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Jean Cocteau (1889-1963)

há 1 hora
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“History consists of truths which in the end turn into lies, while myth consists of lies which finally turn into truths.”

–Jean Cocteau 



Polímata (poeta, dramaturgo, romancista, desenhista, crítico), Cocteau abordou o cinema de forma autodidata e artesanal, vendo o filme como “escrita moderna cuja tinta é a luz” e como meio capaz de tornar visível o invisível, misturando realidade e sonho, mito e contemporaneidade. Sua obra (cerca de seis longas e alguns curtas, entre 1930 e 1960) combina efeitos especiais feitos na câmera (herança de Méliès), iluminação pictórica, montagem elíptica e uma estética onírica/surrealista sem se filiar rigidamente ao surrealismo.


Sua liberdade formal e fusão de artes inspiraram fortemente a Nouvelle Vague (Truffaut, Godard, Rivette etc. o admiravam e o reconheceram como predecessor – Truffaut dedicou-lhe parte das receitas de Os Incompreendidos). Influenciou também o cinema experimental e underground (Kenneth Anger, David Lynch), efeitos visuais em filmes posteriores (e.g. Repulsion de Polanski, elementos de The Matrix) e a tradição do cinema poético/fantástico.


Cocteau colocou o cinema no cruzamento entre literatura, artes plásticas e teatro, mostrando que o medium podia ser “poesia plástica” e laboratório de mitos modernos. Sua relevância reside menos no volume de produção e mais na originalidade visionária, na defesa de um cinema pessoal e na ponte entre a vanguarda dos anos 1930, o cinema clássico francês do pós-guerra e as revoluções formais posteriores. Seus filmes continuam sendo referências estudadas e redescobertas por sua beleza indelével e capacidade de conjurar o maravilhoso a partir do quotidiano.


Seguem comentários sobre seus filmes de maior valor histórico:


Trilogia Órfica (1930-1960): Conjunto de três filmes escritos e dirigidos por Jean Cocteau que retoma o mito de Orfeu para explorar temas como poesia, morte, amor, identidade e a passagem entre o mundo dos vivos e o dos mortos – Orfeu como arquétipo do poeta.Le sang d'un poète (1930) apresenta em quatro episódios um artista transportado através de um espelho para outra dimensão, onde viaja por vários cenários bizarros. É um filme experimental influenciado pelo surrealismo de André Breton. O poeta atravessa o espelho e entra em um universo onde as fronteiras entre realidade, sonho e morte desaparecem: uma estátua ganha vida, uma boca aparece na mão do protagonista, espelhos funcionam como passagens para outro mundo e personagens parecem atravessar diferentes níveis da realidade. O espelho já aparece como um dos grandes símbolos de Cocteau: não é simplesmente uma superfície que reflete, mas uma porta para o além.Em Orphée (1950) um poeta apaixonado pela Morte segue sua infeliz esposa até o submundo. Cocteau transporta a história clássica para uma Paris contemporânea e cria uma atmosfera de sonho, utilizando espelhos, passagens entre mundos, mensagens misteriosas transmitidas pelo rádio e efeitos especiais artesanais. A famosa passagem através do espelho é uma das imagens mais marcantes do cinema fantástico francês. O filme apresenta Orfeu como um poeta obcecado pela busca de uma inspiração que parece vir do mundo dos mortos, estabelecendo uma relação profunda entre arte e morte – mais que um filme sobre um homem que visita o mundo dos mortos, é um filme sobre um poeta que tenta atravessar a fronteira entre o mundo cotidiano e o mundo misterioso da inspiração.

E, finalmente, em Le testament d'Orphée (1960) o poeta relembra sua vida e obra, recordando suas inspirações e obsessões. É a síntese da obra cinematográfica de Jean Cocteau e o encerramento de sua trilogia de Orfeu. Mais do que contar uma história, o filme transforma o cinema em instrumento de poesia, explorando o mito, a morte, o tempo e a condição do artista. Cocteau aparece como personagem de sua própria obra e constrói uma espécie de testamento artístico, no qual realidade, sonho e imaginação se confundem. Sua maior força está na invenção visual: espelhos, aparições, deslocamentos temporais e efeitos simples são utilizados com enorme liberdade poética. Ao mesmo tempo, o filme pode ser deliberadamente hermético e excessivamente autorreferencial, exigindo do espectador disposição para abandonar a narrativa convencional. Seu interesse está justamente nessa recusa da lógica cinematográfica tradicional: Le Testament d'Orphée é menos um filme para acompanhar do que uma experiência poética sobre a criação artística e a permanência da obra diante da morte.


La Belle et la Bête (1946): Belle, uma bela jovem, toma o lugar de seu pai como prisioneira de uma fera misteriosa (interpretada por Jean Marais que consegue mesmo sob a máscara transmitir a ambiguidade da personagem), que deseja se casar com ela. Adaptação cinematográfica do conto de fadas de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont. Clássico moral ensinando as crianças que o verdadeiro valor de uma pessoa está em seu caráter, e o amor virtuoso é capaz de enxergar a essência onde a aparência mostra fealdade (Belle faz uma passagem do sensível ao inteligível). O contraste entre Belle (e.g. virtuosa e generosa) e suas irmãs (e.g. vaidosas e invejosas) indicam quais as virtudes que a mulher deveria apresentar – as irmãs querem riqueza porque imaginam que possuir coisas belas lhes dará valor, ao passo que Belle possui virtudes antes de possuir riquezas. A transformação da Fera em príncipe indica que a beleza exterior torna-se verdadeira quando manifesta uma beleza interior.Como todo contos de fadas com príncipes encantados, La Belle et la Bête ensina às meninas que a escolha do marido deve ser criteriosa.Tecnicamente o filme dirigido por Jean Cocteau se destaca pela extraordinária mise-en-scène, efeitos visuais artesanais que dão vida ao castelo da Fera, e a onírica fotografia P&B de Henri Alekan.

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