O Agente Secreto (2025)
- Cultura Animi

- há 3 dias
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“As famílias importantes de São Paulo financiam a repressão, mas aqui no Nordeste a gente resiste com o que tem.”– Dona Sebastiana, em uma das tantas colocações maniqueístas do roteiro
Em 1977, um pesquisador de tecnologia (interpretado por Wagner Moura) foge de um passado misterioso e retorna à sua cidade natal, Recife, para pegar seu filho e fugir do país. O filme arrasta por duas horas e quarenta minutos uma narrativa que poderia ser apresentada em pouco mais de uma hora. O roteiro é confuso, nunca explicando a razão da encomenda da morte do protagonista, a separação entre ele e o filho, ou a exigência em encontrar o documento da mãe (nem a dificuldade de encontrá-lo – ou identificar sua inexistência – em fichas ordenadas por ordem alfabética), tornando difícil gerar empatia por ele ou qualquer outra personagem (todas pouco e mal desenvolvidas). As atuações são medíocres quando não embaraçosas, como a do protagonista. Wagner Moura é o tipo de ator que representa com naturalidade ele mesmo, e só, mas ao ter que representar dois papéis (pai e filho) foi forçado a atuar: como pai a atuação é distante e insípida, e como filho mais soava como um débil mental.
Mas assim como Ainda Estou Aqui, o filme escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho peca mesmo é na brega busca de reescrever a história do período militar encerrado há quatro décadas. O diretor alega querer dizer com o filme que a memória do período está se perdendo (o que explica a última cena do filme), e daí a necessidade de realizá-lo. Mas o fato é que em nenhum momento se busca recordar os eventos do período, mas sim reproduzi-lo de forma irreal, ludibriando os brasileiros mais jovens e a audiência internacional.
As distorções começam com a caracterização maniqueísta das personagens. Os nordestinos e companheiros do protagonista são apresentados como quase anjos, enquanto tudo o que vem do sul do país ou representa alguma autoridade governamental é apresentado de forma caricatural como a própria encarnação do demônio. Mendonça ainda está seguido orientações de Andrei Zhdanov (1896-1948) via Cominform que enquadra as personagens cinematográficas e literárias nos moldes dos heróis positivos e negativos do realismo socialista soviético.
Uma fantasiosa luta de classes pontua o filme em diversos momentos, desde a definição do trabalho da mãe como doméstica na casa de uma família como análogo a escravidão, até a descrição de quem financiava a fuga do protagonista e ajudava aos outros refugiados como “a filha de uma família rica de São Paulo que rouba o Brasil há muito tempo”.
Mendonça deveria olhar mais para o quintal da sua casa. O desequilíbrio fiscal brasileiro faz com que 85% dos recursos gerados pelo Imposto de Renda e IPI (Fundo de Participação dos Estados) sejam destinados ao Norte e Nordeste apesar destas regiões gerarem apenas 10% destes recursos, sendo que similar desproporção também ocorre na redistribuição dos recursos do Fundo de Participação dos Municípios e Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (tudo fruto da histórica desproporção de representatividade favorável àquelas regiões no Parlamento). Mesmo com tal favorecimento orçamentário ocorrendo há anos os índices de qualidade de vida do Norte e Nordeste seguem estagnados, pois os recursos são desviados para a rede de oligarcas políticos locais, nunca chegando a beneficiar a população. Por que o diretor não escreve um roteiro versando sobre este descalabro?
A cena inicial no posto de gasolina tenta alegoricamente encapsular a mensagem espúria da narrativa apresentado o Brasil de 1977 como um país onde a morte era banalizada pelas corruptas instituições governamentais. Mas a violência no país não tem relação com o regime militar, tanto que o presente número de assassinatos por mil habitantes é o dobro do índice nos anos 1970. E a falência institucional e nível de corrupção só cresceu nos últimos quarenta anos. Por que o diretor não realiza um filme abordando nossa histórica e crescente leniência jurídica e patrimonialismo, estes sim muito mais causais dos problemas que apresenta?
O problema é que Mendonça tem outras prioridades como revela a “perna peluda” e a grotesca cena de orgia sodomita no Parque Treze de Maio. Naqueles anos, a tal “perna” foi um subterfúgio usado pelo Diário de Pernambuco para noticiar as batidas da polícia naquele conhecido local das ilegais e imorais surubas dos baitolas recifenses, numa repressão que era muito bem-vista pela população – o tema não tem nada que ver com o regime militar. Porém o diretor sabe que tocar em homossexualidade funciona junto a crítica e dá crédito nos festivais internacionais, o que também explica a despropositada personagem do menino da pensão que “é homem, mas não como eles querem que seja homem”. E de quebra, Mendonça faz propaganda internacional do Brasil como destino de turismo sexual, contribuindo com os esforços esquerdista de fazer do país um grande prostíbulo.
Filme Nota 1 (escala de 1 a 5)


