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Transformations in Slavery de Paul E. Lovejoy

há 2 horas
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“Africa and its people were fully enmeshed in the international system of slavery that stretched across the world and specifically tore at the fabric of African life.” – Paul E. Lovejoy



A escravidão foi uma instituição profundamente enraizada em numerosas sociedades africanas muito antes da expansão colonial europeia. Durante séculos, governantes, chefes militares, comerciantes e proprietários africanos capturaram, compraram, utilizaram e venderam outros africanos como escravos. A expansão do Islã, a partir do século VII, integrou extensas regiões da África às redes comerciais do norte do continente, do Oriente Médio e do oceano Índico, criando mercados permanentes para a aquisição de cativos. Posteriormente, a chegada dos portugueses ao litoral atlântico, no século XV, abriu novos destinos para esse comércio, que se expandiria enormemente com o desenvolvimento das plantações americanas.


O tráfico de escravos destinado aos mercados muçulmanos precedeu em muitos séculos o tráfico atlântico europeu. As caravanas transaarianas transportavam africanos escravizados para o Marrocos, a Argélia, a Tunísia, a Líbia, o Egito e outras regiões do mundo islâmico. Paralelamente, as rotas do mar Vermelho e do oceano Índico abasteciam mercados da Arábia, da Pérsia e da Índia. Os escravos eram empregados em serviços domésticos, atividades agrícolas, funções militares e administrativas, enquanto mulheres escravizadas eram frequentemente destinadas ao concubinato e ao trabalho doméstico. A legislação islâmica reconhecia a escravidão, embora estabelecesse determinadas restrições à escravização de muçulmanos livres. Essa distinção religiosa contribuiu para legitimar a captura de populações classificadas como não muçulmanas, transformando as fronteiras do Islã em importantes zonas de escravização.


A captura e a venda de africanos por outros africanos constituíam parte essencial do funcionamento desses mercados. Reis, chefes tribais, aristocracias militares e comerciantes organizavam expedições armadas, guerras de conquista, incursões e sequestros para obter cativos. Prisioneiros de guerra, habitantes de comunidades derrotadas e indivíduos submetidos a determinadas punições podiam ser transformados em mercadorias. Os capturados eram conduzidos a mercados interiores, vendidos a intermediários e transportados por sucessivas redes comerciais até os compradores muçulmanos ou europeus. A escravização frequentemente começava longe das costas, em conflitos entre sociedades africanas, e envolvia a destruição de comunidades, a separação de famílias e o deslocamento forçado de populações.


A participação africana nesse comércio não era meramente passiva. Estados e elites locais controlavam rotas, organizavam mercados, cobravam tributos e acumulavam riqueza com a venda de seres humanos. A existência de compradores estrangeiros tornava economicamente vantajosa a captura de pessoas, enquanto as receitas obtidas com o tráfico fortaleciam determinados poderes políticos e militares. O comércio de escravos, portanto, resultava da interação entre a demanda internacional e as estruturas de poder africanas, nas quais alguns grupos escravizavam outros, frequentemente pertencentes a comunidades étnicas, políticas ou religiosas diferentes.


Com a expansão europeia, esse sistema adquiriu uma dimensão atlântica. Portugueses, holandeses, ingleses, franceses e outros comerciantes passaram a adquirir escravos de fornecedores africanos, inicialmente para atividades coloniais e posteriormente para abastecer as grandes plantações americanas. Em numerosas regiões, os europeus dependiam das redes comerciais e dos intermediários africanos para obter cativos, embora também participassem diretamente de operações de escravização em determinados contextos. Reinos como o Daomé e estados como Asante, além de diversos poderes políticos da África Centro-Ocidental, participaram de sistemas comerciais nos quais a captura e a venda de escravos representavam importantes fontes de riqueza e autoridade. Armas, tecidos, metais e outras mercadorias importadas alimentavam essas relações, favorecendo novas campanhas militares e a expansão dos mercados escravistas.


A escravidão africana, entretanto, não se limitava à exportação de pessoas. Uma parcela considerável dos capturados permanecia no continente, trabalhando nas propriedades de governantes, aristocratas, comerciantes e outros proprietários. Mulheres escravizadas eram especialmente valorizadas em numerosos mercados internos, tanto pelo trabalho quanto por sua capacidade reprodutiva. A concentração de trabalhadores compulsórios permitiu o desenvolvimento de grandes unidades agrícolas e de sistemas econômicos nos quais a escravidão deixou de ser apenas uma relação de dependência pessoal para se tornar um verdadeiro modo de produção.


