René Clément (1913–1996)
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“Cada plano deve ter três significados ao mesmo tempo: narrativo, psicológico e simbólico.” – René Clément
O francês René Clément (1913–1996) foi um dos mais importantes diretores do cinema francês do pós-guerra e um dos principais representantes do chamado cinema clássico francês anterior à Nouvelle Vague. Sua consagração internacional ocorreu após a Segunda Guerra Mundial com La Bataille du Rail (1946), obra sobre a resistência ferroviária francesa contra a ocupação alemã, vencedora do prêmio de melhor direção no Festival de Cannes.
Nos anos seguintes dirigiu alguns dos filmes mais celebrados do cinema francês, entre eles Jeux Interdits (1952), vencedor do Oscar honorário de melhor filme estrangeiro e Leão de Ouro em Veneza, e Plein Soleil (1960), que revelou internacionalmente Alain Delon.
Reconhecido pelo rigor técnico, elegância visual, capacidade de construir atmosferas e habilidade em dirigir atores, Clément destacou-se especialmente nos gêneros do drama de guerra e do suspense psicológico. Embora sua reputação tenha sido temporariamente eclipsada pelas críticas da Nouvelle Vague, sua obra foi amplamente reavaliada nas últimas décadas e hoje é considerada parte essencial da história do cinema francês do século XX.
Seguem comentários sobre seus filmes mais interessantes:
Bataille du Rail (1946): Relata os esforços dos trabalhadores ferroviários franceses que fizeram parte de uma resistência organizada durante a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial. Híbrido entre ficção e documentário, o filme foi realizado apenas um ano após o fim da guerra com ferroviários reais da Résistance-Fer, locomotivas e estações autênticas, em locações onde ocorreram ações de sabotagem, e com relatos fornecidos pelos próprios resistentes. Em seu primeiro longa-metragem, René Clément rompia com padrões do cinema francês da época ao filmar quase que exclusivamente em locações externas, com iluminação predominantemente natural, uso de montagem extremamente dinâmica, e preferência por atores não profissionais – um dos precursores do realismo que, anos depois, influenciaria diversas correntes do cinema europeu. Em 1945-46, a França buscava reconstruir a narrativa nacional após a ocupação alemã, e La Bataille du Rail ajudou a consolidar a imagem de uma França resistente ao nazismo, enfatizando o heroísmo dos ferroviários (Résistance-Fer, que financiou parte do filme) e da Resistência. Essa interpretação foi extremamente influente na memória coletiva francesa nas décadas seguintes, embora historiadores tenham demostrado que a realidade da ocupação foi mais complexa, envolvendo resistência, colaboração e acomodação em diferentes graus, e.g. durante a ocupação René Clément trabalhou na produção de pequenos documentários e registros clandestinos destinados à Resistência, já Jean-Paul Sartre viveu acomodado durante todo aquele período, mas não se furtou de inventar uma participação efetiva na resistência para reforçava sua autoridade pública.
Les Maudits (1947): Nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, um grupo de nazistas e seus simpatizantes tentam escapar do acerto de contas usando um submarino. Em vez de retratar os nazistas como caricaturas, Clément – que também escreveu o roteiro – mostra indivíduos de diferentes nacionalidades, temperamentos e motivações; entre eles há fanáticos ideológicos, oportunistas, colaboradores e pessoas movidas apenas pelo instinto de sobrevivência. Sem justificar seus crimes, Clément busca compreender como indivíduos moralmente comprometidos reagem diante da derrota inevitável – o foco recai sobre a falência moral de um sistema político e sobre a maneira como seus próprios adeptos acabam destruindo uns aos outros quando o poder desaparece. O filme apresenta um ritmo irregular e algumas personagens pouco desenvolvidas, mas a exploração da atmosfera claustrofóbica do submarino e a fotografia em P&B se destacam – Les Maudits é um exemplo precoce da habilidade de Clément em construir suspense em espaços fechados, qualidade que atingiria seu auge em Plein Soleil. Como no caso de Bataille du Rail, o filme prima mais pelo seu valor histórico.
