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Andrzej Wajda(1926-2016)

há 1 hora
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“A director has only two options: to make films about what he sees around him or to focus on his own creativity and deal incessantly with himself. I make films for a reason, about something that people are preoccupied with, something of import. When I have something to say, I try to say it using different kinds of material – be it The Birch Wood or Landscape After Battle or Man of Marble or Danton. It doesn’t start with me, but with what goes on out there.” – Andrzej Wajda



O que torna polonês Wajda único é que ele fez o que muitos cineastas ocidentais se recusaram a empreender: zombou, satirizou e criticou o comunismo. Mesmo trabalhando sob a censura soviética, ele conseguia mostrar a distância entre propaganda e realidade, colocar a consciência individual acima da ideologia, e mostrar a falsificação da memória nacional, sempre permitindo que o espectador chegasse à conclusão por conta própria. Wajda disse explicitamente que, sob a censura, os cineastas e espectadores tinham uma espécie de entendimento: o diretor dizia algo por imagens e o público sabia como interpretar. Sua grandeza está justamente em ter aprendido a combater o sistema primeiro por dentro de suas limitações, depois por meio da memória, e finalmente abertamente ao lado do Solidariedade.


Assim, destacou-se como diretor pela capacidade de unir grande força visual, profundidade histórica e intensidade dramática. Seu cinema combina uma fotografia expressiva, montagem dinâmica e enquadramentos cuidadosamente construídos com uma notável atenção à psicologia das personagens. Outra de suas qualidades é a utilização de elementos documentais e de acontecimentos históricos reais dentro da ficção, conferindo autenticidade e urgência às suas obras. Mesmo quando trata de questões políticas, evita reduzir seus personagens a simples representantes de ideologias, mostrando suas contradições, dilemas morais e conflitos interiores. Seu cinema possui, portanto, uma combinação rara de força estética, consciência histórica, realismo e densidade moral.


Seguem comentários sobre seus filmes mais relevantes:


Trilogia da Guerra (1955-1958): Na segunda metade da década de 1950 o diretor realiza uma trilogia abarcando a Segunda Grande Guerra e suas consequências para a Polônia. Os três filmes acompanham, de perspectivas diferentes, jovens poloneses diante da ocupação alemã, da resistência e da imposição da canga comunista. Em A Generation (1955) vemos o jovem que entra na resistência e descobre a guerra, em Kanał (1957) temos a resistência chegando ao desespero absoluto durante a Insurreição de Varsóvia, e com Ashes and Diamonds (1958) a guerra chega ao fim, mas a tragédia não: a Polônia passa do domínio nazista para a dominação comunista. Wajda não estava simplesmente contando a história da Segunda Guerra, mas indagando o que aconteceu com uma geração cuja juventude foi destruída pela história – a trilogia parte do idealismo, transita pelo martírio, e termina em desilusão.

Wajda estava trabalhando dentro da Polônia comunista e, portanto, submetido à censura – notar o ridículo discurso marxista do operário mentor ao jovem protagonista em A Generation (um vestígio arqueológico do sistema dentro do qual Wajda teve de começar sua carreira). Mesmo assim, especialmente em Ashes and Diamonds, o diretor conseguiu construir uma obra extremamente ambígua. A derrota da Alemanha significou o fim da ocupação nazista, mas a Polônia entrou na esfera soviética – aqueles que lutaram contra uma tirania descobrem que sua luta ainda não havia terminado. Wajda voltaria inúmeras vezes a esse problema em sua carreira.O diretor surgia como um dos renovadores do cinema europeu, apresentando uma interessante combinação de expressionismo, realismo, simbolismo, composição visual, movimentos de câmera, montagem, fotografia em preto e branco, e atuações muito intensas. Algumas cenas de Ashes and Diamonds ficaram entre as mais célebres do cinema polonês, como a dos copos em chama e a morte do protagonista num depósito de lixo (a geração descartada pela história).


The Promised Land (1975): Três amigos esperam construir uma fábrica, mas seus planos são rapidamente comprometidos pela política local e por um dos perigosos casos de amor de um dos parceiro. Baseado no romance homônimo de Władysław Reymont (1867-1925) publicado em 1899. O romance é uma reflexão sobre a desumanização provocada pela busca ilimitada de riqueza, poder e sucesso – uma crítica à ideia de que o dinheiro pode substituir a moral, com a riqueza se tornando o princípio organizador da existência. A “terra prometida” pode transformar-se numa terra de servidão quando o dinheiro deixa de ser um meio e passa a ser o fim – notar a atmosfera infernal irradiada no filme. 

Mas Wajda vai mais além. Ele quis mostrar o contraste entre a imobilidade da Polônia comunista e o dinamismo da Łódź industrial descrita no romance: “A República Popular da Polônia era monótona, desesperançada por sua imobilidade, um homem sozinho não podia conseguir nada. Por isso, Terra Prometida, onde de repente você pode tudo, tudo é permitido, você luta pelo que é seu, tinha que chamar a atenção e interessar aos espectadores.” (Andrzej Wajda) – o século XIX de Reymont podia ser lido como um comentário indireto sobre o presente socialista (os empresários de Łódź possuem iniciativa, assumem riscos e procuram construir seu próprio destino – justamente aquilo que, segundo Wajda, faltava à sociedade polonesa sob o comunismo).

Somente os que sofreram sob a canga comunista poderiam ver um filme abordando o capitalismo do século XIX como uma obra sobre a necessidade de liberdade no socialismo do século XX.