Durante o século XIX, as guerras religiosas islâmicas na savana africana intensificaram esse processo. A formação do Califado de Sokoto, a partir de 1804, e a expansão de outros estados muçulmanos produziram enormes contingentes de cativos, frequentemente provenientes de populações não muçulmanas conquistadas. Muitos foram comercializados, enquanto outros permaneceram nas propriedades agrícolas e unidades produtivas dos novos estados. A dimensão da escravidão interna alcançou proporções extraordinárias: o Califado de Sokoto provavelmente possuía uma população escravizada comparável à dos Estados Unidos antes da Guerra Civil Americana. O Islã, nesses contextos, não apenas regulamentava juridicamente a escravidão, mas também podia fornecer justificações religiosas para guerras que alimentavam continuamente o sistema.


As estimativas para o século XIX revelam a amplitude geográfica do tráfico. Aproximadamente 6,2 milhões de africanos foram exportados como escravos nesse período: cerca de 4 milhões pelo Atlântico, 1,2 milhão através do Saara, 492 mil pelo mar Vermelho e 442 mil pelas rotas do oceano Índico. Essas cifras demonstram a importância persistente dos mercados muçulmanos, embora o tráfico atlântico tenha representado a maior parcela das exportações naquele século. Os números também não incluem a totalidade dos africanos escravizados que permaneceram dentro do continente.


A campanha abolicionista europeia, iniciada com maior intensidade no começo do século XIX, não eliminou imediatamente a escravidão africana. A repressão ao tráfico atlântico reduziu progressivamente as possibilidades de exportação, mas muitos escravos passaram a ser utilizados internamente na produção de óleo de palma, amendoim, cravo, marfim e outras mercadorias comercializadas com os europeus. Assim, o chamado comércio legítimo frequentemente continuou sustentado pelo trabalho escravo. A abolição do tráfico não significou a abolição da exploração, e a escravidão alcançou sua maior difusão interna justamente quando os mercados internacionais começavam a sofrer restrições.


A expansão colonial europeia e a imposição gradual de medidas abolicionistas contribuíram para desarticular esses sistemas, mas a emancipação foi lenta, contraditória e frequentemente incompleta. As autoridades coloniais muitas vezes toleraram relações servis existentes, enquanto escravos e ex-escravos procuravam conquistar a liberdade por meio de fugas, migrações e resistência. Formas de dependência e trabalho compulsório sobreviveram ao desaparecimento jurídico da escravidão.


A história da escravidão africana não pode, portanto, ser reduzida à imagem de europeus capturando africanos indefesos e transportando-os para as Américas. Durante séculos, sociedades africanas participaram ativamente da captura, escravização e comercialização de outros africanos, abastecendo tanto os mercados muçulmanos quanto os europeus. Os compradores estrangeiros estimularam e ampliaram essas práticas, enquanto governantes e comerciantes africanos organizaram grande parte dos mecanismos de fornecimento. A escravidão transformou profundamente o próprio continente, enriquecendo determinadas elites, fortalecendo estados militares, alimentando conflitos e destruindo comunidades. A responsabilidade histórica pelo sistema envolve, portanto, diferentes agentes africanos, muçulmanos e europeus, cujas atividades se articularam em uma vasta economia internacional de exploração humana.



A África não foi apenas vítima do tráfico internacional de escravos, mas também um dos seus principais espaços de organização e reprodução: durante séculos, governantes, guerreiros e comerciantes africanos capturaram e venderam outros africanos a compradores muçulmanos e europeus, enquanto milhões de cativos permaneceram escravizados no próprio continente. A demanda estrangeira ampliou e transformou essas práticas, convertendo a escravidão em um dos fundamentos econômicos e políticos de numerosas sociedades africanas.





Notas


  • Paul E. Lovejoy (1943- ) nasceu no Canadá.

  • Reconhecido internacionalmente por seus estudos sobre a escravidão, o tráfico de escravos e a diáspora africana. Professor emérito da Universidade York, em Toronto, dedicou grande parte de sua carreira à investigação das estruturas econômicas, políticas e sociais da escravidão na África, especialmente na África Ocidental e nas sociedades islâmicas.

  • Entre suas outras obras fundamentais destacam-se Caravans of Kola (1980), Slow Death for Slavery (1993), Slavery, Commerce and Production in West Africa (2005) e Jihad in West Africa during the Age of Revolutions (2016), esta última especialmente relevante para compreender a relação entre expansão islâmica, guerras religiosas e escravidão africana.

  • Transformations in Slavery: A History of Slavery in Africa foi publicado em 1983.

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