Jeux Interdits (1952): Menina francesa que ficou órfã num ataque aéreo alemão faz amizade com o filho de um agricultor pobre e, juntos, tentam aceitar a realidade da morte. Adaptação do romance homônimo de François Boyer publicado em 1947. Um dos grandes filmes antibelicistas da história do cinema, abordando temas universais como morte, inocência destruída e absurdo da guerra de forma simples, lírica e profundamente humana. O enterro dos animais remete ao fort-da freudiano com as crianças transformando uma experiência traumática e angustiante de perda numa ação por elas repetida de forma controlada. A traição do pai de Michel aniquila aquele ritual e as crianças, principalmente Paulette, são devolvidas à solidão e trauma brutais (com cenas finais dilacerantes). Destaques também para as memoráveis atuações dos protagonistas infantis (interpretados por Brigitte Fossey e Georges Poujouly), e a trilha sonora desempenhada pelo guitarrista Narciso Yepes.
Monsieur Ripois (1954): Sedutor compulsivo finge suicídio com consequências inesperadas. Adaptação do romance Monsieur Ripois et la Némésis de Louis Hémon. Neste penetrante retrato psicológico de um sedutor compulsivo, Clément demonstra excelente direção de atores (especialmente o protagonista interpretado por Gérard Philipe), precisão narrativa e domínio da mise-en-scène. O protagonista representa o decadente homem moderno que busca prazer sem responsabilidade, amor sem fidelidade, prestígio sem mérito, e segurança econômica sem trabalho constante. Uma vida construída sobre egotismo e autoengano, cujo castigo será a incapacidade de amar, de conhecer a verdade sobre si mesmo e de viver autenticamente (simbolizado pela prisão à cadeira de rodas, incapacitado neurologicamente).
Gervaise (1956): Uma pobre lavadeira (interpretada por Maria Schell) tenta lidar com o fardo deprimente da sociedade. O filme adapta o romance L'Assommoir de Émile Zola, mas Clément consegue transformá-lo em uma experiência cinematográfica própria. Ele escapa do naturalismo determinista de Zola, pois o homem não é determinado pelas circunstâncias, mas também não é completamente independente delas – a vida humana é sempre a interação entre o “eu”, as circunstâncias, e a resposta que o “eu” dá às circunstâncias, sendo essa terceira dimensão – a resposta pessoal – decisiva. “Yo soy yo y mi circunstancia y si no la salvo a ella no me salvo yo.” (Ortega y Gasset)
Ao contrário de muitos dramas sociais, Gervaise não reduz seus personagens a símbolos políticos ou sociológicos: não apela ao sentimentalismo, personagens unidimensionais ou discursos ideológicos. Clément apresenta uma tragédia humana na qual virtudes e fraquezas convivem de forma verossímil. Mostra que as circunstâncias influenciam a vida das pessoas, mas não eliminam sua responsabilidade moral nem sua capacidade de agir com dignidade. Clément não deixa de fora o aspecto trágico da vida: caráter, hábito e escolhas morais são fundamentais, mas a fortuna (tyché) também influencia profundamente a felicidade humana.
O filme é sombrio e difícil, mas também uma aula sobre a condição humana. Destaque para a fotografia de Robert Juillard com iluminação naturalista e enquadramentos que lembram pinturas realistas do século XIX; e a convincente atuação de Maria Schell ao longo do processo de degradação da sua personagem.
Plein Soleil (1960): Tom Ripley (interpretado por Alain Delon) é um talentoso mímico e falsificador que se revelará um impiedoso assassino. É a melhor adaptação cinematográfica do romance The Talented Mr. Ripley (1955) de Patricia Highsmith, primando pela elegância visual do Mediterrâneo, a construção gradual da tensão psicológica, a interpretação fria e predatória de Alain Delon, e a ausência de psicologismo excessivo. O nome do filme sugere que o Mal não precisa das sombras para proliferar, em plena luz do dia vemos até que ponto pode chegar um ressentido social: Ripley está disposto a tudo para obter o que o outro tem, menos trabalhar. O diretor acertou em fazer um final mais moralista do que o cínico encerramento do romance.