Man of Marble (1977): Uma jovem cineasta pretende descobrir o que aconteceu com Mateusz Birkut, um pedreiro que se tornou herói da propaganda política na década de 1950, mas depois caiu em desgraça e desapareceu. Aqui Wajda desmonta a mitologia do trabalhador-modelo do stalinismo. A jovem cineasta acaba descobrindo como o sistema fabricava heróis, manipulava a história e destruía aqueles que deixavam de ser úteis. O próprio Wajda explicou por que o filme foi tão ameaçador: pela primeira vez, um trabalhador exigia e defendia seus próprios direitos contra o Estado. O filme também é uma denúncia contra aqueles que colaboram com o sistema por fraqueza, conveniência e/ou medo. O roteiro ficou cerca de 13 anos sem autorização para produção. É um registro de como o comunismo é um sistema que diz representar o trabalhador, mas, na prática, o esmaga quando este reivindicava autonomia.Wajda desmonta a propaganda comunista utilizando sua própria linguagem, i.e. o cinema – contraposição de imagem oficial e testemunho, monumento e indivíduo, câmera fixa e câmera na mão, documento e reconstituição, preto e branco e cor. Meta-cinematográfico, o filme questiona o poder da imagem, a propaganda e o papel do cineasta. Notar o emprego de movimentos rápidos, panorâmicas, travellings e câmera na mão para acompanhar a energia da protagonista.


Man of Iron (1981): Repórter de televisão recebe dos chefes do Partido Comunista a tarefa de desacreditar os grevistas do estaleiro de Gdansk, especialmente seu carismático líder (filho do operário protagonista de Man of Marble) e sua esposa politicamente detida (a jovem cineasta de Man of Marble). O filme se passa no emergente movimento trabalhista Solidariedade na Polônia e inclui cenas filmadas durante as reais greves trabalhistas – se Man of Marble antecipa a revolta, Man of Iron acompanha a revolta acontecendo. O filme é uma continuação direta de Man of Marble, mas desloca a narrativa do passado stalinista para os acontecimentos contemporâneos da greve do estaleiro de Gdańsk, em agosto de 1980. É o momento em que Wajda abandona as metáforas contra o sistema e toma partido, culminando em sua participação política depois da queda do comunismo – Wajda chegou a ser senador pela Solidariedade no início da transição democrática.O diretor transforma a linguagem cinematográfica em uma disputa pela memória e pela verdade histórica. O regime comunista controlava televisão, imprensa e produção cultural; Wajda responde utilizando cinema, testemunhos, imagens clandestinas e documentos reais na tentativa de recuperar a realidade. Notar a entrada do repórter no estaleiro com símbolo de sua transformação moral.


Danton (1983): Em novembro de 1793, Danton (interpretado por Gérard Depardieu) retorna a Paris ao saber que o Comitê para a Segurança Pública, incitado por Robespierre, iniciou uma série de execuções em massa. Confiante no apoio do povo, Danton entra em conflito com o seu antigo aliado, mas o calculista Robespierre (interpretado por Wojciech Pszoniak) rapidamente prende Danton e os seus seguidores, julga-os perante um tribunal revolucionário e envia-os para a guilhotina – revoluções, ideologias políticas, poder e os mecanismos pelos quais a revolução devora seus próprios protagonistas.

Notar a cena em que Danton aparece diante dos representantes revolucionários com enorme energia, tentando recuperar o apoio popular. Depardieu interpreta-o quase como uma força da natureza: eloquente, sensual, emocional, impulsivo e profundamente humano. Em oposição, Robespierre é controlado, metódico e cerebral. É quase um confronto entre duas concepções de política: política como vida humana concreta (Danton), e política como realização de um princípio (Robespierre) – Wajda desnuda o preço cobrado quando o princípio passa a valer mais que as pessoas concretas.

Wajda fez Danton em 1983, quando a Polônia estava sob o regime comunista e ainda vivia as consequências da repressão ao Solidariedade – o espectador polonês podia reconhecer o terror da Revolução Francesa com o horror soviético.

Poucas vezes o cinema conseguiu reproduzir tão bem o horror da Revolução Francesa e a gravidade patológica da mentalidade revolucionária.


Katyn (2007): Um exame do massacre soviético de milhares de oficiais e cidadãos poloneses na floresta de Katyn em 1940. O pai do diretor foi morto neste massacre. Andrzej Wajda tinha então apenas 13 anos. Os restos mortais de seu pai nunca foram encontrados. Em 18 de janeiro de 1945, o Exército Vermelho liberta Cracóvia dos nazistas. Os russos começam a culpar os alemães pelo Massacre de Katyn, proclamando que aconteceu em 1941 em vez de 1940. Todos sabiam que isto não era verdade, mas aqueles que se recusassem a aceitar a versão soviética eram presos ou mortos pelo Exército Vermelho.

Durante a existência da Polônia comunista, a responsabilidade soviética por Katyń era um dos grandes tabus históricos. Wajda explicou que enquanto a Polônia estivesse sob influência russa, não era possível realizar o filme que queria, porque a mentira oficial sobre Katyń continuava vigente. Em 1990, Mikhail Gorbachev admitiu que o NKVD (futura KGB) executou os polacos e confirmou dois outros cemitérios semelhantes ao local de Katyn: Mednoye e Piatykhatky.

O filme é um acerto de contas com meio século de mentira oficial, e ataca vigorosamente as ideologias que continuam a legitimar os crimes soviéticos.

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