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Anthony Mann (1906-1967)

  • Foto do escritor: Cultura Animi
    Cultura Animi
  • 17 de jan.
  • 7 min de leitura

Well, the use of the location is to enhance the characters who are involved in it, because somebody who is really minor in feelings and minor as an actor can become tremendous once he’s set against a tremendously pictorial background. The great value of using locations is that it enhances everything: it enhances the story; it enhances the very action and the acting. I’ll never show a piece of scenery, a gorge, a chasm, without an actor in it.

– Anthony Mann



Anthony Mann foi uma figura central no desenvolvimento do filme noir durante os anos 1940, antes de se tornar um ícone do faroeste. Sua contribuição para o gênero noir é marcada por um estilo visual distintivo, narrativas intensas e uma habilidade única para explorar temas sombrios e psicológicos.


A parceria com o diretor de fotografia John Alton foi crucial para o sucesso de Mann no cinema noir. Alton, conhecido como o “príncipe das sombras”, trouxe uma estética visual que se tornou icônica no gênero. Juntos, eles criaram algumas das imagens mais memoráveis com cenas que usavam sombras duras e iluminação low-key para refletir o tom pessimista das histórias.


A habilidade de Anthony Mann em criar atmosferas intensas e personagens multifacetados influenciou diretores posteriores e solidificou sua reputação como um dos grandes cineastas do período. Mesmo após sua mudança para o faroeste, os elementos de tensão e profundidade psicológica do noir continuaram presentes em sua obra, mostrando sua versatilidade e visão autoral.


A partir de 1950 Mann passou a concentrar seus projetos em westerns, transformando o gênero tradicional em algo mais psicológico, complexo e sombrio. Ele elevou o faroeste a um nível de maturidade artística que pavimentou o caminho para diretores como Sam Peckinpah e Clint Eastwood.


Segue comentários a alguns de seus filmes mais icônicos:


Desperate (1947): Um jovem casal foge da polícia e de um gângster em busca de vingança. Funciona como um estudo em tensão visual de baixíssimo orçamento.

O expressionismo de Mann é evidenciado pelo contraste marcante da iluminação que ele cria para locais opostos: os esconderijos dos criminosos (sombrios, alto-contraste, iluminados por fontes) são opostos à iluminação clara e sem sombras da casa do casal. Grandes cenas do espancamento com a luz balançando, e do tiroteio final nas escadarias escuras. Destaque para a atuação de Raymond Burr como chefe vingativo dos gangsteres.


Railroaded! (1947): Uma esteticista e seu namorado corrupto tentam roubar a casa de apostas, mas quando o plano dá errado, eles incriminam um jovem inocente. Com apenas 72 minutos, o filme é intenso do começo ao fim. Destaque para a cena da briga entre as mulheres, e para a atuação de John Ireland interpretando um criminoso frio, sádico e com fetiche por sua arma.


T-Men (1947): Dois agentes do Tesouro dos EUA infiltram-se numa poderosa rede de falsificação. A narração onisciente é apenas uma das maneiras pelas quais Mann busca uma estética de verossimilhança semidocumental. E o tom propagandístico não diminui a tensão e suspense da narrativa. Em uma miríade de tomadas definidas por diagonais dilacerantes e ângulos de baixo para cima, o cinematógrafo John Alton reúne no mesmo quadro os pretos mais escuros e os brancos mais brilhantes – um clássico visual do noir.


He Walked by Night (1948): Filme noir em estilo semidocumentário apresentando a busca policial por um criminoso engenhoso que matou um policial. Baseado na onda de crimes perpetrada por Erwin "Machine Gun" Walker em 1946. Ao contrário da personagem do filme, Walker foi capturado, julgado e condenado à morte por assassinato em primeiro grau. Os locais icônicos de Los Angeles são belamente filmados pelo cinematógrafo John Alton, cuja iluminação de chiaroscuro define o gênero. Efetiva produção de baixo custo que prende a atenção enquanto registra os procedimentos policiais dos anos 1940. Anthony Mann dirigiu a maior parte do filme mas não teve seu nome creditado. He Walked by Night inspirou a séria televisiva Dragnet (1951-1959), a primeira centrada em procedimento policial, um gênero de sucesso até hoje.


Raw Deal (1948): Joe Sullivan (interpretado por Dennis O'Keefe) assumiu a culpa de um crime praticado por Rick (interpretado por Raymond Burr), e este agora forja um plano de fuga para Joe com intenção de livrar-se dele. O diretor de fotografia John Alton é um especialista em filmes noir, sua câmera sabe como capturar aquele mundo sombrio de imagens pouco iluminadas e cenários de fundo escuro, e reforça os elementos de suspense com ângulos de câmera pouco usuais, fazendo as coisas parecerem desequilibradas. Assim Mann e Alton extraem o melhor deste roteiro enxuto e bem engendrado. Um dos poucos filmes noir narrado por uma mulher.


Border Incident (1949): Agentes federais mexicanos e americanos enfrentam uma gangue cruel que explora trabalhadores agrícolas ilegais no sul da Califórnia. Aqui Mann e Alton continuavam sua exploração do potencial das linhas narrativas noir em cenários incomuns como a fronteira americana com o México. Como em T-Men, a narrativa usa um abordagem documental com tom propagandista fazendo, desta vez, referência ao Programa Bracero (1945-1964) que trazia legalmente trabalhadores mexicanos para suprir a necessidade de mão de obra agrícola nos EUA. Com Border Incident Anthony Mann estabelecia o padrão formal que ele usaria com maior potência narrativa em seus westerns clássicos dos anos 1950: a combinação de elementos noir (violência crua, sombras profundas, tensão psicológica) com o uso do espaço aberto, a perseguição, e a luta moral das personagens em ambientes hostis.


