos em instrumentos dos interesses europeus. As armas de fogo podiam fortalecer determinados exércitos e modificar a condução das guerras, porém a dinâmica dos conflitos continuava profundamente vinculada às rivalidades políticas africanas. Os europeus podiam fornecer recursos, financiar aliados e aproveitar disputas, mas nem sempre tinham capacidade de determinar os objetivos ou os resultados das campanhas militares locais.
A escravidão atlântica, portanto, desenvolveu-se mediante a interação de interesses africanos, europeus e americanos. A demanda colonial por trabalhadores escravizados ampliou enormemente o mercado, mas encontrou sociedades nas quais a captura, a posse e a venda de pessoas já possuíam legitimidade institucional e importância econômica. As autoridades africanas participaram da organização desse comércio porque a escravidão fazia parte de seus sistemas de riqueza e poder, e porque a venda de cativos oferecia vantagens a determinados grupos dominantes.
Essa participação africana não diminui a importância da demanda europeia, da exploração colonial ou das consequências humanas do tráfico. Ao contrário, permite compreender a escravidão atlântica como um sistema internacional sustentado por diferentes agentes e interesses. A perda de milhões de pessoas, a destruição de comunidades e a transformação de seres humanos em mercadorias foram possíveis pela articulação entre mercados externos e estruturas africanas de captura e escravização.
Ao mesmo tempo, os africanos transportados para as Américas participaram ativamente da formação do mundo atlântico. Suas culturas, conhecimentos, instituições e formas de resistência transformaram as sociedades coloniais e contribuíram decisivamente para a formação das populações afro-americanas. A história atlântica não pode ser escrita apenas como a expansão europeia sobre a África e as Américas, mas como o resultado de relações entre sociedades distintas, nas quais os africanos exerceram papéis fundamentais, tanto na organização do comércio que levou milhões à escravidão quanto na construção das novas sociedades surgidas desse processo.
A conclusão essencial é que a escravidão africana antecedeu o tráfico atlântico, e a participação de governantes, comerciantes e chefes militares africanos foi indispensável ao seu funcionamento. O comércio com os muçulmanos já demonstrava a existência de redes de exportação de cativos antes da chegada dos europeus. A expansão atlântica abriu novos mercados e aumentou extraordinariamente a escala dessas transações. O sistema resultante combinou instituições africanas preexistentes, interesses comerciais estrangeiros, guerras políticas, incentivos econômicos e formas de exploração que atingiram profundamente as populações submetidas. A África não foi apenas objeto da formação do mundo atlântico: suas sociedades foram também agentes de sua construção, com todas as contradições, realizações e tragédias que essa participação envolveu.
Notas
John K. Thornton (1949–2025) nasceu nos EUA.
Historiador especializado na história da África, na escravidão e na formação das sociedades do mundo atlântico.
Entre suas obras fundamentais também estão The Kingdom of Kongo: Civil War and Transition, 1641–1718 (1983), Warfare in Atlantic Africa, 1500–1800 (1999) e A Cultural History of the Atlantic World, 1250–1820 (2012).
Africa and Africans in the Making of the Atlantic World (1400–1800) foi publicado em 1992.