Les Félins (1964): Fugitivo (interpretado por Alain Delon) busca refúgio em uma casa de uma rica viúva e sua empregada (respectivamente interpretadas por Lola Albright e Jane Fonda). Adaptação livre do romance policial Joy House, publicado em 1954 pelo escritor americano Day Keene. Thriller noir com toque francês quanto à ambiguidade moral, no clima de sedução e no jogo psicológico entre as personagens. A narrativa tem lá suas falhas, mas manipula expectativas e mantém o suspense sobre o seu desfecho. Destaque para a fotografia em P&B de Henri Decaë, trilha sonora de Lalo Schifrin, e Delon e Fonda no auge da juventude.
Paris brûle-t-il? (1966): Agosto de 1944, os Aliados aproximam-se de Paris e Hitler ordena que a cidade seja destruída caso ela não possa ser mantida. Baseado no livro-reportagem homônimo de Larry Collins e Dominique Lapierre publicado em 1964. Filmado vinte e dois anos depois dos acontecimentos e durante o período em que a França gaullista estava construindo sua memória nacional da guerra e buscava transformar a libertação militar de Paris numa narrativa de renascimento nacional francês. Assim, o filme é historicamente correto quanto aos acontecimentos principais, mas seletivo em sua perspectiva: o gigantesco esforço logístico e militar americano – que havia tornado possível a chegada de Leclerc a Paris – ficou relativamente fora do centro dramático. Fato é que os Aliados libertaram a França, com os franceses apenas participando dessa libertação e, no caso de Paris, os Generais Eisenhower e Bradley gentilmente atenderam o pedido de De Gaulle para que os franceses, comandados por Leclerc, fossem os primeiros a entrar na cidade.
Outro exagero é a imagem do general alemão Choltitz como alguém que finalmente desafiou a loucura nazista e evitou a destruição da cidade (uma lenda que ele mesmo criou), pois na realidade ele nunca teve tempo e condições de preparar tal destruição. A lenda por Choltitz criada prosperou por ser conveniente aos franceses (Paris seria tão bela e importante que nem os nazistas quiseram destruí-la) e aos alemães (suavizar a imagem tedesca diante do mundo).
O filme não é ruim e tem seu valor histórico (com as ressalvas acima), mas realmente vale a pena é pelas cenas de Paris de 1966, e pelo desfile de cameos de astros do cinema, de repente aparece na tela Kirk Douglas, Glenn Ford, Anthony Perkins, Jean-Louis Trintignant, Michel Piccoli, Robert Stack, Charles Boyer, Leslie Caron, Jean-Pierre Cassel, Yves Montand, Simone Signoret, Orson Welles, Alain Delon, Jean-Paul Belmondo, entre outros.
Nada de errado em realizar filmes que valorizam atos heroicos de um povo, fortalecendo sentimentos positivos no imaginário social. Mas, no caso da França, faltaram obras artísticas ressaltando o papel da crise demográfica e do modernismo na decadência francesa explicitada pela facilidade com que a Alemanha a conquistou no início da Segunda Grande Guerra. A França entre as guerras atravessava uma profunda crise demográfica, política, espiritual e cultural, relacionadas à difusão de formas de modernismo, relativismo, individualismo e rejeição de valores tradicionais. Essa crise contribuiu para o pessimismo e o pacifismo que influenciaram a sociedade e as elites políticas naquele confronto – a sociedade francesa não possuía mais uma visão suficientemente clara do que precisava ser defendido e pelo que valia a pena morrer. Sem serem atacados, aqueles problemas demográficos, éticos e espirituais apenas se agravaram, e hoje uma ainda mais impotente França padece diante do assédio globalista e islamita.
Le Passager de la Pluie (1970): Mulher é vítima de um estupro, mas consegue reagir e matar seu agressor. Ela opta por não contar a ninguém sobre o acontecimento e ocultar o corpo, uma decisão que irá assombrá-la quando surge um misterioso americano (interpretado por Charles Bronson) que parece saber tudo sobre o ocorrido. Thriller psicológico repleto de falsas pistas, personagens misteriosos e revelações graduais. Notar a evolução da vítima de uma mulher ingênua e vulnerável para uma forte e independente ao longo da narrativa. Destaque para a trilha sonora assinada por Francis Lai.