Side Street (1950): Um jovem com uma esposa grávida inadvertidamente rouba dinheiro de chantagem para acobertar um assassinato. A narrativa guarda semelhanças com Desperate (1947): ambos lidam com um jovem herói infeliz que é perseguido por gangsters e pela polícia, cujas jovens esposas estão grávidas e dão à luz no decorrer da história, e ambos tomam uma série de decisões equivocadas. Mas Side Street é superior como thriller, e contém uma bela história de erro, culpa e arrependimento. Notar como a cinematografia de Joseph Ruttenberg constrói visualmente a jornada interna da personagem central: a luz diminui, as sombras crescem, o enquadramento aperta – perda do controle moral, sentimento de culpa, e pânico.


Winchester '73 (1950): Cowboy (interpretado por James Stewart) persegue um notório fora da lei em busca de vingança e recuperar seu rifle Winchester ‘73. Diferenciada narrativa de vingança com o rifle violentamente trocando de mãos em distintas situações representativas do western; paralelamente o diretor humaniza o gênero com diálogos e atuações naturais. E a arma é apresentada como ela é: um instrumento de progresso e ordem. O tiroteio final é um estudo em mise-en-scène, com Mann transformando uma paisagem rochosa e irregular em um eletrizante campo de batalha psicológico. Winchester '73 apresentou à audiência uma faceta mais complexa do nobre herói do velho oeste: um homem atormentado por problemas pessoais e impulsos violentos. James Stewart deixava o papel do americano ideal dirigido por Frank Capra para representar homens traumatizados, obsessivos e falíveis.


Bend of the River (1952): Colonos veem seus suprimentos confiscados depois que ouro é descoberto nas proximidades de suas terras, e um cowboy (interpretado por James Stewart) arrisca sua vida para tentar recuperá-los. Baseado no romance Bend of the Snake de Bill Gulick. Mann cria um belo espetáculo, em que a paisagem, colorida em Technicolor, é tão essencial quanto as personagens que se submetem à esperança, à traição e à ganância. Os dilemas morais e a busca de redenção valem mais que as bem executadas cenas de ação. Os dois protagonistas (Arthur Kennedy interpreta o antagonista da personagem de James Stewart) decidem seus destinos com base em suas escolhas morais, e só um sai redimido das águas do rio – um singelo agradecimento vale mais que todo o dinheiro do mundo quando o custo é a sua alma.


The Naked Spur (1953): Caçador de recompensas (interpretado por James Stewart) levando um assassino à justiça é forçado a aceitar a ajuda de dois estranhos pouco confiáveis. A estrutura minimalista do filme dá lugar a um complexo jogo psicológico em um cenário grandioso e simbólico – thriller psicológico disfarçado de western. Mann usa as Rocky Mountains para refletir o isolamento psicológico das personagens e reforçar a tensão, dando uma sensação claustrofóbica apesar do espaço aberto. Com uma complexidade moral rara para a época, a narrativa é concluída com a mulher exercendo sua missão divina de salvar a alma do homem.


The Far Country (1955): Um aventureiro obstinado (interpretado por James Stewart) enfrenta um homem da lei corrupto enquanto leva gado para Dawson. A narrativa explora os temas da lealdade, da importância da comunidade, e da redenção – mais um western reflexivo de Mann. Filmado me em Technicolor nas paisagens dramáticas do Parque Nacional Jasper e das Montanhas Rochosas Canadenses. Destaque para o elenco de apoio com figuras tarimbadas do gênero western como Walter Brennan, John McIntire, e Ruth Roman.


The Man from Laramie (1955): O recém-chegado Will Lockhart (interpretado por James Stewart) desafia o barão do gado local e seu sádico filho trabalhando para um de seus mais antigos rivais. Último dos cinco western de Anthony Mann protagonizados por James Stewart, tendo o roteiro mais intrincado e interessante dos cinco. Notar o terreno, a profundidade e o esplendor das árvores – nenhum outro diretor estudou os detalhes de um local ou paisagem com mais sentimento. Primeiro western de Mann em CinemaScope que usa o formato como extensão do espaço em torno do homem, com excepcionais traveling shoots.


Man of the West (1958): Bandido reformado (interpretado por Gary Cooper) fica para atrás com outros dois passageiros após um assalto a um trem, sendo forçado a se juntar ao seu antigo bando. Mal recebido pela crítica e público americano, o filme foi depois elevado a um clássico pelos críticos/diretores do Cahiers du Cinema. Sombrio e trágico. Grande cena de luta entre o protagonista e o bandido interpretado por Jack Lord.


El Cid (1961): O lendário herói espanhol Rodrigo Diaz de Vivar (El Cid – interpretado por Charlton Heston) supera uma vingança familiar e uma intriga judicial para defender a Espanha cristã contra os invasores muçulmanos. O diretor Anthony Mann enveredava pelo gênero épico com esta versão mais mítica que histórica do herói espanhol. O filme destaca-se visualmente e na abordagem de temas como lealdade, honra e sacrifício pessoal. Porém a narrativa arrasta-se ao dedicar tempo demasiado ao romance entre El Cid e Jimena, além disto muitos dos diálogos soam artificiais. Vale mais para apreciar o senso de composição, uso do espaço, e movimentos de câmera de Anthony Mann neste seu último filme digno de nota.

©2019 by Cultura Animi

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